À medida em que o tráfico de escravos acontecia, com a vinda ininterrupta dos mesmos para o Brasil, e até que acontecesse o fim desse tráfico, os negros que chegavam iam convivendo com os que aqui já se encontravam- que estavam mais adaptados à nova vida11 - e com as uniões havidas entre esses e os portugueses, e entre eles e os povos ameríndios, vulgarmente denominados de índios, e destes com os portugueses formaram os denominados afrodescendentes, crioulos, mulatos e cafuzos, e juntamente com os holandeses e os franceses, apesar destes terem sido expulsos posteriormente do Brasil, também, eles deixaram algumas heranças culturais que contribuíram para a formação da identidade brasileira.
A estruturação do ethos brasileiro, sua correspondente identidade cultural e religiosa foi constituída por meio das interrelações ocorridas entre essas diferentes culturas que apresentavam valores, crenças e organizações culturais, sociais, políticas, econômicas e religiosas bastante diversificadas. Para Geertz (1989, p. 67),
na crença e na prática religiosa, o ethos de um grupo torna-se intelectualmente razoável porque demonstra representar um tipo de vida idealmente adaptado ao estado de coisas atual que a visão de mundo
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Mas, anteriormente a vinda dos escravos negros africanos para o Brasil, e antes, também, da vinda dos portugueses, aqui já se encontravam, como já foi visto, os povos nativos, ameríndios, civilizações pré-colombianas que ocupavam, principalmente, a costa brasileira do país.
descreve, enquanto essa visão de mundo torna-se emocionalmente convincente por ser apresentada como uma imagem de um estado de coisas verdadeiro, especialmente bem-arrumado para acomodar tal tipo de vida.
Os portugueses ao virem para o Brasil trouxeram consigo uma visão religiosa de mundo pautada no catolicismo, porém, como já fizemos referência, um catolicismo repleto de magia, que concebia paraísos terrestres e também, lugares habitados por entes demoníacos. Essa era a visão que dominava o imaginário europeu ao longo do século XV e XVI, que se devia ao fato de imperar um significativo analfabetismo na Europa ao longo desses séculos, apesar das artes e das letras serem cultivadas em algumas cortes. Mas, “a religião das massas era impregnada de uma visão mágica do mundo e de ingredientes folclóricos, e a cultura religiosa católica parece que apenas conseguiu encobrir as zangadas divindades pagãs com um verniz superficial” (BITTENCOURT, 2003, 46-47).
Os negros que vieram como escravos trouxeram também consigo o arcabouço simbólico das religiões que professavam na África, com a ressalva que já adotavam na África certos costumes europeus, e também, certos preceitos cristãos. A exemplo, a própria rainha Njinga12 símbolo maior de resistência e oposição negra africana face aos estrangeiras que ali aportavam, “mesmo defendendo a independência ambundo-jaga, Njinga em muitos momentos comerciou com os portugueses e adotou alguns costumes europeus” (SOUZA, 2006, p.108).
A partir da metade do século XIX, veio para o Brasil o Espiritismo Kardecista, que teve seu nascedouro na França, e nessa mesma época ocorreu também, a vinda de “alguns poucos fragmentos do Catolicismo romanizado” (BITTENCOURT, 2003, p. 41), vez que o catolicismo anterior aqui existente não era muito ortodoxo, pois ele havia se tornado um catolicismo popular que tinha agregado alguns símbolos indígenas e africanos aos seus rituais. O contato antigo dos negros com o catolicismo, já na África, facilitou o aparecimento no Brasil, de ritos religiosos com estrutura africana, porém, com a agregação de alguns elementos católicos. A exemplo, na própria religião Umbanda, que abordaremos no segundo capítulo, “seus
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A rainha Njinga, que viveu “no século XVII, chefiava o Dongo, e também, o Matamba, um estado vizinho, foi a maior líder da resistência local e entrou para a história de Angola como um de seus mitos fundadores. Njinga ou Jinga, como também é chamada, governou de 1626 a 1663, quando faleceu com mais de 80 anos” (SOUZA, 2009, p. 70).
Mas, por outro lado, a despeito de ter contribuído muitas vezes para que inúmeros pontos de vendas de escravos africanos fossem fechados face ao medo que seus liderados inspiravam e “a pressão que exercia sobre os chefes locais”, “a posição da rainha Njinga com relação ao tráfico era ambivalente, às vezes abrindo e às vezes fechando os mercados” (Souza, 2006, p.109).
líderes ficaram conhecidos como pais e, principalmente mães de santo, sendo o santo o nome genérico, de nítida influência católica, dado à entidade incorporada durante a possessão a qual o culto é dirigido” (SOUZA, 2009, p. 115).
Tudo isso resultou para o Brasil na configuração extremamente mestiça de nossa identidade cultural e religiosa, como consequência do encontro de várias contribuições étnicas, culturais e religiosas tão diferentes entre si, mas, que se interpenetraram e se influenciaram profundamente. Neste contexto, os africanos e seus descendentes tiveram uma contribuição mais significativa do que qualquer outra etnia para a formação dessa identidade brasileira, pelo fato do elevado número de negros que para nosso país vieram, com a ressalva ainda de que “eles foram a principal força de trabalho por mais de trezentos anos” (SOUZA, 2009, p. 128).
Percebemos que a formação da identidade cultural e religiosa brasileira se deu de forma altamente sincrética, já desde o descobrimento do Brasil e vinda dos colonizadores portugueses para cá. Portanto, analisaremos esse cenário a partir desses encontros ocorridos, principalmente, entre negros e brancos (colonizadores), que se perfizeram por meio de um processo antagônico entre tão diferentes culturas e religiões, e em que a cultura e a religião negra foram vistas pelos colonizadores como inferiores. Nesse sentido, vamos refletir a seguir sobre as teorias e os estudos culturais procedidos por alguns teóricos acerca destas problemáticas.