O desenho espacial de cada cena teve peculiaridades próprias. Antes, porém, gostaria de trazer uma reflexão quanto ao estado do corpo que se movimenta no espaço. Preencher um espaço cênico em três solos consecutivos requer um grande esforço para não tornar a cena cansativa para o espectador. Um corpo só em cena não conta com o apoio de outros corpos para preencher o espaço. Antes, porém, de pensar no espaço que o corpo ocupa, é preciso pensar no espaço que existe dentro dos limites do corpo. Em uma cena solo12, o olhar da platéia se fixa apenas em um corpo, que precisa estar inteiro e dilatado. A idéia de corpo dilatado, defendida por Eugênio Barba (1995, p.54) diz que:
O corpo dilatado é acima de tudo um corpo incandescente, no sentido científico do termo: as partículas que compõem o comportamento cotidiano foram excitadas e produzem mais energia, sofreram um incremento de movimento, separam-se mais, atraem-se e opõem-se com mais força, num espaço mais amplo ou reduzido.
Um corpo dilatado realiza uma movimentação volumosa, que aqui não significa tamanho do movimento, mas a idéia de um corpo que parece executar os movimentos sempre no limite das linhas que compõem a forma. Para entender
12
melhor essa idéia, pode-se pensar numa bola de soprar totalmente cheia de ar, utilizando o limite máximo de sua elasticidade. Esta bola pode realizar movimentos pequenos ou grandes sem interferir no seu volume. O mesmo princípio pode ser aferido ao corpo, só que ao invés de ar, ele é preenchido de energia13. Mesmo numa movimentação minimalista, a execução pode ser feita por um corpo elastecido pela energia gerada em seu espaço interno e isto é percebido pelo espectador (que também percebe quando o corpo está “murcho”).
Com o desenvolvimento dos ensaios de Isa Trigo e após o surgimento, a partir das improvisações, de algumas células de movimento, as quais desejávamos desenvolver para levar à cena, iniciamos um esboço espacial da obra. A diagonal inicial de Isa, traçada da esquerda fundo para a direita frente, foi se transformando em outras formas geométricas.
13
Segundo Barba “A energia do ator é uma qualidade facilmente identificável: é sua potência nervosa e muscular” (1995, p.74).
Na fase de exploração, senti que essa diagonal passou a ser um espaço que limitava as ações do corpo. Com isso fui, de maneira não consciente, explorando aos poucos outras possibilidades. Provavelmente estimulado pela idéia de uma linha diagonal, permaneci, não racionalmente, me deslocando sempre em linhas retas e nunca em curvas. Ao explorar alguns movimentos utilizando a porta de entrada da sala, troquei, sem que nenhum de nós tenhamos dado conta, a direção da diagonal. A partir daquele momento, a diagonal utilizada passou a ser a da esquerda fundo para a direita frente. O primeiro desenho surgido foi um triângulo retângulo:
Figura 15 – Primeiro gráfico espacial da cena O Corpo Íntimo do Olhar.
O ponto de partida do corpo no espaço era o centro da sala, que também era o meio da linha hipotenusa do triângulo. Isa sugeriu que eu me deslocasse em direção à porta de entrada da sala de ensaio e repetisse a mesma movimentação criada em interação com a porta no ensaio anterior. A porta se encontrava na direção diagonal esquerda frente. O estímulo surgido para percorrer esse espaço era o desejo de fechar a porta e, na imaginação, não permitir que outros corpos invadissem a sala.
O espaço foi surgindo a partir da movimentação que desejávamos levar para a cena. Ao sair da porta, percorri a linha paralela à platéia, chegando ao outro lado da sala, onde se encontrava o músico. Segui então numa linha reta para o fundo da sala e após chegar ao final dela, voltei em direção ao centro da sala, concluindo o
desenho do triângulo. Percebemos por fim que este processo não era suficiente para apresentar os resultados das improvisações que queríamos levar para a cena.
Eu precisava então continuar me deslocando no espaço. Resolvi transformar o ângulo reto num ângulo de 45 graus e seguir numa diagonal na direção direita fundo do palco. Chegando lá, atravessei o espaço mais uma vez numa linha paralela à platéia, só que desta vez pelo fundo da sala, chegando até o outro lado, para só então descer na diagonal direita frente em direção ao centro da sala.
Este caminho percorrido formava dois triângulos convergentes que se tocavam em apenas um dos vértices, criando uma forma aproximada de uma ampulheta, como mostra a figura a seguir:
Figura 16 – Gráfico espacial da cena O Corpo Íntimo do Olhar.
O ponto de partida do caminho a ser percorrido continuou sendo o centro da sala, que nesta nova figura era o vértice comum entre os dois triângulos. Isa me colocou posicionado ali, de pé e de frente para o público, para que eu pudesse olhar as pessoas quando elas entrassem na sala de apresentação. O músico, desde os ensaios em sala, se posicionou no lado esquerdo, o que foi aceito por Isa Trigo na transposição do espaço para o palco.
Coincidentemente o espaço da cena dirigida por Isa Trigo era quase igual ao da cena dirigida por Celso Júnior, que, como descreverei mais adiante, criou o espaço de sua obra com um retângulo cortado por duas diagonais a partir do espaço do
Quad de Samuel Beckett. É interessante ressaltar que os dois coreógrafos não
mantiveram contato entre si e que quando Celso Júnior trouxe sua proposta espacial, a cena de Isa Trigo já estava concluída.