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CHAPITRE II – Matériels et méthodes

II. VISUALISATION

Alguns intérpretes de Santo Agostinho entenderam uma certa linha do pensamento da Cidade de Deus, complementado pelo que exprime em algumas cartas a personalidades políticas do tempo, no sentido da defesa de uma certa fusão dos poderes civil e eclesiástico num só poder, seja com a submissão da Igreja ao Estado seja ao contrário. Assim o entenderam quer aqueles que, na Idade Média, inspirando- se naquela obra, procuraram modelar a organização da sociedade segundo o figurino de uma sociedade ou «cidade cristã» ou Cristandade, quer alguns autores modernos

que acusam Agostinho de ter defendido a ideia de um estado cristão ou mesmo de ter sido o primeiro teórico da Inquisição. O que há de verdade e de falsidade em tudo isto?

Em relação à primeira ideia, a verdade é que Santo Agostinho nunca defendeu a tese de um estado cristão. O que se pode dizer é que a orientação geral do seu pensamento poderá ter inspirado essa ideia. Com efeito, já sabemos que, para ele, não havia, no concreto do homem cristão, separação entre o cristão e o homem. O que daí resultou no campo epistemológico do saber — o figurino da sapientia christiana como saber único integrador da razão e da fé — poderia aplicar-se, por analogia, no campo da vida pública. Assim o entenderam, de facto, os medievais que desenvolveram o modelo sociológico da Igreja-Cristandade.

A segunda acusação funda-se essencialmente no facto de Agostinho admitir que o poder civil aplicasse castigos aos hereges para salvaguardar a unidade da Igreja. Mas é preciso ter em conta, não só que Agostinho sempre defendeu o mínimo de castigo possível, como sobretudo que estava condicionado pelas concepções do direito do tempo, que todavia tentou fazer evoluir no sentido de uma sempre maior humanidade.

Nos dois casos, o que se passou no essencial foi que ele, apesar da sua inteligência genial, não foi capaz de estar mais decisivamente acima do espírito do tempo. Toda a gente sabe que a filosofia do direito evoluiu lentamente e que este se humanizou em boa parte por influência do Cristianismo. O reconhecimento dos direitos da pessoa e, do mesmo modo, a recta e justa compreensão das relações entre o poder civil e o poder religioso são todavia aquisições relativamente recentes.

Em todo o caso, é preciso notar que o augustinismo político se deve, em boa parte, à influência directa de um discípulo de Santo Agostinho, mais que dele próprio. Trata-se de Paulo Orósio, de Braga, que foi encarregado por aquele de escrever a sua História contra os pagãos, obra que a Idade Média tomou como sendo do próprio Agostinho. É dele sobretudo que vêm as ideias de um Deus vingador e justiceiro — Agostinho preferia vê-lo como amorosamente providente — e de uma sacralização do poder do príncipe ou, inversamente, da politização do poder pontifício e da cidade cristã.104

BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA

1. Edições das obras de Santo Agostinho

Oeuvres de Saint Augustin, «Bibliothèque Augustinienne», 2ª ed., Desclée-de-Brouwer, Paris. 37 vols. Obras de San Agustín, 2ª ed., BAC, Madrid, 1950.

O elenco geral das obras de Santo Agostinho pode ver-se em Pio Alves de SOUSA, Obras de Santo Agostinho. Edições e traduções, «Didaskalia» 33 (2003) — in memoriam Prof. Doutor Manuel Isidro Araújo Alves — 227-

238.

104 Sobre o agostinismo político, veja-se Francis Ferrier, Santo Agostinho, trad. port., Col. «Saber», Publicações Europa-América, Mem Martins, 1993, pp. 136-146.

2. Edições em língua portuguesa

Solilóquios (trad. e notas de SENA FREITAS), Porto, 1944 (reed. 1955).

Confissões (trad. de J. OLIVEIRA SANTOS E A.AMBRÓSIO DE PINA; introd. de Lúcio CRAVEIRO DA

SILVA), Livraria Apostolado da Imprensa, Porto / Editorial A. O., Braga (várias edições).

Confissões, ed. bilingue, trad. e notas de Arnaldo do ESPÍRITO SANTO, João BEATO e Maria Cristina

C. M. S. PIMENTEL, introd. de M. da Costa FREITAS, notas de âmbito filosófico de M. da

Costa FREITAS e José Maria S. ROSA, Estudos Gerais - Série Universitária - Clássicos de

Filosofia, Centro de Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira / INCM, Lisboa, 2000.

Contra os Académicos (trad. e prefácio de VIEIRA DE ALMEIDA), Atlântida Coimbra, 1957.

A Doutrina Cristã, (trad., introd. e índices de Ir. Nair ASSIS), Edições Paulinas, S. Paulo, 1991.

Acerca da Doutrina Cristã. Excertos (trad. de José ANDRADE), in Textos de Hermenêutica, Rés-Editora,

Porto, 1984.

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O Mestre, Introd. e coment. de Maria Leonor XAVIER, col. «Filosofia.Textos», Porto Editora, 1995.

O Livre Arbítrio (trad., introd. e notas de António SOARES PINHEIRO), «Textos da Filosofia

Medieval», Faculdade de Filosofia, Braga, 1986.

Diálogo sobre a Felicidade (trad. de Mário A. SANTIAGO DE CARVALHO), Edições 70, Lisboa, 1988.

A Natureza do Bem (introd., trad. e notas de Mário A. SANTIAGO DE CARVALHO), in revista

Mediaevalia, 1, Fundação Eng. António de Almeida, Porto, 1992.

A Cidade de Deus (trad., pref. e nota biográfica de J. Dias PEREIRA), «Serviço de Educação»,

Fundação C. Gulbenkian, Lisboa, 1991 (vol. I), 1992 (vol. II), 1997 (vol.III).

3. Biografias em português

BERTRAND, Luís, Santo Agostinho, trad. de A. Cardoso, Bibl. do «Apostolado da Imprensa», Porto, 1930.

FERRIER, Francis, Santo Agostinho, trad., «Saber», Europa-América, Mem-Martins, 1993

LOMASK, Milton, Santo Agostinho, trad., Porto 1969.

PAPINI, Giovanni, Santo Agostinho, trad. de M. G. da COSTA, «Critério», Liv. Cruz, Braga, 1949.

ROHDEN, Huberto, Agostinho. Um drama de humana miséria e divina misericórdia, Editora Pan

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VIZCAINO, P.e Pio de Luís, Uma Vida Inquieta: Santo Agostinho, Ed. Paulinas, Lisboa, 1994.

4. Estudos sobre Santo Agostinho (de carácter geral)

AA.VV., Diccionario de san Agustín: San Agustín a traves del tiempo, Monte Carmelo, Burgos, 2002.

AA.VV.,

As «Confissões» de Santo Agostinho 1600 anos depois: Presença e

actualidade, Actas do Congresso, Universidade Católica Editora, Lisboa, 2002.

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A «Revista Agustiniana», 35 (1994) pp. 1123-1191, em trabalho de Rafael LAZCANO, oferece uma

Bibliografía Histórico-Agustiniana publicada em España (1991-1994).

Está em publicação o Augustinus-Lexikon. Edição plurilingue (alemão, francês e inglês) de MAYER, Cornelius, e outros (Dir.), Schwabe & Co. AG, Basel. Até fins de 1994 saíram os oito primeiros fascículos do vol. I (até à palavra Conuersio).

PATRÍSTICA TARDIA

1. Contexto histórico 105

Se, em referência à Idade Média em geral, podemos com fundamento falar de uma noite medieval, a alta noite corresponde àquele período que decorre entre os séculos VI e VIII e que se convencionou chamar precisamente a Alta Idade Média. É aí que se situa a Patrística Tardia.

A decadência do Império Romano, que se vinha acentuando desde o século III e que as invasões bárbaras apressaram, consumou-se no século V com o ocaso daquele em 476. A civilização clássica, que nele tinha o seu suporte, sofreu com isso um golpe fatal. Os tempos que se seguiram foram cultural e civilizacionalmente obscuros. À falta de tradição cultural e civili-zacional dos bárbaros acresceram o clima de guerra, a insegurança geral e a destruição das infra-estruturas culturais romanas. Fecharam-se escolas, destruíram-se ou perderam-se manuscritos, o analfabetismo generalizou-se, atingindo as próprias classes dirigentes.

Num tal contexto, a grande preocupação de alguns poucos espíritos mais sensíveis aos valores culturais do classicismo e da já significativa tradição cristã foi a de salvarem do naufrágio geral tudo o que pudessem. Do ponto de vista cultural, e no sentido exposto, este período foi assim um período geralmente não criativo, essencialmente conservador.