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A CTIVITE & O RGANISATION

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PARTIE III : PRESENTATION DE SALAFIN

II. A CTIVITE & O RGANISATION

A questão racial não é abertamente discutida nos romances em estudo, embora faça parte do pano de fundo dessas obras, o que já fica claro através da caracterização física dos protagonistas “estrangeiros” na colônia de origem alemã. Geraldo, o protagonista criado por

Vianna Moog, era descendente de índios e tinha pele morena (MOOG, 1939, p. 108); Mário, seu equivalente no romance de Bayard Mércio, era sergipano, de pele amorenada (MÉRCIO, 1940, p. 88). Por isso, devemos compreender a importância do elemento racial no debate sobre a imigração durante o Estado Novo.

Como visto anteriormente, no início do século XX, Sílvio Romero defendia que a mestiçagem era algo positivo para o Brasil, pois quanto mais a raça branca se misturasse com as raças negra e indígena, mais rapidamente o Brasil se tornaria uma nação etnicamente branca, apesar de culturalmente mestiça. A partir das primeiras décadas do século XX, alguns intelectuais começam a discutir essa ideia, tendo como princípio a teoria de Romero.

Em 1933, o antropólogo pernambucano Gilberto Freyre publica sua obra mais conhecida, Casa-Grande e Senzala, na qual apresenta novo enfoque sobre a discussão da mestiçagem racial. Para Freyre, o brasileiro já era mestiço desde a época da colonização do Brasil, pois os portugueses já haviam se mesclado com povos africanos e indianos, em função das conquistas e contatos comerciais que o país fizera desde o século XV. Antes da viagem de Cabral para o Brasil, em 1500, segundo ele, já não era possível encontrar um único tipo físico em Portugal. Com isso, ele afirma a sociedade brasileira já começou híbrida, e não foi novidade quando os portugueses se misturaram ainda mais com os índios nativos do Brasil. E foi exatamente por essa razão que o colonizador, originário do clima frio europeu, adaptou-se tão facilmente à vida nos trópicos, à alimentação, à agricultura e às roupas (FREYRE, 2005).

O primeiro contato, e, por consequência, a primeira mestiçagem que ocorre é de lusitanos e índias. No início da colonização, a grande maioria das pessoas que vinham para o Brasil eram homens. Como o objetivo era colonizar, criar raízes no Brasil, os homens precisavam ter família no Brasil. Com a falta de mulheres brancas, a mulher índia fazia o papel de esposa e mãe de família. Dessa maneira, afirma Freyre que ocorre a primeira troca cultural, pois não há contato, não há mestiçagem, sem esta troca, e, já como família, os índios acabam incorporando elementos da cultura lusitana. Após a formação de família e o intercâmbio cultural, o colonizador lusitano se adapta melhor ao Brasil, e sofre grande influência dos índios. Na língua, ocorrem mudanças, e novas palavras são incorporadas ao idioma português. Na alimentação também ocorrem mudanças, especialmente em relação à farinha, porque aqui não havia trigo, então este produto foi substituído pela mandioca, alimento bastante consumido pelos índios. Além disso, os filhos nascidos dessa mestiçagem de índias com portugueses adaptaram-se melhor ainda ao clima brasileiro (FREYRE, 2005).

No início do século XX, ainda era comum utilizar a hipótese de que a escravidão negra iniciou no Brasil porque, como define Freyre, os nativos “logo se mostrariam incapazes os indígenas molengos e inconstantes” (FREYRE, 2005, p. 80). Portugal já conhecia a escravidão de africanos desde, pelo menos, o século XV, e já tinha muitos lucros com o tráfico. Assim, com a colonização no Brasil, a opção pelo tráfico negreiro torna-se bastante atrativa, pois, além de ser um negócio bastante lucrativo, o negro também vinha dos trópicos, e, por essa razão, será bastante adaptável ao clima brasileiro. Então, com o início da escravidão, chegou ao Brasil a terceira raça formadora da nação brasileira: a raça negra.

Assim, temos a teoria das três raças formadoras do Brasil: o branco, o negro e o índio. Enquanto Sílvio Romero afirmava que a raça negra era superior aos índios, mas os brancos eram superiores aos negros, reafirmando assim a superioridade da raça branca, Freyre, ao contrário, defendia a mestiçagem porque acreditava que não existia raça inferior ou mais ou menos fraca, e que a mistura das três raças formou a verdadeira identidade brasileira. Ao contrário de Romero, Freyre utilizou a teoria das três raças como força e prestígio, colocando negros, índios e brancos em igualdade, algo negado por Romero.

Para Renato Ortiz (1985), o mito das três raças surge em um momento em que o Brasil está passando por grandes transformações: o fim da escravidão e, por consequência, a necessidade de um novo tipo de mão de obra, havendo, assim, um incentivo à imigração europeia, e a mudança de um regime monárquico para a República. É somente a partir dessas mudanças, especialmente da Abolição da Escravatura, que o Brasil permite ao negro ser integrado às preocupações nacionais.

Ortiz defende que “(...) não há uma ruptura entre Sílvio Romero e Gilberto Freyre, mas reinterpretação da mesma problemática” (1985, p. 41). Para Ortiz, essa reinterpretação resulta do momento em que cada teoria é defendida. Freyre consegue transformar o pensamento negativo que havia sobre o mestiço em algo positivo. No momento em que Freyre escreve, há condições sociais diferentes daquelas em que foi escrita a teoria defendida por Romero. Agora, a sociedade brasileira que estava em transição possui rumos claros de desenvolvimento. Conforme analisa Ortiz:

A ideologia da mestiçagem, que estava aprisionada nas ambiguidades das teorias racistas, ao ser reelaborada pode difundir-se socialmente e se tornar senso comum, ritualmente celebrado nas relações do cotidiano, ou nos grandes eventos como o carnaval e o futebol. O que era mestiço torna-se nacional (ORTIZ, 1985, p. 41).

Podemos perceber com isso que, nesse momento, as diferenças raciais não importam mais e a discussão perde importância. O que antes era branco, negro, índio ou mestiço, agora torna-se o típico brasileiro, ou o nacional, como explica Ortiz.

Isso tudo acontece nos anos 30, com o Estado Novo de Getúlio Vargas, quando há uma preocupação em se transformar radicalmente o conceito de brasileiro. As qualidades que eram atribuídas aos mestiços, como a preguiça, são agora substituídas por novas ideias, e agora os brasileiros passam a ser relacionados ao trabalho. Ortiz ainda postula que o mito das três raças é exemplar, pois encobre conflitos raciais, ao mesmo tempo em que possibilita a todos se reconhecerem como nacionais (ORTIZ, 1985, p. 41).

Ainda durante o Estado Novo, surge a ideia de um “homem novo”, como define Mônica Pimenta Velloso. Para a autora, o Estado Novo deveria estar em permanente contato com a população brasileira, a fim de proteger os cidadãos e orientá-los, para que não ficassem à mercê do “individualismo anárquico liberal” (VELLOSO, 1982, p. 91). Sendo assim, o bem coletivo deveria se sobrepor ao interesse privado, ou seja, o importante era defender a nação, dando prioridade a um típico brasileiro, e não levar em conta as especificidades de cada um. O que a autora quer demonstrar é que o objetivo que o governo pretendia alcançar, durante o Estado Novo, era uma relação harmônica entre o regime e as pessoas. Essa relação harmônica é, obviamente, questionável, pois se estava vivendo em um regime ditatorial.

Para explicar melhor a ideia do que seria o “homem-novo” do Estado Novo, muitas vezes é utilizado como argumento o mito da superioridade racial, afirmando que a heterogeneidade étnica resultava em separação racial. Para Velloso, haveria um motivo para tanta preocupação, pois a “ênfase na homogeneidade racial reflete a preocupação dos ideólogos em produzir uma identidade social, condição necessária para a implementação de um projeto político”, cujo sigma seria o da unidade nacional (1982, p. 92). Para se chegar à criação de um novo tipo de homem, tendo como objetivo o fortalecimento da causa nacional, é necessário, segundo Velloso, “incutir o sentido metodizador do direito ao lado do sentido disciplinador da liberdade; ressaltar o sentido dinâmico da tradição” (1982, p. 92). Neste sentido, o Estado Novo tinha por meta rever o papel do homem na sociedade brasileira. Conforme Ângela de Castro Gomes:

O Brasil liberal era o país onde tudo era grande, menos...o homem. Este permanecia ignorado e afastado do potencial de sua própria terra. O regime liberal desacreditava de nossos homens e longe de pesquisarem as causas de nossos males, preferiram,

numa atitude comodista e pela lei do menor esforço, explicar tudo pela negação da nossa raça. 'O brasileiro é preguiçoso' – 'somos um povo de bugres' (GOMES, 1982, p. 115-116)

Assim, podemos compreender que, desde o início do século XX, havia uma preocupação com a formação do típico brasileiro. Ele deveria ser branco, e ter virtudes, como, por exemplo, ser trabalhador. Outra questão que aparece no Estado Novo é identidade nacional. Pela primeira vez, há uma cobrança para que toda a população do país sinta-se brasileira de fato. O foco principal nesse momento é, principalmente, as comunidades de imigrantes, que, com frequência, eram acusadas de não desejarem ser brasileiras, mas somente morar no Brasil. Essa discussão é uma das justificativas da Campanha de Nacionalização, que será discutida no decorrer do presente estudo.

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