• Aucun résultat trouvé

XXIV fluorène

Dans le document Disponible à / Available at permalink : (Page 46-77)

Como já referimos, no essencial o enquadramento conceptual deste modelo corresponde ao enquadramento mais lato das Teorias Desenvolvimentais Sistémicas, que temos vindo a apresentar.

O contextualismo desenvolvimental põe a ênfase no tempo e no sistema de níveis múltiplos e interrelacionados constituindo uma organização integrada. Como outras teorias desenvolvimentais sistémicas, encara o indivíduo como um sujeito activo, da mesma forma que o é o mundo que o rodeia, ou seja, a ecologia física e social da vida humana. O processo de desenvolvimento implica a integração ou “fusão” dos vários níveis de desenvolvimento, isto é, a pessoa e a diversidade de contextos em que está inserida, ou a sua ecologia, e depende das relações recíprocas, ou interacções dinâmicas, em constante mudança, que se estabelecem entre eles.

Outro aspecto deste modelo, que é comum a outras teorias desenvolvimentais sistémicas, é o facto de enfatizar a bidireccionalidade das relações entre os níveis múltiplos de análise, ou de organização, que correspondem à vida humana,

nomeadamente, os aspectos biológicos, psicológicos, os grupos sociais e a cultura (Lerner, 2002). Portanto, a acção da pessoa, ou da criança - que nos interessa aqui particularmente - sobre o contexto, ou sobre os pais ou outros significativos, assim como as acções destes sobre a criança, vão modelar o seu desenvolvimento. Há um enfoque no processo interactivo, que constitui a unidade de análise, e que corresponde, como foi anteriormente referido a um conceito forte de interacção ou de transacção e que contribui para o carácter probabilístico do desenvolvimento.

Esta visão probabilística do desenvolvimento constitui outro aspecto chave do contextualismo desenvolvimental. De facto, nesta perspectiva, ao contrário do que acontece no organicismo, e como já foi salientado, a mudança não tende para um fim ideal e estável, mas tem um carácter imprevisível. Isto leva Lerner (2002) a considerar que, ao enfatizar o carácter disperso da mudança, o contextualismo “puro” não é um modelo que por si só possa conduzir à teorização de um conceito adequado de desenvolvimento. A solução para este problema, está, segundo o autor, numa combinação de dois paradigmas, o contextualismo e o organicismo, no que vai contra a posição de Pepper, que não aceita a combinação de paradigmas, advertindo de que "o eclectismo é confuso" (Pepper, 1942, cit. Tudge & Winterhoff, 1993):

“...Assim, ou se adopta um novo paradigma ou, como sugeriu Overton (1984), pode ser possível ou mesmo “empiricamente útil”...combinar as ideias do contextualismo e do organicismo. Overton (1984) designou esta combinação de “organicismo contextual”. A minha preferência vai para o termo sugerido por Gottlieb (1970): epigénese probabilística. O termo contextualismo desenvolvimental pode ser útil “se” não se perder de vista o facto de que nos estamos a referir a um processo organísmico epigenético…No contextualismo desenvolvimental ou, mais genericamente, nas teorias desenvolvimentais sistémicas, o conceito de desenvolvimento é realmente um conceito de epigénese probabilística, de uma síntese entre processos e mudanças organísmicas e contextuais.” (Lerner, 2002, p. 74)

Na combinação dos dois paradigmas, Lerner (1989, 1998, 2002; Dixon & Lerner, 1999) vai procurar uma solução que lhe permita integrar a perspectiva teleológica do organicismo com o conceito de desenvolvimento ligado ao tempo (time-bounded) ou ao timming das interacções do contextualismo, permitindo, assim, ultrapassar o problema da dispersão. A solução encontra-a na perspectiva epigenética probabilística desenvolvida por Gottlieb (1970, 1983, cit. Lerner 1989, 2002), que tem na sua origem trabalhos de Schneirla (1956, 1957, cit. Lerner 1989, 1998, 2002) e de Tobach e Schneirla (1968, cit. Lerner 1989, 1998), e que vai dar uma visão probabilística das mudanças desenvolvimentais, devido à variação que ocorre nos timmings dos factores biológicos, psicológicos e sociais, factores esses que constituem a base interactiva da progressão ontogenética.

A perspectiva epigenética probabilística (Gottlieb, 1970, 1983, cit. Lerner 1989, 1998, 2002) considera as mudanças desenvolvimentais como resultantes das interacções recíprocas entre factores biológicos e contextuais. Acentua o carácter probabilístico do desenvolvimento, que se deve à influência do contexto em mudança nesse mesmo desenvolvimento, influência essa, que, devido ao estado de mudança constante, depende sempre do conjunto de condições contextuais do momento e das características do indivíduo (biológicas e psicológicas), ou seja, do timming das interacções organismo-contexto. Este facto, torna o desenvolvimento menos previsível no que diz respeito à aplicação de normas ao desenvolvimento individual.

No entanto, como Lerner (1998, 2002) refere, da mesma forma que organismo e contexto se modelam mutuamente, também se limitam, e, portanto, o mesmo processo que confere individualidade e plasticidade, também proporciona similitudes e estabilidade. Admite, porém, uma maior plasticidade, comparativamente às visões predeterminísticas do mecanicismo e das teorias epigeneticamente predeterminadas do organicismo, entre as quais Lerner (1989, 2002) cita em especial, as de Freud, Eriksson e Gesell. É este ênfase que a epigénese probabilística coloca na plasticidade do desenvolvimento, que constitui o alicerce teórico da perspectiva do espaço de vida (Baltes, 1968, 1987, 1997, cit. Lerner, 2002; Baltes et al., 1998, 1999, cit. Lerner, 2002), considerada por Lerner (2002) como um dos modelos teóricos-chave que, ao lado do modelo bioecológico de Bronfenbrenner (1989) e Bronfenbrenner e Morris (1998), maior influência tiveram e mais contribuíram para o desenvolvimento do contextualismo desenvolvimental (Lerner, 1989, 1998, 2002; Dixon & Lerner, 1999).

Lerner (1989), cita Bronfenbrenner para salientar que, nesta perspectiva o contexto não é apenas considerado como um conjunto de estímulos mas antes como “um

ambiente ecológico...concebido topologicamente como um conjunto de estruturas concêntricas, contendo cada uma a seguinte” (Bronfenbrenner, 1979, p.2) e que inclui

variáveis, biológicas, psicológicas, físicas e socioculturais, que vão mudando e forma interdependente ao longo da história (Riegel, 1975, 1976, cit. Lerner, 1989). A contribuição de Bronfenbrenner foi muito importante pelo facto de, no estudo do desenvolvimento, para além dos aspectos relacionados com a interacção pais-criança, se passarem, também, a ter em conta as relações bidirecionais que se estabelecem entre a família e as outras redes sociais em que funcionam a criança e os pais, assim como o contexto social e cultural mais alargado.

Há, portanto, como já foi várias vezes referido, um conceito de níveis do sistema mutuamente embebidos, de tal forma que organismo (factores biológicos) e contexto são inseparáveis. Deste modo, as interacções dinâmicas pais-criança podem envolver

não só processos sociais como físicos. Como exemplo destes últimos, Lerner (2002) aponta os possíveis efeitos, na dieta da criança, das opções religiosas ou do nível económico dos pais, dieta essa que se vai reflectir na saúde da criança, podendo levá- la a desenvolver situações de risco em termos de saúde e que, por sua vez, desencadearão mal-estar nos pais e poderão interferir nas suas expectativas e projectos de futuro em relação ao seu filho. Assim, pais, criança e a própria relação entre eles, são parte de um sistema mais lato de interrelações entre os diferentes níveis que constituem a ecologia da vida humana (Bronfenbrenner, 1979). Por sua vez, todo este sistema de interrelações está a mudar continuamente ao longo do tempo, ou seja, através da história, e as relações pais-criança são influenciadas pelas mudanças históricas, sejam elas graduais ou abruptas (revolucionárias). Como Lerner (2002) refere, o tempo, a história, atravessa todos os níveis do sistema e, no contextualismo desenvolvimental, todas as relações pessoa-contexto ou biologia-meio têm de ser consideradas nesta perspectiva.

Temos, portanto, pais e filhos, com a sua individualidade (biológica e psicológica), inseridos num contexto social alargado com características próprias, onde desempenham múltiplos papéis, constituindo este conjunto um sistema em mudança contínua. É neste processo de transacções bidirecionais e contínuas que a criança vai modificar os elementos do seu contexto, que, por sua vez, a modificam a ela, tornando-se, deste modo, um agente activo do seu próprio desenvolvimento.

Este processo que corresponde, como já acima referimos, ao conceito de funções

circulares de Schneirla (1957, cit. Lerner, 2002), é melhor compreendido dentro de um

modelo de goodness of fit da relação pessoa-contexto proposto por Lerner e Lerner, (1983, 1989, cit Lerner, 2002) e por Lerner et al (1995, cit Lerner, 2002). A criança traz as suas características específicas para um determinado contexto, que por sua vez lhe faz determinadas exigências que dependem das suas próprias características físicas e sociais, hábitos culturais implicados na socialização e características das pessoas significativas com quem a criança interage. A este conjunto de exigências estruturadas feitas ao indivíduo em desenvolvimento, chamaram Super e Harkness (1981, cit. Lerner 1989) nicho desenvolvimental. Se as características da criança se ajustarem às exigências ela responde adequadamente, caso contrário pode não responder, porque não houve ajuste ou correspondência entre ambos (goodness of fit).

O conceito de goodness of fit, diz, pois, respeito ao grau de congruência existente entre as características da criança e as exigências dos contextos, nomeadamente dos indivíduos significativos que com ela interagem. Quanto mais elevado for o grau de congruência, maior a adaptação da criança ao contexto, com efeitos em termos do seu

desenvolvimento. Em última análise, como Lerner (2002) refere, conseguir uma adaptação (goodness of fit) ao contexto é uma condição fundamental para a sobrevivência biológica, o que levou os defensores das teorias desenvolvimentais sistémicas a considerar que a evolução humana proporcionou o elo da cadeia que liga o funcionamento biológico ao social. Considerando que o contexto social é composto por indivíduos em desenvolvimento, ou em mudança, que vão afectar outros indivíduos que por sua vez o afectam a ele e que estas mudanças ocorrem aos múltiplos níveis do sistema e se processam ao longo do tempo, isto é, historicamente, desenvolvimento individual e mudança social estão inevitavelmente ligados.

No que diz respeito ao desenvolvimento de trabalhos de investigação dentro deste racional teórico, o próprio Lerner (2002) refere, que dado o enorme conjunto de variáveis com efeito no desenvolvimento e a complexidade das suas interrelações, não considera útil, ou mesmo possível, desenhos de investigação que pretendam considerar o todo. Aponta para investigações parciais, incidindo em diferentes níveis do sistema, tendo sempre como unidade de análise a relação pessoa-contexto, com base na selecção de determinadas variáveis individuais e ecológicas, para a qual o modelo proposto pode ser um suporte útil.

Também o modelo de goodness-of-fit, que acabámos de apresentar, é considerado por Lerner como muito útil para ultrapassar as dificuldades metodológicas colocadas por estas análises. Outro aspecto para o qual este modelo pode dar um contributo importante é ao proporcionar parâmetros que permitam apreciar a possibilidade de generalizar os resultados das pesquisas. Lerner (1998) defende, ainda, o desenvolvimento de projectos de investigação/acção, através de estudos longitudinais, levados a cabo por profissionais de diferentes disciplinas, que incluam o desenho, desenvolvimento e avaliação de intervenções que visem a promoção do desenvolvimento.

A investigação dentro deste racional deverá, assim, contribuir para o desenvolvimento de programas e de políticas de intervenção que tenham em conta uma perspectiva integrada e multidisciplinar do desenvolvimento, devendo para tal, segundo Lerner (2002), integrar as achegas actuais da ecologia do desenvolvimento humano (Bronfenbrenner & Morris, 1998). É precisamente este um dos modelos que passaremos a desenvolver em seguida, após o que referiremos o contributo de Wachs que propõe um modelo para a compreensão da variabilidade individual no desenvolvimento, que pode servir de base ao desenho da investigação e à definição de estratégias de avaliação e intervenção. Antes, porém, vamos destacar as propostas teóricas de Sameroff, que pela ênfase que põe no processo interactivo e nos seus

efeitos no desenvolvimento, se tornou uma referência no enquadramento conceptual da prática da intervenção precoce.

Dans le document Disponible à / Available at permalink : (Page 46-77)

Documents relatifs