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XVIII

Dans le document Voyage au centre de la Terre (Page 134-162)

Nesta pesquisa de Mestrado sobre as perspectivas, e funções sociais, das mulheres Pepel, de Guiné-Bissau, em relação ao Kumar, constatei que há uma forte valorização dos ritos e costumes tradicionais por parte da grande maioria dos integrantes desse povo.

Na verdade, como também sou Pepel, tais situações só confirmaram o que sempre observei desde minha infância, pois, mesmo quando ocorrem críticas aos costumes tradicionais, como as realizadas por algumas interlocutoras sobre o pouco poder decisório que as mulheres possuem em relação à organização da comunidade, a importância, e obrigatoriedade, dos ritos e, embora sejam questionadas, não são negadas.

Os questionamentos em relação à tradição Pepel, por sua vez, provém, em sua maioria, dos membros mais jovens desse povo ou daqueles residentes nas áreas mais urbanizadas de Guiné-Bissau. Ou ainda daqueles que, após a independência do país, foram estudar em outros continentes, devido a convênios educacionais internacionais, e acabaram se radicando nesses locais. O contato com modelos sociais distintos, a influência de outras religiões, como as neopentecostais60, as pressões efetuadas por organizações de direitos humanos61 e o projeto estatal guineense de construção de uma identidade nacional a partir da sublimação da diversidade étnica estão entre os fatores que fundamentam as críticas de alguns Pepel em relação a seus costumes tradicionais e até, em alguns casos fazem com que alguns indivíduos se afastem da comunidade.

Entretanto, mesmo nos dias de hoje, ainda vigora um forte sentimento de pertença entre os Pepel. Inclusive, dentre as mais de 30 etnias existentes em Guiné-Bissau, é uma nas quais esse sentimento de pertença é muito presente. Fato esse reconhecido até por integrantes de outros grupos étnicos do país.

Como procurei demonstrar neste trabalho o Kumar ocupa uma posição central no funcionamento e na manutenção do sistema de parentesco Pepel e, de certa forma, no próprio funcionamento da sociedade Pepel, já que as repercussões desse rito perpassam outras dimensões desse grupo étnico, como a política e a espiritual. Dessa forma, questionamentos e buscas por mudanças em relação a esse aspecto da cultura Pepel atingem, consequentemente,

60 Nas últimas décadas diversas igrejas neopentecostais têm se estabelecido em Guiné-Bissau, tendo como uma das principais táticas para angariar fiéis uma forte campanha de desqualificação das crenças tradicionais, de caráter nitidamente animista. A Igreja Universal do Reino de Deus, de origem brasileira, por meio de seu braço televisivo, a Rede Record, tem uma forte presença nos espaços de comunicação do país.

61 Uma questão sempre questionada pelos órgãos de Direitos Humanos em relação a sociedade Pepel é a do casamento arranjado, no qual, algumas vezes, adolescentes são obrigadas a se casarem com homens mais velhos ou com maridos escolhidos pelos pais da garota.

alguns pontos estruturais da sociedade Pepel, como a gerontocracia masculina e a posição social das mulheres.

Dessa forma, os lamentos profundos que ouvi de mulheres Pepel, como aqueles expressos nas falas “é difícil ser mulher Pepel” ou “preferia ter estudado antes de casar”, evidenciam não apenas críticas ao Kumar, mas ao “destino” social das mulheres que o Kumar parece consolidar.

Ao compararmos relatos antigos sobre o Kumar com alguns mais recentes, notamos que ocorreram algumas mudanças com o passar do tempo. Por exemplo, a idade mínima para uma mulher se casar, na atualidade, é de 18 anos. Há 30 ou 40 anos atrás era de 15 anos. Uma mudança ocasionada, provavelmente, pela pressão externa de alguns órgãos de Direitos Humanos que condenam casamentos com menores de idade e casamentos arranjados. Outra mudança que ocorreu foi em relação à virgindade da noiva. Neguns, que não fossem mais virgens, poderiam ser recusadas pelo marido e o casamento era anulado. Atualmente, embora no decorrer da cerimônia haja atos relacionados à comprovação da virgindade da noiva, tal questão já não é mais levada em conta. Neste caso creio que a alteração ocorreu como uma forma de se preservar o próprio grupo étnico, pois, no período pós-colonial, com a migração para espaços urbanos, o afastamento de alguns indivíduos das práticas tradicionais e o aumento dos casamentos extra-étnicos, a população Pepel diminuiu bastante. Devido a isso, certas situações que invalidavam os casamentos tradicionais, como a questão da virgindade, passaram a ser deixadas de lado.

Considero que, embora tenham ocorrido certas mudanças no Kumar, motivadas por pressões externas ou internas, ainda não houve uma alteração que ressignificasse a posição e os direitos das mulheres, não apenas em relação ao Kumar, mas à própria sociedade Pepel. Portanto, para as mulheres Pepel, ainda há grandes barreiras a serem vencidas para que a pu (barriga / linhagem)) e a mur (linha / casamento) deixem de ser amarras e fardos, mas sim caminhos que elas escolheram para suas vidas.

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