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Baseado na perspectiva de Freire (2005a,b), perceber as nuances do jogo nas experiências brincantes das crianças é uma maneira de investigar e de explorar as suas ações híbridas, a sua subjetividade, o seu simbolismo, a sua lógica brincante e a sua apropriação ativa. Isso pode possibilitar o conhecimento sobre a produção de práticas infantis no cotidiano, bem como uma possibilidade também de ser repensado pelo professorado e, quem sabe, inserido na prática pedagógica, indo além de um objetivo pedagógico geral, para apostar na relação dialógica com a produção de cultura brincante infantil, como uma experiência coletiva.

Como uma maneira de pensar o espaço da Educação Infantil sob outro olhar, isto é, espaçostempos coletivos de educação, de especificidades e do tempo aiónico da criança e da diversidade que se inscrevem nessa relação, é importante ressaltar que “[...] as crianças estão sinalizando uma outra escola, produzindo, reproduzindo e construindo culturas” (SILVA, 2011, p. 111). Tonucci (2005), mais uma vez, contribui com esse pensamento quando aproxima as interações infantis à linguagem simbólica de cada criança, contrapondo à visão adultocêntrica da brincadeira, como mostra a imagem a seguir:

Fonte: Tonucci (2005)

Nessa perspectiva de proposta desta tese, de articular o hibridismo brincante ao trabalho pedagógico do professor, sugerimos perceber o jogo como um momento de visibilidade para o protagonismo infantil: de abertura e de descoberta para as suas lógicas e inventividades. Isso nos leva a pensar na possibilidade de rompimentos com o adultocentrismo, “[...] em vez da fragilidade, da incompetência, da negatividade

naturalmente atribuída aos pequenos, é possível formular outras hipóteses, a partir de

suas ações concretas e simbólicas” (NASCIMENTO, 2011, p. 51).

Uma delas pode ser por meio de uma “virada ressignificativa”,38 no sentido de mudar a perspectiva de atribuição de significados, de olhar por lentes que modifiquem a percepção dos acontecimentos para as atividades brincantes cotidianas, e, assim, possa considerar a concepção de criança como ativa, criativa e protagonista, que a reconheça como sujeitos de direitos, quer dizer, com o direito de exercer a sua infância e poder brincar de qualquer forma e em qualquer lugar.

Portanto, esta virada sugere a não-negatividade, indicando um comportamento positivo do hibridismo brincante e, o jogo como objeto, aludindo ao jogo educativo. Diferente de pensar o jogo como meio, com seu “didatismo”, pela intensão exclusiva do adulto em estimular certas aprendizagens nas crianças. Isto é, pelo seu “uso” (CERTEAU, 1994) como um meio para ensinar, aprimorar alguma habilidade ou qualidade e considera somente a internalização da cultura adulta. Vai de encontro ao

38Virada ressignificativa faz alusão à “virada linguística ou linguistic turn”, de apresentar uma nova

jogo didático (KISHIMOTO, 1998, p. 19), entendido como uma estratégia de ensino, um meio para a aprendizagem ou para desenvolver alguma habilidade.

Entretanto, propomos nesse estudo realizar uma “releitura do jogo educativo”. Por meio de um novo olhar, este estaria de acordo com os sentidos e os desejos atribuídos pelas crianças, levando em consideração a lógica infantil, o tempo da criança, a produção no interior da cultura de pares e as interpretações do cotidiano, reconhecendo-o como “objeto”.

Assim, o jogo e a brincadeira teriam um caráter educativo, no sentido de entendê-lo na perspectiva do protagonismo infantil, como um instrumento de linguagem e compreensão da cultura de pares infantil, de modo que sobressairia a cultura lúdica e as racionalidades infantis.

O caráter educativo vem do seu potencial pedagógico na compreensão do “jogo como objeto” e da criança como coprodutora das práticas brincantes, sendo um forte aliado para compreender o cotidiano escolar como um espaço de práticas lúdicas, criativas e socioculturais, que permitam que elementos que fazem parte da vida da criança estejam em constante diálogo com o trabalho pedagógico do professor. Para Santos et al. (2012, p. 117),

[...] a brincadeira e o jogo se apresentam como possibilidade de compreender as crianças como sujeitos que produz histórias e culturas com linguagem própria, a infantil. Assim, tornar o jogo objeto de intervenção nas aulas de Educação Física na Educação Infantil é uma forma de assumir outra racionalidade para esse espaço e tempo, que associa interesses e necessidades das crianças para favorecer o desenvolvimento de diversas linguagens presentes na escola.

Deste modo, a releitura do jogo educativo estaria fundamentada nos pressupostos teórico-metodológicos da Sociologia da Infância, levando em consideração a competência, a criatividade e a fantasia das crianças, em contraste com o adultocentrismo, quando as veem somente como “consumidoras” de cultura e de desejos dos adultos, sem direito a expressarem sua produção de conhecimento (CORSARO, 2011; SARMENTO, 2013). Assim, o desafio está em transcender a prática adultocêntrica e promover a sensibilidade para o cotidiano lúdico das crianças.

Uma sugestão seria aproveitar o espaço escolar para trazer à tona as experiências, a exploração e o sentido que as crianças experimentam, significam e protagonizam em suas brincadeiras, mesmo que não tenham consciência disso.39

Portanto, o jogo como objeto estaria tangenciado pelas experiências, pelas trocas sociais, pelos simbolismos e pela compreensão de situações do cotidiano. Essas situações lúdicas indicariam possibilidades para o professor conseguir articular o protagonismo infantil à sua prática pedagógica e, desta forma, trazer a criança para o centro do processo educativo.

39 Piaget (1978 apud FREIRE, 2005b, p. 41) indica que não podemos saber exatamente quando

aparece pela primeira vez a atividade simbólica nas crianças. “[…] não somos capazes de lembrar esses primeiros momentos, quanto mais observar isso ocorrendo em outra pessoa. Só o que constatamos são as manifestações. E quando a atividade simbólica se manifesta pela primeira vez, pode existir já algum tempo na criança sem que o saibamos”.

CAPÍTULO VI: OBSERVAR, APENAS OBSERVAR, POIS A CRIANÇA MESMA

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