• Aucun résultat trouvé

Utilisation de micromélangeurs en émulsification

CHAPITRE I – Revue bibliographique

III. EVOLUTION DES PROCEDES D’EMULSIFICATION : DES PROCEDES CLASSIQUES AUX

III.4. Utilisation de micromélangeurs en émulsification

A problemática a que nos estamos referindo teve a sua primeira verificação histórica no contexto da missão evangelizadora do apóstolo S. Paulo. Paulo era um homem formado na cultura helenística, de que Tarso, sua terra natal, era um centro florescente. Convertido do Judaísmo ao Cristianismo no espectacular episódio da estrada de Damasco, assumiu a missão de levar o Evangelho de Cristo ao mundo pagão. Nessa missão percorreu a Grécia, tendo pregado em diversas cidades, com destaque para Éfeso, Atenas e Corinto. Foi na segunda destas cidades — na capital da filosofia — que, pela primeira vez, enfrentou a filosofia grega e a mentalidade racionalista dos gregos. O relato deste episódio pode ler-se no livro dos Actos dos Apóstolos, escrito por São Lucas, seu companheiro em algumas viagens:

Enquanto Paulo os esperava em Atenas [a Silas e Timóteo, seus companheiros de viagem], o espírito fremia-lhe de indignação por ver a cidade repleta de ídolos. Discutia na sinagoga com judeus e prosélitos e na ágora com todos os que lá apareciam. Alguns filósofos epicuristas e estoicos trocavam impressões com ele. Uns diziam: «Que quererá dizer este papagaio?» Outros: «Parece que é um pregador de deuses estrangeiros.» Isto porque anunciava Jesus e a Ressurreição. Levaram-no com eles ao Areópago e disseram- lhe: «Poderemos saber que nova doutrina é essa que andas a ensinar? Aquilo que dizes é muito estranho e gostaríamos de saber o que isso quer dizer.» [...]

fé cristã — a crença em Jesus Cristo como Deus feito homem — era uma absurdo. À razão filosófica, segundo ele, repugnava a ideia de que Deus, de sua natureza transcendente, eterno, impassível, encarnasse, entrasse na história, se tornasse sofredor como qualquer mortal e, mais ainda, morresse numa cruz.

Então, de pé no meio do Areópago, Paulo tomou a palavra: «Atenienses, vejo que sois em tudo os mais religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: Ao Deus

desconhecido. Pois bem! Aquele que venerais sem conhecer é o que eu vos anuncio. (Act 17,

16-23).

E continuou o seu discurso falando sobre o mistério de Deus invisível, Criador de tudo quanto existe e Redentor da humanidade por meio de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Ao ouvirem falar da ressurreição dos mortos, começou a divisão no auditório. Uns riam-se dele, enquanto outros, mais condescendentes, se limitaram a dizer-lhe: «ainda voltaremos a ouvir-te falar disso». Alguns, porém, abraçaram a fé, entre os quais um tal Dionísio, que ficou conhecido por o Areopagita (Act. 17, 32-34).

Este episódio é, do lado de Paulo, profundamente significativo da sua posição em face da filosofia grega. O Apóstolo reconhece-lhe ao mesmo tempo o valor e os limites. Considera-a como caminho de procura da verdade, caminho respeitável mas insuficiente, já que esbarra contra os limites próprios da razão natural, com dificuldade para conhecer o mistério do verdadeiro Deus e impotente para alcançar as superiores verdades supra-racionais que só a revelação sobrenatural pode dar a conhecer. Enquanto procura da verdade, a filosofia apresenta-se-lhe sobretudo como propedêutica da fé, sendo esse o seu valor maior. Ela tende a conduzir às portas do mistério que só a fé pode desvelar. É, no fundo, um intellectus quaerens fidem, uma razão que, no seu limite, tende a fazer perguntas à fé. São essas portas do mistério do Deus desconhecido ou do desconhecido de Deus que Paulo se propõe abrir com o anúncio do Evangelho cristão.

Este relativo optimismo parece contudo ter-se desvanecido na sequência da reacção negativa dos gregos ao seu discurso. Só então Paulo parece ter-se apercebido de que, entre o mistério cristão que lhes anunciava e a mentalidade ou os hábitos de pensamento dos gregos havia uma enorme inadequação. Tratava-se, afinal, de duas ordens de verdades e de duas ordens de conhecimento não de todo fáceis de conciliar: a verdade e o conhecimento racionais da filosofia e a verdade e o conhecimento supra-racionais da fé. Não se tratava, pois, na verdade de fé que lhes anunciava, apenas de uma nova visão do mistério do mundo e da vida. Estava em causa sobretudo um problema epistemológico: o da transcendência da fé ou da Revelação relativamente à razão. Do que Paulo se dá conta é de que a mentalidade grega é racionalista, isto é, tendente a identificar o real com o racional ou, pela negativa, a não aceitar como real senão o que estava ao alcance da razão. Por isso se riram das superiores verdades que lhes propunha como objecto de fé.

É dessa reacção negativa ou dessa rejeição da fé cristã pela razão filosófica grega que Paulo se faz eco na Carta aos Colossenses, onde faz esta exortação aos cristãos: «Vede que ninguém vos engane com falsas e vãs filosofias, fundadas nas tradições humanas e nos elementos do mundo e não em Cristo» (Col 2, 8); e sobretudo na Primeira Carta aos Coríntios, onde escreverá:

Cristo enviou-me a pregar o Evangelho, não porém com sabedoria de palavras, que seria desvirtuar a cruz de Cristo. Porque a linguagem da Cruz é loucura para os que se perdem mas poder de Deus para os que se salvam, isto é, para nós, pois está escrito:

«Destruirei a sabedoria dos sábios e a razoabilidade dos bem-pensantes [leia-se: dos racionalistas].

Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o investigador deste mundo? Porventura não considerou Deus louca a sabedoria deste mundo? Ora, já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os crentes por meio da loucura da pregação. Enquanto os judeus pedem sinais e os gregos buscam a sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Mas para os eleitos, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder e a sabedoria de Deus. (1 Cor 1, 17-24).

Como se vê, a diatribe de Paulo está centrada na contraposição entre duas ordens de sabedoria: a «sabedoria de Deus», que é a da fé, e a «sabedoria do mundo», que, no seu pensamento, é a dos gregos e de todos os que não ultrapassam o horizonte da razão. À primeira vista, pode parecer que ele está aqui a contradizer a sua primitiva confiança na filosofia como caminho tendente a abrir a mente à fé. Pode parecer mesmo que está a declarar guerra à filosofia. Na verdade não é assim. Se declara guerra, não é à filosofia mas ao filosofismo ou racionalismo, enquanto excesso de valor atribuído à razão e à filosofia, um valor absoluto que não deixa lugar àquela abertura da razão e da filosofia às superiores verdades supra-racionais da fé.

No entanto, a verdade é que esta posição de S. Paulo influenciou negativamente o pensamento filosófico da Idade Média. A ela se deve, em parte, o menosprezo, quando não o positivo desprezo, que grande parte dos medievais dedicaram à filosofia. O fideísmo, que dominou toda esta época, com especiais incidências em alguns autores e correntes, tem aqui um dos seus principais fundamentos.