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Iniciaremos esta seção do trabalho esclarecendo a seguinte questão: Afinal, por que estamos definindo nossa pesquisa como um estudo de tipo etnográfico e não como uma pesquisa etnográfica? Tal definição, de acordo com André (2008), apresenta-se como mais apropriada quando se trata de um estudo sobre questões educacionais. Isso porque há uma diferença de enfoque entre os estudos dos etnógrafos e aqueles realizados pelos estudiosos da educação. Enquanto os primeiros buscam descrever a cultura de determinado grupo social, a principal preocupação dos pesquisadores da educação seria com o processo educativo, o que faz com que algumas exigências da etnografia não precisem ser cumpridas no desenvolvimento de uma pesquisa dessa natureza em educação. Sendo assim, o que se tem feito realmente é uma adequação da etnografia à educação. Isso leva a autora a concluir que, nesta área, o que se faz são estudos do tipo etnográfico e não a própria etnografia.

Sobre esse tipo de pesquisa, a referida autora afirma ainda que o mesmo se caracteriza, sobretudo, por promover um contato direto entre o pesquisador e a situação pesquisada. André (2008) enfatiza que a realização de um estudo de tipo etnográfico permite ao pesquisador:

(...) documentar o não-documentado, isto é, desvelar os encontros e desencontros que permeiam o dia-a-dia da prática escolar, descrever as ações e

representações dos seus atores sociais, reconstruir sua linguagem, suas formas de comunicação e os significados que são criados e recriados no cotidiano do seu fazer pedagógico. [...] Essa visão de escola como espaço social em que ocorrem movimentos de aproximação e de afastamento, onde se criam e recriam conhecimentos, valores e significados, vai exigir o rompimento com uma visão de cotidiano estática, repetitiva, disforme, para considerá-lo como diria Giroux (1986), um terreno cultural caracterizado por vários graus de acomodação, contestação e resistência, uma pluralidade de linguagens e objetivos conflitantes. (ANDRÉ, 2008, p. 41).

Dentro dessa perspectiva, nossa pesquisa foi desenvolvida na sala de aula de duas professoras de turmas de alfabetização da EJA de escolas públicas municipais da cidade de Camaragibe/PE. A escolha por este município foi motivada por alguns fatores. Entre eles, destacamos o fator localização. Como nosso estudo seria realizado por um período longo, no horário da noite e exigia muitas visitas às escolas, para favorecer a coleta de dados, decidimos por desenvolvê-lo na cidade onde residíamos.

Outro aspecto que também pesou no momento de nossa escolha por Camaragibe foi o apoio da maioria dos profissionais das escolas desse município, com o qual sempre contamos ao realizarmos nossos estudos anteriores. Ao contrário das demais redes de ensino por onde passamos, percebemos que em Camaragibe a maioria dos professores consentia a realização de pesquisas que necessitassem da presença do pesquisador no interior das salas de aula.

Mas, como nosso estudo está centrado nas práticas pedagógicas de alfabetizadores da EJA, nenhum outro fator foi tão decisivo, quando optamos por esse município, quanto o fato de estarmos cientes de que os docentes que atuam em suas escolas têm a oportunidade de participar de cursos de formação continuada. Isso porque a formação continuada, dependendo da forma como é realizada, pode proporcionar aos profissionais que dela participam a reflexão sobre suas práticas, bem como a reconstrução delas (PERRENOUD, 2002). Sendo assim, acreditávamos que poderíamos presenciar momentos bastante ricos para nossa pesquisa nas práticas pedagógicas daqueles professores.

Com o intuito de atingirmos nossos objetivos, utilizamos os seguintes procedimentos metodológicos:

 Seleção das professoras, que foram acompanhadas ao longo do estudo, através do levantamento de informações junto à Secretaria de Educação do Município, bem

como pela realização de entrevistas com as docentes (APÊNDICE A), as quais serviram também para traçarmos o perfil das profissionais escolhidas;

 Acompanhamento da prática pedagógica de duas professoras, entre os meses de fevereiro a setembro de 2011, por meio de observações. Estas foram realizadas durante 15 (quinze) aulas de cada docente, totalizando 30 (trinta) observações. Cada dia de aula observado foi registrado por escrito, gravado em áudio e transcrito. Com base no material coletado, elaboramos 30 (trinta) relatórios, contendo a descrição e transcrição de todas as aulas, sobretudo das atividades desenvolvidas pelas professoras;

 Realização de entrevistas para traçar o perfil dos alunos (APÊNDICE B);

 Realização de minientrevistas com as professoras e seus alunos, ao final de algumas observações, para percebermos as concepções dos sujeitos sobre as atividades que foram desenvolvidas, voltadas para o ensino da leitura e da escrita, como também sobre a aprendizagem dos alfabetizandos;

 Realização de entrevista com uma representante da Secretaria de Educação de Camaragibe (a coordenadora da EJA), para traçarmos o perfil da EJA oferecida por essa rede municipal;

 Acompanhamento da aprendizagem dos alunos por meio da realização de atividades/diagnoses no início (APÊNDICE C) e no final da pesquisa (APÊNDICE D).

Assim como procedemos com o material proveniente das observações, todo o material coletado ao longo das entrevistas e minientrevistas foi gravado em áudio, transcrito, impresso e encadernado. Ainda sobre a realização das entrevistas e observações, vale ressaltar que a escolha por tais instrumentos de coleta de dados se deveu ao fato destes serem considerados importantes componentes no desenvolvimento de uma pesquisa de natureza qualitativa (LÜDKE; ANDRÉ, 1986). Acreditamos que essas técnicas têm características complementares, visto vez que por meio das entrevistas podemos aprofundar/esclarecer algumas questões observadas (ANDRÉ, 2008), enquanto as observações, por outro lado, podem possibilitar ao pesquisador a captação de situações ou fenômenos variados que não poderiam ser obtidos por meio de perguntas, “uma vez que,

observados diretamente na própria realidade, transmitem o que há de mais imponderável e evasivo na vida real.” (NETO, 1994, p. 59 – 60).

Conforme mencionamos, realizamos entrevistas em quatro momentos do estudo: para selecionar as professoras e traçar o perfil daquelas acompanhadas ao longo do estudo, para traçar o perfil dos alunos, para perceber as concepções dos sujeitos sobre as práticas das professoras e as aprendizagens dos alunos e para coletar informações sobre a EJA em Camaragibe junto à coordenadora dessa modalidade de ensino. Nesses quatro momentos as entrevistas foram semiestruturadas, uma vez que este tipo de entrevista permite ao pesquisador captar as informações pretendidas de maneira mais imediata e corrente, desenvolvendo-se a partir de questões básicas que não são aplicadas de maneira rígida. (LÜDKE; ANDRÉ, 1986).

Quanto às observações, estas foram do tipo participante. Para André (2008), a observação participante caracteriza os trabalhos de tipo etnográfico em educação, visto que esta é uma das técnicas tradicionalmente associadas à etnografia. A observação recebe a denominação de participante quando parte do princípio de que haverá certo grau de interação entre o pesquisador e a situação investigada, em que ambos se afetam, ou seja, o pesquisador afeta a situação estudada por ele ao mesmo tempo em que é por ela afetado.

Para analisar os dados coletados durante as entrevistas e observações, tomamos como referencial a análise de conteúdo proposta por Laurence Bardin (2004). Segundo a autora, utilizando-se desse “conjunto de instrumentos metodológicos”, que oscila entre a objetividade e a subjetividade, o pesquisador realiza a análise de mensagens por meio de um processo de “desocultação” do não-dito, no qual “uma segunda leitura se substitui à leitura ‘normal’ do leigo” (BARDIN, 2004, p. 07).

Dentro dessa perspectiva, optamos pela análise de conteúdo categorial que, de acordo com a autora, é não só a mais antiga, como também a mais utilizada, no conjunto das técnicas da análise de conteúdo. Essa técnica exige a realização de uma investigação a respeito do que há em comum entre os elementos. É esse processo que permite o agrupamento dos mesmos. “A categorização é um processo de tipo estruturalista e comporta duas etapas: o inventário: isolar os elementos; a classificação: repartir os elementos, e, portanto, procurar ou impor uma certa organização às mensagens.” (BARDIN, 2004, p. 112). Ainda de acordo com a autora, a leitura de estudos já realizados

pode inspirar o pesquisador no momento de criação das categorias. Sabendo disso, inspiramo-nos em algumas das pesquisas lidas por nós (por exemplo, ALBUQUERQUE; MORAIS e FERREIRA, 2008; CABRAL, 2008), mas buscamos ir ao campo sem categorias pré-estabelecidas. Assim, deixamos que estas emergissem do contexto, ou melhor, dos conteúdos coletados – ditos ou escritos – no decorrer de cada entrevista ou observação.

No próximo tópico, antes de apresentarmos os sujeitos da pesquisa, acreditamos ser fundamental discorrer sobre a situação da EJA no município pesquisado. Isso porque tal modalidade de ensino além de ser marcada por suas especificidades, conforme já discutimos, ela também adquire características próprias no âmbito de cada rede pública de ensino. Sendo assim, não poderíamos discorrer sobre a seleção dos sujeitos sem mencionarmos como vem ocorrendo, por exemplo, a organização das turmas nas salas de aula das escolas da rede municipal aqui focalizada.

3.2 A EJA NA REDE DE ENSINO MUNICIPAL DE CAMARAGIBE: ALGUMAS