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A população brasileira procura suprir a maior parte das suas necessidades de proteína animal através do consumo de carnes bovina, suína e de aves, sendo o

consumo de outros tipos de carne menor (peixe, ovino), seja devido a hábitos há muito enraizados, ou mesmo à maior disponibilidade daá mesmas. Portanto, pode-se afirmar que as carnes suína, avícola e bovina são substitutas entre si.

A evolução do consumo de carne no Brasil é semelhante àquela observada nos Estados Unidos e na Europa. Naquelas regiões, no pós-guerra, os avanços tecnológicos nas áreas da genética e da nutrição, conduziram a elevados ganhos de produtividade das aves, superiores aos obtidos para os outros tipos de carnes. A consequente redução do preço da carne de aves, associada à preocupação com a saúde ou a estética, resultou em alterações substanciais no consumo de carnes. Nos Estados Unidos, o consumo de aves, que em 1960 havia sido de 15,5 kg per capita, atingiu 41,1 kg em 1990, ao pásso que para a carne bovina, a evolução foi de 60,5 kg para 54,5 kg nos dois anos considerados. Na Comunidade Econômica Européia, entre 1980 e 1990, o consumo de carne bovina reduziu-se de 6.135 milhões de toneladas para 5.842, enquanto que o consumo de frango aumentou de 3.708 mihões para 4.957 milhões (WILKINSON, 1993).

No Brasil, em 1970 o consumo per capita de carne de frango correspondia a 6,9% do consumo total dos três tipos de carnes, contra 68,7% para a carne bovina e 24,4% para a carne suína. No ano de 1980, o consumo de came de frango havia atingido uma participaçãode 18%, ao passo que a de bovinos e de suínos alcançaram, respectivamente, 65,5% e 16,6%. Para 1993, as participações no consumo total percapita dos três principais tipos de came foram de 35,2% para a de frango, 49,1 % para a bovinos e de 15,7% para a de suínos.

Tabela 18 - Participação das carnes de frango, suíno e bovino no consumo total destes três tipos de carne

__________________________________________________ (Em %)

Tipos de Carnes /Ano 1970 1975 1980 1985 1990 1993

Frangos 6,9 11,7 18 23,1 30,5 35,2

Bovinos 68,7 71,1 65,5 59,1 53,6 49,1

Suínos 24,4 17,2 16,6 17,9 15,9 15,7

Durante a década de 70, o consumo per capita de frango aumentou em 287%, enquanto que o de bovinos e suínos, apresentaram incrementos da ordem de, respectivamente, 42% e 1,2%. Já para a década de 80, observou-se um aumento de 50,6% para a carne de frango, contra reduções de 27,2% e 14,6% no consumo per capita das carnes bovina e suína (tabela 19).

Tabela 19 - Evolução do consumo per capita de carne de frango, bovino e suínos nas décadas de 70 e 80

_______________________________________(Em%) Tipo de carne / Ano Década de 70 Década de 80

Frangos 287,0 50,6

Bovinos 42,0 -27,2

Suínos 1,2 -14,6

Fonte: Elaborada pelo autor a partir de dados de Aves e Ovos, fev. 95

Portanto, a estrutura de consumo de carnes no Brasil sofre modificações, no sentido da expansão do consumo de came de frango em detrimento do consumo das outras duas carnes. A tabela 19, onde são apresentados os preços reais de carcaça de suíno e do frango, ambos no atacado em Chapecó, nos permite verificar que os dois produtos sofreram queda nos seus preços no período de 1985 a 1995. Porém, para a came de suíno, isto não conduziu a um aumento no consumo per capita, por dois motivos. O primeiro refere-se ao fato de que cerca de 75% da came suína comercializada no país ocorre na forma de produtos industrializados, cujos preços impediriam o seu consumo por parcela considerável da população. O segundo motivo relaciona-se à existência de preconceitos por parte dos consumidores em relação à came suína "in natura", baseados na crença de que o consumo deste tipo de came pode trazer problemas de saúde, em decorrência de elevada taxa de colesterol que a mesma conteria, e da imagem de que o suíno, por estar frequentemente "enlameado", estaria sujeito a doenças que poderiam ser transmitidas aos consumidores, através do consumo da came.

Porém, um fator que deve ser associado aos anteriores, para explicar a estagnação do consumo de came suína é a relação de preço entre os produtos

disponíveis no varejo para o consumidor. Nos supermercados, em geral, a carne suína "in natura" apresenta-se na forma de lombo, pernil, costela/paleta. Comparando-se o preço da costela/paleta com o do frango inteiro, tem-se uma vantagem nítida em favor do último (tabela 20)

Tabela 20 - Preço real no atacado em Chapecó da carcaça de suíno e do frango

_______________________ (Em reais) Carne / Ano 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 Carcaça suína 4,1 4,14 2,96 2,93 3,83 2,33 2,31 1,95 2,09 1,9 1,93 Frango 2,1 2,26 2,12 1,84 1,92 1,71 1,44 1,43 1,34 1,22 1,14 Nota: Carcaça suína: preços do kg, no atacado em Chapecó, corrigido pelo IGP-DI

Frango congelado: preço do kg no atacado em Chapecó, corrigido pelo IGP-DI Fonte: ICEPA

A relação de preço entre a carne de frango e a carne bovina auxilia na explicação do crescimento do consumo da primeira. De acordo com a tabela 21, no período 1989 a 1994, ocorreu uma diminuição no preço do frango em relação ao preço do acém no varejo, fato que provavelmente também ocorreu em períodos anteriores, e que teria conduzido os consumidores de carne a ampliarem o consumo da carne de aves.

Tabela 21 - Preço do frango em relação ao acém no varejo, no período de 1989 a 1994

Tído de carne / Ano 1989 1990 1991 1992 1993 1994

Frango 1,80 1,98 1,36 1,24 1,22 1,45 Acém 2,12 1,75 1,99 2,01 2,10 3,42 0,85 1,13 0,68 0,62 0,58 0,42 Frango:resfriado, no varejo, US$/kg

Acém: no varejo, US$/kg Fonte: Aves e Ovos, fev 95

Concluindo, os produtos das duas indústrias enfocadas nesta parte da pesquisa são substitutos entre si e com a carne bovina. O grande desenvolvimento experimentado pela avicultura nacional a partir da década de 70, baseada na incorporação de avançada tecnologia, resultou na redução dos custos de produção e dos preços e em elevadas

taxas de crescimento da produção e do consumo de frangos. Tal fato tomou a carne de frango mais competitiva perante as carnes consideradas substitutas, principalmente em relação à bovina. Já para a carne suína, deve ser lembrado que somente cerca de 25% da sua produção é comercializada in natura e que a estagnação no seu consumo deve-se não somente à uma questão de preço relativo, mas também a preconceitos da população. Portanto, ao se pensar sobre os produtos substitutos para aqueles da indústria suinícola, devem ser considerados, prioritariamente, aqueles que poderiam substituir na preferência do consumidor os industrializados de carnes suína, o que só viria a acontecer no final da década de 80, com o lançamento pela indústria de came avícola, de produtos industrializados, tais como presunto, linguiça, salsicha, hamburguer e outros.

As empresas líderes da indústria de cames enfocadas nesta pesquisa iniciaram as suas atividades no segmento de cames suínas, e entraram no segmento de came avícola ao perceberem o potencial de crescimento oferecido pelo mesmo. Algumas delas atuam também na fabricação de produtos derivados de came bovina. Desta forma, estas empresas, bem como outras de porte médio da indústria, possuem maior flexibilidade para responder às alterações na rentabilidade oferecida nas duas indústrias. Além disto, atualmente vários produtos utilizam na sua composição os três tipos de came.

6.6. CONCLUSÃO DO CAPÍTULO

Neste capítulo foi caracterizada a estrutura das indústrias de came avícola e suinícola, bem como a sua evolução, através do levantamento do comportamento das cinco forças competitivas, o qual será exposto a seguir.

Inicialmente, foi verificado que existe uma tendência de ocorrência de acirrada concorrência nas indústrias, devido às baixas taxas de crescimento do mercado para os produtos derivados de came suína, os elevados custos de armazenamento dos produtos e

a grande importância destas indústrias no faturamento das suas empresas e a ausência de diferenciação para os produtos básicos.

Foi também constatado a ocorrência de fatores que poderiam caracterizar a existência de elevadas barreiras de entrada nas indústrias, tais como economias de escala, forte imagem das marcas das empresas líderes para alguns segmentos de mercado, elevado montante de capital necessário para a firma ingressar de forma competitiva nas indústrias, e o difícil acesso ao principal canal de distribuição de alimentos (os supermercados). Porém, tais fatores não impediram o ingresso de firmas de pequeno porte que sobrevivem seja atuando na clandestinidade e/ou produzindo produtos mais simples que são distribuídos para pequenos estabelecimentos varejistas da periferia. Porém, não se pode se negar que nos segmentos de mercado que englobam produtos mais elaborados, as dificuldades de entrada são elevadas devido aos fatores acima citados.

O principal cliente dos produtos das indústrias enfocadas neste estudo são os supermercados, os quais possuem elevado poder de negociação frente às empresas da indústria devido a fatores, tais como a elevada concentração do setor, a reduzida participação dos produtos da indústria de carnes em seu faturamento, as baixas margens de lucro. Por outro lado, em relação às firmas líderes da indústria de carnes, o poder de negociação dos supermercados é menor devido à forte imagem de marca e à reconhecida qualidade dos produtos daquelas firmas.

Para as indústrias avícola e suinícola, os principais insumos são o milho e a soja (farelo ou grão). Devido à homogeneidade destes cereais, o poder de barganha de seus fornecedores é moderado.

No que se refere à ameaça dos produtos substitutos, têm-se que os produtos das duas indústrias enfocadas neste estudo são substitutos entre si, e que seus produtos básicos (a carne in natura) sofrem a concorrência da carne bovina. As empresas líderes ao atuarem com o processamento dos três tipos de carne não sofrem a concorrência dos produtos substitutos. O mesmo não se pode dizer das firmas que atuam sómente no

segmento de came suína "in natura" que estão sujeitas à concorrência com as firmas que atuam na indústria avícola e bovina.

CAPÍTULO 7 - AS ESTRATÉGIAS DAS EMPRESAS LÍDERES DA