Chapitre 2 : Matériels et méthodes
4. Analyse des niveaux de transcrits
A Crab foi identificada como a organizadora de uma luta por indenizações justas capaz de garantir a reprodução dos pequenos agricultores. Outras vezes foi identificada com a luta dos sem terra, com um discurso socializante, envolvendo reassentamentos coletivos, modelo de produção alternativo, dentro da luta mais ampla pela reforma agrária no Brasil. Parece que essa aparente separação de sujeitos sociais envolvidos na luta, teria dificultado a construção de um sujeito coletivo único, e a Crab teria dificuldade de fazer a síntese, o que a manteve como “comissão” por longo tempo.
Porém, com o desenrolar da luta e evolução dos acontecimento, a situação comum de trabalhador e de explorado foi capaz de unir o que antes parecia distante. Araújo e Vainer (1989) destacam a importância dessa união realizada dentro da Crab entre pequenos
proprietários, que foram a categoria de maior peso, e os sem terra, que com o tempo se consolidam e ganham força. De fato, a identidade de atingido organizada pelo MAB, dessa forma, faz um recorte de classe, cabendo na organização do MAB, os atingidos pertencentes à classe trabalhadora e os que a apóiam, ficando de fora, os segmentos atingidos próximos à pequena burguesia, ou influenciados pelas classes dominantes.
A unidade de classe entre pequenos agricultores e sem terra foge à maioria dos esquemas teóricos de classe correntes nas ciências sociais. O próprio MAB, por meio de sua prática cotidiana mostra que na luta por direitos, na luta contra a exploração do capital, pequenos proprietários e sem terra, a despeito de suas peculiaridades que os fazem setores distintos, são uma só classe, a classe trabalhadora.
O entendimento dos pequenos proprietários como classe trabalhadora parte do princípio que o valor da terra não está apenas no seu potencial de venda, mas no trabalho que nela se desenvolve e na sua capacidade de prover a vida material, cultural e política do trabalhador rural. Dessa forma, a pequena propriedade se define pelo trabalho. E como trabalhadores, os pequenos proprietários seriam capazes de demonstrar no MAB, identificação e solidariedade de classe com os demais trabalhadores. Três são exemplos emblemáticos dessa característica. Primeiro, a luta por reassentamentos coletivos que, apesar de consolidada por pequenos proprietários, quem mais se beneficiou foram os sem terra. A maioria dos pequenos agricultores acabou optando somente por indenizações, enquanto que os sem terra atingidos demoraram a incorporarem-se com força na luta do MAB, pois primeiro necessitavam quebrar as barreiras ideológicas do senso comum no contexto do estado capitalista, que legitima indenização somente para os detentores de propriedade privada na forma como o sistema judiciário a entende.
Em segundo lugar, quando da distribuição de indenizações para compra individual de outros lotes de terra, os pequenos proprietários organizados no MAB se deram conta que estavam sendo levados a visitar terras de outros pequenos proprietários que as colocaram a venda, pressionados por dificuldades econômicas, vencimento de dívidas e juros bancários. Situação esta, que podiam se identificar perfeitamente, e que leva o MAB a exigir o total controle dos atingidos sobre os critérios e locais a serem pesquisados. Segundo Moraes, do contrário, os pequenos proprietários podiam até resolver seus problemas individuais, mas
provocariam sério desequilíbrio na estrutura fundiária da região como um todo, ocasionando a expulsão de agricultores endividados para dar lugar aos atingidos indenizados.
Esta experiência desperta a solidariedade de classe com agricultores não atingidos pelas barragens apenas, mas pelo processo de modernização em sentido geral. O exercício de um direito propicia a interrupção da heterogeneidade e da singularidade da situação de atingido na descoberta da identidade com outras situações de classe. (MORAES, 1994 p. 277).
O terceiro e último exemplo, era a relação estabelecida com os operários das obras da barragem de Itá. Um trabalhador atingido assim se refere a uma ação do MAB na nova cidade de Itá, que ilustra bem a postura do MAB em relação aos trabalhadores da barragem:
Nós paralisamos toda a cidade. Nós chegamos a parar naquele dia acho que em torno de trezentos operários que a gente nem conhecia (...) Nós não chegamos a criar atrito com os trabalhadores porque nosso objetivo não era brigar com os trabalhadores. Não teve atrito nenhum. Pra nós era muito claro, eles tavam defendendo o pão deles. Não tinha atrito nenhum com o trabalhador em si. Claro, porque o nosso inimigo era o chefe e dali pra frente que conduzia o sistema.
Recorremos novamente a Moraes, para exemplificar como a realidade do MAB quebra, na prática, teorias de classe arraigadas em esquemas acadêmicos tradicionais. Em sua pesquisa, Moraes relata a existência no Alto Uruguai, da Escola Sindical Margarida Alves (Esma), pela qual passaram muitos militantes do MAB no final da década de 1980. Nessa escola, houve uma redefinição de conceitos trazidos por professores adeptos de um marxismo economicista ou ortodoxo, quando em contato com trabalhadores da bacia do rio Uruguai. Numa relação dialética entre professor e aluno, chega-se à conclusão que a teoria trazida pelos professores acostumados aos grandes clássicos do marxismo internacional, parecia desvinculada com a experiência vivida e a realidade da região.
Os trabalhadores não conseguiam se ver nos esquemas de “operários”, ou como “pequena burguesia rural”, que os professores tentaram enquadrá-los inicialmente. Ao mesmo tempo, devido às dificuldades observadas na aplicação prática destes conceitos, os professores passam a se aprofundar nas leituras de estudiosos da realidade brasileira e se mostram desde então, mais sensíveis aos problemas concretos da luta social. Deste modo, a partir de 1989 houve mudanças metodológicas na Escola Sindical:
Os professores da Esma começaram a abandonar o “esquema fechado” das três classes (burguesia, pequena-burguesia e assalariado), substituído por discussões que induziam os participantes a tentarem uma elaboração própria do que são classes sociais. (...) A multiplicidade de tipos sociais encontrada nos municípios, a partir de levantamentos feitos pelos próprios “alunos”, chamou a atenção para as mudanças provocadas pela expansão do capitalismo no campo. A observação da situação concreta dos “pequenos proprietários” permitiu a compreensão de que são tão explorados quanto os assalariados, embora de forma diferente. (MORAES, 1994 p. 187).
De fato, a realidade das novas relações de produção no campo impunha outras categorias que forçavam uma redefinição dos esquemas anteriormente aprendidos. Isto representou um grande avanço teórico e político para intelectuais que superaram a visão estreita de ver os pequenos proprietários como “pequenos-burgueses” desprovidos de um potencial de luta e de transformação. Adiante veremos como a luta social concreta no MAB, evidencia e molda ao mesmo tempo, os contornos da classe trabalhadora entre as populações atingidas por barragens.