BACKGROUND ON BRIDGE AERODYNAMICS AND WIND TUNNEL TESTS
A.2 Wind Tunnel Tests
As práticas de dominação e de subordinação existentes na nossa sociedade praticamente não se alteraram nesses quinhentos anos. Desde o início, como os negros e seus descendentes representavam de maneira significativa a classe dominada, consequentemente, "as suas religiões passaram a ser vistas, por extensão, pelos dominadores, senhores de escravos, como um mecanismo de resistência ideológica social e cultural ao sistema de dominação que existia" (MOURA, 1988, p. 52-53). O colonizador via nessas religiões uma ameaça à sua pessoa, aos seus valores, suas crenças e as suas tradições.
A resistência cultural apresentada pelos negros pode ser identificada na forma como preservaram suas religiões, que resistiram mais que qualquer outro aspecto de suas culturas às imposições trazidas pelos conflitos, face aos diferentes contatos culturais ocorridos durante a colonização (BITTENCOURT FILHO, 2003). Dessa forma, o sincretismo pode ser ou se assemelha a uma forma de resistência dos dominados, na medida em que os valores de uma cultura hegemônica não são completamente absorvidos por meio de uma aculturação passiva (SHAW e
STEWART, 1994). Os negros, inicialmente, procederam ao escamoteamento de suas crenças religiosas sob o manto da aparente devoção aos santos católicos. Isso configurou uma forma implícita de significativa resistência cultural, e concomitantemente, a preservação das raízes e tradições africanas, no que se refere, principalmente, as suas práticas e crenças religiosas.
Os negros para que pudessem preservar a sua religião, tiveram que disfarçar seus orixás sob o manto dos santos católicos, ocorrendo a superposição de imagens, e também, de nomes católicos face ao panteão africano. Essa equivalência dos deuses africanos com os santos católicos não foi uniforme, nem mesmo dentro do Brasil, apresentando variações de um lugar para outro. Percebemos que com a vinda dos negros para o Brasil, deu-se uma profunda desconstrução da mitologia e dos cultos africanos, daí “a consequente necessidade de preencher as lacunas do quebra-cabeça constituído pelos fragmentos mitológicos recebidos da tradição parece estar expressa no modo particular pelo qual o sincretismo é usado no culto” (SEGATO, 2005, p.140). A religião dos negros e de seus descendentes constituiu-se num elemento muito importante, a medida em que propiciou revestir as suas organizações, tornando- as, consequentemente, um polo de resistência, consolidando um ethos particular, que fez frente ao processo empreendido de domínio e de desvalorização de sua cultura e de sua religião (SANTOS, 1977; REHBEIN, 1985). O sincretismo religioso neste contexto, cumpriu um papel essencial, pois, foi o instrumento que propiciou a sobrevivência das crenças e das tradições africanas face a essa dominação cultural e escravocrata europeia (mormente, a portuguesa), e isso configurou-se como resistência cultural e religiosa dos negros e dos afrodescendentes.
O sincretismo, por outro lado, é considerado como um processo que procura solucionar um contexto de conflito cultural, onde ocorre um esforço para se alcançar um lugar correspondente àquilo que o indivíduo ou o grupo concebem como o papel que eles desempenham em sua respectiva cultura. O sincretismo nesse processo de procurar reduzir, anular e mesmo prevenir os conflitos culturais, apresenta duas fases ou dois momentos distintos, denominados de acomodação e assimilação. A acomodação significa a fase inicial em que ocorre um ajustamento de natureza exterior, não havendo mudanças de ordem interna. O indivíduo ou o grupo acomodado continuam mantendo alguns preceitos e valores da cultura da qual se originaram. Diferentemente do processo de assimilação que traz uma transformação de ordem interna, mas, que não se manifesta repentinamente. Os sujeitos adquirem,
despercebidamente, de forma paulatina e moderada, vez que advém por meio de um processo inconsciente, onde novos valores, sentimentos, hábitos e tradições, inclusive, religiosas, pertencentes a um outro grupo de indivíduos, passam a ser partilhados na mesma vida social, cultural e religiosa (VALENTE, 1976).
Ressaltamos que o sincretismo religioso se insere no rol das características da capacidade que o indivíduo brasileiro tem de relacionar diferentes coisas, até mesmo antagônicas entre si. Num primeiro momento, ele teve uma função muito importante, pois significou uma forma encontrada pelo negro para fazer frente à opressão vivenciada numa sociedade católica e espoliadora, e lhe dar forças para sobreviver, suportando as agruras diárias, procurando resolver de uma forma prática os problemas diários que lhe afligiam, sem se preocupar em entender a lógica que o sincretismo vivenciado pudesse ter (FERRETTI, 1995).
Uma das características principais da sociedade brasileira é essa capacidade de estabelecer vínculos, de facilmente criar relações, de procurar estabelecer pontes, unindo elementos de tradições opostas e contraditórias, sintetizando-os, ficando entre eles; de relacionar “o céu com a terra; o santo com o pecador; o interior com o exterior; o fraco com o poderoso; o humano com o divino e o passado com o presente” (DA MATTA, 1987, p. 14), constituindo-se esta capacidade de relacionar o cerne da ideologia dominante em nossa sociedade.
Os negros valendo-se daquilo que Roger Bastide (1985) denominou de 'princípio de corte',23 conseguiram conviver em dois mundos completamente
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No Brasil, após a libertação dos escravos e a proclamação da República, aumentou significativamente o contato da comunidade negra com a sociedade lusobrasileira (formada por pessoas brancas). Esses contatos, entretanto, eram mais informais, e também, de caráter mais cultural do que social. Nesse contexto histórico, onde se buscava uma integração nacional entre todos os brasileiros, independentemente de sua cor da pele ou de sua origem étnica, onde, coincidentemente, os contatos com a África praticamente cessaram, isso tudo gerou uma desconstrução monstruosa das tradições, dos valores e das crenças dos negros africanos e de seus descendentes. Como resposta, os negros passaram a vivenciar o 'princípio de corte', “edificando em seu interior, uma barreira quase intransponível entre os dois mundos opostos que nele habitavam, o que lhe permitiu uma dupla fidelidade a valores frequentemente contraditórios” (BASTIDE, 1985, p. 238). Entretanto, esse processo não foi doloroso ou lhes causou quaisquer automutilações, pelo contrário, eles passaram a viver nas duas culturas (ao mesmo tempo) de forma tranquila, sem que houvesse quaisquer conflitos entre elas ou se misturassem. O 'princípio de corte' foi “a solução mais econômica ao problema da coexistência pacífica de dois mundos numa única personalidade” (BASTIDE, 1985, p. 238). Mas, esse corte não foi absoluto, pois, as religiões africanas não estariam isentas ou incólumes às sutis influências que pudessem haver advindas das religiões do mundo dos brancos (BASTIDE, 1985). Destacamos que o 'princípio de corte' oportunizou aos negros escaparem da condição de marginal, que lhes era imputada, por terem passado a vivenciar, também, as crenças dos brancos.
Ressaltamos que, o homem marginal consiste naquele que “através da migração, educação, casamento ou alguma outra influência, abandona um grupo social ou cultura sem realizar um ajustamento satisfatório em outro, e encontra-se na margem de ambos, sem pertencer a nenhum” (STONEQUIST, 1948, p. 163).
diversos um do outro, quais sejam, com o mundo de suas crenças e de seus rituais, e com o mundo dos valores e das crenças pertencentes aos colonizadores que exerciam o poder sobre eles. Isso entretanto, era com o intuito de obter uma convivência pacífica, sem conflitos, choques ou tensões, para que pudessem ter paz de espírito. Assim, realizavam os seus rituais e cultuavam as suas divindades tradicionais originais, e igualmente conseguiam participar da liturgia do catolicismo e rezar para os santos católicos com a mesma intensidade e devoção. Portanto, não era um processo natural com indivíduos dóceis, passivos, obedientes ao sistema ou convertidos ao catolicismo, pelo contrário, era um processo religioso, consciente e intencional em que objetivavam alcançar uma convivência que fosse harmoniosa (BASTIDE, 1985).
O sincretismo religioso constitui a composição de elementos de uma dada religião que são estranhos entre si mesmos, e que podem ser advindos da interação de elementos trazidos por uma outra religião ou pelas estruturas sociais. Especificamente, em relação à influência e consolidação do cristianismo na cultura brasileira, há três tipos de sincretismos que correspondem, respectivamente, às três ações do cristianismo no interior de nossa cultura, que são o catolicismo guerreiro, o patriarcal e o popular. Os dois primeiros estão ligados aos portugueses e o último aos índios e aos africanos, e posteriormente, aos afrodescendentes. Assim, a ação missionária da igreja católica propiciou o surgimento do sincretismo religioso, pois ele se constituiu na própria exigência dessa ação missionária (HOONAERT, 1978).
Destacamos que, não se pode ter conclusões de caráter genérico em relação ao sincretismo, diante da riqueza apresentada por esse fenômeno. Nesse diapasão, é melhor procurar analisar a sua estrutura do que procurar defini-lo, tendo em vista as variadas transformações pelas quais ele perpassa, que ampliam de forma contínua o seu campo de manifestação. Vejamos a seguir como o sincretismo se expressa nas fronteiras interétnicas que se estabelecem face aos diversos encontros culturais e religiosos ocorridos, e na correspondente negociação das identidades que se perfazem, nucleadas por essas supracitadas fronteiras.