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Analyse des données : premier sous-objectif

4 Module de travail 3: Charge administrative entrainée par l’utilisation de RED

4.2 Analyse des données : premier sous-objectif

São diversas as subjetividades construídas no espaço religioso institucional. Como afirmado anteriormente, embora haja elementos comuns, as sínteses são idiossincráticas. Por isso, é necessário lembrar González Rey (2005, p. 126), para quem a subjetividade é um sistema complexo cujas “diferentes formas de expressão

no sujeito e nos diferentes espaços sociais são sempre portadoras de sentidos subjetivos gerais do sistema que estão além do evento vivido”. Como os eventos relatados revelam sentidos que se referem à estrutura da instituição, o recorte intergeracional possibilita vislumbrar os sujeitos construídos na vida religiosa consagrada a partir dos sentidos atribuídos por eles aos processos de subjetivação e de envelhecimento nas diferentes gerações de Irmãos Maristas idosos.

Entre a geração acima dos 80 anos, as visões são diversas. Para o Ir. Ambroise, “Quem entra numa Congregação, entra sabendo pra onde vai e disposto a colaborar, sim, pra fazer crescer, sim, mas não para não se conformar com o que existe. [...] Conformar não é abdicar, é tomar a forma.” Embora o Ir. Machado afirme que, ainda criança, “tinha consciência do que estava fazendo, depois de ter sido chamado explicitamente, por um Irmão Marista, para ser Irmão Marista”, é pouco provável que os Irmãos, na idade em que ingressaram na instituição, estivessem plenamente cônscios das implicações do ser religioso; isso deve ter vindo posteriormente, ao longo da formação. De qualquer maneira, aqui já aparece um primeiro dado: o sujeito deve se con-formar, tomar a forma da instituição. Os que tinham dificuldade para fazer isso procuravam outros caminhos fora da vida religiosa consagrada.

Sobre essa con-formação, o Ir. Lamberto é bastante incisivo. Referindo-se ao estilo de formação que teve, na qual o sujeito era sufocado pela instituição, admite um sentimento de ausência:

A gente sente que perdeu uma coisa fabulosa na vida, que os outros não perdem. A gente não era homem. Já era adulto, 22, 23 anos, não sabia andar de ônibus, não sabia usar dinheiro. Era proibido ler revista em Mendes. [...] Era proibido os Irmãos andarem de ônibus, só de bonde. O imperativo da obediência, novamente, se apresenta como chave de leitura para desvelar os sujeitos da vida religiosa consagrada. Este imperativo, como pontuado anteriormente, se estendia a todas as áreas da vida do Irmão, incluindo tempos e lugares de exercício da missão: a decisão de permanecer num mesmo lugar ou mudar-se não cabia ao Irmão, mas ao Provincial. Embora haja exceções, a regra era transferir o Irmão após algum tempo, sob a justificativa de cultivo intencional do desapego: o Irmão não podia criar laços com o lugar nem com as pessoas. Para alguns Irmãos, isso não era problema. Segundo o Ir. Abel: “Todo

lugar que eu vou, eu me adapto bem, não tenho problema. Não dá muita diferença, não.” A intencionalidade de não criar laços, junto à consciência de ser uma presença transitória naquele ambiente, é outra chave de leitura para a subjetividade dos idosos. A possibilidade de romper com a normativa de não criar laços também está presente: vários Irmãos alimentam sua necessidade de afeto com essas referências dos lugares onde moraram e demonstram explicitamente a saudade de pessoas, funções e espaços apostólicos.

Além da obediência, a rigidez dos horários marcava a rotina dos Irmãos. O Ir. Deodato lembra como era isso no tempo de formação: “[A gente] levantava cedo, tinha missa todo dia, depois duas horas de aula, recreio, todo santo dia. De segunda a sexta, catecismo.” Essa regularidade perpassou toda a trajetória de vida dos Irmãos idosos. Para as gerações mais jovens, a flexibilidade substituiu a rigidez dos horários e atividades; para os mais idosos, no entanto, soam desconfortáveis o improviso e mudanças repentinas que fogem ao esquema pré-estabelecido. A rotina previsível, já dizia Goffman (2008), é característica das instituições totais. Assim, o Ir. Hipólito não vê com bons olhos a flexibilidade de horários e atividades que tende a ser comum na vida comunitária atualmente, principalmente no tocante aos momentos de oração:

À noite, [os Irmãos idosos] rezamos o terço, não aparece ninguém. Às vezes estão em casa, estão no quarto lá, enquartelados com internet e celular e diabo a quatro, sei lá o que fazem. E nós aqui, rezando. [...] De manhã, rezamos Laudes18, geralmente [os Irmãos mais jovens] estão aí. Depois de Laudes vem a missa. Um ou outro vai à missa. Outro tem que sair cedo, porque se não sair cedo, vai pegar o tráfego muito carregado e vai chegar atrasado lá no local onde deve trabalhar, né?

Obediência, regularidade e resistência a mudanças vão se encadeando. Ir. Deodato comenta o rigor da rotina de um Irmão companheiro de comunidade: “tudo milimetrado, com cronômetro, local, tudo. Termina de rezar, faz a caminhadinha dele. Às três horas da tarde, tomou banho. Às três em ponto. Não pode ser nem [às] 5 pras 3 nem 3h05...” Importante lembrar que, para vários idosos, não apenas os religiosos, a regularidade da rotina é fonte de segurança; a imutabilidade das atividades do dia a dia são bem aceitos porque não demandam esforço para lidar com imprevistos.

O sentimento de pertença institucional, em que o indivíduo se reconhece parte do grupo e introjeta a cultural grupal como parte de sua identidade, é outro elemento importante para desvelar a subjetividade dos Irmãos idosos. A anulação do individual, em detrimento do coletivo institucional, é lembrada pelo Ir. Bonius: “Nós fomos muito reservados. Antigamente, era proibido você escrever alguma coisa e assinar seu nome. Era proibido, o seu nome não podia aparecer de jeito nenhum, principalmente o nome oficial [civil]”19. Quer dizer, todo o sujeito, incluindo seu

trabalho e produção intelectual, devia se amalgamar com a instituição, pois não havia espaço para ser indivíduo no espaço institucional: o indivíduo e a instituição constituíam-se como uma unidade.

Talvez devido a estas questões, há que se apontar um último elemento para a geração acima dos 80 anos: a valorização das próprias raízes. Para os Irmãos dessa faixa etária – assim como os idosos coetâneos –, costumam ser muito importantes as reminiscência do passado mais remoto: histórias da família, episódios interessantes do período de formação, travessuras com as quais driblavam a ordem estabelecida, fatos ocorridos com pessoas afetivamente significativas e lugares que não fazem parte da vida atual do Irmão. Beauvoir (1990, p. 463) arrisca uma explicação para isso: “Se as lembranças afetivas que despertam a infância são tão preciosas, é porque, durante um breve instante, elas nos põem de novo de posse de um futuro sem limites”; assim como na infância, “amanhã não passa de uma palavra vazia; meu quinhão é a eternidade”. Entre os estrangeiros, se acentua ainda mais a tendência de lembrar a terra natal e os familiares, além do apreço por material produzido na língua materna, referências ao país de origem e manifestações culturais. Ir. Gaspard assina revistas francesas; Ir. Bonius, português, mantém a devoção a Nossa Senhora de Lourdes; Ir. Hipólito pede que a sobrinha lhe envie estampas da Alemanha. Todos estes hábitos têm a ver, certamente, com o sentido de identidade pessoal, reconhecimento da trajetória de vida e integridade subjetiva, como lembra Neri (2006) e Beauvoir (1990, p. 455) confirma: “na verdade, é o passado que nos sustenta. É através do que ele fez de nós que o conhecemos.”

19 Os Irmãos que fizeram votos perpétuos antes do Concílio Vaticano II tiveram seus nomes de

batismo mudados para um nome religioso, como era costume na época. O novo nome era escolhido pelo Provincial. A maioria retomou o nome civil após o Concílio.

A geração dos 70 anos traz outros elementos. O principal deles é que a própria instituição favorecia que o Irmão tivesse outras experiências para superar os limites da formação pré-conciliar. O Ir. Paul-Dominique recorda ter tido “uma boa formação intelectual, social, afetiva, espiritual, no contexto de então. Tive a sorte de encontrar bons Irmãos professores nessa ‘mudança de época’ tanto dentro da Igreja como na Congregação Marista: novas ideias, relacionamentos...” Para quem conseguiu fazer outra síntese, a relação de pertença com a instituição tem outro sentido, mesmo porque os sujeitos se reconhecem concomitantemente indivíduos e instituição, ao contrário da geração anterior. O Ir. Claude-Régis demonstra sua gratidão à instituição: “De fato eu tive muita oportunidade na vida, muita.” O Ir. Frumêncio confirma:

Graças a Deus, tive comunidades excelentes. Vivi em comunidades, em ambientes comunitários com Irmãos muito bons, [...] que levavam a sério a vida religiosa e também o trabalho, o profissional. Levavam muito empenho, muita dedicação. [...] Foi um privilégio para mim.

Uma diferença significativa entre esta geração e a anterior, portanto, é uma identificação positiva com a instituição. São sujeitos que tiveram uma formação fechada e, na mesma instituição, foram estimulados a rever os limites e construir um itinerário diferente, inclusive na formação das gerações posteriores. O sentido da vida religiosa consagrada, para estes Irmãos, foi construído em uma perspectiva diferente, menos repressora do sujeito e mais libertadora dos afetos e da realização pessoal. Os espaços de presença do Irmão, inclusive, se tornam mais amplos do que os muros da instituição – e isso contribui para a constituição de uma subjetividade mais aberta.

A primeira geração dos Irmãos da terceira idade apresenta traços mais definidos dessa abertura, provavelmente como consequência primeira da formação institucional pós-conciliar, em que se deu a devida atenção aos sujeitos. O Ir. Adorátor conta que, na vida como Irmão Marista,

eu nunca me senti cerceado na minha liberdade, nunca me senti menos homem por ser religioso. Não. As coisas eram colocadas de uma maneira muito clara, sem subterfúgios. [...] Eu considero uma formação boa, [...] principalmente na abertura para uma visão de mundo, visão de Igreja, nunca me senti cerceado em coisíssima nenhuma.

Além da formação, é provável que contribua para esse sentido positivo de pertença institucional a vida ativa que estes Irmãos mantêm, a qual atribui senso de propósito ao que fazem e proporciona oportunidades que talvez não tivessem em outros espaços. O Ir. Auxent reconhece que “a grande riqueza que o Instituto deu [a mim] foi essa gama muito grande de oportunidades, de conhecimento, de experiências, de tudo o que possa imaginar... Acampamentos, missão, MST20, alunos...” Essa abertura favorece a síntese pessoal, que tende a ser positiva, conforme o mesmo Irmão: “Tudo o que é negativo [da vida religiosa consagrada], eu vou ter como experiência para não fazer. Então, vai como um crescimento, uma unidade de vida que vai se produzindo, e eu só tenho que agradecer a Deus.”.

O Ir. Claude-Régis demonstra o mesmo sentido de gratidão:

Intelectualmente, tive a oportunidade, fiz estudos, fiz estudos, fiz conferências e participei, abri minha mente para o mundo, para sociedade, para a realidade, eu me sinto confortável dentro do contexto, da história. A felicidade ou infelicidade é decorrência também disso aí.

Em termos de constituição das subjetividades, percebe-se que a instituição preservou mais essa geração de sujeitos, mesmo porque, no período de formação desses Irmãos – décadas de 1960-1970, época da efervescência cultural e mudança de paradigmas –, seria pouco provável que o fechamento e autoritarismo anteriores fossem bem recebidos pelos formandos. Estes, inclusive, ingressaram na instituição com mais idade do que as gerações anteriores e trouxeram para essa mesma instituição uma bagagem de formação diferente. Devido a essas características, os idosos da primeira geração se reconhecem duplamente como religiosos maristas e como indivíduos com trajetórias plurais.

Para o Ir. Claude-Régis,

o idoso devia chegar a essa idade com essa sensação: eu vivi bem, eu me considero feliz, eu me considero realizado. Não fiz tudo o que poderia ter feito, mas aquilo que fiz responde à minha opção de vida, e pronto!

Pode-se concluir, então, que a vida religiosa consagrada construiu subjetividades idosas distintas e que convivem no mesmo espaço institucional, mas atribuindo a ele diferentes significados. A síntese a respeito da trajetória do indivíduo na vida religiosa consagrada comporta distintas autopercepções e sentimentos:

felicidade, realização, ressentimento, vazio... Os próprios Irmãos idosos percebem as diferenças que foram construindo ao longo da vida e os constituem sujeitos diversos e, em certo sentido, distintas alteridades. Desvelar as subjetividades é, também, reconhecer distintos sujeitos que, de forma intencional ou circunstancial, interagem entre si e com os ambientes institucionais, nem sempre de forma harmônica. As tensões decorrentes da interação entre diferentes subjetividades no mesmo espaço institucional serão aprofundadas no Capítulo 7, que tratará da dinâmica institucional.