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Analyse bilancielle des comptes consolidés

Dans le document EMISSION DE BILLETS DE TRESORERIE (Page 122-138)

Conforme exposto por Silverstone (2002) um programa de auditório que apresenta casais homossexuais trocando alianças de casamento "em cadeia nacional" pode passar desapercebido dentro da grade de programação televisiva. Assim como esse, tantos outros percorrem uma lista cuja enumeração é praticamente sem fim. São programas de entrevistas, humorísticos, matinais de saúde e bem estar, vespertinos sobre a vida de celebridades, debates com tom de confronto para resolver problemas de família diante das câmeras, da plateia e da audiência. Reality Shows - um formato muito popular nos dias de hoje, surgidos no início dos anos 2000 - relatam acontecimentos sofridos pelos participantes em busca do prêmio são transformados em dramas quase ficcionais, com direito a uma montagem de suspense, humor, surpresa. Tudo ao alcance dos olhos, dos ouvidos e dos cliques dos espectadores, que podem decidir através do voto, semana a semana, o destino dos participantes.

ser um meio de constante repetição e retorno à fórmulas e formatos usuais. Programas de auditório, por exemplo, vivem da repaginação e incorporação de quadros que, se não são algo que já existiu há alguns anos, são apenas acrescidos de algum momento novo que os torna levemente diferentes.

É o caso de Dança dos Famosos, quadro pertencente ao programa dominical

Domingão do Faustão14. No ar há cerca de três décadas, o programa é um dos exemplos mais bem sucedidos comercialmente de programa de auditório brasileiro. Nesse quadro em específico, celebridades disputam entre si o título de melhor dançarino da temporada. A cada semana um estilo de dança é escolhida para avaliação de um júri. Os melhores classificados através de votações online seguem adiante até o final da temporada. O estilo do julgamento e as declarações dos participantes são muito semelhantes aos vários tipos de shows de calouros que existiam na televisão brasileira nos anos 80, quando ilustres desconhecidos exibiam seus talentos frente às câmeras em troca de um prêmio em dinheiro. No caso do quadro do

Domingão, o que existe de novo é a presença das celebridades - que no fundo é uma forma

encontrada pela emissora de promover atores e atrizes que não estão em nenhuma produção atual da emissora - e os vídeos dos ensaios dos dançarinos, que possuem um tom muito semelhante aos reality shows. O formato em si é um tanto usual, apenas com algumas ideias repaginadas. E segue a programação.

Mas, se tomarmos algum desses exemplos a sério, poderemos ver algumas questões cruciais a um debate sério sobre a mídia:

nossa mídia é onipresente, diária, uma dimensão essencial de nossa experiência contemporânea. É impossível escapar à presença, à representação da mídia. Passamos a depender da mídia, tanto impressa como eletrônica, para fins de entretenimento e informação, de conforto e segurança, para ver algum sentido nas continuidades da experiência e também, de quando em quando, para as intensidades da experiência. SILVERSTONE p.(14)

Porém, para se conseguir desvendar a participação das imagens produzidas por telespectadores dentro da narrativa jornalística, é preciso ir além da percepção comercial. É certo que os canais de televisão sofrem o tempo todo uma pressão de mercado muito forte, tanto pela concorrência, que sempre tenta trazer inovações para dentro de seus programas - o que no caso do jornalismo equivale a chegar antes e apresentar ao espectador o mais rápido e da forma mais dinâmica um fato - , quanto pelos próprios investidores e anunciantes, que

14 Domingão do Faustão é um programa de auditório exibido pela Rede Globo. O programa está no ar desde 1989 e é um dos programas mais antigos da emissora.

ameaçam a sua própria estrutura de funcionamento, caso os níveis de audiência caiam. Porém, a compreensão da mídia nesse caso pode ter um significado mais profundo. Nos dias de hoje, ela é transpassada o tempo todo por uma infinidade de tipos de informação que são continuamente produzidas e destruídas, feitas e refeitas. A mídia é um lugar onde as mensagens são significadas e perdem significado quase que instantaneamente do momento em que são deixadas de lado no momento em que se muda de canal, se desliga o aparelho ou se escreve um comentário qualquer em uma caixa de diálogo logo abaixo de um vídeo de You

Tube.

Precisamos examinar a mídia como um processo, como uma coisa em curso e feita em todos os níveis, onde quer que as pessoas se congreguem no espaço real ou virtual, onde se comunicam, onde procuram persuadir, entreter, educar, onde procuram, de múltiplas maneiras e com graus de sucesso variáveis, se conectar umas com as outras. (SILVERSTONE, 2005 p.17).

A mídia, além de um processo é algo que deve ser visto como possuidora de caráter eminentemente político; ela cria relações de poder entre aqueles que produzem o significado das mensagens e aqueles que as recebem e dão sentido ao que vêem. E esse sentido pode ser tanto na forma de reemissão do significado de outra maneira, seja para corroborar com o que ali está exposto:

Estou lidando, afinal, com seres humanos e suas comunicações, com linguagem e fala, com o dizer e o dito, com reconhecimento e mal-reconhecimento e com a mídia vista como intervenções técnicas e políticas nos processos de compreensão. (SILVESTONE, 2005 p.19)

Estudar a mídia compreende não só os eventos excepcionais, revelados através dos momentos de crise; ela se revela nos usos e desusos cotidianos, e na maneira como é feita a significação do que é observado e ouvido:

É no mundo mundano que a mídia opera de maneira mais significativa. Ela filtra e molda realidades cotidianas, por meio de suas representações singulares e múltiplas, fornecendo critérios, referências para a condução da vida diária, para a produção e a manutenção do senso comum. (idem, p.20)

É através do senso comum que existe a situação do indivíduo no mundo, é o que o diferencia ou o identifica. E é a mídia que alimenta essas visões quando cria, discute, nega, afirma ou demole as percepções de mundo de grupos étnicos, políticos e classes sociais. "como que através das lentes múltiplas dos textos escritos, dos audiotextos e dos textos

audiovisuais, o mundo é apresentado e representado: repetida e interminavelmente". (idem, p.22)

Quando se lida com a mídia, está-se em verdade se deslocando dentro de espaços virtuais que são visitados por todos aqueles que ali também estão naquele momento, desfrutando da leitura do mesmo texto no jornal, da audiência do programa na televisão e da rede social na internet. Pode-se pensar nesses processos como formadores de uma identidade nacional (um texto em um jornal sobre a economia brasileira), regional (um programa de entretenimento sobre o ser curitibano em um canal a cabo pago) ou mesmo por afinidade (um fórum de discussão de fãs de uma determinada série televisiva na internet).

Quando a mídia é acessada, existe uma ajuda mútua na construção de uma identidade. Apesar dos indivíduos nem sempre conseguirem deixar rastros definitivos de sua passagem15, não deixam de visitar esses espaços que falam eminentemente do cotidiano. E o objetivo desse processo é justamente servir de processo de mediação entre os indivíduos e a realidade. Mas essa mediação acontece além da mera visualização dos textos que ela produz:

É necessário considerar que ela envolve os produtores e consumidores de mídia numa atividade mais ou menos contínua de engajamento e desengajamento com significados que tem a sua fonte ou seu foco nos textos mediados, mas que dilatam a experiência e são avaliados à sua luz numa infinidade de maneiras. (idem p.33)

Pode-se entender essa mediação como o deslocamento do significado feito na leitura de um texto para outro, de um vídeo para outro, de um áudio para outro dentro dos diversos meios de comunicação. Essas informações circulam o tempo todo, nas mais variadas formas:

em textos primários e secundários, através de intertextualidades infindáveis, na paródia e no pastiche, no constante replay e nos intermináveis discursos, na tela e fora dela, em que nós, como produtores e consumidores, agimos e interagimos, urgentemente procurando compreender o mundo, o mundo da mídia, o mundo mediado, o mundo da mediação. (ibidem p.34)

A dificuldade em estudar a mídia deriva do fato de que o pesquisador não consegue se distanciar do objeto de estudo do qual se encontra imerso. Para Silverstone (2002) é como um linguista que tenta estudar a sua própria língua, mas descobre que ela é como a sua sombra e não consegue se desvincular dela de maneira nenhuma. O esforço de análise se concentra em analisar de dentro e tentar ir do lado de fora ao mesmo tempo.

15 Como quando alguém comenta uma matéria de TV com seu vizinho mas nunca conseguirá alterar o conteúdo dela na TV. Mesmo na internet, são poucos os espaços de disseminação de informação que permitem o acesso, edição ou subversão do conteúdo visualizado.

A mediação tem o poder de romper os limites dos textos diversos e encerrar significados ou visões sobre a realidade. Ela passeia por espaços bi e tridimensionais, é mutada ou mantida através do tempo e dos espaços em que se realiza. Ela não pode ser pensada nem concebida como pertencente a uma única pessoa ou texto; antes envolve o trabalho de instituições, grupos e tecnologias.

Todos nós somos mediadores, e os significados que criamos são, eles próprios, nômades. Além de poderosos. Fronteiras são transpostas, e, tão logo programas são transmitidos, web-sites construídos ou e-mails enviados, elas continuarão a ser transpostas até que as palavras e imagens que foram geradas ou simuladas desapareçam da visão ou da memória. Toda transposição é também uma transformação. E toda transformação é, ela mesma, uma reinvindicação de significado, de sua relevância e de seu valor. (idem p.42).

Dessa maneira, pode-se dizer que a mediação é o processo de construção de um texto sobre uma realidade. E esse texto não será mais aquele universo sobre o qual conta a sua história. Ao ser escrito – através de palavras ou visualmente – ele se torna uma reinterpretação sobre o que ele versa.

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