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Analyse factorielle des correspondances avec Statistica

Não obstante o fato de que a transformação das universidades esteja ocorrendo em escala global, capitaneada pelos organismos internacionais, tomando

como base várias experiências ocorridas no mundo anglo-saxão, ela não ocorre de maneira uniforme. Entende-se que a partir da correlação de forças em cada país e das disposições políticas dos governantes, a agenda neoliberal avança mais rapidamente ou não. No entanto ela não é completamente descartada e a partir do momento em que o ambiente se torna mais favorável à sua implementação, vários projetos, que outrora haviam sido até rejeitados, ressurgem e são adotados. A agenda de privatização do ensino superior brasileiro, por exemplo, encontra-se presente desde os anos 1960. Aparentemente foi relegada a segundo plano nos anos 1970 e 1980, mas voltou com muita força nos anos 1990 e se consolidou desde então.

É perceptível que as universidades, pelo menos nos países do capitalismo central, acompanharam as mudanças sociais e econômicas do pós-guerra, que se traduziram numa massificação do ensino, mas não numa escassez aguda de recursos. A partir dos anos 1960, e tendo como suporte a Teoria do Capital Humano, várias modificações são propostas, objetivando a flexibilização, e começam a se concretizar a partir dos anos 1970, quando a crise do padrão fordista de acumulação começa a se manifestar de maneira mais pungente. Com a alegada falta de recursos recaem sobre a Universidade as acusações de que há excesso de “gordura” ou há mau gerenciamento. Tudo funciona para concretizar uma reestruturação que instala a flexibilização na vida acadêmica nos currículos, no trabalho docente, na distribuição dos espaços nos campi e nas formas e conteúdo das pesquisas, agora com forte influência do mundo empresarial. Este também é apresentado como a tábua de salvação para a falta de recursos.

No plano geral ocorre, segundo Colado (2003), uma reinvenção da identidade da Universidade no imaginário social, e seu lugar, de referência cultural de uma sociedade, é deslocado para um papel menor, semelhante às empresas, que são prestadoras de serviço a esta mesma sociedade. Ou, na visão de Fernández Liria e Serrano García (Ibid), o fim de tudo é fazer com que a Universidade e a empresa se transformem em dois segmentos de um mesmo vetor, e os campi universitários sejam convertidos em polos industriais onde seja possível transitar da Universidade para a empresa sem sequer ter que sair do mesmo prédio. A visão empresarial por vezes é tão naturalizada que Sola I Busquet (2007) chega, inclusive, a propor quatro trajetórias para a transformação das universidades, a saber: i) técnicas de marketing para atrair, reter e manter "clientes", ii) estabelecer ligações mais fortes dela com seu entorno e

as empresas, iii) transformar a Universidade numa Universidade empreendedora, onde tal cultura esteja disseminada por todos os setores, e iv) baseando-se no trabalho do grego Dennis Tsichritzis, fazer uma reengenharia da Universidade concebendo-a como uma provedora de conteúdo, semelhante a uma cadeia de televisão, em que haveria três funções, a produção, a programação e a distribuição de conteúdo.

Newson (Ibid) salienta que este processo de transformação da Universidade em um Corporação contém dois aspectos distintos, a saber: i) um novo tipo de relações contratuais entre agentes financiadores de pesquisa e a Universidade que se traduz numa influência maior sobre os tipos de pesquisa e seus resultados, e ii) a adoção, pelas universidades, de uma forma de atuação e práticas típicas do setor privado. No Canadá ela aponta como exemplo do primeiro as pesquisas que objetivam a criação de produtos comercializáveis, protegidos por patentes ou acordos de licença com empresas; patrocínio empresarial para cursos on-line, doação de equipamentos de alta tecnologia visando gerar mercado para os mesmos entre estudantes e professores, enquanto cria uma vitrine para a empresa.

Na mesma intenção, prédios, programas e cátedras são batizados com nomes de empresas patrocinadoras e programas são criados sob demanda para o atendimento empresarial. Assegura-se até a representação empresarial na construção de currículos para assegurar suporte financeiro do patrocinador. No segundo aspecto, concebe-se o campus como uma área de locação para atividades comerciais, tanto para serviços como para projetos construídos em conjunto com empresas. Ocorre a transformação das diversas instâncias da Universidade em unidades de custo que devem oferecer serviços para outras unidades. Do mesmo modo, cursos são criados como marcas registradas, desenvolvidos sob licença por empresas estabelecidas no campus ou em conjunto com acadêmicos. Isto tudo se traduz na emergência de novas estruturas na Universidade, a exemplo de Companhias Spin-off48, Centros de excelência, Centro de inovação e/ou transferência

tecnológica, que se legitimam por seus laços com a Academia, mas não estão sujeitas ao seu controle. Naquele país, a autora destaca que as figuras do gerencialismo na

48 O termo Spin-off significa derivação, ou derivado de algo. Na linguagem empresarial pode significar

uma empresa que surge da cisão de outra, ou uma nova empresa surgida de um centro de pesquisa para explorar novos produtos oriundos de novas tecnologias.

Universidade se expressam na admissão de novos indicadores de performance que remetem mais à questão orçamentária, eficiência, produtividade e prestação de contas, dentre outros.

Embora olhando para o Processo de Bolonha, na Europa, é possível afirmar que as críticas dirigidas por Bento (2015) não se encontram restritas àquele continente, pois

A Universidade torna-se uma organização de reprodução das bitolas de reestruturação da sociedade segundo a cartilha mercadológica e neoliberal... (ela é convertida) numa empresa de serviços à la carte: nela tudo se compra e vende, já nada se oferece grátis... deita fora o primado da responsabilidade e da verdade e troca-o pelo da empregabilidade, do pragmatismo e da utilidade. A sua referência não é mais a sociedade; doravante é o mercado.... Este é um polvo com tentáculos que comprimem todo e qualquer espernear da Universidade. É assim que ela adota o jargão (competitividade, produtividade, eficácia, papers, rankings, ficheiros Excel, etc.) e as propostas de reestruturação e governança ditadas pelo managerialismo e gerenciamento das doutrinas neoliberais. Torna-se uma burocracia e uma instituição de divulgação das orientações do neoliberalismo. Por outras palavras, ao renunciar a uma linguagem e a um pensamento próprios, a Universidade abdica da sua autonomia e identidade. E passa a ser controlada por forças que ela não controla, nem sequer conhece de modo suficiente (p. 10-11).

Ainda no plano europeu, Bianchetti (Ibid) nos mostra que a uniformização do período de formação na maioria dos cursos em três anos de licenciatura, dois de mestrado e três de doutorado, atende a um objetivo de acelerar o tempo de estudo para permitir o ingresso de um profissional mais capacitado o mais rápido possível no mercado. Devido à mobilidade curricular, além de outras coisas, este profissional já estará plenamente adaptado à flexibilidade exigida pelo mundo empresarial e à flexibilidade dos processos de formação continuada, que servirão para ajustar a formação deste público às prioridades do deus mercado.

Nas pesquisas tecnológicas e suas crescentes interações com novos modelos de empresas gerados a partir do intercâmbio com as universidades, Newson (1992) aponta outros sérios conflitos éticos. Professores, por vezes, são acionistas de algumas dessas empresas spin-off e, muitas vezes, alunos de Mestrado e Doutorado, como parte do seu trabalho de pesquisa, encontram-se envolvidos nestas empresas, mas ao mesmo tempo estão numa relação empregador-empregado numa empresa privada. Também, como estas mesmas empresas podem estar envolvidas em questões de segredo industrial ou competição com outras empresas, pede-se aos

estudantes que guardem segredo sobre suas pesquisas e os resultados, bem como evitem publicações até que as patentes sejam obtidas. No caso canadense, até a própria Universidade pode ser acionista destas empresas, o que gera sérios conflitos na alocação de recursos, ou nas críticas que podem ser dirigidas ao tipo e objeto da pesquisa.

Tsukamoto (2013), por sua vez, vai apontar duas visões neste processo: a primeira de que há uma crescente uniformização das universidades dentro deste parâmetro do capitalismo acadêmico, e a segunda é que as áreas de ciências humanas estão mais imunes a este processo. Isso se deve ao fato de que esta visão de Universidade não tem um impacto uniforme nas universidades, porquanto pode haver variações entre departamentos, campos de estudos e posicionamentos de professores. Mas ele vai mostrar questões relativas à relação entre alunos e professores/orientadores neste cenário. Nos lugares onde a influência desta cultura acadêmica capitalista cresceu professores passaram a ver os estudantes como aqueles que vão contribuir para gerar novos conhecimentos comoditizados. No entanto estes mesmos estudantes têm um acesso limitado aos conhecimentos, muito em função da supervisão dos professores, que, muitas vezes, estão mais preocupados em garantir os interesses do patrocinador da pesquisa, sob alegações de proteção dos direitos de propriedade intelectual.

Ao apresentar as visões de professores universitários estadunidenses da área das humanidades, os mesmos revelam que há um crescimento de prestação de contas em termos quantitativos que demonstrem a evolução do aprendizado dos alunos. Os currículos gradativamente substituem disciplinas que contribuem para uma visão crítica do mundo por disciplinas voltadas para o treinamento dos estudantes em ocupações específicas, transformando a Universidade numa espécie de escola técnica própria daquele país, as vocational schools. Há uma aproximação com o que ocorre no continente europeu, como nos mostra Bento (Ibid), pois o conceito humboldtiano de Formação (Bildung) é transmutado em Instrução, que objetiva preparar quadros dentro do espectro de competências exigidas pelo mercado, sendo que os interesses deste passam pelo trabalho precário, baseado na flexibilidade, baixos salários e carga horária elevada.