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Tendo em vista a importância da família nos tratamentos dos dependentes de drogas e a contribuição da abordagem terapêutica da Psicoterapia Familiar Sistêmica, serão expostos a seguir alguns conceitos básicos da Epistemologia Sistêmico-Cibernética, de acordo com o novo paradigma da ciência (Vasconcelos, 1995), no qual se baseia este estudo, para uma maior compreensão do fenômeno.

Para Bertalanffy (1975), a compreensão de problemas sempre deve ser feita por meio de um enfoque nas relações entre os elementos envolvidos. A abordagem sistêmica contempla esta visão de mundo; não é restrita ao campo psicológico, é uma forma de ver a realidade a partir da inter-relação e interdependência dos fenômenos físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Isto significa enxergar o mundo em termos de relação e integração (CAPRA, 1982).

As terapias sistêmicas são definidas como um conjunto de práticas não uniformes em contínua evolução. A prática destas terapias foi tão profundamente configurada – tanto pela teoria geral dos sistemas quanto pela cibernética –, que pode ser convenientemente chamada de sistêmico-cibernética (GRANDESSO, 2000). Neste estudo o fenômeno em foco – as relações da família do dependente de drogas – será visto em sua estrutura e dinâmica no decorrer das sessões terapêuticas, tendo presentes as diretrizes da Cibernética de Segunda Ordem, isto é, os conteúdos serão analisados com base nos significados atribuídos pelos participantes aos eventos do cotidiano em família e as relações entre seus membros.

Uma família vista como um sistema é um conjunto de pessoas em interação, e não pode ser percebida apenas a partir das características individuais de cada um de seus membros. O que caracteriza uma família é a natureza das relações entre seus membros, ou seja, a forma como interagem e como estão vinculados nos diferentes papéis e subsistemas (SUBDRACK, 2000), bem como suas relações com os sistemas mais amplos (externos).

Citando a teoria dos sistemas, podemos dizer que nas relações do grupo familiar, o comportamento de cada um dos integrantes é interdependente do comportamento dos outros. O grupo familiar pode, então, ser visto como um conjunto que funciona como uma totalidade no qual as particularidades dos participantes não bastam para explicar o comportamento de todos os outros. Assim, a análise de uma família não é a soma das análises de seus integrantes individuais. Os sistemas interpessoais, como a família, podem ser encarados como circuitos de retroalimentação, dado que o comportamento de cada pessoa afeta e é afetado pelo comportamento de cada uma das outras pessoas (CERVENY, 2000).

Se o grupo é uma entidade que constrói um sistema de crenças e tradições, por mais breve que seja a convivência grupal, então o grupo familiar, pela sua longa duração e nível de inter-relação, é um grupamento com muita especificidade e que deve ser visto, antes de tudo, como um sistema de relações (CERVENY, 2000).

A família, como qualquer outro sistema, opera de acordo com certos princípios, como homeostase, morfogênese, morfostase, feedback, causalidade circular e não somatividade (CERVENY, 2000).

Segundo Grandesso (2000), todo e qualquer sistema comporta-se como um todo coeso. Logo, uma mudança em uma parte do sistema provoca mudança em todas as outras partes e no sistema como um todo. Este é o princípio da não somatividade que evidencia ser impossível ver partes do todo como entidades isoladas, ou somar características das partes para entender o todo. As consequências desse princípio no sistema familiar são que os indivíduos só podem ser compreendidos dentro dos contextos interacionais nos quais funcionam. Para compreender o sistema familiar devemos vê-lo como um todo (CERVENY, 2000).

A homeostase é um processo autorregulador que mantém a estabilidade do sistema e o protege de desvios e mudanças. Em termos familiares, refere-se à tendência da família em manter certo padrão de relacionamento e empreender operações para impedir que haja mudanças nesse padrão de relacionamento já estabelecido (CERVENY, 2000).

Similar à homeostase, o princípio da morfostase designa a capacidade do sistema de manter a sua estrutura em um ambiente mutante, por meio dos circuitos de retroalimentação negativa (CERVENY, 2000).

Outro princípio, sob o qual a família como sistema opera, é o da morfogênese. Por sua grande adaptabilidade e flexibilidade, os sistemas têm a capacidade da

autotransformação de forma criativa. A família tem potencial para mudança e a morfogênese designa uma mudança dentro da ordem estrutural e funcional do sistema, de modo que este adquire nova configuração qualitativamente diferente da anterior, a qual caracteriza a Cibernética de Segunda Ordem (CERVENY, 2000).

A interação entre os componentes de um sistema manifesta-se como uma sequência circular, de modo que a relação entre quaisquer de seus elementos é bilateral. Enquanto o pensamento linear postulava uma causalidade do tipo de uma implicação lógica, o pensamento sistêmico resultou em uma bidirecionalidade. Dentro desse pressuposto de causalidade circular, a ordem dos fatores não altera o produto (GRANDESSO, 2000).

Para entender a evolução dos sistemas, segundo a evolução da cibernética, Prigogine (1984) argumentou que é necessário levar em conta não apenas os processos mediante os quais os sistemas mantêm seu equilíbrio (Primeira Onda da Primeira Cibernética) e retornam aos parâmetros básicos de sua homeostase, mas também aqueles que favorecem os desequilíbrios (Segunda Onda da Primeira Cibernética), tais como os requeridos para a adaptação a novas circunstâncias e para o crescimento. Na acepção de Sluzki (1997), as mudanças qualitativas requerem desvios dos processos até chegarem a um novo limiar, depois do qual se estabelecem novos níveis de equilíbrio, onde entram as forças evolutivas e as capacidades criativas (Cibernética de Segunda Ordem).

Nos sistemas humanos, o mecanismo de feedback tem duas funções primordiais: a primeira é fornecer informações, e a segunda é definir o relacionamento entre os membros do sistema. O feedback positivo aumenta a atividade do sistema, enquanto os negativos revertem-no ou pedem correção (Cerveny, 2000).

Para Sluzki (1997), a noção de equilíbrio flutuante – a homeostase dinâmica entre os processos que favorecem morfostase (regulação e controle) e os que favorecem morfogênese (mudar para nova organização) – contribuiu para a redefinição da Cibernética de Primeira Ordem, uma Cibernética preocupada com o controle tanto da estabilidade quanto da mudança para uma cibernética preocupada com o significado atribuído aos fenômenos, ou seja, Cibernética de Segunda Ordem. Esses avanços do campo da Cibernética decorreram de sua aplicabilidade a vários domínios de estudos, tais como a Antropologia, Neurofisiologia, Sociologia e Psiquiatria. A Cibernética evoluiu, de acordo com sua própria história, a partir de

uma ampliação de seu território para incluir processos que, embora pudessem ser pensados ciberneticamente, não poderiam ser explicados como decorrentes de correções de desvios e circuitos homeostáticos (GRANDESSO, 2000).

O grande salto evolutivo no modelo cibernético foi introduzido pela postulação de que toda observação é função dos pontos de referência, inclusive dos valores do observador. A observação afeta o observador: o observador com suas limitações, pressupostos e preconceitos organiza o observado. Podemos, portanto, dizer que não existe uma descrição objetiva da realidade, pois este argumento acaba questionando o que é a própria realidade. O conhecimento do mundo existe nos acordos descritos sobre a realidade, que ocorre no âmbito da conversação (SLUZKI, 1997). No campo específico da terapia de família, esta epistemologia, no seu primeiro momento, deu origem aos modelos comunicacionais, interacionais e de terapia breve (GRANDESSO, 2000).

Essa nova concepção influenciou a essência da Cibernética, que até então não tinha observado a si mesma. Os novos desenvolvimentos passaram a ser chamados de “Cibernética de Segunda Ordem” ou “Cibernética da Cibernética”, e incluíram a Terapia Familiar nos paradigmas pós-modernos de Ciência.

Nesta perspectiva da visão pós-moderna da terapia familiar é mais importante o significado do que o fato em si. Podemos assegurar que o significado é a chave para a eficácia da linguagem. Linguagem e significado estão correlacionados e dependemos da linguagem para significar nossos atos, dar sentido à nossa existência (MACEDO, 2000).

Grandesso (2000) registra que nesse enfoque pós-moderno, definido como construtivista ou construcionista social, o ser humano vive imerso em uma trama de significados que ele próprio constrói no convívio e no diálogo com os outros. Esses significados são configurados pela linguagem na forma de narrativas. As narrativas, por sua vez, organizam a própria experiência humana, servindo de matriz de significados que atribui valor, dá sentido aos acontecimentos da vida.

Grandesso (2000) considera que algumas narrativas favorecem que as pessoas organizem sua experiência e sigam evoluindo para níveis de complexidade cada vez maiores no seu ciclo evolutivo. Contudo, outras funcionam como verdadeiras âncoras que impedem, restringem ou dificultam essa caminhada evolutiva. Uma terapia seguindo esse enfoque caracteriza-se pela criação de um espaço conversacional, no qual terapeuta e cliente em uma perspectiva dialógica

possam co-construir uma nova narrativa, em cuja trama de significados o problema originário não mais se encontre. Entendemos que as histórias nunca são acabadas, estando sempre abertas para ser reescritas. Dessa forma, nos colocamos dentro desta visão novo-paradigmática e estudaremos famílias com dependentes de drogas a partir deste enfoque.

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