Neste capítulo apresento, e analiso, os dados que obtive durante o meu trabalho de campo.
Meu trabalho iniciou-se na tabanka de Quinhamel. Ao chegar ao local fui informada de que em todas as tabankas da região estava ocorrendo o fanado. Todos os indivíduos masculinos da comunidade, exceto as crianças, participam dessa cerimônia, a qual ocorre em um local isolado, no interior de uma mata, próxima às tabankas. As mulheres Pepel não podem nem ao menos acompanhar o rito, limitando-se apenas a observar o momento em que os homens partem para a mata onde tudo ocorrerá. Devido a essa proibição da presença das mulheres e a ida de quase todos os homens para o ritual, as tabankas, durante o fanado, ficaram mais femininas. Por isso tive bastante tempo, e liberdade, para conversar com as mulheres desses locais. Como residi na tabanka de Quinhamel durante uma parte da minha infância, reencontrei algumas antigas amigas. A maioria delas estava casada e com filhos. Nesta tabanka, e nas outras quatro (Tor, Dorci, Pluto e Kopedu), realizei entrevistas e rodas de conversa, a partir de um roteiro prévio, a fim de obter informações, sob um viés antropológico, do casamento tradicional Pepel e de suas significações e desdobramentos sociais para as mulheres da etnia.
. Como a transmissão da linhagem Pepel ocorre de forma matrilinear, a mulher é a figura essencial para a preservação e legitimação da identidade da etnia. Entretanto, esta importância da mulher para a sobrevivência dos Pepel como um grupo étnico não lhe proporciona uma preponderância política, já que o controle das kinhas, das moransas e das tabankas encontra-se nas mãos de homens.
Desta forma, defendo em minha pesquisa, a hipótese de que o Kumar reafirma a desigualdade social entre homens e mulheres na sociedade Pepel, já que esse ritual, importantíssimo na regulação dos poderes e das instâncias do sistema de parentesco desse grupo étnico, exige um grande comprometimento da mulher e, até, uma certa submissão delas aos homens.
A partir das respostas obtidas na entrevista, e em conversas informais com estas mulheres, constatei que a grande maioria não questiona a desigualdade política entre os gêneros, considerando-a até natural. Além disso, todas ressaltaram a importância do casamento tradicional para a preservação da etnia. Inclusive elas recomendaram que eu também realizasse a cerimônia.
Não realizei entrevistas padronizadas, com perguntas e respostas, mas sim rodas de conversas, nas quais eu introduzia alguma questão, originada de um roteiro preestabelecido, para identificar a perspectiva desse grupo de mulheres Pepel sobre alguns dos aspectos do Kumar.
Na tabela abaixo apresento algumas informações sobre as mulheres com que dialoguei sobre o Kumar e sobre outros aspectos da cultura Pepel:
Tabela 3: Informações sobre as interlocutoras desta pesquisa. INTERLOCUTOR A INFORMAÇÕES PESSOAIS
Bambraca Nhar; reside na tabanka de Pluto; tem 53 anos; mãe de 7 filhos; também é m'pené.
Mj Nhar; nasceu em Bissau; tem 45 anos; reside na tabanka de Kopedu; tem 4 filhos.
Belante Impli; nasceu em Pifine; cresceu distante da cultura Pepel; está casada com um homem Fula.
Glória Impli; tem 57 anos; tem 7 filhos; mora na tabanka de Dorci; foi casada com um homem Fula.
Maria Nhar; nasceu em Bissau; tem 58 anos; mora na tabanka de Tor. Karina Impli; tem 21 anos; é de Quinhamel.
Joaquina Negun, tem 18 anos; mora em Quinhamel. Helena Nhar; tem 33 anos, mora em Tor; tem 3 filhas. Elaine Nhar; tem 4 filhos; mora em Quinhamel. Gilda Nhar, mora em Kopedu; tem 03 filhos.
A primeira questão abordou o do fato do Kumar ser um casamento arranjado, no qual, tradicionalmente, os noivos, e perincipalmente as mulheres, não escolhem seus parceiros, sendo estes definidos por seus familiares. Em outras etnias de Guiné-Bissau, como os Balanta, matrimônios deste tipo são chamados de casamento dos omi garandis, já que são estes indivíduos que “arranjam” os casamentos entre as pessoas de suas linhagens. Podemos notar, a partir de algumas das características do Kumar, que há uma forte gerontocracia masculina entre os Pepel. Dessa forma, indaguei a minhas entrevistadas se elas foram obrigadas a se casarem com seus parceiros.
Bambraca contou-me que foi obrigada a se casar “com um homem que não desejava e que nem conhecia”. Afirma não ter reclamado da decisão, pois sabia que ninguém lhe daria atenção. Porém diz ter ficado tão chateada que se recusou a falar com seu marido
durante as festividades do Kumar. Outra interlocutora, Mj, afirma que não queria se casar com o homem escolhido pelo pai porque ela já tinha um namorado. Entretanto, passou a apanhar constantemente da mãe até concordar com o casamento. Elaine, que residia fora de Guiné- Bissau durante sua adolescência, afirma que foi pressionada, não pelos seus pais, mas sim pelos boeks de sua linhagem, para casar-se segundo a tradição. Temerosa das possíveis consequências ela decidiu realizar o Kumar.
As interlocutoras Maria e Gilda também foram obrigadas a se casar. Da mesma forma como ocorreu com Mj, Maria também apanhou muito de sua mãe para que aceitasse o casamento. Glória entrou em conflito com seus familiares por ter decidido casar-se com um homem e outra etnia, recusando não apenas o noivo escolhido pelo seu pai, como o próprio Kumar. Ela considera que “o certo é as pessoas escolherem com que vão se casar e que não devem se casar somente porque os outros querem”.Por ter feito isto, os irmãos de sua mãe deixaram de protegê-la, inclusive da violência de seu marido.
Belante afirmou que se casou com quem quis. E que tal ação talvez tenha sido possível porque ela, mesmo sendo Pepel, residia junto a outros grupos étnicos, não seguindo às regras tradicionais de seu povo.
A partir da análise das informações obtidas nessas interlocuções, podemos notar que, geralmente, há uma forte pressão dos pais da impli para que ela aceite um determinado noivo. E esta pressão, que pode até se manifestar em agressões físicas, é exercida não apenas pelos pais, mas também por outros habitantes da moransa, como os irmãos da noiva ou os irmãos da mãe da noiva.
Além da questão da escolha do noivo, também há a questão do momento do casamento. Segundo a tradição Pepel a mulher está pronta para se casar quando completa 18 anos de idade. Caso não se casem com essa idade passam a ser pressionadas, tanto pela família quanto pela comunidade, para fazê-lo. Uma das interlocutoras me disse que o seu pai a recriminava quando ela, aos 19 anos, ainda estava solteira e “não possuía seu próprio teto”.
Outro dado importante referente a esta primeira questão é o fato de que 5 das nhars foram obrigadas a se casar com homens que elas não haviam escolhido. Elaine, a sexta nhar, teve a possibilidade de escolher seu marido, mas se sentiu espiritualmente pressionada para realizar o Kumar, já que, segundo ela, em todas tabanka Pepel a que comparecia, os boeks, por meio dos m'pnés, as insultavam e a chamavam de impli e de “criança grande”.
Belante e Glória, que afirmaram terem se casado com quem quiseram, efetuaram uniões matrimoniais que não são reconhecidas pelos Pepel. Ou seja, de uma forma ou de
outra, nesse nosso pequeno conjunto de interlocutoras, quem realizou o Kumar, e, por isso, é considerada uma mulher casada, o fez porque foi obrigada.
Na segunda questão, ciente de que a maioria das mulheres Pepel são obrigadas a se casar, perguntei a minhas interlocutoras se casar-se era algo que elas desejavam. Imaginei ser interessante debater tal assunto com elas porque, devido à pressão social, a mulher Pepel parece estabelecer duas distinções acerca do ato de se casar, em que uma delas indique que ela se casaria obrigada e a outra em que se casaria por sua própria escolha. A opção de não se casar, escolhendo ficar solteira, talvez não seja algo considerado por muitas delas.
Diante das respostas que elas me deram constatei que ser uma mulher solteira não era algo que nenhuma delas desejava. Todas sempre quiseram se casar, ou seja, o casamento é visto como algo positivo. Os questionamentos em relação ao Kumar não estão direcionados à obrigatoriedade do mesmo, mas a certas características do ritual, como não poder escolher o parceiro e não poder definir o momento em que o matrimônio ocorrerá.
Por exemplo, duas interlocutoras, Bambraca e Gilda, comentaram que, embora quisessem se casar, ainda não se sentiam emocionalmente preparadas para estabelecer uma relação afetivo-sexual com um homem, ainda mais sendo um completo desconhecido. Outra, Mj, afirmou que queria se casar, mas não com seu atual marido, e sim com um antigo namorado, que teve de abandonar quando foi informada que seu pai lhe havia escolhido outro noivo. Uma quarta entrevistada, Maria, comentou que preferia ter concluído seus estudos antes de se casar. Karina e Joaquina, ambas implis, querem se casar por meio do Kumar, pois acreditam que assim valorizariam a cultura de seu povo. Além disso, também afirmam que aceitarão os maridos que seus respectivos pais escolherem para elas.
A terceira e a quarta questão tratavam, respectivamente, das funções desempenhadas pelo pai e pela mãe da noiva no Kumar. Como trata-se de uma cerimônia matrimonial composta por diferentes fases, buscamos identificar junto às interlocutoras, as responsabilidades que ambos exercem em cada uma dessas etapas.
Conforme verificamos na análise da primeira questão o pedido de casamento é feito ao pai da noiva pelo pai do pretendente, ou pelo próprio pretendente. Caso o pai biológico não esteja vivo o pedido é feito a alguém da moransa, ou da linhagem, da impli que exerça a função de pai.
Em relação à atuação dos parentes da negun na organização do casamento, podemos identificar que as tarefas são atribuídas de acordo com parentesco que a pessoa possui com a noiva. Dessa forma, o pai, a mãe ou o irmão da mãe possuem funções distintas e
específicas.
Nos casos analisados constatamos que o pai é o responsável em aceitar, ou negar, os pedidos de casamento que são feitos à filha. Entretanto não faz isso sozinho. Deve consultar os irmãos de sua esposa acerca disso, já que, de acordo com a tradição, os mesmos são os responsáveis e protetores dos filhos e filhas da irmã.
A mãe da noiva não possui poder acerca da aprovação, ou recusa, de um pedido de casamento, sendo apenas informada da mesma pelo marido, porém deve atuar para que a filha também aceite a decisão do pai. Segundo Bambraca, sua mãe nada fez para ajudá-la a tentar convencer seu pai de que ela, Bambraca, não queria se casar com um homem desconhecido. Ela acredita que sua mãe agiu dessa forma porque ela também casou-se dessa maneira. Essa postura das mães faz parte da sua tarefa de preparação de suas filhas para o casamento, pois, como já apontamos em outros capítulos, o Kumar é um dos rituais obrigatórios para a mulher na cultura Pepel.
Algumas de minhas interlocutoras relataram-me que, embora tenha sido o pai a definir o momento e a pessoa com que elas iriam se casar, eram suas mães que exerciam uma pressão cotidiana para que a decisão fosse aceita. Mulheres Pepel que não se casam, além de não serem consideradas adultas por não terem realizado este ritual obrigatório, também são vistas como um problema para seu grupo de parentesco, pois podem trazer complicações em relação aos direitos de herança e à descendência de sua linhagem materna. Como os filhos da futura mãe serão considerados, segundo a tradição, descendentes e herdeiros dos irmãos da mãe, eles (os irmãos da futura mãe) também interessam-se que ela se case e tenha filhos. E, devido a isso, como uma informante comentou, auxiliam a mãe da impli a pressioná-la sobre o casamento.
Ao indagar junto a minhas interlocutoras se elas haviam se arrependido por terem se casado, obtive respostas bem variadas.
Mj, que foi obrigada a se casar, afirma já ter pensando em até matar o marido para encerrar o casamento, tamanha foi a frustração advinda dessa união. Só não fez isto porque entendeu que estar casada lhe possibilitava a “participar de todos os rituais da tabanka”. Maria disse que não fugiu da casa do marido porque sabia que sofreria represálias da comunidade, perdendo inclusive todo o apoio dos familiares. Gilda arrependeu-se da união devido ao fato de ter entrado em conflito com uma das outras esposas do marido. Elaine e Bambraca, afirmaram não terem se arrependido de terem se casado. Elaine alega que o Kumar lhe permitiu a reconexão com a cultura dos seus antepassados e uma integração maior
junto à comunidade. Bambraca comentou que a boa relação com o marido fez com que ela, aos poucos, passasse a gostar de estar casada. Por outro lado, a convivência conflituosa com o parceiro fez com que Glória, que havia escolhido seu marido e optou por não fazer o Kumar, afirmasse estar profundamente arrependida de ter se casado, pensando, inclusive, em fugir.
Belante, que casou-se por vontade própria e de forma não tradicional, afirmou não estar arrependida, pois tem uma boa relação com o marido e por ter exercido o direito de escolher o seu parceiro.
Notei que a maioria das mulheres que afirmam querer fugir do marido, ou se separar, não o fazem por saberem que, dificilmente, terão apoio de seus familiares nesta decisão. Embora no sistema jurídico tradicional Pepel haja a possibilidade do casal deixar de viver sob o mesmo tempo, embora continuarão, pela tradição, sempre casados, isto ocorre com pouca frequência, devido, principalmente, à importância que a comunidade dá ao Kumar. Durante as conversas com essas mulheres notei que, realmente, há um reconhecimento geral sobre a importância do casamento. Todas a consideram fundamental para a inserção da mulher na comunidade, para o funcionamento do sistema de parentesco e como ritual de iniciação feminino, fazendo com que a impli torne-se adulta e possa participar de todos rituais sociais e espirituais do povo Pepel. O questionamento, como já apontamos, ocorre em relação ao fato do Kumar ser arranjado, impedindo o direito da mulher escolher o seu companheiro matrimonial.
Podemos notar este reconhecimento nas falas de algumas das entrevistadas: _ “Com o casamento pude entrar na kinha de minha mãe”.
_ “Depois de casar ganhei respeito de meus colegas e com meus antepassados”. _ “Mulher casada tem poder dentro da tradição”.
_ “Sem casamento mulher não tem cargo na tabanka”.
Além do reconhecimento da importância do casamento, também é possível identificar algumas das privações e complicações (sociais e espirituais) que uma mulher que não realiza o Kumar enfrentará em uma tabanka e junto a seus familiares.
Diante da constatação da obrigatoriedade do Kumar e da internalização, por essas mulheres, da importância desse ritual para suas trajetórias de vida, perguntei-lhes se elas achavam que deveria ocorrer alguma mudança nesse casamento tradicional para que as responsabilidades e os direitos, entre homens e mulheres, pudessem ser mais bem divididas, já que constatamos que o sistema tradicional de parentesco exige muito da mulher.
A totalidade das interlocutoras considera que deveria haver mudanças no Kumar, mas também entendem que isso dificilmente ocorrerá, pelo fato de ser uma tradição extremamente arraigada entre os Pepel. Algumas delas consideram que, talvez, com muito diálogo, seria possível alterar alguns elementos, ampliando os direitos femininos em relação à cerimônia, como, por exemplo, poder escolher o seu próprio marido ou o momento do casamento. Também há um questionamento em relação ao fato da poligamia ser permitida ao homem, mas não para a mulher.