Foram apresentados os estudos que apoiam a existência de determinantes das ideias parentais, determinantes estes que servem como argumentos para a polémica da dualidade entre as ideias como constructos pessoais ou ideias como conceitos provenientes da cultura onde o indivíduo está integrado. Da mesma forma, os estudos que apoiam a estabilidade das ideias parentais reforçam a sua origem na transmissão social, enquanto que os estudos que apoiam a mudança nas ideias parentais contingentemente às experiências vivenciadas, apontam para a construção das mesmas. Os autores que argumentam a favor de um processo construtivista na origem das ideias parentais baseiam-se nos estudos que revelam que experiências parentais diferentes (derivadas de diferentes constelações familiares, diferentes características das crianças, etc) implicam construções cognitivas realizadas em bases diferentes e, portanto, formas de pensar distintas. A experiência parental não só estará na origem das ideias parentais como também constitui o motor da sua mudança (Holloway & Hess, 1985; McGillicuddy-DeLisi, 1982a, 1982b; Sigel et ai., 1980; Stevens, 1984a). Porém, nem todos os estudos apontam neste sentido (Brooks-Gunn, 1985; Goodnow, 1985 e Ninio, 1979).
Os estudos que se debruçam sobre a observação das ideias parentais em diversos grupos culturais, étnicos, sociais, educativos, profissionais, etc, demonstram de forma
generalizada a existência de diferenças consistentes, o que leva os autores a concluirem pela existência de um mecanismo de transmissão cultural. As mudanças históricas observadas no conceito de criança vão no mesmo sentido. Cada sociedade tem um conjunto de ideias ou formas de conhecimento, muitas vezes não consistentes entre si (senso comum, folclore, estrutura da sociedade, das escolas, etc). As ideias parentais parecem assim fazer parte do reportório de representações de uma sociedade, já existente e assimilado por todos, emergindo a partir de um contexto mais amplo de conhecimentos e ideologias que é normativo e culturalmente determinado (Murphey, 1992). Neste sentido, as ideias parentais serão muitas vezes representações sociais, modelos culturais, "ideias já feitas" (Goodnow & Collins, 1990), em vez de construções individuais e, portanto, tenderão a manter-se estáveis ao longo do tempo.
Toda a discussão da problemática da transmissão versus construção das ideias parentais se apoia sobre esta diferenciação entre aquilo que de facto é recebido por transmissão cultural e aquilo que é fruto da construção cognitiva individual. Levanta-se, no entanto, a questão da validade desta diferenciação. Por exemplo, quando se considera a ideia parental de que, quanto mais velha é a criança, menor é o grau de influência dos pais sobre ela, será que se trata de uma ideia generalizada a todo o grupo social ou será que é uma consequência da experiência que os pais adquiriram ao exercer o seu papel parental à medida que a criança cresce? Ou seja, trata-se de uma ideia recebida ou de uma ideia construída? Da mesma forma, as diferenças entre pais e mães resultam da sua conformidade com o papel masculino e com o papel feminino (determinado pelo seu grupo social) ou trata-se de uma consequência do exercício do papel de pai e do papel de mãe? Até que ponto a pertença a uma classe social ou a um grupo cultural não determina a forma como as vivências individuais são assimiladas e as representações construídas? Também aqui as diferenças observadas entre indivíduos com diferentes níveis de experiência, podem apenas reflectir diferenças sociais mais alargadas, pelo que parece difícil aceitar a ideia de que os efeitos da transmissão social e os efeitos da experiência pessoal sejam independentes. Tal como afirma McGillicuddy-DeLisi (1992), a perspectiva construtivista não obriga a que as crenças sejam construídas isoladamente da cultura ou da sociedade, pelo contrário, estas estão necessariamente imbuídas no contexto cultural. As diferenças entre os grupos sociais podem residir não só nos conteúdos das ideias que são transmitidos, mas também nas características do seu processo de construção, pelo que a aceitação da transmissão social não obriga a que não possamos aceitar que também exista construção. O mais eficaz será reconhecer a presença tanto da perspectiva colectiva como da individual e perguntar como é que as pessoas integram a informação das várias fontes.
A interdependência entre as mensagens recebidas por transmissão social e as ideias construídas pode variar em função das próprias características de personalidade dos indivíduos. De facto, os indivíduos podem variar na forma como se deixam influenciar pelas construções culturais. A sociedade ou a família pode apresentar uma variedade de conceitos e os indivíduos podem variar na forma como aderem e se deixam influenciar por esta diversidade (Goodnow, 1988).
A influência do individual ou do social pode variar também com o conteúdo das ideias e depender das qualidades que as definem. As ideias e conhecimentos acerca do desenvolvimento de carácter mais global e abstracto (valores, objectivos educativos, calendários desenvolvimentais) serão mais susceptíveis de uma assimilação vicariante, enquanto que as ideias mais específicas relacionadas com competências específicas e estratégias educativas específicas serão mais susceptíveis de ser adquiridas a partir da experiência, portanto por elaboração ou construção (Murphey, 1992). As ideias acerca dos meios/métodos educativos serão mais susceptíveis de ser influenciadas pela experiência parental do que as ideias acerca dos fins (Goodnow et ai., 1986; Kohn, 1963).
Goodnow (1985) chama ainda a atenção para o carácter funcional das ideias, na medida em que nem sempre as ideias existem a priori, elas ajustam-se às situações, justificam-nas ou legitimam-nas quando necessário, reduzindo a dissonância cognitiva. Os
estudos apontam para uma adaptação das ideias às situações vivenciadas no sentido de reduzir a dissonância criada entre aquilo que se pensa e uma situação vivencial difícil de mudar ou de manutenção dispendiosa. Por exemplo, ao comparar indivíduos que não são pais com indivíduos que a curto prazo o vão ser, Pharis e Manosevitz (1980) verificaram que o primeiro grupo apresentava ideias mais pessimistas - o desenvolvimento das crianças era considerado mais lento, a educação da criança era considerada mais difícil e o estilo de vida era considerado como sofrendo uma mudança maior - do que o segundo grupo. Os estudos sobre atribuições de causalidade revelam que os pais acham que as características negativas da criança têm um carácter de maior instabilidade e as características positivas têm um carácter de maior estabilidade (Goodnow et ai., 1986). Os pais, mais do que as mães, acreditam que as mulheres são instintivamente melhores na educação das crianças do que os homens, que as crianças estão melhores com elas e que as mães são especialmente importantes nos primeiros anos de vida; estas ideias são tanto mais fortes quanto menor é a participação dos pais (homens) na educação dos seus filhos. De uma maneira geral, as pessoas com mais responsabilidades na educação das crianças têm mais necessidade de enfatizar os aspectos positivos inerentes a esta tarefa, bem como as gratificações que daí possam retirar: as mães