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Dans le document L'ENFANCE EN DANGER QUE FAIRE? (Page 31-37)

Entendemos ser possível associar o processo de formação ao conceito gadameriano de tradução. A tradução, segundo Gadamer, guarda grande semelhança com o processo de compreensão, pois é uma forma de mediação, uma forma de tornar claro o obscuro. Tradução é a passagem para um novo sentido. A tradução torna algo estranho em algo próprio. Isso implica que, a partir dos conhecimentos do interlocutor da tradução, ou seja, os conhecimentos com os quais habita em uma comunidade inserida na tradição, os saberes com base nas suas próprias experiências são colocados em prática, entrando no círculo hermenêutico. Ao entrar no círculo hermenêutico acontece um processo de reflexão e, ao ser tocado por algo, o interlocutor se torna consciente de suas pré-compreensões, as quais constituem sua vivência. Dessa forma, assume a autoria da aprendizagem ou do texto produzido na tradução. A partir do caso proposto por Gadamer, podemos discernir que o problema hermenêutico tem que ver, não com o domínio da língua, mas sim com o acordo sobre um assunto e tal acordo tem lugar no meio da linguagem. Esta busca de acordo que se dá na conversação, o atender realmente o outro, implica validá-lo como interlocutor e desse modo atender e tentar entender o que disse; só assim, se pode colocar como meta chegar ao acordo sobre a coisa.

Porém, nem todos podem traduzir, pois o tradutor é alguém que dispõe de um conhecimento profundo da outra língua. O tradutor "não pode simplesmente transportar o material da língua estrangeira para sua própria língua sem transformar- se ele próprio no sujeito que diz" (GADAMER, 2011, p. 181). Ao traduzir ele abre o espaço infinito do dizer que corresponde ao que é dito na língua estrangeira. Isso porque a tradução não é a reprodução do que foi dito em seu sentido literal, mas do que o outro quis dizer quando usou essa ou aquela expressão, ou seja, "é uma transposição mediada entre nosso horizonte e o horizonte do outro" (ROHDEN, 2008, p. 198).

Também Flickinger (2014), em um estudo sobre o conceito de hermenêutica observa que a mesma tem a ver com tradução, uma vez que é evidente a associação daquele termo com a figura de Hermes, da antiga mitologia grega, que deveria traduzir as palavras dos deuses na linguagem profana dos homens.

Em sentido originário, a palavra 'traduzir' remete a um movimento; ela significa transportar algo ou alguém de um lado, por exemplo, de um rio ou de um território para um outro nem sempre conhecido. Entendido assim, o trabalho do tradutor realiza-se no movimento entre dois horizontes diferentes; ele consiste em tornar compreensível para o destinatário o sentido da mensagem do autor (p. 13).

Entende-se algo quando se é capaz de compreender o sentido do que se há de interpretar, expressando com palavras próprias, ou seja, traduzindo. Como já destacamos anteriormente, no ensino e na aprendizagem o entendimento se dá como aplicação. Ser capaz de traduzir é ser capaz de aplicar e, consequentemente, de aprender, uma vez que

os aprendizados resultam em conhecimentos que acabam produzindo um mundo humano comum, constituído de padrões, sempre abertos e passíveis de modificação, relativamente ao meio natural, no que se refere às relações dos sujeitos entre si e no que concerne aos modos de ser e de se expressar dos indivíduos (BOUFLEUER, 2013, p. 89).

Nesta problemática se insere o tema que abordamos: "O ato de traduzir constitui o cerne da hermenêutica e da literatura" (ROHDEN, 2008, p. 197). Por isso é que a hermenêutica pode ajudar a recompor a literatura como um fruir da imaginação. Também Nadja Hermann ao inserir a acepção ‗traduzir‘ traz à tona a forma especial de tornar compreensível o mundo a partir da hermenêutica, envolvendo a linguagem nesse processo de tornar mensagens compreensíveis. ―Ao inserir-se no mundo da linguagem, a hermenêutica renuncia à pretensão de verdade absoluta e reconhece que pertencemos às coisas ditas, aos discursos, abrindo uma infinidade de interpretações possíveis‖ (2002, p.24). A tradução nos remete à possibilidade de entendermos para além dos limites de nossa própria língua.

É por isso que a obra sujeita à apreciação, interpretação do leitor ou espectador, necessita sumariamente que seu intérprete lhe formule perguntas: ―é preciso então que nos aprofundemos na essência da pergunta, se quisermos esclarecer em que consiste o modo peculiar de realização da experiência hermenêutica‖ (GADAMER, 2008, p. 473).

―A abertura de horizontes que o diálogo possibilita permite a educação fazer valer a polissemia dos discursos e criar um espaço de compreensão mútua entre os envolvidos‖ (HERMANN, 2002, p. 95). Na prática pedagógica, os diferentes espaços socializados e de convivência escolar podem ser o local ideal para recuperar e

aperfeiçoar a arte do diálogo entre alunos e professores. A conversa, como qualidade adquirida pelo ser humano, implica, sobretudo, corroborar e negociar ideias e pontos de vistas diferentes; coincidir e chegar a acordos de benefício mútuo mediante o discernimento das ideias.

Numa perspectiva pedagógica podemos dizer que a pergunta tem uma grande importância e é suscetível de ser aprendida e ensinada. É importante que o aluno aprenda a formular suas próprias perguntas. Por isso, a arte de perguntar está sempre presente como recurso pedagógico, como uma possibilidade dinâmica de abertura ao conhecimento. A pergunta situa-se na natureza do homem, ou seja, em um modo de ser que se traduz na compreensão originária do lugar que cada ser humano ocupa no mundo. Gadamer recupera a dialética da pergunta e da resposta como substrato ontológico e linguístico do discurso, assim, a pergunta pedagógica pode ser tematizada como um problema hermenêutico.

A literatura em sala de aula não tem outra função que criar um espaço de diálogo constante entre o mundo do leitor e o mundo do livro, sem obstáculo para que o leitor viva esteticamente a obra literária como um espaço próprio de aprendizagem, que lhe permite expressar seu modo de ver e de sentir o mundo. O texto literário é um texto em processo que necessita, para existir, de um leitor capaz de criar um discurso ali onde os vazios o exigem, capaz de entrar em diálogo com outros modos de pensamento para autorreconhecer-se.

Orientada pela intencionalidade da relação educativa, entendemos que a literatura, por expressar de maneira privilegiada a multivocidade do mundo da vida, pode proporcionar pontes de conexão como referentes dessa relação, resultando assim numa coincidência linguística, ou no chamado mundo comum. Tal conexão se faz necessária para que os elementos não se apresentem dissociados em diferentes campos, o que inviabilizaria a compreensão e os envolvidos não se afetariam ao sistema. Deixar-se afetar e permanecer no texto são exigências da leitura literária.

Desta maneira, a literatura obedece à necessidade de consolidar uma tradição leitora nos estudantes através da geração de processos que levem ao desenvolvimento do gosto pela literatura, ao prazer de ler poemas, novelas, contos e outros produtos da criação literária que permitam enriquecer a dimensão humana, sua visão de mundo através da expressão própria, autônoma, potencializada pela estética.

No processo de educar tomam parte os professores, os alunos, a família, a instituição educativa, a sociedade. Cada uma destas esferas deve possibilitar um clima de respeito e tolerância, de autonomia e independência para a educação na liberdade. Nadja Hermann fala que a tolerância, na teoria clássica da educação, assume uma dimensão formativa, na medida em que remete para a fundamentação moderna do ser racional, do sujeito autônomo e da liberdade individual. Citamos a autora:

A educação não só é orientada pelas ideias de bem e valores que são considerados válidos no mundo social, como também passa a ser determinante para que a própria sociedade efetive a ideia de tolerância, por meio da formação de sujeitos que podem escolher livremente, respeitar os outros e conviver com a diferença (HERMANN, 2010, p. 153).

Neste sentido é que podemos dizer que a arte gera esta autonomia, já que por meio da sensibilidade, que vai além dos sentidos, nos é permitido ver a vida desde outras perspectivas. O ensino da literatura nos leva a encontrar dita autonomia, já que por meio do que entendemos como sensibilidade, como porta de entrada das sensações, vamos além do simples conhecimento. Teremos, assim, o sujeito autônomo, capaz de estabelecer juízos de valor e assumir responsabilidades pelas suas escolhas.

Consequentemente, depois de apontar ao educando os valores básicos de nossa tradição, ao professor caberia um exercício hermenêutico de tomada de distância, para relativizar precisamente nossos valores e pautas morais, tendo claro que estas pautas e normas são particulares de uma tradição, a nossa tradição, e que não são universais. A autonomia exige valor porque pede ao sujeito exercer sua dignidade e, para fazê-lo, tem que eleger prioridades, correr riscos na aventura da vida.

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