O final do século XVIII e o início do século XIX foram períodos difíceis para as Gerais. Estas dificuldades influenciaram muito no desenvolvimento da imprensa mineira, tendo em vista que o início do século XIX era o período de nascimento dos primeiros jornais do País.
As Gerais continuaram tendo muita importância econômica e política. Não tanto quanto no período setecentista. No entanto, ocorreram algumas mudanças que abalaram questões que eram chaves para o desenvolvimento da imprensa.
Um problema grave foi o despovoamento dos principais centros, principalmente de Ouro Preto. Esta era a cidade com as melhores condições de ser o berço da imprensa da Província, e acabaria tendo este papel. No entanto, como foi a localidade que mais sofreu prejuízos com a crise da mineração e com a Inconfidência Mineira, o reflexo no desenvolvimento da imprensa foi muito grande.
Em todo o Brasil, as capitais foram onde surgiram os principais jornais, e se desenvolveu a tipografia. Nas Gerais, isso não foi diferente. Mas, como Ouro Preto estava em crise, os jornais tiveram dificuldade em nascer e se consolidar.
A crise econômica causada pela decadência da exploração do ouro, no final do século XVIII, aliada à repressão à Inconfidência Mineira provocou um êxodo para regiões pouco povoadas das Gerais e até mesmo para fora da Capitania, de acordo com Carrato (1968). O fato de um grande número de pessoas deixar a região mineradora foi um fator bastante desfavorável ao surgimento dos jornais mineiros. Os principais centros da Capitania, que ainda continuaram localizados na região mineradora, por algumas décadas,
empobreceram-se, e alguns perderam parte de sua população. Além disso, os novos centros que surgiam demoraram também para se desenvolver.
A produção de ouro da Capitania, que foi superior a 100 arrobas34, entre 1763 e 1772; passou para 76, em 1776; e a 30, em 1808. Em 1820, a produção era de apenas duas arrobas. Com os diamantes ocorreu um processo semelhante.
A cidade que mais sofreu a crise econômica foi a capital, Ouro Preto. Isso foi ruim para a imprensa mineira, pois a cidade além de ser a capital, tinha uma grande tradição de vida cultural e política. Era o local mais propício para o surgimento de jornais. Aliás, apesar de tudo isso, Ouro Preto foi o centro da imprensa das Gerais na maior parte do século XIX.
Ouro Preto havia surgido em razão das riquezas encontradas em suas proximidades, mas sua localização era desfavorável para outras atividades. Situada em uma região muito difícil de ser abastecida. “(...) enquanto tivera ouro, pudera pagar caro o seu abastecimento, mas agora, reduzida à pobreza, era aquela lástima, aquela sombra do seu antigo esplendor” (CARRATO, 1968, p. 224).
A realidade de Ouro Preto, no período em que floresciam os jornais brasileiros, era de pobreza, falta de recursos públicos, diminuição da população e estagnação cultural. Isso era muito forte, por exemplo, na década de 1820, quando Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco viram surgir um grande número de publicações.
Como explica Prado Júnior (2004), em geral, as zonas mineradoras viveram o mesmo problema enfrentado por Ouro Preto. Para abastecer de alimentos as áreas de mineração, regiões próximas a elas foram utilizadas para a atividade agropecuária, como o Sul das Minas e a Zona da Mata.
As vilas localizadas nessas regiões sentiram menos o efeito da decadência da mineração, como foi o caso de São João Del Rei, que fazia parte da Comarca do Rio das Mortes. Lá não foi uma região mineradora tão importante, mas desenvolveu bastante as atividades agropecuárias. Ela não tinha problemas de abastecimento e ainda vendia seus excedentes ao Rio de Janeiro. A vila não sofria os efeitos da crise. “A Comarca do Rio das Mortes, diferentemente das outras, continua a ser o teatro pujante de numerosos núcleos de população” (CARRATO, 1968, p. 223). A região também possuía uma topografia mais favorável do que as outras zonas mineradoras, e tinha a grande vantagem de estar bem mais próxima do Rio de Janeiro.
(...) a vila (São João Del Rei) tornar-s e-á o centro natural de um comércio crescente e sólido, cujos fundamentos estarão nas atividades do campo, inclusive as indústrias rurais, sempre encontráveis naquelas propriedades agrícolas mais importantes e bem dirigidas (CARRATO, 1968, p. 264)
Já na década de 1780, São João Del Rei se destacava pelo seu crescimento populacional. Um exemplo disso é que os inconfidentes queriam fazer da localidade a capital da nova república, caso a revolta fosse vitoriosa.
O bom desempenho econômico da Comarca do Rio das Mortes refletiu na imprensa local. São João Del Rei foi a segunda localidade da Província a ter jornais, e teve uma imprensa influente na primeira metade do século XIX. O mesmo ocorreu com Sul das Minas, que também foi um importante centro de imprensa oitocentista.
Estas regiões se desenvolveram, mas não o suficiente para se tornarem o principal centro da imprensa mineira. Mas eram locais onde surgiam publicações relevantes. Com
isso, ocorreu uma certa descentralização da imprensa provincial. Isso por um lado foi bom, dando oportunidade a muitas cidades da Província de terem periódicos, mas dificultou a consolidação de um forte centro de imprensa.
Prado Júnior (2004) diz que, no início do século XIX, o Sul das Gerais era uma região próspera e para a qual se desloca um grande contingente populacional. “(...) trata de uma das zonas do País que já em início do século XIX oferecem maiores perspectivas” (PRADO JÚNIOR, 2004, p. 78). Por essas condições favoráveis da região, duas localidades foram respectivamente a sexta e a sétima a possuírem periódicos. Pouso Alegre, em 1830, ganhou o Pregoeiro Constitucional; e Campanha, em 1832, o Opinião Campanhense.
O Tijuco (hoje cidade de Diamantina) e o Serro Frio (hoje cidade do Serro) sofreram com a crise econômica, mas bem meno s que Ouro Preto. A região continuou tendo importância na Província, mesmo com a decadência da mineração. Além disso, essas regiões tinham algo que era muito favorável a imprensa. Nelas, a política era mais exaltada (o que favorecia o publicismo), bem diferente da moderação de Ouro Preto. Por isso, nessas regiões, principalmente no Tijuco, surgiram publicações muito importantes no século XIX, como a Sentinela do Serro (feita por Teófilo Otoni, seguindo o modelo das Sentinelas da
Liberdade, de Cipriano Barata) e o Jequitinhonha (produzido por Joaquim Felício dos
Santos).
Os dados demográficos de 1776 e 1821 mostram a crise que vivia Vila Rica (que depois viraria Ouro Preto). Dentre as cinco comarcas mineiras, Vila Rica foi a única que teve reduzida sua população, de 78.618 para 75.573 habitantes. Enquanto isso, a comarca do Rio das Mortes teve sua população aumentada em quase três vezes. Passou de 82.781 habitantes, em 1776; a 213.617, em 1821. Os dados mostram como a região mineradora foi perdendo importância para as zonas agropecuárias.
Em 1821, a comarca de Vila Rica só tinha uma população maior que a de Paracatu. A comarca de Sabará (outra importante área mineradora) também perdeu importância. Em 1776, ela era a mais populosa da Capitania; mas, em 1821, foi superada pela do Rio das Mortes. Os dados também mostram a grande importância que a comarca do Rio das Mortes, e, conseqüentemente, a Vila São João Del Rei, teve no início do século XIX.