2.1. A tipografia
Em todas as regiões do Brasil foi tardia a implementação de tipografias. No entanto, as Gerais ficaram alguns anos atrás das capitanias do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.
Com relação à arte da impressão, observa-se que as Minas estiveram atrás das principais capitanias, mas não tanto como com relação aos jornais. Isso mostra que a existência de tipografias, apesar de ser uma condição essencial para o surgimento de periódicos, não é suficiente para que isto ocorra. De acordo com Tengarrinha (1989) para o surgimento de periódicos são necessários três fatores: o progresso da tipografia, a melhoria das comunicações e o interesse do público pela notícia.
Essas três questões apontadas por Tengarrinha (1989) podem ser entendidas também como um conjunto de fatores sócio-econômico-culturais que possibilitassem o surgimento dos periódicos. Afinal, para existência de um público leitor, de rede de comunicações e prelos são necessários uma sociedade dinâmica, urbanizada e o desenvolvimento econômico e cultural.
Como se vê na história do País, tirando algumas frágeis experiências pioneiras, os prelos começaram a funcionar tardiamente, e inicialmente estiveram a serviço da Coroa
Portuguesa. Além disso, as frágeis primeiras iniciativas na arte da impressão, no Brasil, que ocorreram no século XVIII e início do século XIX, não levaram a criação de jornais. Isso mostra que a Colônia não possuía condições sócio -econômico-culturais para o desenvolvimento de periódicos. Fica claro que, até o início do século XIX, não bastavam tipografias para o desenvolvimento dos jornais brasileiros.
Por isso, é importante compreender que a existência de tipografias é essencial para o surgimento de periódicos, mas que, mesmo com os prelos, ainda eram necessárias outras condições para o desenvolvimento dos jornais. Para o surgimento das tipografias era necessário um certo desenvolvimento sócio-econômico-cultural, e para o nascimento dos jornais era preciso que isto alcançasse um nível maior. Além da dependência que existia dos jornais com relação a tipografia, também é clara como ambos necessitavam da urbanização e do desenvolvimento das atividades econômicas e culturais.
A partir da vinda da família real portuguesa, em 1808, com a implantação da
Imprensa Régia, no Rio de Janeiro, pode-se ver o surgimento da tipografia associado a
criação de um jornal, a Gazeta do Rio de Janeiro. Era o nascimento da imprensa brasileira. Com a vinda da Corte ao Brasil à Colônia nas Américas passava a ter uma posição política privilegiada, e também surgia um quadro sócio-econômico-cultural necessário ao nascimento dos jornais. Nesse período, a vida política, cultural e social do Rio de Janeiro ganhou grande impulso.
No entanto, como será mostrado mais adiante, a imprensa nascia, mas sofria restrições. Apesar disso, já estavam surgindo as condições para o desenvolvimento dos jornais em algumas capitanias, como Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, que também foram as primeiras a possuírem tipografias. Pode-se concluir isso, por, a partir de 1821,
quando se tornou livre a criação de jornais (tanto na Metrópole como nas colônias), terem rapidamente surgido várias publicações nessas regiões.
Era de se esperar que as Minas acompanhassem as principais capitanias e tivessem jornais no período colonial. Personagens da Capitania participaram de importantes iniciativas tipográficas, no final do século XVIII e início do século XIX. E, em 1821, estava pronta sua primeira tipografia. Mas os jornais não surgiram juntamente com os prelos, foram necessários dois anos para que a primeira publicação nascesse.
Para entender o processo de nascimento da tipografia nas Minas, é preciso compreender como os prelos surgiram nas principais capitanias. Também é necessário conhecer bem as primeiras iniciativas na arte da impressão nas Gerais. Com isso, será possível entender melhor o processo de nascimento dos periódicos mineiros.
A seguir é apresentada a história do nascimento da tipografia mineira, procurando mostrá-la dentro do contexto brasileiro.
2.1.1 No Brasil
Ocorreram quatro iniciativas pioneiras antes da implantação da Imprensa Régia, no Rio de Janeiro, em 1808. A primeira foi realizada no Paraná, e as outras três em Pernambuco, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Marques de Melo (2003) afirma que a primeira tipografia do País funcionou de 1700 a 1727, no Paraná. Os jesuítas formaram uma comunidade, localizada entre os rios
Paraná e Uruguai, povoada por índios que fugiam dos bandeirantes. Lá havia uma tipografia, em que eram impressos trabalhos em línguas indígenas.
Passos (1952), ignorando a experiência dos jesuítas, diz que a primeira tipografia brasileira surgiu em Pernambuco, em 1706. “Começou por imprimir letras e breves orações devotas” (VERÍSSIMO apud PASSOS, 1999, p. 20). Mas segundo ele, a tipografia teria durado menos de um ano, sendo extinta por uma ordem régia. Segundo Marques de Melo (2003), existem indícios que o prelo tenha funcionado de 1703 a 1707.
Sodré (1999) afirma que no final do período setecentista eram fabricados, com bons lucros, cartas de baralhos, produzidas em chapas de madeira. Também no século XVIII ocorreu, no Rio de Janeiro, a mais importante experiência de implantação de uma tipografia anterior à Imprensa Régia. O então governador Gomes Freire autorizou ao português Antônio Isidoro da Fonseca a criação de uma tipografia. Não se sabe exatamente o ano em que isso ocorreu, Semeraro (1979) acredita que tenha sido em 1746. No entanto, uma carta régia de 6 de julho de 1747 fechou a tipografia.
Nas Minas Gerais, em 1807, o padre José Joaquim Viegas de Menezes imprimiu, através do sistema chamado calcografia (utilizando chapas fixas de cobre), um opúsculo de 18 páginas. O trabalho foi feito a pedido do governador Pedro Maria Xavier de Ataíde, que quis ver impresso um poema que o homenageava. A técnica da calcografia, como explica Cunha (1986), era complexa e exigia maquinário e profissionais qualificados. Para abrir as chapas de metal foi necessário utilizar equipamentos da Casa da Moeda, e técnicos que trabalhavam no local. Mesmo assim foram três meses de trabalho para produzir poucos exemplares, de acordo com Cunha (1986). Sodré (1999, p. 34) considera a experiência como “proeza extraordinária para a Colônia”.
Como já foi mencionado, essas quatro primeiras experiências na arte da impressão, no Brasil, não levaram a criação de periódicos. Foram iniciativas frágeis. A que teve maior consistência foi a que ocorreu no Rio de Janeiro, provavelmente em 1746. Essa iniciativa contou com o apoio do governador da Capitania, Gomes Freire. No entanto, não havia ainda condições sócio -econômico-culturais para o surgimento de jornais no Rio de Janeiro.
Em 13 de maio de 1808 (dia do aniversário do príncipe regente D. João VI), foi criada a Imprensa Régia, no Rio de Janeiro. De acordo com Semeraro (1979), neste mesmo dia foi impresso a Relação dos Despachos Publicados neste Corte. O Correio Braziliense comemorou o surgimento da imprens a no Brasil, dizendo: “Tarde, desgraçadamente tarde: mas enfim, aparecem tipos no Brasil; e eu de todo meu coração dou os parabéns aos meus compatriotas” (apud SEMERARO, 1979. p. 8).
Como mostra Bragança (2002), ela foi a continuidade do trabalho da obra de um mineiro, o frei José Mariano da Conceição Veloso. Isso porque, em 1799, ele foi chamado para criar a Régia Oficina Tipográfica, Calcográfia, Tipoplástica e Literária do Arco do
Cego, que durou apenas até 1801. Lá passaram importantes mineiros e brasileiros, inclusive
Hipólito da Costa, o fundador do Correio Braziliense, e foi gestada a nossa imprensa. Em 1809, no Rio de Janeiro, foi construído um prelo de madeira para ser utilizado pela Imprensa Régia. Segundo Semeraro (1979), em 1822 a Imprensa Régia já contava com 11 prelos em funcionamento.
O primeiro tipógrafo a conseguir licença para instalar-se no Brasil foi o português Antônio da Silva Serva, em Salvador (BA), em 1811. Nessa oficina foram impressos o jornal Idade d’Ouro do Brasil (1811), e a revista literária As Variedades (1812).
No Recife, o comerciante Ricardo Rodrigues Catanho, em 1815, importou uma tipografia, que recebeu autorização para funcionar em novembro de 1816. Nela foi
impresso o Preciso, um documento político dos rebeldes pernamb ucanos. Por causa disso, foi determinado o fechamento da oficina, em 1817, e seu envio para Corte. Mas o governador cumpriu as ordens apenas parcialmente (deixando parte da tipografia no Recife), e isto possibilitou o surgimento de outra oficina em 1821, em que foram impressos os primeiros periódicos pernambucanos.
Logicamente, a existência de prelos antes das demais capitanias foi um fator que favoreceu o nascimento de jornais no Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Mas claro que o surgimento de tipografias nessas regiões não foi obra do acaso, mas sim conseqüência de condições sociais, econômicas e culturais favoráveis.
A partir de 1821, com a liberdade de imprensa proclamada pela Revolução do Porto, que ocorreu um ano antes, surgiram várias tipografias pelo País. Nas Minas começaram a funcionar duas tipografias em 1822, a Tipografia Nacional (oficial) e a outra tipografia construída pelo padre Viegas e o português Manoel José Barbosa Pimenta e Sal.
A imprensa surgiu nas Minas, de acordo com a classificação proposta por Marques de Melo (2003), na 2ª fase. A 1ª fase seria composta pelo Rio de Janeiro (1808) e pela Bahia (1811). A 2ª fase, por Pernambuco, Maranhão, Pará (1821) e pelas Minas (1822). E, a terceira, pelas outras províncias. Acredito que a Capitania de Pernambuco possa ser considerada como participante da primeira fase, por causa de seu prelo que começou a funcionar em 1816, e que apesar da proibição em 1817, possibilitou o surgimento de jornais na Capitania em 1821.