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A. Types de vocalisations et fonctions

2. Vocalisations des adultes

A relação do homem com o meio ambiente foi outro aspecto muito presente entre os membros do grupo Semente Viva e também no projeto do grupo (quadro 5.1.). Algumas atividades desenvolvidas pelo grupo tiveram como intuito deixar mais claro para as crianças qual a relação entre o homem e o meio ambiente e também saber qual visão as crianças traziam sobre tal relação.

Em uma das reuniões SV9 lembrou uma atividade que realizou, que poderia servir para saber a noção de meio ambiente das crianças, chamada “Café Mundial”. As crianças seriam divididas em grupos e deveriam discutir sobre três questões, e teriam um papel pardo para representar a síntese. Então poderia ser perguntado para as crianças o que é meio ambiente. SV13 e SV4 disseram que nem elas sabiam o que é meio ambiente. SV4 sugeriu ainda que fosse feita alguma questão sobre a relação pessoa-meio ambiente, e uma sobre o que eles gostariam de aprender durante o ano.

SV11 disse que achava a atividade sugerida por SV9 essencial porque “é a base, porque se a gente não souber o que é meio ambiente, o que a gente é no meio ambiente, o resto não faz sentido”. Ressaltou a importância de se saber “qual a relação que eles [os alunos] têm com o meio ambiente” e só a partir de então montar um cronograma do projeto.

SV9 disse que não achava perda de tempo discutir sobre meio ambiente, no que SV11 concordou reiterando que “se a gente conseguir que as crianças pensem que fazem parte do meio ambiente, ganhamos o ano”. SV9 disse ainda que a atividade do Café Mundial possibilitaria “não só dar opinião mas saber a opinião do outro”.

Para esta atividade foram selecionadas as seguintes questões: O que é meio ambiente?; Quando se sentem participando do meio ambiente? O que esperam aprender com o grupo? De forma geral ficou explícito durante esta discussão que presenciei que o grupo gostaria que as crianças chegassem à duas conclusões: que

elas também fazem parte do meio ambiente, e que o ambiente construído também faz parte do meio ambiente.

Após o desenvolvimento da atividade “Café Mundial”, todos ressaltaram que as crianças têm uma visão naturalista. “Meio Ambiente é igual à natureza pra eles [os alunos]”. As crianças tiveram problemas em responder se faziam parte da natureza. O grupo identificou isso como um problema, e poucas crianças falaram do meio ambiente construído. Para SV8 ficou muito forte a questão de aparecerem frases iniciadas com “não” como “não poluir o ar”, “não jogar lixo nos rios”. SV8 disse ainda que essas respostas eram “EA básica, EA de escola”. As crianças responderam as três questões com respostas deste tipo, inclusive a pergunta sobre quando elas se sentiam parte do meio ambiente.

É importante esclarecer aqui que o significado que alguns membros do grupo dão à ambiente, meio ambiente e natureza, são muito parecidos, e em alguns momentos iguais. Em algumas citações aparece também natureza como os elementos da fauna e flora extirpando aí o humano e tudo o que é tipicamente humano. Não me aprofundarei aqui nas diferenças entre estes termos, considerando o uso prioritário do termo “meio ambiente” e também o seu sentido.

Outros membros do grupo pontuaram que as crianças associavam viver na roça com fazer parte do meio ambiente. Outras crianças tentavam fazer analogias entre o próprio corpo e o das árvores: “Faço parte do meio ambiente porque meu braço é da cor do tronco”. SV9 ressaltou que a atividade foi importante porque pelo menos deixou dúvidas nas crianças.

O grupo reuniu, numa das atividades, as diversas idéias que as crianças expressaram por desenhos e textos sobre “o que as incomodava no caminho de casa à escola” num cartaz e SV4 e SV5 indicaram para as crianças tudo o que estava desenhado. As crianças concordaram que tudo o que estava no cartaz fazia parte do meio ambiente.

Havia um rio com árvores nas margens, montanhas, e o sol ao fundo. No primeiro plano estava uma pequena cidade com ruas, casas, carros e pessoas, além de uma fábrica. SV4 tirou de um pote réplicas dos desenhos das crianças com uma pessoa “pichando” um muro, fumaça para os carros e para a fábrica, e lixo que espalhou pelas ruas e no rio.

As crianças indicaram no desenho os lugares onde os recortes deveriam ser colados. Este desenho expressa a tentativa de mostrar às crianças que o que deve

ser considerado meio ambiente integra tanto elementos de um ambiente nativo quando elementos de um ambiente modificado pelo homem.

Fica explicitado que os membros do grupo consideram que existe uma distância entre homem e ambiente e que esta é uma das abordagens que deve ser feita pela EA. Fazer com que as crianças entendam que fazem parte do meio ambiente e que o mundo construído também faz parte dele foi algo bastante repetido nas atividades. Incluo aqui a atividade já citada “interpretando o meio ambiente” onde eles pretendem que as crianças compreendam a existência de ambientes dentro de ambientes. Essa preocupação em aproximar homem e meio ambiente vem da dinâmica de dominação que o homem tem imposto à natureza, deixando de se ver como parte dela e sim como dono dela.

Sofiatti (2005, p.23-41) fala de como as relações do homem com a natureza passaram de uma perspectiva sacralizadora da natureza (das antroposociedades que tinham nos elementos da natureza divindades) à uma perspectiva exploratória dela (da sociedade do capital que vê a natureza como algo contrário à ordem e ao progresso, devendo ser “civilizada” pela técnica e pela ciência) e como desta última resulta o modelo de sociedade em que vivemos e as causas da crise ambiental.

Esse modelo estabeleceu relações de utilitarismo, exploração e instrumentalização da natureza não humana causando desequilíbrios nos ecossistemas de tal ordem que ameaçam a sustentabilidade da vida na Terra.

Assim o estabelecimento de um novo relacionamento entre homem e o meio ambiente se faz necessário e este foi apontado pelos membros do grupo como sendo um dos pontos de atuação da EA. Durante a entrevista, SV4 fala de uma nova forma de ver as coisas que resultará numa nova relação com o meio ambiente.

...aquilo do objetivo abstrato, a gente faz com que eles tenham uma relação, querendo ou não a gente tenta nas atividades, que eles tenham uma relação diferente com as coisas, que eles pensem e vejam de outra forma, então se eles vêm de outra forma, automaticamente, se funcionar, eles absorverem aquilo e refletirem nas atitudes deles, eles vão acabar se relacionando de uma outra maneira com as coisas e isso pode incluir essa questão de cidadania. (SV4)

Acho que é tentar se aproximar, não só no sentido físico, mas acredito também que no espiritual, mas aí depende de como cada um vai levar a EA. Acho que é a tentativa de aproximar o homem da natureza, e isso se faz das diferentes formas, através das atividades... (SV6)

Dentre os membros do grupo destaco aqui dois posicionamentos sobre como seria essa nova relação com o meio ambiente. Neles podem-se observar pontos que se contrapõe. Para SV11 EA se refere a uma visão utilitarista do meio ambiente. Esta visão deveria, de acordo com sua fala, ser superada por uma educação ecológica que seria mais ampla e pontua aspectos a ela ligados como unidade, evolução. Mais a frente fala que a educação ecológica que propõe, superaria conceitos como desenvolvimento sustentável e cidadania e não seria nem antropocêntrica nem naturalística.

Eu chamaria EA de educação ecológica, porque quando fala ‘Educação Ambiental’ restringe a postura do ser humano com relação ao ambiente na tentativa de apropriar o ambiente pra si, o ambiente enquanto recurso, agora quando você fala de ecologia você fala da unidade, da evolução, você fala do ser com os outros seres vivos, do ambiente físico, uma postura muito mais ampla, uma visão mais holística assim. Essa mudança na concepção de natureza que a gente tem é a de ser humano, acho que seria o primeiro passo para fazer uma educação que eu chamaria de educação ecológica verdadeira. Essa EA desses projetos acaba sendo como desenvolvimento sustentável e para mim o próprio termo cidadania é um remendo pra uma estrutura social, que eu considero um equívoco humano, mas se você mudar a concepção de natureza e de ser humano mesmo, aí sim você vai ter uma educação verdadeira. [A ecologia] Com as relações, principalmente isso, ela valoriza as relações, não valoriza o homem, ela não antropocêntrica nem naturalística, ela não valoriza o ambiente ali longe do homem ela meio que quebra essa dicotomia que é o principal erro para mim, o principal equívoco. (SV11)

SV12 levanta aspectos diferentes. Valoriza os “fundamentos do desenvolvimento sustentável”, faz uma separação entre “coisas que se pode mexer” e “coisas que não se pode mexer” indicando então que o equilíbrio de que fala seria alcançado criando áreas que deveriam ser resguardadas do uso que o homem faria das outras áreas, mas não fala desse uso. Fala ainda sobre a relação entre as ações das pessoas e suas conseqüências justificando assim o porquê deveriam ser seguidos os fundamentos do desenvolvimento sustentável, para que as próprias

pessoas não sejam prejudicadas. Isso é importante considerar para a compreensão do que SV12 entende como relação com o meio ambiente:

Tentar mostrar o que é MA, o que é natural e o que foi já mexido pelo homem. Tem coisas que a gente pode mexer e tem coisas que é inevitável a gente não mexer, tem coisas que dá pra deixar intacto e tem coisas que são necessárias a nossa sobrevivência. Então é criar um equilíbrio assim, mostrar que a gente tem que criar esse equilíbrio, e bom senso... e ter o bom senso assim de saber que a gente pode extrair da natureza pra gente, e o que a gente pode cultivar, conservar, preservar assim, então é meio que... os fundamentos do desenvolvimento sustentável, e as pessoas tem esses princípios na cabeça, e perceber o que faz bem assim pra elas onde elas tão, acho que ninguém quer viver num lugar assim que tem muita fumaça, que não dê pra respirar e.. seja um lugar desagradável, feio, cheio de lixo, muito consumo e também que são coisas que não são necessárias. (SV12)

Tanto SV11 quanto SV12 não vêem os problemas ambientais a partir de processos sócio-históricos. Embora SV11 problematize a visão da natureza como recurso, sua fala fica vazia de sentidos ao falar de uma nova visão que seria mais ampla, não pontua quais seriam os aspectos dessa nova visão, e nega a cidadania como prática legítima para essa nova perspectiva.

SV12 apresenta uma compreensão naturalista e conservacionista dos problemas ambientais, relegando a mudanças comportamentais a solução para elas, não problematiza o “desenvolvimento” como sendo uma das causas da insustentabilidade do nosso modelo de sociedade e põe a necessidade de mudança numa perspectiva antropocêntrica uma vez que olha apenas pelo ângulo das perdas humanas.

Outras falas ressaltam a importância do estabelecimento de uma identidade humana como parte do meio ambiente para que possa repensar as atuais relações. SV9 aponta uma forma de estabelecer esta identidade através dos ciclos naturais, pois o homem os presencia em seu cotidiano:

Acho que despertar o interesse das crianças pra educação mesmo com ambiente, e... se sentir mais integrado a tudo o que acontece ao redor, e respeito com as pessoas e todos os outros elementos. Acho que é formar uma consciência mesmo, mais pessoal. Que eles percebam que eles têm influência, que as coisas influenciam e eles influenciam as outras coisas, acho que a gente tenta fazer atividades que eles vejam ação e reação, ou se não ciclos, e que eles presenciam esses ciclos o tempo todo, e que como a gente tenta

colocar eles dentro da ... não só dos ciclos biológicos, mas na convivência e ver que eles fazem parte de várias outras coisas (SV9)

Os ciclos biológicos estão inclusos entre as atividades mais marcantes do grupo. Embora no tempo em que tenha realizado a observação essas atividades não tenham sido desenvolvidas, foi muito freqüente a referência à estas atividades durante as observações, como coisas que precisariam ser realizadas. Estas atividades foram idealizadas e escritas pelo grupo. O grupo encena uma peça de teatro sobre o ciclo da água, uma simulação sobre a cadeia alimentar e fazem com as crianças a montagem de um terrário e um minhocário. Estas atividades além do encantamento que causam nas crianças têm a intenção de demonstrar que o homem também faz parte de uma cadeia alimentar ou que também é influenciado pelo ciclo da água. É uma forma de “convencer” as crianças de que também são natureza e de que sua vida está inevitavelmente ligada a processos não humanos.

SV10 conta a experiência de uma atividade do qual participou, onde num percurso preparado as pessoas deveriam passar por um processo de contato físico com vários elementos da natureza não humana: pedras, folhas, troncos, terra e...

... então dava o maior choque no final, você tava com tudo aquilo assim, tocando a natureza e também você sentir que você faz parte da natureza e dá aquele choque você olhar no espelho, caraca, você faz parte disso também, achei bem interessante, é que com as crianças no tempo que a gente tem não daria pra fazer, mas é legal, pras pessoas perceberem que elas também tão ali dentro, não é natureza e homem, é os dois juntos. Achei legal. (SV10)

Nas dois excertos transcritos, a identificação do humano com a natureza se daria a partir de um contato com o que é da natureza não humana entendendo o ser humano como uma parte do todo natural num sentido naturalista sem considerar aí a natureza social do homem.

Segundo SV1 e SV6 a relação homem-homem também é parte da dinâmica de uma nova interação com o ambiente, dando ênfase nas relações entre as pessoas.

Pra questão da educação nas relações, nessa esfera da nossa vivencia que é as relações sociais, ao mesmo tempo que a gente interage com o ambiente, a gente interage com a outras pessoas e com o nosso interior, ao mesmo tempo essas partes se interrelacionam né, concepção de ecologia profunda, das três ecologias, então a EA não pode esquecer do social né, o que é o

ambiente, sou eu e os outros né, e a nossa relação tanto com a nossa subjetividade tanto com os nosso semelhantes pra criar um contexto propício, né pra gente preservar né, porque o ambiente é coletivo. (SV1)

E como a gente procura isso, das diferentes formas de atividades, a gente tá trabalhando com uma coisa muito legal agora, que são as relações interpessoais, né, a gente ta trabalhando com dança circular, que eu acho que é uma das maneiras bem interessantes para se trabalhar isso. (SV6)

As falas não situam claramente como seria a relação entre os humanos. Nas observações que realizei é muito freqüente a presença da palavra respeitar (veja tópico 5.7.1.) e também a perspectiva de harmonia, não violência, que fica indicado na forma como valorizam as danças circulares (tópico 5.4.1.) e atividades que tenham como intuito desenvolver a afetividade.

Assim, boa parte dos membros do grupo Semente Viva consideram que atual relação do humano com o meio ambiente precisa ser modificada, e para isso também precisa ser modificada a relação entre os humanos. Não existe consenso sobre como seria essa mudança, e nem mesmo muita clareza com relação a isso.