Grosso modo, sua noção de conflito se enquadra na sua teoria de Sociologia Pura ou Formal, posto que entende o conflito como sociação. De fato, como salienta Alcântara (2005), o texto utilizado faz referência à palavra alemã kampf para descrever o fenômeno. Entretanto, essa palavra indica significados distantes do entendimento do conflito como algo exclusivamente negativo. Pode significar uma declaração de guerra, uma batalha, tanto no sentido figurado como no real, o que dá margem a entender, como luta, por exemplo, pela vida5, o que não pode ser visto de maneira negativa, já que está associado à sobrevivência humana.
Isso justifica a importância sociológica do conflito, pois como salienta Simmel (1983a), o mesmo é capaz de modificar os grupos, e, portanto, é uma forma de sociação, pois representa uma maneira pela qual as pessoas se relacionam. Simmel aponta que os motivos podem ser diversos (“ódio, inveja” (SIMMEL, 1983a, p. 122)), mas a forma como ocorre a relação, isto é, a sociação, é o conflito. Afinal, para entrar em conflito são necessários ao menos dois antagonistas, daí seu caráter essencialmente social e, portanto, de relevância sociológica.
Na visão de Simmel (1983a), o conflito não é essencialmente negativo, posto que é capaz de superar antagonismos, ainda que seja por meio da destruição do adversário. Entende que a negatividade e a positividade do conflito são partes de um todo e, portanto, inseparáveis. Percebe-se novamente a busca contínua por uma sociologia da vida prática, pois apesar de ser possível separar analiticamente os lados positivos e negativos de um conflito, eles não podem ser dissociados no mundo real, já que se mostram como consequências do outro.
5 O texto a que Alcantara se refere é “A Natureza Sociológica do Conflito” e que consta nas referências. Esse
texto foi traduzido do inglês e comparado com a versão original em alemão. Vale notar, entretanto, que a versão em inglês disponível no American Journal of Sociology (v. 9, n. 4, 1904) não faz comentário ao termo em alemão. Para conferir significado do termo ver tradução online em:
<http://www.collinsdictionary.com/dictionary/german-english/kampf?showCookiePolicy=true>. Acesso em 7 abr 2014.
Ao salientar não apenas o caráter positivo da existência do conflito, mas também sua existência real nas relações humanas, Simmel (1983a) dialoga com a visão funcionalista clássica (típica da abordagem de Durkheim – que privilegiava a noção de harmonia, ou unidade da sociedade, seja no período pré-moderno por meio da solidariedade mecânica, seja na modernidade com sua solidariedade orgânica), ao deixar evidente que a existência de formas de relação que se opõem à unidade social, precisa ser sociologicamente investigada. A ideia de diálogo é que, por salientar a positividade do conflito, acaba por recuperar sua funcionalidade, algo que Coser viria a capturar posteriormente como será apresentado adiante em sua teoria funcionalista do conflito.
Simmel (1983a) evidencia que o conflito estava sendo negligenciado pela investigação científica dedicada a entender o Homem, posto que estava preocupada apenas com “a unidade do indivíduo e a unidade formada pelos indivíduos, a sociedade” (p. 123), descartando formas ausentes do conceito de unidade. Especificamente, o conflito.
Entretanto, para Simmel o conflito é o elemento de construção da unidade, pois antecede a própria existência e, por causa disso, deve ser desconsiderada na prática a existência de ambientes exclusivamente pacíficos e colaborativos. Mais que isso, indica que a contradição entre as partes é condição necessária para se construir uma sociedade, a qual é formada por meio de doses de “associação e competição” (SIMMEL, 1983a, p. 124).
Tal proposição justifica a ideia presente em organizações, inclusive na empresa investigada, ao menos sob algumas lideranças, de se produzir uma espécie de 'conflito sadio'6, já que a própria teoria de Simmel classifica essa forma de relacionamento como essencialmente positiva.
Além disso, corrobora a ideia de Marx-Engels de que seria a contradição, especificamente a antinomia entre as forças produtivas e as relações sociais de produção, o que alimentaria a luta de classes, e que alteraria de maneira continuada o curso da história. Um ponto significativo dessa complexidade é a ênfase em dois conceitos que Marx dá ao processo de transformação social. Um deles é o conceito de luta de classes e outro o do contínuo desenvolvimento das forças produtivas (SANTOS, 1999).
Independentemente se a solução marxista seria a luta de classes ou o desenvolvimento das forças produtivas (mesmo que uma possa ser o desdobramento da outra), fica claro que o
6 Essa frase, 'conflito sadio', foi me passada em uma conversa informal com um gerente de engenharia. Ele citou
entre aspas pois, contrariamente ao senso comum, ele era um gerente que não gostava dessa política institucionalizada de se buscar o conflito entre departamentos para se impulsionar a produtividade, mas que observava isso em sua chefia.
desenvolvimento, a mudança, enfim, a construção do futuro, passa pela existência do conflito, seja por meio da luta em si, ou na busca constante pela mudança tecnológica.
Simmel (1983a) chega a sugerir que, em vez de se pensar o resultado do conflito como sendo o resto de uma operação matemática, deve ser visto como a parte principal, ou seja, como uma somatória de esforços cujo resultado é a construção da unidade da realidade após o desenrolar do conflito.
A unidade final que Simmel aponta pode ser tanto o consenso, no nível das ideias individuais, quanto ao resultado da interação entre pessoas, o qual se apresenta nas formas culturais finais. Em outras palavras, para Simmel não se deve pensar no resultado a partir dos olhos de um ou outro indivíduo, isto é, nem pelo ponto de vista do vencedor nem do vencido, pois essas partes podem se mostrar contrárias à forma final. A ideia é que seja avaliado o resultado final dos eventos. Puramente isso (SIMMEL, 1983a).
Essa é de fato uma importante contribuição sociológica de Simmel. O parágrafo anterior aponta para uma questão metodológica que passa quase que despercebida na análise que é feita em geral de Simmel. Ele, como Weber, compartilha do mesmo esforço na busca por uma neutralidade axiológica. Isso passa a exigir, nesta pesquisa, um distanciamento tanto dos indivíduos quanto da organização para poder analisar os resultados dos relacionamentos em seu interior.
A solução encontrada foi tirar o foco da organização em si, admitindo inicialmente que o comportamento conflituoso era comum a várias das empresas, e focalizando em posições estruturais dos indivíduos, o que também encontrava ressonância na teoria de Dahrendorf, a qual será detalhada adiante.
O conflito se apresenta ainda como elemento de integração do grupo. Simmel (1983a) indica que esse efeito (a integração) pode ocorrer tanto em uma micro quanto em uma macroesfera.
No exemplo de um grupo menor, como um casal, percebe-se que nem sempre os grupos se diminuem (ou se extinguem, caso o grupo pequeno seja um casal que decide se divorciar) com a quantidade de conflito que existe em seu interior. Além disso, a discordância em relação a um membro do grupo não pode ser vista como um acontecimento negativo, mas como algo que estimula o desenvolvimento do grupo. O conflito no interior de um grupo pequeno pode ainda, segundo Simmel (1983a), proporcionar momentos de satisfação individual, quando se discorda de algo considerado inconveniente.
No nível macro, mesmo um sentimento de repulsa é positivo por possibilitar o afastamento necessário de diversas pessoas, evitando que uma aproximação maior se tornasse
um sentimento ruim. É essa forma de antipatia que possibilita a vida social na metrópole, indicando que nesse caso, o conflito opera como elemento que possibilita a socialização, já que na medida que existe afastamento de determinados indivíduos, há, como resultado desse afastamento, outras aproximações, e não o contrário (SIMMEL, 1983a).
Por sua vez, Simmel salienta que não é o conflito que dá forma a estrutura social, a qual só surge a partir do momento em que o evento conflituoso se alinha com outros elementos de unificação. Como comentado, é necessário sempre ter o todo em mente. O conflito se apresenta, portanto, como mais uma forma de relacionamento social. Indica como as pessoas se relacionam, mas não é ele que sustenta de maneira indefinida um grupo real. O mesmo raciocínio pode ser usado para avaliar qualquer outra forma de relacionamento. Cita por exemplo, a divisão do trabalho, uma forma de relacionamento social que por si só não é suficiente para manter a unidade de um grupo (SIMMEL, 1983a).
Simmel observa ainda que conforme sua posição em uma estrutura social, é possível ao indivíduo alterar sua posição diante do conflito. Citando como exemplo os nobres na Idade Média, mostra que eram simultaneamente um grupo coeso e competidores entre si. Coeso, pois representavam a nobreza e, portanto, defendiam seus interesses em conjunto. No entanto, pelo fato de que sua instituição não era madura o suficiente, nos embates pelo grupo, as posições podiam variar desde a cooperação até a oposição ou competição entre os membros (SIMMEL, 1983a).
Por fim, Simmel (1983a) indica que a oposição entre os elementos de um grupo pode ser uma forma de relacionamento, ou, em outras palavras, uma forma de sociação. Cita como exemplo metodológico, uma relação de A com B. Essa relação pode se dar de três formas. Na primeira, A age para beneficiar B. Na segunda, para se beneficiar. Por fim, para prejudicar B.
Apesar de aceitar que há casos que desqualificam sua proposta, como no caso de um ladrão que assassina sua vítima, entende que nos mais complexos relacionamentos humanos em que o conflito esteve presente, este se apresentou como sociação. Como exemplo histórico cita o ódio endereçado aos lombardos no século VI, quando exigiam impostos dos vencidos: esse ódio funcionava como elemento de coesão, ao mesmo tempo em que, por meio de interesses comuns entre os grupos conflitantes, possibilitou uma organização comum futura. Isso sem contar a luta decorrente do prazer de lutar, já que resultados positivos poderiam ser obtidos por outros meios em alguns casos (SIMMEL, 1983a).
A complexidade de se entender o conflito como sociação é que na relação entre A e B, o quantum de esforço que cada um coloca no empreendimento proporciona diversas e variadas formas de relacionamento (SIMMEL, 1983a). Entenda-se que, se numa relação de A com B, B
age no sentido de prejudicar A, mas por meio de ações que produzissem um pequeno dano, a reação de A não seria a mesma se a ação de B fosse de alto impacto.
É possível inferir que a base dessa complexidade se assenta no esforço de Simmel em atribuir ao indivíduo importância nas relações sociais. Vê-se, ainda, que o individualismo de Simmel se aproxima muito da sociologia compreensiva de Weber, em que o sentido da ação é aquele atribuído ao sujeito (WEBER, 1978).
Com essa última proposta, isto é, com o reconhecimento que há competição entre os indivíduos, é que Simmel abre espaço, definitivamente, para que de fato se possa discutir de maneira prática a questão do conflito em um ambiente organizacional. Longe dos modelos de solidariedade que se calam para essa forma fundamental de coexistência e relacionamento, a competição existe, envolve indivíduos isolados ou grupos, bem ou mal estabelecidos, grandes ou pequenos.
Envolve desde uma criança que compete com o irmão pelo carinho da mãe, até na área de relações internacionais, quando se discute a relação entre países beligerantes ou concorrentes comerciais. Tal abordagem, portanto, possibilita a análise de grupos e indivíduos no interior das organizações, em situações ou ambientes não harmoniosos. Tais situações permitem ainda, como desdobramento do processo conflituoso, o estabelecimento de alianças entre grupos e indivíduos, que podem ser mais ou menos duradouras.
Simmel (1983b) dedica espaço privilegiado para tratar de uma forma específica de conflito, o qual observamos no interior da indústria da TI: a competição. O autor aponta que o que a caracteriza sociologicamente, é o fato de na competição o conflito ser indireto. Entende assim, pois há situações em que a vitória, ou a eliminação de um adversário, não implica em confronto franco e direto.
Outra característica importante da competição é que em sua forma pura, a luta pela conquista do prêmio também é indireta, pois o prêmio não é parte do derrotado obrigatoriamente, mas pode vir de outra fonte (SIMMEL, 1893b). Tomando como referência as disputas esportivas, podemos entender que o prêmio material a ser recebido pelo vencedor não é parte do patrimônio do derrotado, mas por exemplo, fornecido por um patrocinador.
No caso desta pesquisa, o prêmio não é dado pelo derrotado, mas pela organização. Vale salientar, entretanto, que a prática é ainda mais complexa, pois algumas premiações ou reconhecimentos aos indivíduos da organização implicam, necessariamente, que outros indivíduos não a receberão, como no caso da avaliação de desempenho, descrita no capítulo 5, em que apenas uma parcela da organização estaria entre os melhores avaliados, e que receberiam um reconhecimento diferenciado ao fim do período de avaliação (na observação
feita, o período de avaliação era anual).
Apesar de reconhecer que o vitorioso obtém prestígio (que pode ser à custa da perda de prestígio do derrotado), Simmel (1983b) aponta que o conflito se diferencia da competição pois em muitos casos a vitória no conflito em si já representa o prêmio, ao passo que na competição, há pelo menos duas possibilidades adicionais de avaliação.
A primeira é quando a primeira necessidade da vitória é desmerecer o competidor para que sejam obtidas vantagens futuras. Cita como exemplos o caso de um comerciante que consegue provar que seu oponente atua de maneira inadequada, ou de uma religião que consegue se apresentar como uma solução espiritual melhor que sua concorrente. Tanto em um quanto em outro caso, a vantagem só será de fato obtida se os clientes do derrotado migrarem para o vencedor, seja no comércio ou na religião. Caso contrário, a vitória não significará nada (SIMMEL, 1983b).
Esses casos evidenciam para Simmel (1983b) que o objetivo da competição não se resume apenas à vitória sobre o oponente, mas sobretudo nas consequências dessa vitória, ou seja, se ela trouxe benefícios indiretos, e que se encontram muito além da derrota do adversário. Tal proposição nos permite pensar que pode ser preferível a submissão do oponente, deixando-o em uma situação constrangedora, em vez de sua completa aniquilação. No caso de um conflito na indústria, a derrota de um competidor pode se transformar ou em sua demissão, ou se materializar em uma avaliação de desempenho ruim.
A primeira opção pode trazer à arena de combate um novo competidor, talvez mais forte, o que no longo prazo pode representar uma ameaça ou prejuízo ao então vencedor, ao passo que simplesmente a manutenção do derrotado em uma posição de inferioridade, mantém o vencedor por mais tempo em posição de destaque na organização, o que transforma sua posição em capital simbólico e material.
Isso é muito distinto de conflitos motivados por formas de antagonismo extremo, como sentimentos de vingança e ódio, que, entendemos, apresentam forte influência simbólica, tornando a vitória o prêmio maior, e em muitos casos, com a extinção do inimigo. Entre os exemplos há os casos de genocídios causados por conflito étnico, como ocorridos em Ruanda em 1994 e na Bósnia em 1995.
A segunda forma de se avaliar uma competição é quando ela envolve apenas a vitória, sem que seja considerada a existência de um oponente. Simmel exemplifica isso na forma de um corredor que compete para cumprir seus objetivos de tempo e, como consequência, superar o adversário na eventual competição. Ou ainda, no caso de um pregador religioso que deve catequisar um certo número de pessoas (SIMMEL, 1983b).
Apesar de nos dois casos haver outros indivíduos na competição, a ideia que Simmel quer passar é que nessas situações o mais importante é a meta, seja de cumprir a corrida abaixo de um determinado tempo, ou ensinar a doutrina a um certo número de pessoas por dia, independentemente se há pessoas correndo na mesma pista ou tentando evangelizar o mesmo público alvo, “como se não existisse nenhum adversário, mas a meta somente” (SIMMEL, 1983b, p. 136).
É sobretudo uma forma de conflito muito peculiar, pois além de não haver contato entre os competidores, o prêmio adquire dimensões simbólicas, mas não menos objetivas, e que vão muito além do prêmio em si. Mais que uma disputa individual e subjetiva, a vitória nesses casos pode representar um reconhecimento em um esfera “supra-individual, objetiva e social” (SIMMEL, 1983b, p. 137).
É facilmente perceptível que a conquista de almas ultrapassa a questão individual, atendendo “a realização de valores exteriores” (SIMMEL, 1983b, p. 137). O reconhecimento pela vitória na competição é particularmente importante quando o reconhecimento ocorre no interior de círculos sociais em que os competidores fazem parte. Podemos citar como exemplo, o caçador que traz as maiores caças para sua aldeia, pois além do reconhecimento intersubjetivo, há, como bem aponta Simmel (1983b), a realização pessoal.
O caso do caçador é muito representativo, pois ultrapassa a esfera individual, para significar um meio de continuação da existência do grupo, obtendo ainda mais reconhecimento simbólico, o que acaba por refletir na satisfação individual.
Mas o que é fundamental para Simmel é o potencial sociativo do conflito, e o mesmo também está presente na competição. Uma evidência é que muitas vezes a competição entre dois indivíduos visa obter uma aproximação ou o benefício junto a um terceiro, como no caso da competição entre irmãos, em que o resultado esperado é obter mais benefícios, o que pode ser na forma de um simples carinho de sua mãe ou pai.
Para Simmel (1983b), o que sedimenta essa posição é que, sem desmerecer ou mesmo subvalorizar os efeitos do conflito, a competição acaba por exigir dos competidores uma aproximação com seu competidor, visando conhecer suas forças e fraquezas, ou mesmo estabelecer canais de conexão com ele, estabelecendo dessa forma, a interação social.
Simmel (1983b) indica que a competição é o elemento que sintetiza a sociedade, pois está presente em eleições partidárias que constituem o elemento vital na política. Apresenta-se, portanto, mais como uma luta que visa a um benefício comum do que um embate generalizado, pois exige que seus competidores interajam com o tecido social, na tentativa de se anteciparem a tendências e demandas. O não atendimento das necessidades sociais levantadas pode resultar
desde uma derrota eleitoral, até a perda de clientes. Pode-se afirmar, inclusive, que afeta o prestígio local dos competidores.
Mesmo diante dessas fortes evidências, Simmel (1983b) não negligencia as eventuais perdas decorrentes do conflito, pois muito da energia colocada na competição poderia estar voltada à realização de tarefas produtivas. Porém, a competição em que a forma é do tipo um contra outro para um terceiro, ou seja, aquele tipo de relacionamento da disputa entre irmãos, ou disputa por uma conquista amorosa, traz ao menos três compensações importantes.
A primeira é dar ao vencedor uma sensação de sucesso, pois como lembra Simmel, é uma luta também por aplauso, e que só ocorre, e na intensidade devida, por causa das comparações que são feitas como decorrência do conflito (SIMMEL, 1983b).
Esse raciocínio permite entender que os líderes que darão unidade e confiança ao grupo, seja ele do tamanho que for (por exemplo, desde a família até a nação), e independente da esfera de atuação (pode ser tanto comunitário, organizacional, geográfico ou político), só surgem como resultado desse tipo de disputa.
Essa já seria a segunda compensação, pois a competição entre oponentes opera no sentido inverso do processo de evolução da solidariedade. Em outras palavras, se o esgotamento dos processos de solidariedade primitivos deram espaço a formas de solidariedade descentralizadas, que segundo Simmel foram originadas pelo desdobramento do crescimento físico dos grupos sociais, essa nova forma de solidariedade opera, ainda conforme Simmel, separando os indivíduos. A reversão só seria possível por meio de um processo conflituoso (SIMMEL, 1983b). Percebe-se aqui o distanciamento da teoria de Durkheim.
Nas palavras de Simmel (1983b), “o esforço do homem em direção ao homem, sua adaptação ao outro, só parece possível ao preço da competição” (p. 140). É portanto, segundo esse raciocínio, a competição que une a sociedade. Mais ainda, é ela que assegura em alguns casos a coesão de grupos, que encontram na disputa o cimento da união que possibilitará a manutenção de sua existência.
Por fim, como muitas vezes a luta de um contra outro por um terceiro ocorre mesmo com a pré-existência de coalisões, ou atritos diversos entre as três partes, como no caso em que o terceiro tenha uma relação com o primeiro em outra esfera (SIMMEL, 1983b), tal circunstância faz com que o conjunto das interações sociais se aprofunde, sugerindo, um