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: Évolution des surfaces artificialisées cadastrées entre 2009 et 2011

Dans le document Indicateurs de consommation d’espaces (Page 9-13)

Devido ao fato de já termos procurado responder à indispensável tarefa de delimitar com máxima precisão possível aquilo que estruturalmente deve ser entendido por “origem” em Heidegger, aqui apenas nos limitaremos a colocar em jogo determinados elementos que compõem o caráter dinâmico da dimensão da origem.

Vimos que “origem” é a localidade velada de onde provém o “a-se-pensar” (das Zu-denkende) destinado ao pensamento essencial. A questão que de imediato poderia advir de tal afirmação seria: o que se origina da origem? Contudo, o exercício fenomenológico que devemos sempre observar exige de nós que reconfiguremos tal questão perguntando agora: como a origem é originariamente?168

O dístico que unicamente consta como “prefácio” da obra “Über den Anfang” anuncia que ultrapassar a origem é impossível.169 Isto porque a dimensão da origem é a fonte da qual parte a saga do pensamento disposto pela história do ser. A origem é o

163 Cf. HEIDEGGER: Beiträge zur Philosophie, p. 270. 164 Cf. HEIDEGGER: Beiträge zur Philosophie, p. 289.

165 HEIDEGGER: Beiträge zur Philosophie, p. 286. Daí poder ser aproximado ser e nada, desde que

“‘nada’ signifique o não-ente.” (HEIDEGGER: Beiträge zur Philosophie, p. 286)

166 Cf. HEIDEGGER: Beiträge zur Philosophie, p. 293. 167 Cf. HEIDEGGER: Beiträge zur Philosophie, p. 257.

168 Perguntar pelo “que” se origina da origem é ainda uma questão metafísica, pois a origem enquanto ser

é sempre distinta de qualquer ente que dela se origina. “Esta questão aparentemente justificada volta a resvalar imperceptivelmente na metafísica; dito mais precisamente: ela ainda provém dela. Ela ‘pensa’ primeiramente um ente, ela exige do ser que ele seja a entidade deste ente; logo, a origem de algo originado”. (HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 17) Por isto, “de fato temos agora que tornar claro como a essência se desdobra [wie das Wesen west], mas não como o que.” (HEIDEGGER: Sein und Wahrheit, p. 88)

“lance de saída” do projeto histórico do ser, é assim o próprio ser enquanto surgimento. Logo, dizer que “o ser é a origem”170 significa dizer o mesmo que o ser do ente somente é a partir da origem. Isto não deve remeter a um ser que surgiu da origem como algo que se desprende de sua causa, mas antes a um fenômeno que só se dá em relação com a abertura de ser e à mesma se reporta enquanto sua condição de possibilidade. A origem, enquanto “surgir”, tem “a única essência que autoriza a dizer: ‘o ser é’.”171 Deste modo, pensar o ser radicalmente significa remeter o pensamento para a dimensão da origem e com isto reconhecer que a origem é o âmbito essencial do qual surgem as palavras que possibilitam dizer o ser radicado em seu caráter de abertura. Esta propiciação é a própria

Ereignis em sua modalidade originária: “pensar o ser enquanto origem é pensar

previamente na essência do ser enquanto Ereignis. Ambos os modos de dar-se essencialmente [Wesung], Ereignis e origem, se copertencem.”172 Como já dissemos, nas “Beiträge”, Heidegger procura estipular enfaticamente o seguinte: “Das Ereignis – este é o termo essencial para a tentativa do pensar originário.”173Isto porque “origem”, assim como Ereignis, são “palavras diretivas” (Leitworte) para dizer o ser.174 Por tudo isto, diante da própria dificuldade em definir a Ereignis, devemos nos prender aqui ao seguinte: “Com efeito, o que é fundamentalmente o Ereignis? Digamos, antecipando, que nos parece ser o território último ao qual Heidegger chega no seu retrocesso para a origem. Melhor ainda: é a própria origem.”175

A origem como tal tem sua peculiaridade no seguinte fato: “O de todo estranho, e por conseguinte o mais próprio, é que nós não a possuímos e nem podemos possuí-la, mas ela nos retém.”176 O pensamento se detém diante da origem porque não a podemos apreender fixamente, pois enquanto fenômeno do ser ela é sempre outra, nunca é si mesma.

Quando efetuou assim o salto que o faz penetrar no Ereignis, o pensamento fica radicalmente transformado. É que doravante o seu ponto de partida para pensar tanto o homem como o ser, já não se situa no ente: retrocedeu para o lado da origem – origem ainda enigmática, mas que todavia se presta à nomeação –, nela captou com o olhar a co-pertença essencial e primeira, e é

170 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 16. 171 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 11.

172 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 9. “A origem é originariamente – e isto significa: abissalmente – a

Er-eignis.” (HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 11)

173 HEIDEGGER: Beiträge zur Philosophie, p. 80.

174 Cf. HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 35. Podemos ver claramente que há uma circularidade entre os

termos: Das Er-eignis aber ereignet sich als Anfängnis; (HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 173).

175 ZARADER: Heidegger e as palavras da origem, p. 173.

176 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 45. “Neste estranhamento realizamos a experiência da ocultação

a partir desta que pode pensar o ser e o homem no que lhes é próprio, quer dizer tornar a descer para um lugar diferente do da tradição.177

O ser é sempre outro quando deixa ser. Logo, é no espaço concedido pelo ser em sua origem que a história do ser do ente permanece sempre em aberto. Em sua originária abertura abissal o ser é outro que não ele mesmo. Não por extensão, mas concomitantemente, a história, espaço temporal de manifestação do ser em sua retração, é desde sua origem localidade de apropriação. O pensamento essencial só é propriamente incidindo no espaço aberto pelo ser a partir da origem. Esta incidência só pode acontecer ao modo de uma apropriação. Por conseguinte, a história do ser é transcendente porque guarda a possibilidade de reportar ao outro de si mesmo. “O ser pode ser definido como transcendente apenas no sentido da alteridade”.178 Daí se dever afirmar que a “propriedade” (Eigentum) da origem é deixar o ser em seu “como”.179

A palavra fundamental encontrada por Heidegger para remeter à linguagem estes elementos em uma conjuntura que exprima um “acontecer que aproprie com propriedade” é a Ereignis: “O ser enquanto a outra origem é a Ereignis”.180 Ereignis, ainda que de todo intraduzível,181 é “acontecimento de apropriação”. A origem se confunde com a Ereignis não só por ser um “acontecimento de apropriação”,182 mas também porque é um “acontecer que propriamente se vela” (sich verbergende

Ereignen)183 na medida em que “não é um dado, um fundamento que pode ser

compreendido ou objetivado: é o modo e ao mesmo tempo o âmbito do dar-se do ser, o puro acontecimento que deixa vir os entes à presença, subtraindo-se contudo a esta.”184

Um dar-se próprio que se define somente pela própria recusa de determinações, a Ereignis é o que permite o ser se velar como tal.185 Além disto, quando

177 ZARADER: Heidegger e as palavras da origem, p. 170. 178 ARAÚJO: Metafísica e Religião, texto-aula 6, p. 9. 179 Cf. HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 110. 180 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 48.

181 Cf. HEIDEGGER: Identität und Differenz. Pfullingen: Günther Neske, p. 15.

182 “Desta maneira, busca-se manter ao mesmo tempo seja a referência ao caráter temporal do evento em

que o ser se dá (Ereignis como acontecimento, no sentido mais comum do vocábulo alemão), seja a valência do eignen que Heidegger sublinha, por exemplo em Unterwegs zur Sprache, e que deve ser entendido de maneira transitiva: er-eignen como apropriação, tornar algo próprio. Ereignis é, desta maneira, o âmbito (‘o campo de oscilação’) [...]. Sempre tendo presente que apropriação é também expropriação, uma vez que cada um dos termos em questão é espoliado não apenas de sua definição tradicional, mas também da própria possibilidade de uma fixação definitiva, estática, da própria essência.” (ARAÚJO: Metafísica e Religião, texto-aula 1, p. 5)

183 HEIDEGGER: Zur Sache des Denkens, p. 9 [trad. port., p. 466]. 184 ARAÚJO: Metafísica e Religião, texto-aula 1, pp. 2-3.

Heidegger se pergunta se “algo mais se deixa dizer da Ereignis?”,186 responde de

imediato que é somente através da “retração” (Entzug), que é um “modo determinado de dar-se”.187 Logo, é fundamentalmente através de uma das palavras mais essenciais do pensamento de Heidegger que a retração se mostra como o que pertence ao acontecer mais próprio do ser, como seu “traço” (Zug) essencial, pois é através dela que o ser é “o que se expropria” (es enteignet sich) de si próprio.188

Podemos ver então que a Ereignis só pode ser “apropriação” (Zueignung,

Aneignung) já sendo “transpropriação” (Übereignung) enquanto constante

“expropriação” (Enteignung).189 Isto é o que coloca a Ereignis em relação imediata com a dimensão da origem, pois “a transpropriação é a remissão à origem enquanto origem.”190 A origem enquanto origem é renúncia de si enquanto concessão ao que lhe advém a partir de seu espaço de jogo aberto pela retração do ser. Concomitantemente, “o jogo da Ereignis é aquele de levar ao próprio, um próprio que não se encontra dentro de si, não é um já dado”.191 Observando que o livre trânsito de sentido propiciado pela

Ereignis pensada a partir da dimensão da origem é uma dinâmica que constitui a própria

mundaneidade em sua tessitura de significações, devemos poder entender que aqui se trata de uma “transcendência de mundo” no sentido “histórico” (fáctico) do termo. Logo, a Ereignis pode ser entendida como o evento hermenêutico da história do ser em sua verdade que consiste em sua manifestação a partir de sua retração.192

O sentido desvelado pela história a cada época é sempre a atualização de um espaço concedido por uma ausência que tem lugar na origem de ser. Na radicalidade desta dinâmica, a anterioridade última torna-se inatingível, inapropriável como tal; o que torna possível as possibilidades de apropriação.

A origem retroage à medida em que se retrai e assim se revela como o que se vela, como o que se furta à apropriação última. Ela desvela um passado essencialmente possível que em sua presença se subtrai à presentificação. “Esta desocultação do atual, pela forma que assume o seu antigo-distante, e que no atual se reflete, dando-lhe a específica forma epocal, oculta, mais do que revela, a atualidade do atual. Pois dir-se-ia

186 HEIDEGGER: Zur Sache des Denkens, p. 9 [trad. port., p. 467].

187 HEIDEGGER: Zur Sache des Denkens, p. 10 [trad. port., p. 467]. A retração como tal é a própria

Ereignis (cf. HEIDEGGER: Vorträge und Aufsätze, p. 129 [trad. port., p. 116])

188 Cf. HEIDEGGER: Zur Sache des Denkens, p. 10 [trad. port., p. 467].

189 “Aqui a Er-eignung deve ser entendida no significado literal de vir-ao-próprio através deste duplo

movimento.” (ARAÚJO: Metafísica e Religião, texto-aula 9, p. 4)

190 Die Übereignung ist die Zuweisung in den Anfang als Anfang. (HEIDEGGER: Über den Anfang, p.

29)

191 ARAÚJO: Metafísica e Religião, texto-aula 9, p. 4. 192 Cf. HEIDEGGER: Grundbegriffe, pp. 20-21.

que a atualidade de qualquer atual se constitui pelo que mais se ausenta de sua antigüidade”.193 Assim, o modo em que a origem se faz presente historicamente é através de sua própria ausência. É justamente esta presença ausente que se distende historicamente até nós, de forma que ao longo de sua retração tenha deixado espaço para a configuração de determinados pensamentos epocais que se ressintam de sua condição originária irrealizada (sempre por realizar). Cada época é então o modo de configuração histórica deste espaço de sentido aberto pela origem em seu acontecer essencial. Como conseqüência devemos admitir que o pensamento originário não recebe seus limites de alguma determinada consciência dele derivada, mas é disposto pelo mesmo sentido da história que nos chega já nos ultrapassando apontando agora para o “passado” enquanto possibilidade aberta a ser apropriada a partir de sua própria história. Onde se esgota o sentido do presente isolado, ou seja, do presente não pensado no jogo das êxtases temporais, é justamente aí que se abre o espaço da ausência que remete à fonte das possibilidades em sua nascente. A dimensão da origem é então o privilegiado lugar confrontado pelo pensamento essencial que se defronta entre presença e ausência de sentido.

No que tange à dimensão da origem (sendo não só “proveniência”, mas também “destinação”), “ausência” não só deve sempre ser entendida em remissão à abertura do ser enquanto radical condição de possibilidade a partir da qual o ente vem a ser, como também à sua irrevogável possibilidade limítrofe de vir a deixar de ser. Logo, não devemos nunca descurar que não somente “o acontecimento próprio da origem é o declínio”194, como antes o declínio deve ser pensado como “o mais próprio acontecer”.195 Isto faz ainda com que se reconheça que “o declínio é a singularidade da

Ereignis.”196

O movimento da origem, além de ser “surgimento”, é também “declínio”, e por conseguinte, “transição”; não numa linearidade histórica, mas de forma contingente ao tempo na mútua alternância de ser presente e ausente na copertença que a ambos

193 SOUSA: Mitologia II: história e mito. Brasília: UNB, 1988, p. 19. “O paradoxal, aqui, é isto mesmo: a

presença do agora faz-se presente pela presença do outrora, mas presente que se faz presente pela ausência do que no outrora é mais presente.” (SOUSA: Mitologia II: história e mito, p. 19)

194 Das Ereignis des Anfangs ist der Untergang. (HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 24) 195 Untergang als das Eigenste des Ereignisses. (HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 94)

196 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 83. “O declínio é a Ereignis.” (HEIDEGGER: Über den Anfang,

constitui propriamente.197O “declínio” (Untergang) do ser é originariamente próprio de

sua essência porque seu “movimento” (Gang) ocorre “sob” (unter) a história.198 Isto é o mesmo que dizer que o ser permanece velado em sua manifestação. Por isso a origem só será o “modo de ser da verdade” (Wesung der Wahrheit) porque também só se desdobra historicamente pautada pela tensão entre velamento e revelamento.199 O ser como desvelamento em tensão com o velamento atesta como a origem mal se origina, pois ela já surge declinando.200 A origem é declínio em sua ocultação, que é seu modo essencial de doação: “o que há de originário na origem declina em si porque a verdade se desdobra essencialmente como a ocultação desveladora.”201 Logo, o declínio só pode ser determinado a partir da origem,202 pois declina não somente o que surge (aufgeht) ou parte (ausgeht) da origem, mas também o que nela “adentra deixando de ser” (eingeht).203 Isto nos condiciona ao fato de que “só o que é originário pode declinar, pois o declínio é a recaída da origem, de forma que, contudo, esta origem deixe originar uma outra origem. É a esta que faz referência o declínio.”204 Apenas sendo essencialmente declínio é que a origem pode ser sempre abertura de si que confere espaço ao que advém a partir deste aberto. Por isto “a origem é a necessidade premente do declínio.”205 Esta “necessidade” é intrinsecamente constitutiva: “o declínio é a mais íntima originariedade.”206

O declínio, “grandeza da Grecidade”, consiste no “retorno transformado [gewandelten Wiederkehr] do que lhe é originário.”207 Este retorno é seu próprio

pensamento. Um pensamento que, contudo, deve ser ao modo da própria origem da qual parte e para qual se volta. Todavia, como se poderia configurar um pensamento em termos de ausência de si mesmo? A resposta possível provém da seguinte afirmativa: “o

197 “O declínio não é porém aqui sinônimo de decadência, mas é a Untergang como Übergang, a decisão

que vai ao fundo, na direção da origem que instaura a história futura.” (ARAÚJO: Metafísica e Religião, texto-aula 10, p. 4)

198 Seyn [...] geht in sein “Wesen” unter als der Anfang. [...], und d.h. zugleich geht unter in sein

Eigentum das Seyn. (HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 19)

199 Cf. HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 58. 200 Cf. HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 45.

201 Wahrheit west als die entbergende Verbergung, darin die Anfängnis des Anfangs in sich untergeht.

(HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 128)

202 “Somente do ponto de vista da origem o declínio deixa-se pensar em sua experiência.” (HEIDEGGER:

Parmenides, p. 249)

203 Cf. HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 85. 204 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 87. 205 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 91. 206 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 91. 207 HEIDEGGER: Grundbegriffe, p. 18.

declínio é a despedida.”208 Segundo Heidegger, o pensamento essencial é um

pensamento que deve se despedir de suas bases tradicionais: “O que há de originário se origina como declínio. No que há de originário o ser está sob a custódia da despedida.”209 A “despedida” (Abschied) é um pensamento de “de-cisão” (Ent-

scheidung),210 ou seja, um pensar que possibilite para si mesmo a “cisão” (Scheidung) que é intrinsecamente constitutiva não só da origem, mas logo também do próprio ser enquanto diferença (Unterschied). “O caráter de despedida [die Abgeschiedenheit] é um modo em que o ser é”.211 É este seu caráter que permite ao ser “permanecer em declínio na ocultação”.212 Visto sob a constante iminência do declínio de ser, o ente doado pelo fenômeno remete à própria abertura de significância, a mesma na qual deve reincidir a apropriação da origem. No fenômeno da ausência em seu caráter de aberto, “isto que se faz presente é a pura ocultação na intimidade do declínio.”213 Somente através desta “intimidade” (Innigkeit) se chega a “familiaridade com o ser” (Heimisch im Seyn) que impõe como condição prévia “saber um mínimo do que há de originário na origem e pensar a despedida.”214 Saber que o mais próprio da origem é se retrair em seu fundamento se doando e assim abrindo espaço para a apropriação de suas modalidades possíveis e que com isto “a origem é o encarregar-se da despedida.”215 É somente sempre se depreendendo que a origem se distende como tal. Seu desdobramento temporal exige que a origem parta de um si próprio que como tal não pode mais ser retomado senão pela apropriação hermenêutica de sua própria ausência. O que se revela na seguinte circularidade: “A essência do ser é a origem. O que há de originário na origem é a despedida. O que há de originário é a apropriação [das Ereignis] do declínio. O declínio é a intimidade do que há de originário. A despedida é a chegada do velar que se mantém à distância”.216 A despedida é exigida pelo velamento da origem como tal no seu íntimo acontecer histórico enquanto declínio. A despedida é assim a condição de

208 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 24. “O acontecimento apropriador da origem é a singularidade da

verdade no declínio em despedida.” (HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 93)

209 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 21.

210 “A origem se mantém fiel ao seu modo essencial de ser [Wesung] na oscilação como o entre da ‘de-

cisão’, como o ajuste de cada ‘transpropriação’ dos deuses para a deidade, dos homens para a humanidade, da Terra e do mundo.” (HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 157)

211 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 15. 212 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 15. 213 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 84. 214 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 24. 215 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 18. 216 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 24.

preservação do ser em seu caráter originário de abertura, dado que o ser é de essência “declinável”217 por ser já sempre somente enquanto diferença:

O olhar mais profundo na essência da diferença abre-se no seguinte sentido: ser é origem e enquanto origem a chegada. À origem porém pertence o ajuste do declínio enquanto despedida. Ser é despedida. Na despedida está encerrada a essência abissalmente originária da diferença. E a partir daqui pode ser ousado, com algum perigo, um passo que não obstante pode ser um passo em falso.218

Este “passo” é o “passo atrás” (der Schritt-zurück) do pensamento diante do ser reconduzido à origem. Este passo pode ser em falso justamente quando almeja atingir uma base consistente deixando de assumir o risco de abrir mão de um fundamento último para o ser.

Cooptar a origem significa assumir a inserção do pensamento na extensão da clareira que se retrai abrindo espaço. Perseguir o ser em seu caráter de velamento é voltar-se essencialmente para sua “abertura originária” (anfänglichen Offenbarkeit).219

Somente se radicadas nesta abertura é que as palavras da origem podem ser iluminadas em seu caráter remissivo. A partir da clareira do ser, a dimensão da origem tem sua “verdade” garantida, pois clareira e ocultação são os modos de ser da verdade originária, por isto “clareira e ocultação são o acontecer próprio que retrai e encanta.”220

A origem está velada por sua própria amplitude que se interpõe entre sua abertura histórica e o pensamento que diante deste aberto só pode ser o pensamento da despedida: “a origem é originariamente o ‘en-carregar-se’ da ocultação, e isto significa, da despedida.”221 É por sempre exigir a despedida de si mesma que a origem é o “abismo do que se faz presente [Verschenkung], porque ela ainda torna presente a garantia da essência de uma doação [Schenkung]”.222 Por conseguinte, temos que “o ser, enquanto o abismo do que se faz presente, dispõe o caráter de instância do Dasein na disposição fundamental originária do pensamento.”223 O pensamento oscila no abismo aberto pelo ser a partir de sua distância em relação à dimensão da origem. Tomada “em si”, a origem é o próprio abismo de ser, pois o que lhe é mais próprio é justamente

217 Das untergängliche Wesen des Seyns (HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 26).

218 HEIDEGGER: Über den Anfang, pp. 72-73. “A diferença é a liberação da clareira em que a origem

surgindo se libera, não progredindo, mas se prendendo, o aberto, como ele se manifesta como origem diante do surgimento, origem que é despedida que retorna a si.” (HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 75)

219 HEIDEGGER: Beiträge zur Philosophie, p. 236.

220 Lichtung und Verbergung sind entrückende-berückende das Ereignis selbst. (HEIDEGGER: Beiträge

zur Philosophie, p. 236)

221 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 10. 222 HEIDEGGER: Über den Anfang, p. 15.

223 Das Seyn als der Abgrund der Verschenkung stimmt die Inständigkeit des Da-seins in die anfängliche

recusar apropriação última, abrindo assim para o infundado de si mesma.224 A relação

entre a origem e o abismo implica certa circularidade entre os mesmos, pois se “a origem é a fundação [Gründung] do abissal [Ab-gründigen]”,225 por sua vez, “o abismo [Abgrund] é a essência originária do fundamento [Grund].”226 Assim, o abismo é o próprio “modo” (Weise) de deslocamento do fundamento do ser.227

O modo de aparecer mais originário do fundamento é dado para Heidegger pelo abismo entendido não como não-fundamento, negação de qualquer

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