Chapter III – Relevant concepts for regional cooperation on joint infrastructure
5.2 Water Sector
A voz de minha bisavó ecoou criança
nos porões do navio. ecoou lamentos
de uma infância perdida. A voz de minha avó ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo. A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela.
A minha voz ainda ecoa versos perplexos
39 Por conta da idealização, o ingresso de mulheres no mercado de trabalho foi marcado, no século XX, por ocupações que reforçavam “papeis de mulher”, como a profissão de professora e de enfermeira, relacionadas ao cuidado e a educação do outro, das crianças, o que também estereotipa a própria carreira associada a essas ocupações, como se houvesse a necessidade de um suposto instinto maternal para determinadas profissões.
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e fome.
A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes recolhe em si
as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas. A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora. Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância o eco da vida-liberdade.
(Vozes-mulheres - Conceição Evaristo)
Os movimentos feministas – que são plurais – tiveram influência em transformações sociais ao questionarem valores culturais e o padrão de moça comportada cujo único destino era o matrimônio heterossexual e a maternidade. Visavam desnaturalizar privilégios dos homens na sociedade e no lar; na noção de família. Com o slogan “o privado é político”, as feministas questionaram a subordinação submetida em seus lares, pois a configuração do espaço doméstico associa-se com a forma como a sociedade se organiza (PELÚCIO, 2014).
O termo “gênero” passou a ser usado no século XX como modo de referir-se à organização social entre os sexos (BELELI, 2010). Gênero é entendido em perspectiva construcionista e inclui não só ideais de feminilidades e de mulher(es) como construído socialmente, mas também os ideais de masculinidades e de homem(s) (PELÚCIO, 2014).
O argumento de que homens e mulheres são biologicamente distintos e que a relação entre ambos decorre dessa distinção, que é complementar e na qual cada um deve desempenhar um papel determinado secularmente, acaba por ter o caráter de argumento final irrecorrível. Seja no âmbito do senso comum, seja revestido por uma linguagem “científica”, a distinção biológica, ou melhor, a distinção sexual, serve para compreender – e justificar – a desigualdade social. (LOURO, 2014, p. 24- 25 – grifo da autora)
Além do mais, entendemos o conceito de patriarcado como um tipo hierárquico de relação. O poder é de quem atende ao modelo ideal e este, como já dito, não é somente o da figura masculina. Nesse viés, gênero é usado para referir-se à construção social atrelada à hierarquia dos sexos tendo uma série de significados sobre os corpos. Para Saffioti (2004), o patriarcado é uma das partes dos sistemas simbólicos que resultam em relações de poder e não pode ser entendido como única categoria, mas como uma das que não se dissociam.
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Entretanto, na relação estrita de gênero desigual, há a visão de pertencimento da mulher ao homem, dado a posição de inferioridade que se atribui ao feminino, tornando-a assujeitada. Para tal relação, existem pólos de poder bastante desproporcionais. O pequeno valor de poder destinado às mulheres, de modo geral, é o que permitiu e permite que essas questionem a supremacia masculina e procurem meios de resistência (SAFFIOTI, 2004).
No entanto, para tal visão do feminino (e de masculino) há idealização de um modelo que não corresponde às várias experiências desse mesmo feminino. A partir desse panorama, colocamos um questionamento: O que é uma mulher? Apesar de a figura feminina ser vista como assujeitada à masculina, precisamos questionar de que mulher se está falando quando se faz tais afirmações, assim como de qual ideal de masculinidade ela é assujeitada.
O movimento de emancipação feminina do século XX, que ficou conhecido como a segunda onda do feminismo, foi guiado, inicialmente e principalmente, por mulheres brancas burguesas – o que não exclui sua legitimidade –, posto que, para a maioria das mulheres negras e trabalhadoras a condição e a relação com o espaço público era diferente (PELÚCIO, 2014). Mulheres negras trabalharam no período escravocrata e permaneceram no trabalho em condições subalternas, de modo que, a reinvindicação pelo trabalho não lhes fazia sentido como fazia para as mulheres de raça e classe privilegiadas (NEPOMUCENO, 2012).
Segundo Nepomuceno (2012), as mulheres tomaram espaço do trabalho e campo político significativos desde o final do século XIX. Porém, isso não aconteceu para todas as mulheres. As conquistas femininas são marcadas por situações de privilégios para umas em detrimento de outras. Em momento recente, após a abolição no Brasil:
Muitas delas viviam em lares sem presença masculina, chefiando a casa e providenciando o sustento dos seus. Outras trabalhavam para família de mais posses como criadas para todo o serviço. Algumas haviam conseguido acumular patrimônio, formar núcleos familiares estáveis, criar redes de solidariedade e comunidades religiosas. Ao contrário do prescrito para a mulher idealizada da época, as negras circulavam pelas ruas, marcando a seu modo presença no espaço público. (NEPOMUCENO, 2012, p. 383)
Até o século XX, mulheres negras não passaram pelo mesmo tipo de submissão vivenciado por mulheres brancas burguesas. Mulheres pobres não estavam apenas no lar, uma vez que precisavam vender sua força de trabalho. Isso não significa que mulheres burguesas fossem como homens brancos; apesar da condição que marca privilégios da mulher branca, também marca a submissão dela pelo homem. Ainda, o campo do trabalho atua com a seletividade racial. Os homens negros dificilmente conseguiam trabalho formal e mulheres negras se sujeitavam ao trabalho doméstico. Por isso, eram elas que, em geral, sustentavam o
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lar. Não havia espaço para a mulher negra ser dependente financeiramente do companheiro (NEPOMUCENO, 2012).
No contexto pós-abolição dos EUA, Davis (2016) faz uma relação: houve um processo em que o trabalho escravo foi substituído pelo doméstico. Aboliu-se a escravatura, mas a ideia de propriedade continuou. Evidencia-se, assim, a diferença de relação entre casais negros e casais burgueses, pois, mulheres negras sofriam a opressão como homens negros e resistiam à escravidão. Isso era uma contradição do sistema escravagista, pois, no seio da opressão criou as bases para uma posição de igualdade entre homens e mulheres negros/as.
Desse modo, o ideal de “dona de casa” reflete a hegemonia que representa a mulher branca burguesa e atende a economia de que goza essa classe. A ideologia do século XIX estabelece a dona de casa mãe como modelo de feminilidade. Mulheres trabalhadoras, fora de tal natureza, não eram vistas como mulheres concretas e, assim, se abre brecha para a sua exploração. Nesse sentido, o sistema escravagista as entendia como propriedade, e dessa forma, as mulheres negras eram vistas: mão-de-obra e unidade de trabalho: “Para os proprietários de escravos elas poderiam ser desprovidas de gênero” (DAVIS, 2016, p. 17).
No entanto, havia diferença entre mulheres e homens negros. Mesmo exploradas, subalternizadas e subjulgadas como homens negros em relação a sua existência e trabalho, ainda eram mulheres. Era lucrativo explorá-las como homens, mas quando podiam ser exploradas e punidas de modo destinado apenas às mulheres, eram reduzidas a condição de fêmeas (DAVIS, 2016). A escrava pertencia ao senhor e seu corpo estava à disposição.
Ainda, o modelo heteroreprodutivo construído e a sexualidade se entrelaçam com a política, a economia e a história, de modo que, a classe e a raça marcam a sexualidade e o gênero; que se constituem de modos diferentes a depender das vivências. O Brasil teve sua história pautada na “miscigenação” que se refere às violências e estupros cometidos contra mulheres negras e indígenas por homens brancos. O corpo da mulher negra desde a escravidão foi personificado como supostamente mais sensual e acessível (BALIEIRO; RISK, 2014).
Segundo Pelúcio (2014), foi por volta de 1980 que se passou a usar o termo “gênero” nos movimentos sociais e academia e se abandonou a categoria única e fixa “mulher” a partir do questionamento, principalmente do feminismo negro, sobre qual mulher estava sendo descrita nos estudos feministas e movimentos sociais. Nesta pesquisa trabalhamos com o
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conceito de gênero pensando na pluralidade de mulheres e que, para cada experiência, contexto, situação e momento há diversas relações de poder exercidas40.
Contudo, a questão não é recente. Exemplificamos com o discurso de Sojourner Truth “Não sou eu uma mulher?”, em Ohio, bastante anterior a segunda onda do feminismo, em 1851, em que, em um encontro sobre o sufrágio, homens atacavam a ideia do voto feminino devido à “fragilidade natural da mulher”. Truth questiona o conceito de mulher, posto que, enquanto negra e ex-escrava, essa fragilidade não condizia com sua experiência de vida (DAVIS, 2016). Já apresentando na época a diferença de mulheres e de experiências.
O ideal de mulher, apesar de opressivo, representa a mulher branca burguesa: o recato sexual, a subordinação ao homem, o espaço do lar. No entanto, a mulher negra, a mulher lésbica, a mulher proletária, a mulher indígena, a mulher transexual, entre outras, colocam a definição de mulher em questionamento e apresentam novas situações e nos possibilita refletir outras demandas. Gênero, portanto, é uma categoria que estabelece intersecções:
Os sujeitos que constituem a dicotomia não são, de fato, apenas homens ou mulheres, mas homens e mulheres de várias classes, raças, religiões, idades, etc. e suas solidariedades e antagonismos podem provocar os arranjos mais diversos, perturbando a noção simplista e reduzida de “homem dominante versus mulher dominada”. (LOURO, 2014, p. 37)
Temos tendência, segundo Scott (1989), em construir significados pelo pensamento dicotômico: homem e mulher são concebidos como pólos opostos que se relacionam apenas no modo dominação-submissão. Branco e negro, homossexual e heterossexual, rico e pobre, teoria e prática, corpo e mente, natureza e cultura são algumas das dicotomias que entende cada qual uma unidade (LOURO, 2014). A intersecção permite refletir como as identidades são construídas por meio de marcas corporais e são muitas as pluralidades. Permite-se, assim, o questionar da identidade tratada como fixa e imutável para que se reflita sobre sua fluidez (BELELI, 2010).
Marcas corporais e condutas que geram ambiguidade, incerteza, em relação aos padrões hegemônicos, tendem a ser afastados, negados e readequados, sugerindo, por um lado, a doutrinação de corpos e identidades aos modelos vigentes, por outro lado, a negação ou o ocultamento de possibilidades. (2010, p. 72)
Portanto, segundo Beleli (2010), gênero é uma das marcas de diferenciação que atinge todos os espaços e relações. Nesse sentido, desvalorizam-se seres humanos a depender das
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marcas que carregam e refletem em seus comportamentos, gostos e maneiras de ser. Assim, discutimos na sequência como os significados são produzidos sobre essas marcas corporais.