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O primeiro ensaio de Celso Júnior foi, na verdade, um encontro onde ele me apresentou a idéia já estruturada da cena, o que mostrou que nos processos de criação as atividades citadas por Iannitelli podem mesmo preceder os ensaios.

Neste encontro Celso apresentou também o texto da cena. Eu sempre parto do

texto. Entender a estrutura e as forças que atuam no texto disse. O escolhido foi o

texto da peça Quad do dramaturgo Samuel Beckett. Esta peça, entretanto, não possui uma dramaturgia pautada num texto escrito, mas uma dramaturgia que se desenvolve a partir do confronto de quatro corpos que se locomovem num determinado espaço. Não existem palavras nessa peça. Os outros únicos elementos além dos corpos é a iluminação (nas cores branca, amarela, azul e vermelha) e sons emitidos por instrumentos de percussão.

O espaço onde se desenvolve a cena do Quad é um quadrado cujas laterais medem o equivalente a seis passos, como mostra a figura a seguir:

Figura 20 – Gráfico espacial da peça Quad de Samuel Beckett

Cada ator inicia sua ação em um dos vértices do quadrado, locomovendo-se sobre as linhas laterais e sobre as diagonais internas que ligam os quatro vértices. A ordem de locomoção é caminhar seis passos numa linha reta e depois oito passos numa diagonal. O percurso do ator que sai do ponto A é o seguinte: AC, CB, BA, AD, DB, BC, CD e DA. Os outros partem dos pontos B, C e D sempre começando

pela linha reta (em sentido anti-horário) e depois na diagonal, alternando sempre entre uma e outra, até retornar ao seu ponto de partida.

Ao desenharmos o espaço original do Quad no chão da sala, Celso Júnior achou que o quadrado ficaria pequeno para realizar a movimentação baseada nas fotografias projetadas na tela que estaria no fundo do palco. Frente a isso resolveu transformar o quadrado em um retângulo, cujas laterais verticais mediriam seis passos e as horizontais oito passos, formando diagonais que eram percorridas com dez passos. Isso favoreceria a movimentação que imitava os desenhos das fotografias, proporcionando um maior espaço para deslocar o corpo. O espaço utilizado para a cena passou então a ser o seguinte:

A tela de projeções foi colocada paralela à linha AB um pouco mais ao fundo. A movimentação criada para o momento das projeções era realizada por todo o espaço da cena, inclusive ultrapassando as linhas do retângulo.

Celso Júnior já havia montado essa peça duas vezes. A primeira vez trabalhou com quatro atores e na segunda com quatro dançarinas. “É a terceira vez que esse texto paira na minha cabeça [...] acho que ele é um enigma e eu ainda não o desvendei totalmente” disse.

A cena do Quad de Beckett cria uma dramaturgia pautada na locomoção dos corpos e na tensão que isso traz, quando, por exemplo, todos têm que caminhar cruzando o centro do quadrado e muitas vezes isso acontece concomitantemente. Esse confronto (reforçado pelos olhares trocados entre eles, pela música e pela iluminação) provoca em cada um diferentes estados de corpo, que são percebidos pelos espectadores, construindo uma dramaturgia física que prende a atenção da platéia.

O coreógrafo utilizou a peça de Beckett como estrutura básica para contar sua estória. Este texto de sua entrevista esclarece sua intenção em trabalhar com o

Quad: Eu não conheço técnica de coreografia, estrutura de coreografia. A estrutura visual da obra não é suficiente. Eu precisava de uma estrutura de ação, um caminho onde se chegar [...] e a minha referência imediata é o Quad. O Quad é apenas uma estrutura. [...] A idéia de usar o olhar contaminado como uma fuga dessa estrutura quadrada, começou a vir como uma estória na minha cabeça. Eu sou de teatro, eu gosto de contar estória, por mais abstrata que essa estória seja. Então minha estória aqui é: eu tenho uma estrutura quadradinha e eu quero me manter nessa estrutura quadradinha, mas a contaminação, a doença, a dor, as luzes me tiram dessa estrutura, mas eu acabo voltando pra ela e isso acaba virando um espetáculo mesmo. Agora eu tenho alguma coisa pra dizer. Agora eu sei exatamente o que isso quer dizer, porque eu não sabia. As coisas foram sendo criadas no “agora” e o Quad me dá essa estrutura que eu preciso. Podia ser outra qualquer. Podia ser O Lago dos Cisnes14, só que eu não conheço O Lago dos Cisnes, conheço o Quad.

14

Coreografia de balé clássico cuja versão mais conhecida foi criada em conjunto pelos coreógrafos russos Marius Petipa e Lev Ivanov em 1895, com música de Piotr Ilyich Tchaikovsky.

O trabalho com o Quad e a estória criada por Celso Júnior me levou a refletir que a dramaturgia na cena é uma dramaturgia implantada no corpo, mesmo quando se encena um texto escrito. E não foi diferente nas cenas deste trabalho. Quando utilizamos algumas palavras faladas, como nas cenas dirigidas por Celso Júnior e por mim, elas não contavam uma estória, mas sugeriam uma determinada situação ao espectador através do estado de existência do corpo, como sugere Greiner (2000, p.360-361) ao falar de dramaturgia do corpo:

Uma dramaturgia não mais enclausurada no texto teatral, mas absolutamente encarnada. [...] é possível pensar na hipótese de que a dramaturgia de um corpo seja um estado de existência do corpo, quer dizer, a implementação de instruções residentes no corpo que co-evoluem com o ambiente onde ele está.

Diferentemente de Isa Trigo, a idéia de descondicionamento do corpo dançarino não era uma preocupação de Celso Júnior. Para ele não importava a formação que eu tinha desenvolvido na dança. Ele sabia que estaria trabalhando com um dançarino e com a possibilidade de realizar um trabalho cênico centralizado no corpo e não no texto. “Eu tenho tido cada vez menos pudor em utilizar o corpo como tema” disse. O corpo como tema era um dos aspectos que mais o instigava em seu processo de criação.

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