3.3. CADRE, MATERIEL ET METHODE DE L’ETUDE
3.3.2 Matériel
Embora considerado epitélio e mucosotrópico, o BPV pode infectar fibroblastos, causando lesões semelhantes a sarcomas, conhecidas por sarcóides equinos (CHAMBERS et al., 2003). O sarcóide equino foi descrito pela primeira vez por Jackson (1936), sendo considerado um tumor bifásico, pois afeta o componente epitelial e mesenquimal. O sarcóide equino, conhecido também por fibroma ou fibrossarcoma (CHAMBERS et al., 2003), corresponde a uma neoplasia benigna da pele mais observado em cavalos desde a sua descrição (BERGVALL, 2013; JACKSON, 1936; OTTEN et al., 1993; NASIR; REID, 1999; MARTENS et al., 2000; MOSSERI et al., 2014). Entretanto, diferentemente dos papilomas, os sarcóides raramente apresentam regressão espontânea (ANGELOS et al., 1991). Os sarcóides equinos afetam animais entre um e seis anos (OTTEN et al., 1993), causando neoplasias benignas fibroblásticas altamente invasivas, porém não metastáticas.
(NASIR; REID, 1999). Tais tumores causam uma substancial morbidade e importantes prejuízos econômicos (CHAMBERS et al., 2003) uma vez que provocam alterações estéticas e comprometimento funcional (ANGELOS et al., 1991; OTTEN et al., 1993). Estima-se que 11,5% de todos os cavalos devam apresentar sarcóides ao longo de suas vidas (KNOTTENBELT, 2005).
O sarcóide apresenta etiologia multifatorial (BERGVALL, 2013). Entretanto, os Deltapapillomavirus são reconhecidos como principais agentes etiopatogênicos da doença (BERGVALL, 2013; BOGAERT et al., 2008; CHAMBERS et al., 2003; NASIR; REID, 1999). A associação entre sarcóides e o BPV foi primeiramente demonstrada por Olson e Cook em 1951 (BRANDT et al., 2008). Sequências de BPV-1 e 2 são identificadas em 100% dos sarcóides (MARTENS; DE MOOR; DUCATELLE, 2001; GAYNOR et al., 2015). Além do mais, sequências destes tipos virais são encontradas em mais de 2/3 de cavalos sadios e assintomáticos (BRAVO; SANJOSÉ; GOTTSCHLING, 2010). Entretanto, tais neoplasias são consideradas sítios de infecção abortiva, uma vez que a presença de vírions não foi reportada até o momento. (BOGAERT et al., 2008, 2010; BRANDT et al., 2008; NASIR; REID, 1999), embora a presença de transcritos de L1 de BPV-1 foi identificada por meio de RT-PCR em sarcóides (NASIR; REID, 1999). Estudos recentes consideram que infecções produtivas são caracterizadas pela expressão das proteínas estruturais (L1 e/ou L2) (NASIR; REID, 1999). No entanto, a confirmação da presença de partículas virais requer a análise de microscopia eletrônica de transmissão (MET) (BOGAERT et al., 2010).
Além do mais, assim como nos bovinos, o vírus pode se manter assintomático, permanecendo latente na derme e/ou epiderme. (BERGVALL, 2013; BOGAERT et al., 2008; BRANDT et al., 2008). A latência pode ser definida pela presença de DNA viral sem nenhuma evidência clínica ou histopatológica da infecção (BOGAERT et al., 2008). Estudo mostra que 70% dos cavalos assintomáticos portadores do BPV vivem em contato direto com o gado (BERGVALL, 2013). Este dado sugere que a infecção cruzada do BPV em equinos representa uma infecção errática (OTTEN et al., 1993).
A latência viral é outra característica compartilhada entre BPV e HPV. Estudos mostram que o BPV pode se manter em latência tanto em bovinos (ARALDI et al., 2013a; SILVA et al., 2013b) e equinos (BOGAERT et al., 2008), quanto em humanos infectados pelo HPV (ASTORI et al., 1998; FORSLUND et al., 2004;
MARAN et al., 1995). Entretanto, a presença do vírus induz alterações cromossômicas (MELO et al., 2011; STOCCO DOS SANTOS et al., 1998), incluindo a clastogênese, que eleva a susceptibilidade ao câncer (ARALDI, 2015; ARALDI et al., 2013a, 2015a; CALINISAN et al., 2002).
Os sarcóides são observados com mais frequência em áreas mais susceptíveis a traumatismos, tais como: abdómen, pescoço, região paragenital e peitoral (ANGELOS et al., 1991; OTTEN et al., 1993; MARTENS et al., 2000). Estudos mostram o trauma tecidual como fator necessário à manifestação clínica da doença (BOGAERT et al., 2010).
Algumas raças como a Árabe são mais susceptíveis ao desenvolvimento de sarcóides (BOGAERT et al., 2008; KNOTTENBELT, 2005). A razão para isto é a presença de certos haplótipos do MHC-II, como W3 e B1, que se mostram mais predispostos à gênese de sarcóides (CHAMBERS et al., 2003). A presença de determinados alelos do MHC-II leva a respostas imunológicas que favorecem a infecção pelo BPV (BOGAERT et al., 2008; CHAMBERS et al., 2003). Estudo aponta ainda um forte padrão familial de susceptibilidade ao sarcóide, sugerindo uma contribuição autossômica recessiva (KNOTTENBELT, 2005).
Os mecanismos de transmissão do BPV em equinos ainda permanecem não totalmente elucidados (BOGAERT et al., 2008; CHAMBERS et al., 2003). Entretanto, acredita-se que os insetos sejam os principais vetores de transmissão (CHAMBERS et al., 2003; YUAN et al., 2007). Isto porque, sequências de BPV-1 foram encontradas em moscas Musca automnalis, Fannia carnicularis e Stomoxys calcinatrans (BERGVALL, 2013).
Em seu hospedeiro usual (bovinos), a infecção pelo BPV tem início na epiderme, migrando para a derme, onde pode infectar fibroblastos e induzir a transformação (BOGAERT et al., 2010). Entretanto, em equinos, onde o vírus encontra uma condição sub-ótima, a infecção tem início na derme, a qual não permite sustentar o ciclo de replicação viral, que é dependente da diferenciação do epitélio (BOGAERT et al., 2010). Desta forma, o BPV pode resultar em uma infecção abortiva, que favorece a progressão maligna, ou o vírus infecta queratinócitos, iniciando seu ciclo de replicação (BOGAERT et al., 2010). Estes dados sustentam a co-evolução dos papilomavírus com seus hospedeiros, revelando uma adaptação do BPV ao ecossistema equino (BOGAERT et al., 2010).
Os sarcóides equinos são classificados em seis diferentes histiotipos: oculto, verrucoso, nodular, fibroblástico, misto e maligno (KNOTTENBELT, 2005), conforme figura 11. Estudo aponta que 84% dos cavalos apresentam mais de um tipo histológico de sarcóide (GOODRICH et al., 1998).
Figura 11 - Classificação dos diferentes tipos de sarcóides equinos
Sarcóide oculto na região medial da coxa (A), sarcóide verrucoso na face (B), região periocular (C) e dos ombros (D), sarcóide nodular tipo A (E) e tipo B (F) na região medial da coxa, sarcóide fibroblástico tipo 1 (pedunculado) no abdómen ventral (G e H) e tipo 2 (séssil) na face (I), sarcóide misto na região axilar (J), sarcóide maligno (K e L). Fonte: Modificado de Knottenbelt (2005).
Os mecanismos patogênicos do sarcóide ainda são pouco compreendidos (BOGAERT et al., 2010). Os sarcóides são caracterizados por lesões com intensa proliferação de fibroblastos organizados em espirais ou feixes fusiformes, semelhantes àqueles observados em fibropapilomas (MARTENS et al., 2000). O componente epidérmico, presente apenas em sarcóides verrucosos e mistos, encontra-se hiperplásico e hiperqueratótico (MARTENS et al., 2000), apresentando uma invaginação dérmica (BOGAERT et al., 2010). Outra importante característica histopatológica destas lesões é a presença de fibroblastos anaplásicos e pleomórficos, com orientação perpendicular à membrana basal, observados na junção dermo-epidermal (MARTENS et al., 2000). Estudo envolvendo CISH aponta uma maior quantidade de DNA viral nesta junção (BOGAERT et al., 2010), justificando a transformação fibroblástica observada nesta área (MOSSERI et al., 2014).
O comportamento invasivo do sarcóide se deve ao aumento nos níveis de expressão de diferentes metaloproteinases (MMPs), como: MMP-1, 2 e 9 (MOSSERI et al., 2014; YUAN et al., 2010). A MMP-1 degrada a laminina e o colágeno IV, levando a perda da arquitetura e desorganização tecidual (MOSSERI et al., 2014), ao mesmo tempo em que promove a invasão da matriz extracelular, conforme já mostrado em ensaios de migração em Matrigel 3D (YUAN et al., 2010). A invasão tecidual representa a maior dificuldade terapêutica no tratamento do sarcóide equino (MOSSERI et al., 2014).
Os mecanismos moleculares do sarcóide equino são pouco compreendidos (YUAN et al., 2007). Estudos envolvendo a imunodetecção da proteína supressora tumoral p53 por meio de imunoistoquímica em tecido parafinado (IHQ-P) apontam uma imunomarcação perinuclear, sugerindo um sequestro citoplasmático de p53 ( CHAMBERS et al., 2003; MARTENS et al., 2000; YUAN et al., 2008). Além do mais, não se observa perda de função do gene TP53, de modo que o fenótipo selvagem é preservado (YUAN et al., 2008).
Atualmente os tratamentos disponíveis para o sarcóide equino, assim como aqueles usados para a PB, são pouco eficientes ou apresentam diversos efeitos colaterais (BERGVALL, 2013). Entre estes tratamentos, encontram-se: (1) a excisão cirúrgica das lesões, que leva à recidiva da doença em 50-64% dos casos em até seis meses (BERGVALL, 2013; LANCASTER; OLSONF; MEINKE, 1977; MARTENS; DE MOOR; DUCATELLE, 2001; MOSSERI et al., 2014); (2) tratamento a laser, cuja recidiva é observada em 38% dos casos (MARTENS et al., 2001); (3) crioterapia, a qual se mostra ineficiente para lesões acima de 2 cm2 (CARR, 2009) e (4)
quimioterapia com injeção intramuscular de cisplatina em emulsão lipídica ou 5- fluorouracil (5-FU) em emulsão aquosa. Ambas terapias apresentam elevado risco de nefro e hepatotoxicidade (STEWART; RUSH; DAVIS, 2006). Além do mais o tratamento quimioterápico falha por não se estender além da área local afetada (MOSSERI et al., 2014).
Os sarcóides emergem após a exposição a um traumatismo (NASIR; REID, 1999), coincidindo com a biologia da infecção e replicação dos PVs. Por isso, o tratamento cirúrgico resulta em recidiva das lesões, uma vez que a incisão cirúrgica representa um traumatismo tecidual (NASIR; REID, 1999). Acreditava-se que a presença de DNA de BPV nas margens cirúrgicas era responsável pela recidiva da doença (MARTENS; DE MOOR; DUCATELLE, 2001). Entretanto, trabalho recente
mostrou a recidiva da doença após a excisão cirúrgica de tumores cujas margens encontram-se livres de DNA viral (TAYLOR et al., 2014). Este estudo apontou que a recidiva está relacionada à outra via que não a presença de vírus nas margens cirúrgicas. Neste sentido, Nasir et al. (1997) tentaram identificar sequências de BPV em sangue periférico de burros com sarcóide equino. Entretanto, tal tentativa não obteve sucesso. O motivo para a falta de sucesso pode ser justificado pelo desenho do primer empregado no diagnóstico molecular, que deve apresentar uma elevada sensibilidade. Entretanto, Brandt et al. (2008) identificaram pela primeira vez sequências de DNA de BPV em sangue periférico de animais clinicamente afetados pelo sarcóide. A presença de sequências virais em células mononucleadas de sangue periférico (PBMCs – peripheral blood mononuclear cells) é apontada como a principal causa para a recidiva da doença, já que o sangue contribui para a disseminação viral e com a infecção de novo (BRANDT et al., 2008).