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muno sEomiie

ANO 1986 1988 Serviços 100

Na comédia Bacalhau, os corpos são canibalizados e carnavalizados sob dois aspectos: os personagens do filme Tubarão (delegado, prefeito, pescador, oceanógrafo) e os tipos sociais recorrentes na pornochanchada (homossexuais, prostitutas e amantes). A paródia de Adriano Stuart, assim como o texto parodiado, é uma narrativa conduzida, essencialmente, por homens, pois eles constituem o centro gerador dos conflitos. Por isso, a narrativa gira em torno dos conflitos vivenciados pelos personagens masculinos, e as mulheres são, tão somente, coadjuvantes. Os personagens de Tubarão são canibalizados, a fim de se criar suas caricaturas na paródia brasileira, cujo desfile promove um autêntico carnaval. Partindo dessa premissa, o universo masculino começa a ser degradado a partir da masculinidade, que constitui o monstro brasileiro, já que ele é um bicho antropomorfizado, ou seja, ele possui atributos próprios do ser humano. Nesse caso específico, a criatura é ávida pela atividade sexual, tem preferência pelo sexo feminino desde que esse corpo esteja dentro dos padrões de beleza e/ou de comportamentos estabelecidos pela cultura oficial. Caso contrário, esses corpos são ingeridos para saciar a sua fome. Isso fica comprovado, quando, na narrativa, se faz

referência a uma mulher obesa e ao personagem homossexual que são, literalmente, devorados pela criatura. Diferente do monstro americano, os olhos do bacalhau lembram os olhos humanos, pois eles têm cílios.

Figura 21 - Olho de bacalhau.

Fonte: Acervo pessoal.

O peixe consegue revirar os olhos e é detentor de um olhar maroto e sedutor que faz lembrar o olhar humano. Ademais, o monstro se constitui como um matador perfeito, porque ele é um misto de diversos animais, subvertendo as características próprias de um bacalhau e também as do monstro imitado.

Oceanógrafo — Uma desgraça. O que fez isso é a mais terrível e impiedosa fera que habita os sete

mares.

Legista — Um tubarão?

Oceanógrafo — É pior!

Delegado — Uma baleia?

Oceanógrafo — Mas é muito pior! O bacalhau da Guiné.

Delegado — Tem certeza?

Oceanógrafo — Ora pois, não tenho certeza? Então não conheço bacalhau? Onde pensa o senhor

que nasci? Na Holanda?

Delegado — Sim, mas bacalhau não é carnívoro.

Oceanógrafo — Essa é a única espécie do mundo. Este bacalhau é faminto como hiena, impiedoso

como um chacal, forte como leão, rápido como cobra e cavuca mais que um tatu.

A monstruosidade do corpo híbrido do bacalhau constrói as fantasias anatômicas de um corpo grotesco exagerado ou excessivo. As suas características

ambivalentes (a criatura apavora e seduz) degradam o monstro imitado, marcando a distinção entre o peixe brasileiro e o americano, carnavalizando a criatura do filme de Spielberg.

Essa degradação também se estabelece na caracterização de outros personagens, visto que atinge a maioria dos seres do sexo masculino representados como corpos grotescos, independentemente da sua orientação sexual. A constituição desses personagens é um modo de degradar o filme imitado por meio da desconstrução da forma elevada dos personagens do filme Tubarão. Assim, além de se caracterizarem por comportamentos infantis, de serem medrosos e covardes, os personagens masculinos não apresentam um padrão de beleza estereotipado pela cultura oficial. Os corpos se vestem de forma exagerada, realçando, cada um a seu modo, a sua posição social de maneira degradada. O prefeito, por exemplo, é de baixa estatura, tem uma barriga avantajada, usa sempre um tom de voz elevado, como quem está o tempo inteiro dando ordens, e se veste de forma escandalosa. Em algumas cenas, aparece de cueca e, quando vestido, seu figurino é composto por blazers que trazem, na parte de trás, ora dizeres ora imagens.

O delegado, na maior parte do tempo, aparece com uma espécie de farda que, em nada, lembra a farda de uma autoridade policial brasileira. Ele usa um conjunto de bermuda e camisa de cor azul clara além de um chapéu branco com uma estrela vermelha na aba dobrada. A estrela no chapéu remete ao papel social desempenhado por ele. Esse tipo de vestimenta sugere a roupa usada por aventureiros, uma espécie de Indiana Jones tupiniquim. Usa ainda meias brancas com listras vermelhas e longas, que ultrapassam o cano de sua bota de couro. Inicialmente, demostra bastante altivez ao andar de peito estufado, mas, quando já está em alto mar, ele muda a postura do corpo e assume uma posição corpórea mais retraída, devido ao medo que tem de água.

O oceanógrafo português, além de ser abobalhado, usa, constantemente, roupas de mergulho, como se estivesse fantasiado, e comete diversas trapalhadas. Assim como o bacalhau, também tem um comportamento voluptuoso, pois não pode ver um “rabo de saia”.

O pescador é um homem alto, gordo, grosseiro e tem um bigode enorme. Andar de machão, ele sempre fala com um tom imperativo. Está, continuamente, cercado por instrumentos de sua profissão (vara de pescar, iscas e linhas de náilon) e, apesar de alardear o seu profissionalismo, é extremamente incompetente. Além

disso, algumas de suas ações sugerem que tem uma orientação homossexual. Enfim, os quatro personagens do filme de Spielberg são carnavalizados na medida em que se transformam, na paródia brasileira, numa espécie de Os quatro patetas, palhaços responsáveis pela condução do destino do país. Depois da captura do peixe, no final, o pescador, o oceanógrafo e delegado ficam disputando a glória da captura do monstro.

Os personagens masculinos homossexuais não pertencem ao filme parodiado, mas são presença quase obrigatória nas comédias eróticas da década de 70. Além de serem nomeados com nomes femininos, Ceci e dona Socorro, são representados, também, de maneira caricata, modo recorrente de representação dos gays na pornochanchada, como já analisamos anteriormente. Um traço comum na caracterização dos dois personagens é o uso de bigode, particularidade marcante de masculinidade, que, estranhamente, os personagens gays possuem. Ademais, vestem roupas espalhafatosas que se afastam do modo padronizado, próprio do traje de homens heterossexuais, e são fofoqueiros. Em uma cena, eles vestem uma espécie de roupa que parece um maiô.

No caso específico de Ceci, possui um modo de falar afetado, usa uma franja que retoca, reiteradamente, com o dedo mínimo, desmaia com facilidade, e o seu grito lembra o som de uma sirene de ambulância. Já dona Socorro tem um sotaque bastante caricato que imita o falar típico dos gaúchos. Portanto, todos os homens da narrativa se constituem em corpo grotesco, compondo, assim, um cenário carnavalesco.

Apesar de não protagonizarem a paródia, as mulheres são um elemento essencial na condução da comédia, pois o corpo enquadrado pela câmera é sempre o da mulher. No entanto, o corpo feminino aparece quase sempre deformado, devido à focalização exagerada da região glútea. A câmera, constantemente, passeia pelo corpo feminino como se quisesse encontrar partes fragmentadas de seu corpo: os seios e as nádegas. Na figura abaixo, temos a visão do corpo de uma mulher na praia através da lente da luneta do delegado. Carnavaliza-se a cena de Tubarão, quando o chefe de polícia, de maneira tensa, observa o mar temendo o ataque do peixe. Diferente de seu colega de profissão, o delegado de Bacalhau distrai-se a observar a bunda da mulher.

Figura 22 - Luneta e bunda.

Fonte: Acervo pessoal.

Associada a essa imagem, o delegado conversa com a sua esposa, referindo-se, jocosamente, ao atributo da mulher como um monstro. Talvez uma associação degradante ao volume excessivo de nádegas das brasileiras em oposição ao pouco volume do derrière das americanas.

Esposa do delegado – Talvez não haja nenhum peixe.

Delegado (observando uma mulher exibindo o corpo de biquíni) – Há sim! Um peixão. Um monstro.

Esposa do delegado – O quê?

Delegado – Um monstro. Deve ser um monstro. (Focalizando as nádegas da banhista)

Esposa do delegado– Você está vendo, é?

Delegado – Imaginando!

Dessa forma, a mulher é valorada pelo baixo material e corporal degradado em oposição ao elevado, já que, no filme Bacalhau, as mulheres são avaliadas apenas em relação ao que seu corpo representa sexualmente, destituindo- o de formas elevadas ligadas ao espírito. Assim, o olho da câmera procura o corpo, e seu ponto de vista coincide, simultaneamente, com o olhar do delegado e com o da plateia na sala de cinema, que buscam a (im)perfeição do corpo feminino.

A mulher é discursivizada na materialidade fílmica de maneira negativa. Ela é representada por corpos saturados de desejos: a amante do prefeito, as prostitutas e a mulher do delegado. Essas discursivizações em torno dos corpos, de modo geral, são perceptíveis a partir do que é considerado negativo socialmente. Na narrativa, temos três representações básicas do corpo da mulher: a amante, a

prostituta e a sedutora. Todas se afastam do que é apresentado pelo discurso oficial como a mulher ideal, pois elas são a representação pejorativa de corpos saturados de desejo e/ou de corpos tentadores. Estão, nessa condição, a mulher do delegado, a amante do prefeito e as prostitutas. A primeira flerta com o oceanógrafo enquanto toma banho no banheiro. A segunda vive em função de atender os desejos e as carências do prefeito, querendo assumir uma condição de oficialidade. A última, ao deslumbrar a perspectiva de deixar de ser apenas um corpo recreativo, é lançada ao mar para ser devorada pelo bacalhau. Assim, todos os corpos que não estão dentro do estabelecido pelo discurso oficial são dizimados pelo monstro, inclusive, no final da narrativa.

Quando o monstro devora os seres que precisam ser aniquilados, os corpos são transformados em esqueletos. A primeira vítima do animal, que é encontrada mais tarde por Ceci, transforma-se instantaneamente em ossos. Ao olhar para a ossada encontrada na praia, o delegado deduz que o esqueleto é de mulher. Quando questionado sobre essa dedução, o policial revela que descobriu pelo perfume. Assim, o corpo da mulher é retratado de forma degradante com o intuito de provocar o riso grotesco, pois, mesmo sem vida, o corpo ainda apresenta sinais que ressoam a sua existência.

Como já dissemos, os personagens que não estavam afinados com o discurso oficial precisavam ser banidos do contexto social. Nesse caso específico, o monstro destruía os corpos femininos que estavam fora do padrão de beleza canônico como também de comportamentos que se distanciassem da mulher ideal: aquela que era preparada para constituir uma família por meio do sacramento da igreja. A primeira vítima do peixe está na categoria das mulheres que tentam explorar, sozinhas, espaços que não lhes pertencem e, por isso, ela sofreu a punição.

As imagens de banquete e/ou de festa encontram-se intimamente ligadas aos elementos do cômico popular. Na cena final de Bacalhau, é realizado um banquete para comemorar a aniquilação do peixe-monstro. Em seu discurso, o prefeito declara: “está na hora de comer quem queria nos comer”. No entanto, numa reviravolta, todos os presentes, inclusive, os protagonistas são devorados pela criatura.

Num processo morte-nascimento, o bacalhau renasce a partir da canibalização da cultura brasileira. Todos os corpos devorados pelo peixe são

transformados, instantaneamente, em esqueletos e, conseguimos identificar os corpos das vítimas devido ao figurino de alguns personagens, como a máscara de mergulhador do oceanógrafo. Os mortos estão no mundo inferior, porém continuam mantendo atributos relativos à vida. Seus esqueletos mantêm os acessórios utilizados em vida (máscara, boné, chapéu, etc.) além de permanecerem em suas posições à mesa, o que remete ao lugar social ocupado por eles. Sendo assim, mesmo desprovidos de suas marcas biologizantes, que os inserem em categorias como macho e fêmea, paira, sobre os esqueletos, o amálgama do contexto sociocultural em que estavam inseridos. Portanto, devorar os personagens, no final significa que a força reguladora dos princípios morais e dos bons costumes é a vencedora e reina no país do carnaval. O monstro nunca morre, pois ele sempre escapa, sempre faz o eterno retorno.

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