Chapitre 1 : Introduction
1. Absorption et assimilation du nitrate chez Arabidopsis
A utopia do progresso tomou forma organizada em Itá logo em janeiro de 1980, pouco depois do anúncio oficial do alagamento da cidade. Nesta data, o prefeito municipal organizou por decreto a Comissão de Relocação de Itá. Ela foi criada primeiramente para tratar de todos os assuntos referentes à barragem, mas logo se restringiu basicamente a transferência da cidade. Segundo sua primeira ata datada de três de janeiro de 1980, analisada por Peixer, a primeira denominação da comissão foi “Comissão Representativa das Classes Sociais e Econômicas”. Seu nome logo mudou para “Comissão Pró-Relocação de Itá”. Em alguns documentos da Eletrosul aparece como “Comissão de Representantes da Comunidade”. Porém, em todas as entrevistas feitas para esta pesquisa no ano de 2006, os moradores de Itá se referem a ela como “Comissão de Relocação de Itá” ou “Comissão de Relocação da cidade de Itá”, ou ainda, somente “Comissão de Relocação”.
Na transcrição da primeira ata feita por Peixer, deu-se os seguintes objetivos à Comissão:
Representar as diversas classes sócio econômicas junto aos órgãos administrativos Estaduais e Federais; Tratar dos assuntos referentes à implicação dos interesses do município que envolve a barragem de Itá. Apresentar e defender os interesses de cada segmento que representa; Informar os segmentos que representa sobre o processo de negociação. (PEIXER, 1993 p. 104).
Na primeira composição, decidiu-se que a comissão seria integrada pelo prefeito com dois assessores, e um vereador representando a Câmara Municipal. Os demais membros seriam indicados pelos seguintes segmentos: profissionais liberais e funcionalismo; comércio e indústria; Lions Clube; agricultura; operários; entre outros. No entanto, pelo menos no caso dos operários, nunca houve a participação e o representante dos agricultores, o presidente do sindicato rural, teria sua legitimidade contestada várias vezes pelos trabalhadores do campo, já que residia na cidade. A Comissão sempre foi presidida pelo prefeito municipal, que detinha o poder de nomear os demais membros. Na maior parte da sua história, a Comissão permaneceu
com poucas alterações, a exceção do final da década 1980, quando prefeito municipal da época destitui-a e nomeou outra, porém, alguns de seus membros permaneceram. No total, foram apenas 18 pessoas os integrantes da Comissão de Relocação ao longo de aproximadamente 17 anos, conforme a quantidade de nomes registrados numa placa de bronze, em sua homenagem na praça central de Itá. A quase totalidade dos membros da comissão foram homens do setor empresarial ou profissionais liberais da cidade de Itá, nomeados pelo peso político que possuíam, pelo saber, no caso dos profissionais liberais, e pela confiança do prefeito de ocasião.
Depois de formada, a Comissão passa a se reunir periodicamente uma vez ao mês, ou a cada 15 dias. Sua missão principal, representar os itaenses frente à Eletrosul. Suas principais ações ao longo dos anos, pelo menos as visíveis e públicas, foram: negociar a transferência da cidade, supervisionar a construção da Nova Itá e resolver os conflitos referentes a relocação; fazer lobby para a liberação de recursos para a execução da UHE Itá, nos momentos em que as obras eram paralisadas por falta de verba. Em entrevista com o secretario de administração de Itá em 2006, este sintetiza o campo de atuação da Comissão:
Então a comissão, o prefeito, teve o grande mérito na época de juntar com eles (com a Eletrosul) e dizer: olha, nós podemos ser parceiros, nós não vamos brigar, mas não vamos brigar no bom sentido. Não houve uma luta corporal, de destruição, que o lado da Crab motivou no começo e que o Itá não fez, mas o Itá conseguiu negociar eu acho que uma, aquilo que eu disse antes, queriam fazer lajota, brigamos por asfalto. Então barganhamos e ganhamos. Calçada em toda a avenida, lá embaixo não tinha. O padrão das casas, nós não queremos um só padrão, vamos fazer padrões diversificados, a minha casa vai se classificar no padrão A, assim vai se construir, a sua no B, então nós tínhamos casas no padrão A, B, C, e D. Só uma que não pegou classificação na época, que todo mundo sabe, era a casa da dona Ortenila, que era a única que era uma casa que tinha piscina, era especial. (...) a mais baixa era padrão D, a do meu pai foi padrão B. A gente trabalhava dentro do padrão, o que mudava era janela, azulejo.
Esporadicamente eram realizadas audiências públicas ou assembléias com toda a população de Itá, para discutir temas mais importantes. Geralmente nestas atividades também estavam presentes diretores da Eletrosul. Segundo Peixer:
A Comissão antes de cada reunião geral, fazia uma reunião interna preparatória dos problemas a serem discutidos, enfim da pauta a ser seguida na reunião. Quando divulgava os convites para as reuniões costumava pedir que as perguntas a serem feitas fossem entregues antes por escrito.
Geralmente, antes da reunião geral havia uma reunião dos representantes da Eletrosul, Prefeitura e Comissão. (PEIXER, 1993, p. 118).
A Comissão de Relocação funcionava na verdade como um elo de ligação entre a população e a Eletrosul. Só os membros da Comissão tinham acesso á Eletrosul. Para Peixer, seus trabalhos enquanto mediadores desta relação funcionam como elo de filtragem, tanto das propostas possíveis de fazer á Empresa, ao Estado, como também das informações que chegam e que são repassadas a população, na medida dos interesses da Comissão.
Em Itá, a proximidade dos locais de trabalho, moradia e de administração pública existentes na antiga cidade, dificultava formas autônomas de organização e possibilitava também um controle social sobre a população. Dessa forma, a atuação da Comissão de Relocação impossibilitava que reivindicações autônomas fossem levadas diretamente à Eletrosul. Mesmo que eventualmente tenha havido contato direto entre a população e a Eletrosul, através de seus técnicos ou escritórios, as reivindicações já estavam padronizadas, nos estilos e níveis definidos pela Comissão em conjunto com Eletrosul.
Nos poucos casos em que pessoas ou grupos da cidade de Itá se dirigiram a Eletrosul com reivindicações que fugiam do nível permitido pela Comissão / Eletrosul, a Empresa levou ao conhecimento da Comissão e solicitou providências para que todas as demandas fossem enviadas através da mesma. A Comissão por sua vez, agiu com rapidez, ao constranger as pessoas no sentido de se manterem unidas em torna dela para negociar com a Eletrosul.
Os que fugiam deste padrão eram duramente combatidos pela Comissão. Sobre a relocação da cidade de Itá, Ruszczyk afirma:
Em relação a prefeitura de Itá, que impediu a participação e a opinião da Crab no processo de relocação da cidade (...) o que se colocou foi uma negociação a partir de grupos de interesses, dos comerciantes e do prefeito do município. Esta disputa foi acirrada, com inúmeras articulações visando deslegitimar a Crab, exemplo disto, foi a realização de um abaixo assinado pela prefeitura de Itá, contra a reivindicação de reassentamentos, pois desta maneira, a “mão de obra do município” teria que se deslocar para outra cidade. (RUSZCZYK, p. 171-172 1997).
Como a UHE foi vista como redentora em Itá, os contrários a barragem, o MAB no caso, foram vistos como nocivos á cidade. Nilo Brandi, o principal líder dos trabalhadores atingidos no município de Itá assim se refere a Comissão de Relocação:
Máfia que conduziu a Comissão de Relocação tinha interesse econômico e por trás, político. Eles eram de tradição, porque tinha dois partidos e essas grandes famílias tavam divididas. Com a barragem, com o atrito que acabou tendo com os atingidos (...) eles permanecendo divididos estariam fragilizados, então o que aconteceu em Itá? Eles se juntaram, essas duas mafiazinhas e fizeram uma, e vieram combater com nós. Era o medo, o medo de perder poder (...) por isso tinha horas que era difícil permanecer na cidade, porque eles tinham assim uma gana pra cima dos menores que era terrível.
Em 1981, a própria Eletrosul reconheceu que a legitimidade da Comissão de Relocação, ou “Comissão de Representantes” como a Empresa se referia, era pequena entre a população simples de Itá. Nas entrevistas feitas numa pesquisa pela Eletrosul, a maioria afirma que a Comissão representa mais os “grandes” e que há dificuldade em obter informações concretas sobre os assuntos relativos à transferência da cidade. Verificou-se também em 1981, uma “desinformação” generalizada na população comum de Itá em relação a seu destino. (ELETROSUL, 1981 p. 35)
Em 2006, quando perguntado sobre o funcionamento da Comissão de Relocação, um trabalhador que na década de 1980 integrava o PMDB de Itá, partido de boa parte dos integrantes da Comissão, assim afirmou:
Aquela comissão deles ali, eles se organizaram mas era só os mais grande ali. A gente não tinha muita participação nisso aí né. Era daquela comissão o Paludo (ex-prefeito), o Stum que era o dono do hospital, só gente assim, não me lembro bem os nomes deles. Eles escolheram a Comissão entre eles na época (...) pelo que a gente descobriu depois, acho que essa Comissão aí fez muito acordo que prejudicou nós. Se fosse diferente era melhor pra todo o nosso município.
Em Itá há uma confusão grande entre o público e o privado, onde as relações políticas são controladas por famílias tradicionais, detentoras do poder econômico na cidade. Apesar da alternância de poder entre PDS e PMDB no município, todos os prefeitos eleitos pertencem a mesma família ou tem laços de parentesco entre si. A partir de depoimento de integrante da própria elite econômica atual de Itá, é possível captar os contornos desta realidade de relações patrimonialistas transmutadas para a Comissão de Relocação, conforme fala do presidente da Associação Comercial e Industrial de Itá, que na década de 1980 ainda era muito jovem, mas que em 2006 tentava entender alguns problemas não solucionados pela Comissão:
Faltou um pouco de humildade e tentar beneficiar a todos. Sabe, quando você tá numa associação, você tem que ver o coletivo, se é pra fazer o individual não tem porque ser associação.