Tendo localizado o termo pastoral nos limites bíblicos e históricos penso que se faz necessário olhar para o termo com os óculos de Casiano Floristan que, de directo o sea por via de símbolos y en la totalidad de la comunidad Cristiana) el pastor provee un servicio directamente relacionado con su vocación a toda la comunidad secular. (CASTRO, 1974, p. 107)
forma direta escreve que a práxis se transforma em pastoral sendo uma ação reflexiva e uma ação libertadora, uma práxis transformadora. Deve ser desenvolvida pela Igreja com o objetivo de alcançar o Reino de Deus, desde aqui na terra. “O projeto pastoral de Jesus tem como categoria central a imagem do Reino de Deus, algo que é desejado historicamente, mas não se identifica a limitar-se ao mundo, pois tem uma dimensão utópica, futura” (FLORISTAN, 1983, p. 29).
Sendo a pastoral uma práxis transformadora conforme a definição de Floristan, faz-se necessário também conceituar práxis. Isto porque existe um considerável número da literatura na atualidade que faz o uso da palavra práxis, e porque não dizer o número de autores e autoras que usam o termo. Groome49, buscando as raízes filosóficas como uma via práxis de conhecimento fazendo a seguinte afirmação, “a palavra, contudo, é usada (e mal usada) de diversas maneiras”. A tradução da palavra do inglês pode significar a ação ética decidida, intencional e reflexivamente escolhida, e, desta forma o ideal é recorrer ao original grego para melhor compreensão.
O termo práxis ( ) no grego vem de longa tradição filosófica e designa a ação entendida no campo das relações humanas, da moral e da política. Konder afirma:
A palavra práxis provém do grego antigo: . O termo, ao que parece não era muito preciso; comumente, designava a ação que se realizava no âmbito das relações entre as pessoas, a ação intersubjetiva, a ação moral, a ação dos cidadãos. Era, com certeza, diferente da poésis, que era a produção material, a produção de objetos (KONDER, 1992, p.97).
Afirma também:
Práxis e teoria são interligadas, interdependentes. A teoria é um momento necessário da práxis; e essa necessidade não é um luxo: é uma característica que distingue a práxis das atividades meramente repetitivas, cegas, mecânica, abstrata. Adolfo Sanches Vázquez formulou com clareza a distinção: “Toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis”. A práxis é a atividade que, para se tornar mais humana, precisa ser realizada por um sujeito mais livre e mais consciente. Quer dizer: é a atividade que precisa da teoria (KONDER, 1992, p.116).
Segundo Vaz, “a práxis humana não se pode conceber racionalmente como movida pela vis a tergo50 de uma necessidade exterior” (VAZ, 2004, p.52).
49 Thomas Groome é professor de teologia e educação religiosa no Boston College. Ele é o autor de Educação
Religiosa cristã, amplamente considerado como o mais importante e influente trabalho contemporâneo sobre o tema, e da partilha de Fé, um trabalho fundamental sobre cristã ministério.
É necessário lembrar que a reflexão ética no Ocidente a partir dos pensadores Platão51 e Aristóteles52 “pressupõem as peculiaridades semânticas do termo práxis, cuja significação primordial diz respeito de um lado ao ato do sujeito, ao seu realizar-se na ação e pela ação e, de outro, à perfeição ou excelência que o ato tem em sim mesmo” (VAZ, 2004, p. 85-86).
Relacionando a práxis a perfeição Vaz escreve:
No caso da práxis, com efeito, a perfeição (perfectum, o que é realizado) refere-se primeiramente ao ato e não a um produto do ato como no caso do fazer (poiein): a manifestação do ato no efeito que dele resulta é como a efusão da sua plenitude e não o complemento de uma indigência ou a satisfação de uma carência. É necessário ter presente esse substrato semântico para se compreender plenamente as concepções platônicas e aristotélicas da práxis (VAZ, 2004, p. 86).
A práxis em sua origem possui uma história fundada nas atividades que se realizam entre os seres humanos em suas diferentes manifestações, diferentemente de poésis, atividade ligada à produção humana de objetos, isto segundo Aristóteles. Groome diz que “para Aristóteles, práxis é uma atividade da pessoa total – cabeça, coração e estilo de vida” (GROOME, 1985, p. 234).
Para Aristóteles, o filósofo deve “elaborar a forma própria da theoria que deverá guiar a práxis. Assim, no modelo aristotélico, a razão prática enquanto razão da práxis alcança um estatuto peculiar que a torna uma teoria prática exatamente como teoria da práxis” (VAZ, 2004, p. 96).
Depois de analisarmos a origem histórica da palavra práxis é necessário examinar como esta expressão é usada atualmente. Observa-se que a práxis mantém o sentido original: as múltiplas dimensões do relacionamento humano adquirem na contemporaneidade, a partir da crítica Marxista, um caráter revolucionário, ação humana transformadora do mundo.
Isto porque para Marx53 a emancipação e a liberdade só podem ser postas em prática pela práxis humana dentro da história. Groome afirma que Marx não define claramente práxis, porém chega a dizer que práxis para Marx significa: “a
51 Platão (em grego: , transl. Plát n, "amplo", Atenas, 428/427 – Atenas, 348/347 a.C.) foi um filósofo e
matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental. Juntamente com seu mentor, Sócrates, e seu pupilo, Aristóteles, Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental.
52 Aristóteles (em grego: Ἀ , transl. Aristotél s; Estagira, 384 a.C. – 322 a.C.) o famoso filosofo
clássico, é o autor grego que com maior freqüência usa a palavra práxis em seus textos. Ele também faz esta diferenciação do termo práxis e poésis.
53 Socialista alemão Karl Heinrich Marx, (Tréveris, 5 de maio de 1818 — Londres, 14 de março de 1883), cursou
atividade auto-iniciada e auto-criadora dos seres humanos, que é feita intencional e reflexivamente e que transforma a realidade social no sentido da emancipação humana” (GROOME, 1985, p. 254).
Casiano Floristan a fim de pensar o conceito da práxis, discorre sobre a dicotomia entre a práxis e a teoria, e afirma que em nenhum caso deve-se separar a teoria e a prática, nem tão pouco elas devem se afrontar,
Entre a teoria e a práxis há uma ralação dialética, permanentemente dinâmica, às vezes conflitiva, porém que deve resolver-se em forma de sínteses ao modo de superação. Sem esquecer a primazia da práxis sobre a teoria e que a teoria está em função da práxis (FLORISTAN, 1993, p. 177).
Ao reconhecer a práxis, Floristan faz a seguinte afirmação: “nem toda atividade ou ação do homem é práxis, embora, toda práxis é uma atividade ou ação humana”. A atividade humana é “ação consciente sobre um projeto ou resultado ideal e que finaliza com um resultado real” (FLORISTAN, 1993, p. 179). Para ele, a práxis possui as seguintes características: 1) Ação criadora e não meramente reiterativa; 2) Ação reflexiva e não exclusivamente espontânea; 3) Ação libertadora e de nenhum modo alienante; 4) Ação radical e não meramente reformista. (FLORISTAN, 1993, p. 179-180)
A práxis é uma ação criadora quando adquire certo grau de consciência crítica no agente que atua, ou seja, no indivíduo, e certo nível de criatividade e inovação. O ser humano tem que criar, não pode ficar apenas na repetição ou imitação do existente.
A práxis é ação reflexiva no sentido em que supera o nível espontâneo da prática, existe a necessidade da crítica nas ações humanas. O homem ou a mulher devem conhecer bem o que querem, o que buscam, aonde vão, etc. Agir criticamente faz com que transformações aconteçam a seu tempo e com a devida intenção.
A práxis é ação libertadora no momento em que proporciona transformação real do mundo natural ou social fazendo com que a realidade seja nova, mais humana e livre, nunca alienante.
A práxis é ação radical e tem a intenção de transformar a organização e a direção da sociedade, modificando as relações econômicas, políticas e sociais. A práxis política é a forma mais elevada da práxis radical, pois seu objetivo é transformar as raízes das bases econômicas e sociais em que se assenta o poder das classes dominantes para construir uma nova sociedade.
Sendo assim os cristãos exercem a práxis de forma a promover através dos princípios bíblicos a transformação e a promoção humana no mundo e a partir do mundo. Desta forma, para legitimar a práxis segundo Floristan “é necessário verificá- la, aprová-la e criticá-la desde as perspectivas ideológicas, econômicas e políticas” (FLORISTAN, 1993, p. 180), fazendo isto será possível identificar a ética existente na práxis, quando...
Os cristãos colocam um ponto de referência na indicação prévia, que é a palavra de Deus interpretada pelas Igrejas e admitida pela fé. Mas, essa “axiologia” se baseia em um relato de práxis de salvação no qual se faz presente Deus em Jesus Cristo. A definição surge na ação própria da salvação. Por isso, sem a práxis da fé ou sem a práxis a luz da fé não é possível a auto-compreensão cristã (FLORISTAN, 1993, p. 180).
Para melhor compreensão proponho uma análise, segundo Floristan, dos tipos de práxis, que são divididas em três diferentes níveis, sendo, a primeira a práxis natural; a segunda a práxis no âmbito social e a terceira a práxis humana.
A práxis natural pode ser vista na transformação da natureza, inclui a matéria e se localiza no espaço, também chamada de práxis técnica e econômica, tem a função de servir as necessidades humanas a partir do que se encontra na natureza.
A práxis no âmbito social tem a ver com o universo da política de libertação ou de emancipação. É uma ação global que modifica as estruturas da sociedade tornando-a mais livre e justa. A práxis é desenvolvida em três áreas da vida humana, o trabalho e a produção (movimentos sindicais), movimentos civis, entendendo com isto a sociedade civil organizada, hoje o terceiro setor como as “ONGs” - Organizações não governamentais, as comunidades religiosas, etc., e, por fim os partidos políticos e os seus exercícios no contexto social.
A práxis humana pode ser vista não só a partir do desenvolvimento biológico do homem/mulher, mas principalmente como sócia, que influencia e é influenciado, assim, desenvolvendo sua personalidade livre da alienação que impede a aplicação de suas habilidades no exercício de sua capacidade. Como exemplo posso citar a práxis artística, a práxis cientifica e a práxis simbólica ou de transformação dos símbolos. Balbinot estudando Paulo Freire54, discorre sobre a práxis dialógica que se aplica a ação pedagógica, evidenciando que “trabalho e diálogo constituem duas
54 Paulo Reglus Neves Freire (Recife, 19 de setembro de 1921 — São Paulo, 2 de maio de 1997) foi um
educador e filósofo brasileiro. Destacou-se por seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica.
dimensões essenciais da natureza humana e devem ser compreendidas de maneira interligada” (BALBINOT, 2006, p.143).
Ao analisar o diálogo como práxis, Balbinot escreve:
O diálogo, como práxis, somente é quando está sendo com o estar sendo do ser humano e do mundo. Ele assume um caráter dialético, segundo o qual não pode ser sem estar sendo. É praticamente impossível, a partir dessa ótica, buscar pela ação educativa o ser mais sem agir no mundo, sem dialogar, sem dizer o mundo, sem relacionar o que se diz com a situação concreta-existencial do que está sendo dito, com o sujeito que pronuncia e com o sujeito que reconhece esta pronúncia, pois o que se diz é dito a e por si mesmo e para alguém. Daí que, de um lado, a ação educativa não possa ser definida apenas pelo verbo ser (ela é), mas deste em relação dialética com o verbo estar (ela está sendo) e, de outro, não possa ser concebida como uma relação unilateral, o que implicaria sua não-mediaticidade reflexiva por meio do diálogo (BALBINOT, 2006, p.149).
Pensar a fé cristã na manifestação da práxis religiosa ou porque não dizer da práxis cristã, é também uma forma de identificar a práxis dialógica, uma vez que a fé se dá na comunhão, no viver junto, no compartilhar. Isto promove vida e crescimento, trás esperança conforme afirma Floristan...
A práxis da esperança e do amor ao próximo constitui um momento interno e essencial da fé. Na práxis cristã está presente sempre de novo na história o evento da salvação de (em) Cristo e essa presença cresce no conhecimento da fé. Portanto, a esperança no sentido escatológico da fé, tanto como a caridade (amor) se confere uma dimensão comprometida e comunitária (FLORISTAN, 1993, p. 186).
Isto, uma vez que a verdade de Deus no crente é manifestada pela fé, a práxis cristã se dá no exercício da fé, ou mais, no resultado que esta fé proporciona na vida do crente, por isto a necessidade da realização das obras na vida daquele/a que se diz cristão/ã. “Cristão é quem pratica o amor na medida em que o amor muda as relações sociais mediante ações e práxis realmente humanas”. (FLORISTAN, 1993, p. 186) Ou seja, cristão/ã é aquele/a que atua segundo a práxis de Jesus,
Assim, o crente, enquanto homem que crê, não pode aceitar uma práxis fora de sua fé, nem há de exigir que o não crente necessite de fé para sua práxis. A autonomia do mundo exigida pela racionalidade, não se opõe, para o crente, a soberania de Deus. E, somente através da práxis no mundo, se encontra a Deus como realidade última do mundo, já que Deus se faz presente no homem, em especialmente no oprimido que anseia por uma libertação e que se dispõe a consegui-la (FLORISTAN, 1993, p. 190-191).
Apesar de sua verossimilhança, práxis e prática55 não são termos sinônimos, mas diferentes. Práxis como visto na tradição filosófica adquire na modernidade o
55 Uma informação importante, segundo FLORISTAN, na língua espanhola práxis e prática são termos
sentido de atividade social transformadora do mundo. A Prática não deixa de ser também uma atividade, é, todavia, uma atividade diferente da práxis, ela se refere a atividade pela atividade, tem a ver com o repetitivo, não objetiva nenhuma transformação, como é próprio do caráter da práxis. No dizer de Vázquez, “toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis” (VAZQUEZ, 1977, p. 185). E por fim, afirma este autor, a “prática se basta a si mesma, e o ‘senso comum’ situa- se passivamente, numa atividade acrítica, em relação a ela” (VAZQUEZ, 1977, p. 210).
“A atividade humana é, portanto, atividade que se orienta conforme os fins, e estes só existem através do homem, como produtos de sua consciência. Toda ação verdadeiramente humana exige certa consciência de um fim, o qual se sujeita ao curso da própria atividade” (VAZQUEZ, 2007, p. 222).
Concluindo, a perspectiva apresentada por Casiano Floristan, em sua conceituação é a práxis religiosa, contudo não descarta as demais práxis, a filosófica e educacional. O autor deixa claro que concorda com as demais práxis e busca aplicar seu conceito na vida religiosa. Retomando, Práxis Religiosa para Floristan é a “ação criadora e não meramente reiterativa; é a ação reflexiva e não exclusivamente espontânea; é a ação libertadora e não alienante e por fim é a ação radical e não meramente reformista”.