Esta pesquisa focalizou no significado experiencial, na forma como eles estão materializados pelo Sistema de Transitividade no estrato léxico-gramatical dos excertos de cartas analisados.
O sistema de transitividade pertence à metafunção ideacional descrita por Halliday (2004) como a função com a qual representamos experiências exteriores e interiores. Essa função se materializa por meio do sistema da transitividade, que na oração se instancia por meio dos participantes da oração. O sistema de transitividade tem a função de representar simbolicamente eventos, ações, estados e práticas sociais que constituem a nossa experiência no mundo.
Dessa forma, seis processos são identificados por Halliday e Matthiessen (2004): material, mental e relacional, verbal, comportamental e existencial. No quadro a seguir, estão descritos os tipos de processos e seus participantes centrais e adicionais.
Quadro 1: Os tipos de Processos e seus participantes
Tipo de Processo Aspecto Semântico Participante Central Participante Adicional Material
Fazer Ator, Meta Escopo/Extensão,
Atributo, Beneficiário (Recipiente e Cliente) Acontecer Ator Mental Perceber Experienciador, Fenômeno - Pensar/Saber Querer Sentir
Relacional Atributivo Ter Ser Portador, Atributo, Identificador, Identificado
- Identificador
Comportamental Fisiológico Psicológico Comportar Comportante Comportamento
Verbal Dizer Dizente, Verbiagem Recipiente, Alvo
Existencial Existir Existente -
Fonte: Adaptado de Humphrey e Droga (2002, p.16, SOUZA, 2011).
3.2.4.1 Processos Materiais
Os Processos Materiais, conforme descritos no quadro acima, são aqueles relacionados ao ‗fazer e acontecer‘, ou seja, estão relacionados às ações; elas podem estender ou não para alguma entidade. As ações de ‗fazer‘, podem ser transformativas ou criativas.Em uma oração de processo material do tipo ‗fazer‘, os principais participantes são o Ator e a Meta. Nas orações materiais ativas, o Ator é considerado por Halliday (2004) uma entidade responsável pela ação, enquanto a Meta é considerada a entidade que é afetada pela ação ativada pelo ator. No caso de uma oração material causativa, encontramos um participante a mais, o Iniciador, que é uma entidade que desencadeia uma ação que coloca o Ator em movimento. A seguir, ilustro com um exemplo de uma oração retirada dos excertos de cartas de Van Gogh que serão analisados por seus constituintes funcionais:
Quadro 2: Exemplo de uma oração material e seus constituintes funcionais.
Ator Proc.: Material Meta
Eu acabei de terminar uma tela que representa um interior de café à noite
Eu acabei de terminar uma tela que representa um interior de café à noite, iluminado por lâmpadas. Fonte: Van Gogh (2009g).
Adicionalmente a esses participantes principais, existem outros tipos de constituintes estruturais Escopo, Beneficiário (Recipiente ou Cliente), Atributo, e Escopo (HALLIDAY; MATHIESSEN, 2004) e podem assumir outros papéis de participantes em orações materiais. Em um processo de ‗acontecimento‘, o constituinte ‗Escopo‘ é responsável pela extensão da ação, como em ‗correr dez kilometros‘ ou pela expressão da ação quando o verbo é lexicalmente vazio como em ‗matar tempo‘. O constituinte ‗Beneficiário‘ pode caracterizar-se tanto como Recipiente, constituinte que recebe os resultados do processo em forma de bens, ou com constiuinte ‗Cliente‘, que os recebe em forma de serviços. O constituinte ‗Atributo‘ qualifica o Ator ou a Meta quando há resultado ou conclusão no processo de ‗fazer‘. O constituinte ‗Escopo‘ dimensiona o domínio no qual o processo acontece sem afetar, no entanto, a ação diretamente da mesma forma como o Ator o faz.
3.2.4.2 Processos Mentais
Enquanto os processos materiais constroem significados experienciais de nosso mundo externo, os processos mentais de pensamento constroem ―um quantum de mudança no fluxo de eventos acontecendo em nossa consciência.‖ (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p. 197) Os processos mentais expressam as dinâmicas relacionadas com a consciência e com o sentir e perceber, pois se referem a representação das experiências internas do Experienciador tais como pensamento, compreensão, cognição, emoção, conhecimento. Segue abaixo um exemplo dos excertos de cartas de Van Gogh que servem para ilustrar uma oração mental analisada por sua configuração funcional:
Quadro 3: Uma oração mental e seus constituintes funcionais
Experienciador Proc.: Mental Afetivo Adjunto de modo./Tem função na metafunção interpessoal Oração Projetada
Eu gosto enormemente de pintar no local à noite.
Eu gosto enormemente de pintar no local à noite. Fonte: Van Gogh (2009g).
O Experienciador é um componente da oração que, de acordo com Praxedes Filho (2007, p. 36), pode ser considerado ―um humano ou qualquer outra entidade – animada ou inanimada – para a qual a característica humana da consciência é atribuída‖. O Experienciador é um participante que atua em processos mentais que podem ser de quatro tipos: emotivos perceptivos, cognitivos ou desiderativos. (HALLIDAY; MATHIESSEN, 2014, p. 245-250).
Os processos mentais perceptivos referem-se aos fenômenos percebidos pelos 5 sentidos: visão, olfato, gustação, audição e tato. As orações mentais cognitivas referem-se à consciência, ao conhecimento, imaginação e pensamento, por exemplo. As orações mentais afetivas ou emotivas revelam os diferentes graus e qualidades da afeição. E as orações mentais desiderativas exprimem ―desejo, vontade, interesse em algo‖ (HALLIDAY; MATHIESSEN, 2014, p. 245-250).
Nos processos mentais há ainda a gradabilidade lexical e gramatical, por exemplo, adorar tem uma graduação maior do que gostar. A gradabilidade também pode se manifestar com o uso de elementos lexicais como ‗mais que‘ e ‗menos que‘. Outro aspecto é a bidirecionalidade semântica quando os processos equivalem semanticamente mas não no léxico.
O complemento nas orações de processos mentais é o Fenômeno, cujos processos expressos pelo Experienciador são a ele atribuídos, realizados geralmente por grupos nominais.
Quando o Fenômeno assume a forma léxico-gramatical de uma oração não finita no particípio, no infinitivo ou no gerúndio. Ocorre quando uma oração pode projetar outras orações de processos mentais tanto perceptivos quanto emotivos, ele pode assumir a função de um Macrofenômeno.
Quando ele assume a forma de um ‗fato‘ Metafenômeno, em uma oração finita ele pode ser realizado em orações mentais perceptivas e emotivas e assim a oração pode assumir a forma de uma ‗ideia‘ Metafenômeno. Quando assume a forma de ato é a configuração de
um processo, com participantes e eventuais cirscunstâncias. Quando ele assume a forma de uma ‗ideia‘ Metafenômeno, pode ser realizado em orações mentais cognitivas e desiderativas.
Quadro 4: Uma oração mental e seus constituintes funcionais
A ideia do semeador ainda continua a me assombrar.
Fenômeno Finito da metafunção interpessoal, não participa da metafunção relacional.
Experienciador Processo mental emotivo.
A ideia do semeador ainda continua a me assombrar. Fonte: Van Gogh (2009b).
3.2.4.3 Processos Relacionais
O terceiro tipo de processos são os relacionais que são relativos ao ‗ser‘ e ‗possuir‘ e são atributivos ou identificadores. Quando são atributivos em orações relacionais, ao expressarem o processo de ter ou ser, eles estabelecem uma relação de caracterização ou de atribuição que pode ser intensiva (caracterizam uma entidade – ser e estar), possessiva (caracterizam posse, como os verbos ter, possuir, envolver, pertencer) ou circunstancial (a relação entre os termos é de tempo, lugar, modo, causa, acompanhamento, papel, assunto ou ângulo). Elas também se apresentam de dois modos: atributivas e identificadoras.
Os participantes nas orações relacionais atributivas são o Portador, uma entidade que detém a coisa atribuída pelo falante ou escritor, e o Atributo, que expressa o que está sendo atribuído para o Portador. As orações relacionais atributivas possuem quatro características: 1) o atributo constrói uma classe e é indefinido; 2) possui dois participantes, o Portador e o Atributo; 3) utiliza-se geralmente o verbo ser, mas também verbos atributivos; 4) é possível interrogar a oração fazendo as perguntas ‗o que?‘ e ‗como?‘; 5) não são reversíveis semanticamente, ao inverter altera-se o sentido (HALLIDAY; MATHIESSEN, 2014, p. 245- 250).
Quadro 5: Uma oração relacional e seus constituintes funcionais Portador Proc. Rel. Atributivo Atributo
Cidade violeta, estrela amarela, céu azul-esverdeado; os campos de trigo têm
todos os tons: ouro velho, cobre, ouro verde, ouro vermelho, ouro amarelo, verde, vermelho e amarelo bronze.
Cidade violeta, estrela amarela, céu azul-esverdeado; os campos de trigo têm todos os tons: ouro velho, cobre, ouro verde, ouro vermelho, ouro amarelo, verde, vermelho e amarelo bronze.
Quando são identificadores, os processos relacionais estabelecem uma relação de identidade entre um participante e outro, ou de um participante por outro. Ao contrário das atributivas, as orações do modo identificador são reversíveis e possuem algumas características como: 1) na oração a entidade representa uma identidade única do ser; 2) a oração possui dois participantes, o Identificado (recebe a representação) e o Identificador; 3) a oração utiliza verbos ser e relacionais identificadores do tipo ‗equativo‘; 4) coloca-se à prova a oração interrogando ‗quem?‘; 5) as orações são reversíveis.
Em outras palavras, os constituintes nessas orações são: o Identificador, que dá uma identidade para outro participante, chamado de Identificado, para quem a identidade foi dada pelo Identificador. Os participantes Identificador e Identificado nos processos relacionais atributivos têm o mesmo referente e suas posições são reversíveis na sequência dos constituintes na oração. Abaixo, ilustro com meus dados uma oração atributiva relacional e sua análise de transitividade.
Quadro 6: Uma oração relacional e seus constituintes funcionais.
Identificado Proc.: Relacional Identificador / Circunstância
Essa é a primeira pintura esta semana.
Essa é a primeira pintura esta semana. Fonte: Van Gogh (2009f).
3.2.4.4 Processos Comportamentais
Os processos materiais, mentais e relacionais pertencem ao grupo maior dos processos e eles não são fáceis de identificar e analisar, mas são os três mais básicos. Entretanto, isso não ocorre com os processos comportamentais, devido à imensa quantidade de aspectos que compartilham com os processos material e mental. Adicionalmente, Halliday e Matthiessen (2004) estimam que os processos comportamentais sejam os mais nebulosos na análise da transitividade devido a outros aspectos associados a processos verbais. Sua característica principal é definir comportamentos psicológicos ou fisiológicos que podem estar próximos ao material (postura corporal ou atividades de lazer), ao mental (processos de consciência) ou ao verbal (processos verbais como forma de comportamento) ou processos fisiológicos.
Um dos componentes nas orações de processos comportamentais é o Comportante que é uma entidade capaz de ações conscientes e detentora de atributos psicológicos e
fisiológicos. O outro componente nas orações comportamentais é o Escopo (no caso de estar próximo ao processo material). O Comportante desencadeia o processo e pode ter associada uma circunstância quando próxima a processos mentais ou verbais.
Abaixo segue um exemplo retirado dos meus dados de pesquisa.
Quadro 7: Uma oração Comportamental e seus constituintes funcionais Alguns pobres vagabundos da noite estão dormindo em um canto.
Comportante Proc. Comportamental Circunstância de Localização: Lugar Fonte: Van Gogh (2009g).
3.2.4.5 Processos Verbais
Os Processos Verbais expressam aqueles significados que são simbólicos. Linguisticamente, esses processos simbólicos são construídos como processos de ‗dizer‘ e são divididos em dois tipos: atividade (alvo, fala) e semiose (neutro, indicação e comando). Nas orações com processos verbais, um dos participantes é o Dizente que é uma entidade responsável pela ação de dizer. O Dizente não precisa ter consciência, como ocorre com o Ator nas orações materiais com o Experienciador nas orações mentais e o Comportante nas orações comportamentais. O outro participante das orações com processos verbais é a Verbiagem, que é o conteúdo que resulta da negociação de sentido do Dizente. A Verbiagem pode ser uma oração completa, que expressa uma locução ou reporta uma fala indiretamente. Nesse caso, a Verbiagem pode ocorrer na forma de uma oração hierárquica projetada que está paratática ou hipotaticamente situada. A Verbiagem pode vir na forma de citação ou relato. Há ainda outros participantes em uma oração de processo verbal. São eles: o Receptor, que se trata de uma entidade a quem o ato de dizer ou reportar é direcionado; Alvo (Target), no qual o conteúdo da Verbiagem recai. Abaixo, ilustro duas instâncias de um processo verbal, o primeiro projetando um relato e o segundo uma citação, uma oração de locução.
Quadro 8: Uma oração Verbal e seus constituintes funcionais. Dizente Receptor Proc.: Verbal (semiose, neutro) Verbiage (locução) Alvo Você (nunca) me disse se você tinha lido
Bel-ami de Guy de Maupassant, e o que você pensa agora do talento dele em geral.
Você nunca me disse se você tinha lido Bel-ami de Guy de Maupassant, e o que você pensa agora do talento dele em geral.
Quadro 9: Uma oração Verbal e seus constituintes funcionais. Dizente Processo verbal circunstância Verbiagem
Ai, ai, é
como nosso excelente amigo Cyprien diz, em 'En ménage' a JK Huysmans:
as mais belas pinturas são aquelas que alguem sonha enquanto fuma um cachimbo em sua cama, mas a qual ele não pinta.
Ai, ai, é como nosso excelente amigo Cyprien diz, em 'En ménage' por JK Huysmans: as mais belas pinturas são aquelas que alguém sonha enquanto fuma um cachimbo em sua cama, mas a qual ele não pinta.
Fonte: Van Gogh (2009c).
3.2.4.6 Processos Existenciais
O processo existencial representa nossos mundos tanto interior quanto exterior como ―existentes‖. Nas orações com processo Existencial, há um participante único, o Existente, que expressa diferentes fenômenos ou eventos, tais como ações, abstrações, pessoas, instituições etc. Em português, as orações com o processo Existencial são realizadas pelo verbo ―haver‖ na terceira pessoa do singular e, em Inglês, são realizadas pelo posicionamento de um ‗there‘ vazio, que ocupa o lugar de um agente, no caso, um participante Experienciador, seguido pelo verbo ‗to be‘, verbo principal padrão nessas construções [there to be]. O objeto da existência pode estar tanto na forma plural quanto na forma singular. Os processos existenciais podem ser de três tipos: neutros (com sentido de existir, acontecer); com traços circunstanciais (de tempo e de lugar) e abstratos Abaixo segue um exemplo de processo existencial retirado dos meus dados de análise:
Quadro 10: Uma oração Existencial e seus constituintes funcionais
Circunstância de lugar Processo existencial Existente (a oração encaixada faz parte da existente).
No terraço há pequenas figuras de pessoas que bebem.
No terraço, há pequenas figuras de pessoas que bebem. Fonte: Van Gogh (2009g).
A transitividade nuclear inclui as circunstâncias que são outros participantes além dos processos e seus participantes tratados até agora. As circunstâncias se referem a elementos que podem ser realizados livremente por meio de diferentes conjuntos de processos. Por exemplo, um elemento circunstancial pode responder às perguntas quando, onde, como e por quê. Nessa função, o evento do processo em questão é circunscrito nas dimensões semânticas de espaço, tempo, maneira e causa pelos elementos circunstanciais. A diferença entre as circunstâncias e os outros participantes é que estes pertencem à gramática de MODO,
funcionando como Agente, equivalente ao Sujeito ou Complemento, e as circunstâncias funcionam como Adjuntos e são realizados por um grupo Adverbial ou por uma frase preposicional.
Ao modelo de transitividade, de processo-participante-circunstância, segue-se a discussão acerca do conceito de templates que, para Thompson (2009), são ―representações esquemáticas de estruturas de transitividade nas quais existem padrões recorrentes de uma ou mais das entidades que aparecem em distribuição complementar em papéis particulares de participantes ou circunstâncias‖ (THOMPSON, 2009, p.3).
A análise das cartas está mais preocupada em responder como o sistema de transitividade poderá auxiliar a evidenciar as instanciações linguísticas nas cartas que podem também estar presentes nas telas.