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Éric Benhamou Doctorant

Dans le document Covid-19 | Regards croisés sur la crise (Page 58-60)

Os reencontros com a cidade do Ceará-Mirim eram sempre uma combinação feliz de retorno ao seio familiar e missão oficial, como a que Nilo realizou junto com uma comitiva de intelectuais recifenses, no ano de 1949. Esses encontros eram suscitados pelos amigos, pelas relações que ele mantinha com o Rio Grande do Norte e também pelo prestígio que tinha aqui, reforçado pelo contato com Freyre. As viagens ao estado aconteciam sempre num clima bastante ameno, como um reencontro entre velhos e bons amigos. No depoimento do próprio Nilo sobre a viagem de 1949, no qual ele dá os detalhes de um plano arquitetado por Sylvio Pedroza, prefeito de Natal, à época, e Câmara Cascudo, para interceptar a caravana vinda do Recife com uma falsa ordem de prisão, podemos sentir o clima amistoso no qual se realizavam essas viagens. No entanto, o desejo dos anfitriões de troçar dos visitantes acabou sendo frustrado pela chuva:

Se Aderbal França, o inimitavel Danilo, soubesse como teria sido interessante receber a caravana de intelectuais, às portas da cidade, uma ordem de prisão para depois ser relaxada em pessoa por um chefe de Polícia sorridente e ameno, daria razão ao ‘sequestrador’. Mas não houve a farsa, pois a chuva não deve ser uma aliada da pilheria 118.

Após escapar à emboscada dos espirituosos anfitriões, o grupo de intelectuais foi recebido como hóspedes oficiais na cidade de Natal. Nilo Pereira hospedou-se na

residência oficial do governador José Varela e os demais membros da comitiva foram hospedados pelo prefeito Sylvio Pedroza. O grupo também recebeu várias homenagens do Governo, da Academia de Letras Norte-Rio-Grandense e da Prefeitura Municipal. O ponto alto da recepção foi a solenidade realizada no dia 06 de agosto, no teatro Alberto Maranhão, quando também foi proferida a conferência “Renan e Nabuco”, de Nilo Pereira, que mais tarde também seria publicada em livro.

As viagens de Nilo Pereira ao Rio Grande do Norte tiveram sempre muito destaque na imprensa local, na qual ele colaborava, mesmo à distância, enviando seus artigos. Nos períodos de visita, a intensidade das publicações do intelectual em jornais norte-rio-grandenses aumentava, sempre resultando em belos textos sobre o vale do Ceará-Mirim e suas tradições, evocando os tempos de menino. Na viagem de 1949, dez anos depois do primeiro reencontro com o Vale, Nilo Pereira também revisita o Ceará- Mirim, trazendo com ele alguns dos integrantes da comitiva vinda de Pernambuco, como o geógrafo Gilberto Osório de Andrade.

No jornal A Ordem, de orientação católica, dirigido pela Diocese de Natal, do qual Nilo Pereira também foi colaborador, a vinda dos intelectuais foi anunciada como um grande acontecimento, trazendo a notícia em grande destaque no dia 03 de agosto de 1949: “Chegarão 6ª feira a Natal os intelectuais do Recife” 119. O artigo ainda informava:

Em visita de intercambio, cultural, chegará sexta-feira proxima, a esta capital, procedente do Recife, a caravana de intelectuais que desenvolve atividades em Pernambuco, constituida dos srs. Nilo Pereira, jornalista Otavio Pinto, Gilberto Osorio de Andrade, Mauro Mota, Tales Ramalho, prof. Samuel Mac-Dowel, deputado Nilo Coelho e poeta Silvino Lopes 120.

O jornal A Republica também participou ativamente da cobertura da estada dos

intelectuais pernambucanos no Estado, publicando inclusive a conferência sobre as influências que Ernest Renan exerceu sobre Joaquim Nabuco e ainda mais dois artigos do cearamirinense: “Visão Social dos problemas” (19 de agosto de 1949) e “Manhã da criação” (em 25 de setembro de 1949).

       118 PEREIRA, Nilo. O homem e a cidade. Folha da Manhã. Recife, set. 1949.

119 CHEGARÃO 6ª feira a Natal os intelectuais do Recife. Natal.A Ordem, 03 ago. 1939. 120 Idem.

N’A Republica a visita da comitiva pernambucana ganhou manchete de primeira página. No dia 23 de julho de 1949, a expectativa da chegada dos pernambucanos já podia ser sentida nas páginas do jornal. Segundo matéria publicada naquele dia, “A convite do Prefeito da Capital, e afim-de participar das comemorações em homenagem ao transcurso do 350.° aniversario de fundação da cidade, visitarão Natal a 5 de agosto próximo varios e ilustres intelectuais e jornalistas do visinho Estado de Pernambuco” 121. Dentre esses intelectuais, como já se é sabido, está o “dr. Nilo Pereira, redator-chefe da ‘Folha da Manhã’ e secretario de Interior [do] Governo Barbosa Lima” 122. Faziam parte da caravana o jornalista Mauro Mota e o geógrafo Gilberto Osório de Andrade. Este último acompanhará o cearamirinense muitas vezes em suas deambulações pelo vale, tendo realizado, inclusive, um estudo sobre ele, publicado em 1957, livro intitulado Os rios do açúcar do Nordeste oriental: I o rio Ceará-Mirim.

Fica muito claro o prestígio do qual gozavam esses intelectuais em terras norte- rio-grandenses, principalmente, Nilo Pereira. Essas visitas faziam parte de um esforço do cearamirinense para estreitar contatos culturais entre os Estados do Rio Grande do Norte e de Pernambuco. Luiz da Câmara Cascudo e Sylvio Pedroza já haviam sido recebidos em Recife. Era chegado então o momento da retribuição, exatamente, por ocasião das comemorações do aniversário de fundação da cidade de Natal. A vinda dos intelectuais pernambucanos também foi notícia no número do mês de agosto de 1949 da revista Bando, tema de artigo que aparece sob a manchete “Caravana pernambucana de cultura”, no qual o autor apresenta um pequeno roteiro da estada dos intelectuais pernambucanos em terras norte-rio-grandenses.

Havia tensões entre os dois estados, e, possivelmente, entre os dois grupos de intelectuais. A aproximação dos intelectuais natalenses, principalmente, de Cascudo, com os modernistas, com Mário de Andrade, que nos anos 1920 passou por aqui em sua viagem de reconhecimento pelo Brasil, não era vista com bons olhos pelos regionalistas-tradicionalistas de Pernambuco. A missão da caravana cultural chefiada por Nilo Pereira, em 1949, parece ser a de afinar a intelectualidade desses dois estados

      

121 VISITARÁ Natal uma caravana de intelectuais pernambucanos. Natal. A Republica, 23 jul. 1949. 122 Idem.

num mesmo diapasão123. A revista Bando noticiou a passagem dos intelectuais pernambucanos por aqui da seguinte maneira:

O Rio Grande do Norte hospedou de 5 a 7 do corrente, a caravana pernambucana de cultura, que sob a presidência do dr. Nilo Pereira, visitou a nossa capital, em missão de intercâmbio e aproximação cultural. [...] Os ilustres visitantes foram hóspedes dos governos estadual e municipal, tendo oportunidade de conhecer os principais logradouros públicos da cidade, bem como seus bairros e arredores 124.

O trecho escolhido permite perceber que havia a necessidade de aproximação entre os grupos, dando indício da tensão nas relações entre os dois estados. Um dos lugares visitados pelos membros da comitiva foi a cidade do Ceará-Mirim. O geógrafo Gilberto Osório de Andrade e Câmara Cascudo acompanharam Nilo Pereira no seu reencontro com a cidade, como o autor nos informa nos seus livros Evocação do Ceará-

Mirime Imagens do Ceará-Mirim.

No dia 24 de julho de 1949, aparece no jornal A Republica o texto “O Cavalo do Cão”, o qual Nilo dirige a Jaime Adour da Câmara (um filho de senhor de engenho que viveu em Natal até 1918, e depois partiu, tendo escrito um célebre livro de memórias, Oropa, França e Bahia) 125, num dos exercícios intelectuais e emocionais preferidos, discorrer sobre o “Velho Ceará-Mirim”. Dizia ele:

Quem ali nasceu e viveu, guardou sempre nos olhos o cenário bíblico do vale. Lembrei-lhe numa rápida conversa o que era a visão do vale do alto das Tôrres da Igreja: tudo aquilo parecia um paraiso reconquistado; e se ainda pudesse haver no mundo uma terra da Promissão, ali é que ela devia estar, esplendidamente fecunda. Enquanto isso, a cidade propriamente dita, tocada de um romantismo de decadência, como que adormeceu num sonho de grandeza morta. Já ali chegaram as usinas, fazendo estremecer suas terras com suas máquinas fabulosas; e até me dizem que a casa-grande do engenho “Ilha Bela”, onde o meu tio José Felix Varela criou uma família numerosa, foi destruída. Não será por isso que a beleza do vale morrerá, tão fresca e verde, se conserva, num arrojo permanente de vida 126.

      

123 Sobre a aproximação dos intelectuais natalenses com o modernismo e posteriormente com o regionalismo-

tradicionalista de Freyre ver: HERMENEGILDO, Humberto. Modernismo nos anos 20 no Rio Grande do Norte. Natal: UFRN, Ed. Universitária, 1995; e SALES NETO, Francisco Firmino. Palavras que silenciam: Câmara Cascudo e o regionalismo-tradicionalista nordestino. João Pessoa: Ed. Universitária, 2008.

124 A CARAVANA pernambucana de cultura. Revista Bando, ano I, n. 8, ago. 1949.

125 SEREJO, Vicente. Uma conversa sobre Jayme Adour da Câmara. In.: Bom dia moderno potiguar. Isaura Maia e

Humberto Hermenegildo de Araújo (org.) 2009, p. 91-98.

Nesse artigo, podemos encontrar as principais idéias que marcam a escrita memorialística de Nilo Pereira: a devoção pelo vale sempre divinizado, a decadência romântica da cidade contrastando com o esplendor do vale, a associação da decadência e da destruição do mundo patriarcal à chegada das usinas. Esse texto não foi integralmente publicado em Imagens do Ceará-Mirim, mas é possível perceber idéias, imagens e mesmo palavras que mais tarde vão constituir o livro de memórias. No trecho escolhido podemos perceber que se trata da narração de um diálogo do nosso autor com um indivíduo em especial, Jaime Adour da Câmara. Nilo procura lembrá-lo das belezas do vale do Ceará-Mirim, a fim de compartilhar com ele o seu sentimento de exílio em relação ao paraíso da infância e possivelmente despertar no intelectual conterrâneo, considerado o melhor autor de literatura de viagem, o desejo de escrever um livro de memórias: “Depois de ter conhecido países em quantidade e de haver escrito o seu famoso ‘Oropa, França e Bahia’, o que mais desejou na vida foi voltar ao seu engenho ‘Paraiso’ e encontrar nas melhores sugestões de sua infancia, os capítulos mais vivos do livro de memórias quase pronto” 127. É interessante como ele sugere uma comunhão dos

dois intelectuais nessa idéia cosmopolita e, ao mesmo tempo, cada vez mais provinciana, de voltar à terra. A literatura confessional já exercia um grande fascínio sobre os intelectuais nascidos à sombra do mundo dos engenhos. Escrever as memórias da infância vivida em engenhos ou em cidades de tradição açucareira era reviver todo esse passado que o tempo soterrara.

Como foi afirmado anteriormente, “Manhã da criação” é um texto que originalmente foi escrito e publicado em 1949 e que também se diluiu nas páginas de

Imagens do Ceará-Mirim, figurando também na Rosa verde, de 1982, que podemos

descrever como memórias em formato de romance. Aquilo que começou como crônica pitoresca e depois se transmutou em memórias, volta então a ser literatura ficcional. Como diria Luciano Trigo, realidade disfarçada de ficção. O texto de 1949 tem como temas centrais o Vale do Ceará-Mirim e a casa grande do engenho Guaporé que Nilo preferia ver “de longe, porque [...] de perto, a casa senhorial não tem mais do que a fachada” e esta ele preferia avistar à distância, “do alto das torres da igreja sem ter nenhuma decepção” 128.

       127 Idem.

No texto publicado em 25 de setembro de 1949, a cidade do Ceará-Mirim, o vale, a casa grande do engenho Guaporé aparecem todos mergulhados no lirismo da prosa poética de Nilo Pereira. O vale é descrito através de imagens fugidias, envoltas num mistério que ele traduz como o mistério da criação, emergindo do texto como verdadeiras pinturas, imagens melancólicas de um domingo chuvoso no vale, onde

O verde intenso e opulento está, naquela manhã da criação, tocado de um cinzento misterioso através do qual como que se esconde um mundo de recordações. Um vasto silêncio se espraia sobre a cidade [...]. O vale parece dormir; mas, é tão forte o seu colorido que a vida, mesmo adormecida, é cada vez mais bela e mais exuberante 129.

Para Nilo Pereira, beleza e melancolia são duas dimensões do ser e da poesia inteiramente compatíveis e é essa imagem do Ceará-Mirim que ele recria em 1949. O vale que avistamos por entre as linhas de uma manhã nublada, mais do que o vale da memória, é o vale da imaginação, recriado através da poesia, da fábula – um lugar tão sublime que faz o autor se sentir diante da imagem da criação, da origem do mundo, do eterno recomeçar. As frases e períodos têm nuances de poesia: “Tudo aquilo é de uma beleza poética. Deus há de ter demorado Sua Mão universal sobre o vale onde é possivel que reconheça, ainda hoje, vestigios do paraiso perdido” 130. Na prosa de Nilo Pereira, o

lugar onde paira a tradição também é produto dos desígnios divinos, inspirado nas passagens bíblicas, assemelhando-se às próprias imagens bíblicas, como a criação do mundo cristão.

Em 1969, esse texto ganha o espaço de um capítulo em Imagens do Ceará-

Mirim. Também aparece em Evocação do Ceará-Mirim, publicado em 1959, por

iniciativa do diretor do Arquivo Público Estadual de Pernambuco, Jordão Emerenciano. Em Evocação do Ceará-Mirim a imagem que o autor descreve de uma manhã chuvosa de domingo no Vale, vista em 14 de agosto de 1949, aparece sob as seguintes impressões: “extasiado diante da paisagem do Gênesis que, por entre a neblina, vi estendendo-se mansamente sobre o canavial imobilizado pelo gênio invisível da poesia”

131. Assim se mostrava o Vale ao estrangeiro. O vale aparece aí como há vinte anos

atrás, de “verde lúcido e tranquilo” 132.

       129 Idem.

130 Idem.

131 PEREIRA, Nilo. Evocação do Ceará-Mirim, p. 15. 132 Idem.

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