A cidadania é indicada por alguns dos membros do grupo como “ação” e esta ação na maior parte dos casos está associada ao fato de mudar fisicamente algo em determinado lugar como fala SV2:
Levar as crianças, igual a gente faz no Girassol, pra levar pra limpar uma área que ta suja, pra elas pegarem os lixos, jogarem, levar as crianças pra fora da sala, pra elas limparem, acho que dá pra elas sentirem mesmo, como é a coisa. Acho que seria uma boa atividade [de cidadania]. (SV2)
Este pensamento é tão forte que quatro membros do grupo indicaram que o grupo não desenvolve atividades voltadas para o exercício da cidadania, uma vez que o grupo não desenvolve ações (como mutirões para coleta de lixo), por exemplo, o que fica de certa forma expresso quando olhando o quadro 5.1. não há nenhuma referência à cidadania e ação durante as observações:
Um cidadão ele se move pra fazer a diferença, se move pra plantar uma árvore, pra andar na rua, se move pra fazer o lixo, se move pra pensar, se move pra qualquer coisa, pensar não... num engloba nesse ponto que eu to falando. Pra se mexer fisicamente. O cidadão ele... não só, mas por isso não engloba toda a cidadania, engloba parte dela talvez, que é tornar uma pessoa com pensamentos, com mente aberta, entendendo um pouco mais sobre o meio ambiente, aí você se torna um cidadão, uma pessoa boa de caráter, com pensamentos bons sobre isso, e saber que você tem que fazer isso. Mas na questão de atos, uma criança não vai fazer muita coisa, não vai, entendeu? Cidadão é você lutar com os caras, os trabalhadores lá da roça, vamos fazer cidadania ai, você pode, você pode levantar uma enxada e carpir aqui, uma criança não. Seria cidadania se englobasse todo mundo, as crianças, os adultos.... (SV3)
SV3 fala no “pensar” como uma forma secundária de cidadania onde formaria uma “pessoa boa de caráter”, mas o legítimo exercício de cidadania estaria no “levantar a enxada”. Gadotti (2000, p.133) ao falar da importância de uma cidadania ambiental, pontua que a lógica liberal de ver a cidadania como algo próprio de “pessoas boas” deve ser superada, uma vez que essa idéia ignora as construções coletivas.
SV12 afirma que o Semente Viva não trabalha com cidadania (ou pelo menos não completamente) porque as crianças não podem a agir na sociedade enquanto crianças:
Eu considero que eles estão formando cidadãos através das crianças, as crianças elas são cidadãos e vão crescer e vão agir mais na sociedade, então pra mim eles estão trabalhando com cidadania, mas não... assim, no momento é para as crianças né, então isso é um investimento a longo prazo, se tudo agir, acontecer do jeito que a gente espera e elas aprenderem e perceberem o quanto isso é importante pra vida delas então a gente vai ter concluído nosso objetivo. Momentaneamente a gente não trabalha com a cidadania completamente, não trabalha ali, pelo menos o grupo semente viva, não trabalha com outras pessoas, outras faixas etárias, não tem nenhum projeto paralelo do semente, não eu acho não, não tem mesmo, que ao mesmo tempo ofereça palestras, coisas pra outros tipos de pessoas.(SV12)
SV7 e SV5 indicam que os membros do grupo estão exercendo cidadania porque eles desenvolvem as ações com as crianças, mas não falam de nenhum trabalho para desenvolver a questão da cidadania com as crianças:
Ah, em partes (sic.) eu acho que forma um pouco a gente pra cidadania assim, a sociedade investe na gente, então a gente devolve um pouco, mas formar as crianças pra cidadania pelo pouco tempo que eu to [no grupo] lá eu não percebi. (...) acho que fazer a EA é um ato de cidadania, mais eu não sei se isso passa pras crianças, que nem eu falei, no Semente eu não notei assim, então eu não sei se isso, se fazendo isso a gente passa cidadania, é se elas tão, as crianças estão fazendo alguma coisa relacionada com cidadania, mais eu acho que fazer EA é ter cidadania. (..)
Ah é só elas [as crianças] aplicarem... o que elas aprendem , se elas conseguissem aplicar ou passar pra alguém, sabe, aí sim [elas seriam cidadãs]. (SV7)
... não sei, pra assim cidadania você tem que participar de alguma forma, ta, todo mundo tem que ter direitos iguais e tudo, educação, liberdade e tal, mas também, tanto você tem direitos, como deveres também participar do futuro assim da humanidade como um todo,
apesar de ser ...um grupo, uma escola, uma coisa pontual, mas acredito que com essa ação, cada um ta fazendo a sua parte, então ta to indo na escolinha, é um grupo de 20, 25 crianças, mas eu acredito que sabe eu esteja desenvolvendo a minha noção de cidadania e exercendo né.. (SV5)
Nestas falas fica muito claro que para algumas pessoas do grupo as crianças não são cidadãs porque não agem, não atuam em alguma instância ou não expressam isso para outras pessoas.
Não se deve confundir ações pontuais (mutirão, reciclagem...) com participação. Loureiro (2004b, p.18) afirma que a participação é o cerne da aprendizagem política, e a partir dela a educação é vinculada à cidadania.
Para ele:
Participar é compartilhar poder, respeitar o outro, assegurar igualdade na decisão, propiciar acesso justo aos bens socialmente produzidos (...). Participação significa exercício da autonomia com responsabilidade, com a convicção de que nossa individualidade se completa na relação com o outro no mundo, em que a liberdade individual passa pela liberdade coletiva. (LOUREIRO, 2004b, p.18)
Pensando nisso, as ações pontuais ficam muito pequenas diante da responsabilidade contida na idéia de participação. Ela passa por uma construção do sentido de coletividade e demanda muito mais que fazer, demanda também o pensar e o sentir. A ação legítima é aquela que contextualiza os problemas histórica e politicamente não reduzindo a participação à resolução momentânea e irrefletida das situações, mas discutindo os conflitos em suas causas.
SV5 e SV1 falam da importância das ações no plano individual:
Acredito que sim, porque é isso que eu to falando sempre de eles passarem a perceber que eles podem fazer alguma coisa, e que isso é interessante na cidadania, que eles não estão sozinhos, que eles fazem parte de uma sociedade, e que... o futuro tanto da humanidade quanto do planeta como um todo depende deles. Ação conjunta de cada um. Acho que sim. (SV5)
Eu acho que isso ajuda na cidadania porque a gente mostra né, você pode fazer isso, você pode estar reciclando, não é só cobrar dos políticos, tal, a cidadania, vem primeiramente de você, você cobrar dos políticos é só uma parte da sua cidadania, você agir é cidadania entende, por isso eu acho que apesar dos defeitos essa é uma atividade que mais desperta cidadania. (SV1)
Como já discutido, o discurso do “cada um fazer sua parte” têm o perigo de responsabilizar os indivíduos pela causa dos problemas e ter a falsa idéia de que as ações pontuais são suficientes para superá-las.
Fica aqui então muito claro que quando pensam em cidadania grande parte dos integrantes do projeto pensa em ação. É importante ressaltar que em função disso alguns deles dizem que o projeto não trabalha com o tema da cidadania. E isso deve estar associado à falta de intencionalidade de trabalho com esta temática, ou de o ver como decorrência do desenvolvimento de ações relacionadas à temática ambiental.