Em Tangará da Serra, o mesmo espaço que serviu antes à Escola Rural Mista de Instrução Primária serviu também para abrigar parte dos alunos das Escolas Reunidas de Tangará da Serra, pois como o número de migrantes aumentou a partir de 1968, novas salas de aula tiveram que ser improvisadas.A formação das Escolas Reunidas de Tangará da Serra, em seu último ano, compunha três diferentes agrupamentos de salas de aulas, distantes cerca de mil metros uns dos outros.
As aulas das Escolas Reunidas começaram no dia primeiro de março de 1968. Neste ano funcionaram nove classes, tendo 346 alunos com matrícula inicial. A escola tinha apenas duas salas de aulas, desta forma, a irmã alugou um barracão que foi transformado em classe (LIVRO DE CRÔNICAS... TANGARÁ DA SERRA, 1968, p.1). O barracão alugado, onde funcionava a sala de aula, era de propriedade do José Arrais. Neste espaço os cabritos dormiam a noite e pela manhã os alunos estudavam. As serventes tinham que limpar muito cedo o espaço, para deixá-lo com alguma condição de sala de aula. 103 Os dois espaços eram de madeira, de chão batido e coberto de tabuinha. A distância entre o espaço da escola e o espaço da sala de aula improvisada era de aproximadamente mil metros. O segundo era mais próximo à Avenida Brasil.
Nestas três salas de aula funcionavam três turnos de aulas distribuídos nos seguintes horários: das 7 horas às 10 horas e 30 minutos; das 10 horas e 30 minutos às 14 horas; e das 14 horas às 17 horas e 30 minutos. O sino, geralmente tocado pela Ir. Myriam Hansel alertava os alunos para o início e para o encerramento das aulas. O número de alunos avolumou-se mais em 1969. Então no dia primeiro de março 1969 foi inaugurado o prédio do que seria o futuro Grupo Escolar de Tangará da Serra. Prédio este cuja construção se iniciara em maio de 1967.
No dia sete de maio de 1967, conforme registro de termo de visitas, estiveram presentes para visitar a construção do prédio que seria a nova escola, o prefeito de Barra do Bugres José Turchen (31/01/1967 à 31/01/1970), o vice-prefeito e morador de Tangará da Serra, Jonas Lopes da Silva, o presidente da Comissão Fiscal da Diretoria da Caixa Escolar, Expedito Lopes dos Santos, o gerente da gleba Rio Branco, Bernardo R. Ehle, o tesoureiro da prefeitura municipal João Quinzarim, o morador de Tangará da Serra,
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Arlindo Lopes da Silva e o professor José Nodari (LIVRO DE MATRÍCULA, 1964 – 1966).
A nova construção era composta de três salas de aulas, feitas de alvenaria, possibilitando mais espaços de estudos para os alunos migrantes, pois o número de matrículas era significativo. Além das três salas de aulas, havia espaços para a biblioteca, secretaria, diretoria e ainda um espaço coberto para circulação dos alunos.
As Escolas Reunidas de Tangará da Serra, que se transformariam no ano seguinte em Grupo Escolar, seguiu os mesmos passos de outros estabelecimentos de ensino, conforme destaca Lopes (2006, p. 93):
Embora muitas desses estabelecimentos de ensino tenham sido criados inicialmente, como escolas reunidas, forma mais econômica de agrupá-los, a maioria deles, por haver sido fundada no período em que o modelo grupo escolar estava consolidado, já foi criada segundo este modelo.
A configuração espacial das novas dependências das Escolas Reunidas foi planejada e executada com: duas salas de aula de 8,50 x 6,00, uma sala de aula de 5,40 x 4,00, uma diretoria de 2,50 x 3,20, uma biblioteca de 3,15 x 3,20, uma secretaria de 3,20 x 4,40 e um espaço de circulação coberto para os alunos na frente das salas de aulas 10,60 por 2,20.
O espaço em que foi construído o novo prédio foi uma doação da SITA, conforme comunicação de 01 de dezembro de 1971 que registra que o espaço da escola compõe os lotes urbanos de número um a seis, ocupando a quadra 102 da planta geral da cidade de Tangará da Serra, e ainda esclarece:
II – Esclarecemos a V. S., que a quadra acima referida está situada em área triangular, fazendo frente para a Av. Brasília, divisando de um lado com a rua 13 e de outro lado com a rua 6, sendo composta de três lotes medindo 25m x 15m, cada um; dois lotes triangulares, medindo 25m de base x 30m aos lados e um lote em forma triângulo retângulo, medindo 40m x 40m de altura, perfazendo uma área total de 2.675m2 ( SITA, 1971).
As antigas salas de aulas, as duas que eram anteriormente da Escola Rural Mista de Instrução Primária de Tangará da Serra, continuaram sem piso, com a mesma mobília: 12 bancos de madeira rústica, uma mesa para o professor e um quadro negro. Já no prédio novo, que seria o futuro Grupo Escolar de Tangará da Serra, havia mobília nova. Nas salas de aula com apenas duas janelas, havia um quadro negro grande, um filtro de barro, uma mesa para o professor e carteiras individuais para os alunos. A carteira escolar tinha o
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modelo de mesa e cadeira separadas, feitas de fórmica e ferro, e eram dispostas em fileiras na sala de aula, tantas fileiras quanto fosse o número de alunos.
No primeiro ano de funcionamento, o mobiliário para as outras dependências como secretaria, diretoria e biblioteca, foi improvisado. Apenas em 1970 novas mobílias passam a compor outros espaços pedagógicos e administrativos da escola.
O prédio novo não era cercado; as ruas da cidade eram espaços de lazer para os alunos; poucas residências configuravam o cenário urbano; portanto, cercar o pátio da escola não era necessário. O pátio da escola se misturava às ruas e aos espaços vazios próximos a ela.
A nova construção da escola, mesmo não sendo a ideal aos discursos atuais sobre arquitetura escolar, representou um avanço na consolidação das conquistas solicitadas pelas famílias de migrantes (GONÇALVES, 2008). A nova escola representava uma arquitetura de destaque na cidade, e a partir de então novos objetivos seriam traçados em uma fase que consolidava um processo maior de institucionalização da escola em Tangará da Serra, quer por um acompanhamento mais efetivo da Delegacia Regional de Educação, com sede na cidade de Rosário Oeste, primeira instância de controle da Secretaria de Educação e Cultura, quer por meio da gestão político – religiosa da Irmã Myriam Hansel, que além de valores católicos, trouxe para a escola preocupações didático-pedagógicas.
Aos fundos da escola nova havia um poço, através do qual a servente, abastecia os filtros das salas de aulas e realizava a limpeza da escola. No pátio havia duas privadas de madeira, uma para meninos e outra para meninas. Uma das primeiras serventes contratadas pelo Estado de Mato Grosso, para exercer atividades na Escola Reunidas, foi Eva Maria da Silva que era responsável em ajudar a varrer as salas de aula e pela realização da merenda escolar. A merenda era em geral leite em pó, arroz doce e macarrão, dentre outros.
Em seu relato Eva Maria da Silva104 destaca que os alunos traziam muitas coisas da zona rural para incrementar a merenda. A merenda era preparada em um fogão denominado pelas serventes de econômico, além da lenha, elas usavam pó de serragem como combustível no cozimento de alguns alimentos.
A distribuição da merenda para os alunos das escolas em Tangará da Serra, conforme relatos, acontece somente após o funcionamento da escola em 1964. O termo de visitas de 07 de maio de 1967 destaca: ―O Sr. João Quinzani, tesoureiro da prefeitura
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municipal [de Barra do Bugres], fez a entrega ao Sr. Jonas Lopes da Silva de uma remessa de leite em pó e outros alimentos destinados às crianças escolares de Tangará e Santo Antônio‖ (LIVRO DE MATRÍCULAS, 1964 A 1966, p. 78 v.). A merenda escolar distribuída em Tangará da Serra era da Campanha Nacional de Merenda Escolar, campanha do Ministério da Educação e Cultura.105
No registro do tempo da escola primária em Tangará da Serra, há de se considerar a ausência de documentos históricos para balizarmos a prática do tempo da duração do curso, do movimento do tempo da aula, da presença ou ausência dos alunos na escola e o tempo da produção do professor. Mas, os relatos nos permitem compreender que o tempo escolar é múltiplo, como considera Faria Filho (2000, p.70):
Sem dúvida, o tempo escolar, ou melhor dizendo, os tempos escolares são múltiplos e, tanto quanto a ordenação do espaço, fazem parte da ordem social e escolar. Assim, são sempre ‗tempos‘ pessoais e institucionais, individuais e coletivos, e a busca de delimitá-los, controlá-los, materializando-os em quadros de anos/séries, horários, relógios, campainhas, deve ser entendida como um movimento que tem ou propõe múltiplas trajetórias de institucionalização. Daí, dentre outros aspectos, a sua força educativa e sua centralidade no aparato escolar. (Grifo do autor).
Os anos de 1968 e 1969 foram os tempos de reorganização da escola, uma escola que estava se institucionalizando e se movimentando ao mesmo tempo, dado o intenso fluxo migratório. Foi o tempo da consolidação do Regime Militar no Brasil através do Ato Institucional nº. 5 (13/12/1968), que atribuía ao presidente o poder de fechar o Congresso, as Assembléias Legislativas e as Câmaras Municipais, cassar mandatos, suspender os direitos políticos de qualquer pessoa, decretar estado de sítio, suspender o direito de
habeas-corpus para crimes políticos e privar o Poder Judiciário de certas garantias, submetendo-o ao Poder Executivo; foi o tempo da Criação de Áreas de Segurança Nacional (17/04/1968) onde 68 municípios brasileiros foram declarados ―área de segurança nacional‖, perdendo autonomia e passando a ter prefeitos nomeados pelo governo federal; foi o tempo do Ato Institucional nº. 14 (9/9/1969) que determinava pena de morte ou prisão perpétua para os crimes da ―guerra revolucionária e subversiva‖; foi o tempo da Emenda Constitucional nº. 1 (17/10/1969) também conhecida como ―Constituição de 1969‖ porque modificou a de 1967 para introduzir no texto constitucional os dispositivos do AI – 5.
105 Conforme Circula ANT nº1/61. Cuiabá, fev. de 1961. Assinado por João Bem Dias de Moura Filho, representante da CNME na área amazônica mato grossense.
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Este foi o tempo em que Myriam Hansel iniciou sua tarefa como diretora das Escolas Reunidas, formada inicialmente por três espaços diferentes em 1968 e depois em dois, em 1969. A irmã Myriam Hansel, como diretora, ainda vestida com hábito de freira, (usava uma bicicleta para fazer o percurso entre as escolas. E relata seus tombos de bicicleta: “[...] tinha muita areia. Nunca vi uma areia assim, as ruas eram fundas de areia. Então a bicicleta atolava e eu caía”. 106
As pedaladas da irmã Myriam Hansel só foram facilitadas quando o Concílio Vaticano II deu liberdade para as Congregações Religiosas alterarem seus hábitos:
O hábito religioso, como sinal de consagração, seja simples e modesto, simultaneamente pobre e condigno, e, além disso, consentâneo com as exigências da saúde e acomodado às condições de tempo e lugar e às necessidades do ministério. O hábito, masculino ou feminino, que não estiver de harmonia com estas normas, deve ser mudado (SANTA SÉ, 1965).
Após esta liberdade, aos poucos para não causar um impacto forte na população e aos alunos da escola, e também para manter a ―prudência‖ que combina com uma freira, segundo seus relatos, irmã Myriam Hansel foi alterando suas vestimentas de uma forma lenta, mas abandonou-as em definitivo. Como a retirada do hábito foi feita de forma gradual, segundo relatos, a atitude da irmã não provocou reações nem na população em geral e nem aos alunos.
Em 1969 foram matriculados na escola, com matrícula inicial, 482 alunos no primário formando 14 salas de aulas. Em 1969 não houve a necessidade de período intermediário. A antiga escola rural funcionou com duas salas, o espaço alugado foi dividido em duas salas de aula, e a escola nova tinha três salas de aula. A escola passou a funcionar das 7 horas às 11 horas no período matutino e das 13 horas às 17 horas no período vespertino.
A Irmã Myriam Hansel sempre estava presente no início das aulas, alternando entre um conjunto de salas de aula e outro. Os alunos eram dispostos em filas e os professores ficavam a frente. Inicialmente a diretora proferia algumas palavras de boas vindas e em seguida solicitava a todos que rezassem. As orações mais comuns eram o Pai Nosso, a Ave Maria e o Santo Anjo do Senhor. Logo após, os alunos se dirigiam às salas de aula.
O tempo da aula era controlado pelos professores. Eles não seguiam um horário específico de disciplinas escolares. Segundo relatos, havia aulas de Linguagem e
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Aritmética todos os dias e as disciplinas de História, Geografia, Educação Moral e Cívica e Ciências eram distribuídas ao longo da semana.
As aulas eram de segunda à sexta-feira. A permanência dos alunos em sala de aula estava condicionada à produção agrícola, tendo em vista a intensa movimentação dos alunos entre os espaços rural e urbano, o que acarretava num alto índice de evasão escolar. Irmã Myriam faz o seguinte registro sobre este refluxo em 1969:
Em 1º de março começaram as aulas do primário com matrícula inicial de 482 crianças que formou 14 classes. Começamos usar o Grupo Novo com 3 salas. Depois das férias de julho entraram muitos moradores novos e o número de matrícula foi 96. Com o tempo muitos destes moradores foram aos sítios e a matrícula diminuiu (LIVRO DE CRÔNICAS... TANGARÁ DA SERRA, 1969, p.9).
O calendário escolar estava centralizado nas festas da Igreja Católica. Os anos letivos de 1968 e 1969 começaram em março e terminaram em dezembro. No ano de 1969 o encerramento das aulas, dia 08 de dezembro, foi realizado junto com a comemoração do dia da Imaculada Conceição. O tempo escolar das Escolas Reunidas de Tangará da Serra é marcado pela presença forte da diretora que trabalhava para concretizar seus objetivos, construindo, através da educação, bases firmes dos valores cristãos católicos. O espaço das Escolas Reunidas era marcado pela presença da Irmã Myriam Hansel, assim como também o tempo que permanecia sob a égide do seu sino.