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Adapter le modèle « plan d’accouplement » aux exigences du terrain

Conforme já alertamos neste trabalho, a qualidade do trabalho com a leitura na Educação Básica passa em grande medida pela qualidade dos materiais que nela são inseridos. Um dos mais representativos materiais no panorama educativo atual são as coleções de livros didáticos. Nesta seção, exporemos algumas características desse objeto e explicitaremos os resultados de algumas pesquisas que buscaram verificar a abordagem dada para a leitura nos LDPs na atualidade.

Em sua maioria os livros didáticos de Língua Portuguesa possuem um feitio muito uniforme, obedecendo a uma estrutura típica. Segundo Bezerra (2001, p. 33), o livro didático é composto por unidades, lições e módulos, em que são trabalhados um tema e o conteúdo através de textos e seguidos de atividades propostas para serem executadas por professores e alunos.

Por sua vez, essas unidades estão subdividas por texto, vocabulário, interpretação, gramática e produção de textos, juntamente com as respectivas ilustrações. Cada unidade é composta por um texto básico que será posto em estudo e por outros complementares que servirão de base para alguns exercícios, principalmente de gramática, e outros que figuram apenas como modelo para os alunos.

Quanto à presença dos textos nos livros didáticos, ela nem sempre foi concebida da forma como se encontra atualmente. Bezerra (2001, p. 34) relata que anteriormente os livros eram

formandos apenas por textos literários que serviriam de modelo para os alunos. Com a evolução do conceito de texto, os autores desses manuais foram sendo levados a incluir um número cada vez maior de textos, fazendo com que a diversidade de gêneros paulatinamente se ampliasse. A princípio foram incorporados apenas os textos jornalísticos e as histórias em quadrinhos. Posteriormente, foram então incorporados os gêneros de outras esferas de atividade humana, de modo que se chegou à seleção atual de textos possíveis para os livros didáticos. Esse movimento tem a ver com a noção de língua que imperava nos contextos de produção das coleções.

Junto à seleção textos, são propostas diversas atividades de leitura e escrita de textos. Porém, segundo Marcuschi (2001b, p. 19), “com poucas exceções, a maioria dos LDP trabalham regras (no estudo gramatical); identificam informações textuais (nos exercícios de compreensão) e produzem textos escritos (na atividade de redação)”. Portanto, apesar de já percebermos uma diversidade de gêneros, a sua abordagem ainda seria repetitiva e uniforme para qualquer tipo de texto.

No que se refere exclusivamente às atividades de leitura, Marcuschi (2001b) analisou algumas coleções de LDP das séries finais do Ensino Fundamental com o objetivo de verificar o trabalho desenvolvido com a leitura. Pelos resultados encontrados, o autor pode perceber um número grande exercícios formulados nas seções de leitura dos capítulos. Porém, ao analisar a natureza das perguntas, o autor chegou a conclusões não muito animadoras.

1) A compreensão é considerada, na maioria dos casos, como uma simples e natural atividade de decodificação de um conteúdo objetivamente inscrito no texto ou uma atividade de cópia. […]

2) As questões típicas de compreensão vêm misturadas com uma série de outras que nada tem a ver com o assunto, especialmente questões formais.

3) É comum os exercícios de compreensão nada terem a ver com o texto ao qual se referem, mas serem apenas indagações genéricas ou apenas indagações de ordem subjetiva que podem ser respondidas com qualquer dado.

4) Os exercícios de compreensão raramente levam a reflexões críticas sobre o texto. (MARCUSCHI, 2001,p. 49)

Os resultados demonstram que a compreensão é confundida com o processo de identificação de informações textuais, e a linguagem é tomada como um código. O próprio autor ressalta que desde a época em que os dados foram colhidos muito tem sido feito referente ao aumento da qualidade dos livros didáticos. Essa melhoria em muito se deve ao processo avaliativo empreendido pelo PNLD, do Ministério da Educação.

Entretanto, apesar da melhora alcançada nos últimos anos, em Souza (2005, p. 131) temos a evidência de que é preciso caminhar muito para se chegar a um panorama desejável. A autora em seu estudo mostra que o panorama do LDP apesar de estar um pouco mais promissor ainda não dá conta do desenvolvimento das inúmeras habilidades exigidas de leitores autônomos. Em pesquisa com uma coleção de livros didáticos de Língua Portuguesa das séries finais do Ensino Fundamental, a autora constatou que, entre todas as habilidades que o livro didático busca desenvolver, a mais trabalhada foi a de localizar informações explícitas no texto, sendo que as demais habilidades foram trabalhadas, mas num percentual muito pequeno. A pesquisadora ressalta ainda que apesar de a coleção de livros apresentar um projeto editorial com qualidade gráfica, no que se refere ao trabalho com as atividades de leitura, a abordagem de operações cognitivas elaboradas, como a produção de inferência, ainda é tímida e pouco enfatizada.

Os livros didáticos destinados ao Ensino Médio geralmente são divididos em três grandes blocos: o primeiro, relativo ao estudo da leitura e da produção de texto; o segundo, com ênfase na análise linguística, trabalhando os conteúdos gramaticais; e o terceiro com foco no estudo de texto literários, espaço dedicado à análise das obras sob a ótica da historiografia literária. Apesar de os conteúdos se encontrarem em uma mesma obra – algumas coleções são até em volume único – o que se verifica, naqueles que examinamos, é uma tendência à segmentação, não havendo, muitas vezes, uma preocupação em articular os conteúdos das três seções de cada volume e das atividades das três séries do Ensino Médio.

Os livros didáticos de Língua Portuguesa destinados ao Ensino Médio em alguns aspectos se assemelham aos produzidos para o Ensino Fundamental, mas em certos pontos possuem suas especificidades. Bem como os do Fundamental, eles também são organizados em unidades que se subdividem em capítulos. Estes por sua vez mesclam textos e atividades de análise, algumas com foco conceitual outras com foco na interpretação dos textos.

Apesar dessas semelhanças, existem também diferenças muito bem delimitadas no feitio dos manuais do EM. A primeira delas diz respeito à divisão dos volumes da coleção em três partes: uma dedicada ao estudo da Literatura, uma dedicada o estudo dos tópicos da Gramática Tradicional e a terceira com a função de concretizar propostas de Produção de Texto.

Essa tripartição relembra, de certa forma, a época em que os alunos estudavam a Língua Portuguesa por meio de um volume de Gramática Tradicional e antologias poéticas que

configuravam o modelo textual a ser alcançado pelos aprendizes presentes nas salas de aula do país.

Outro aspecto diferenciado do LDP do EM é a eleição do eixo organizador de cada uma das partes dos volumes. A parte de Literatura e Reflexão Linguística obedece a uma organização temática, porém esta se difere do que é feito nas coleções de Ensino Fundamental. Nas coleções destinadas a turmas do 6° ao 9° ano, o autor elege certo tema transversal, como, por exemplo, “namoro” e por meio dele estrutura a sequência de atividades do capítulo. No EM o tema organizador do trabalho não se trata de um tema transversal, mas dos inúmeros conceitos a serem trabalhados em uma cada das áreas. No caso da literatura, os temas são as escolas literárias, que são contextualizadas, analisadas por meio de textos e atividades dos capítulos, que vão se configurando no volume por meio da ordem cronológica em que ocorreram. Já na parte de Análise Linguística, na maioria das vezes, o tema dos capítulos se faz de tópicos da gramática tradicional a serem estudados na ordem em que os conteúdos aparecem na GT. Já a parte de produção de texto, tem passado por uma mudança nos últimos anos. Já existem coleções que adotam como eixo organizador o gênero, mas ainda há as que se organizam pelas velhas classificações descrição, narração e dissertação.

Esses são os moldes atuais dos LDPs de Ensino Médio sobre os quais lançaremos um olhar investigativo no que se refere a algumas habilidades de leitura. Tendo como base os conceitos acima expostos, buscaremos analisar as obras didáticas no que se refere ao trabalho com os gêneros textuais no ensino de leitura, procurando contribuir para uma maior compreensão sobre o papel dos livros didáticos no estudo dos gêneros textuais em sala de aula, avaliando a progressão e a articulação das atividades de leitura que eles propõem.