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Os alunos das Escolas Reunidas de Tangará da Serra são alunos do movimento migratório rural-rural que acompanhavam seus pais em busca da ventura e da fartura vendidas pelas colonizadoras privadas em Mato Grosso. Eles sempre estavam em trânsito no encontro da fertilidade do solo e da lenda do ouro verde.

Conforme relatos dos professores, os alunos apresentavam um alto desnível em relação à idade e série. Eram geralmente responsáveis na escola, muito disciplinados participavam sempre que solicitados das atividades escolares.

Os conteúdos ensinados seguiam a proposta do ensino guiado pelos manuais didáticos. Em Linguagem, a centralidade estava no ensino de gramática, e em Aritmética

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as quatro operações marcavam muitas folhas dos cadernos dos alunos. Em Geografia o espaço brasileiro, em forma de mapas, era desenhado no caderno e em História estudava-se os vultos da pátria e a história política do Brasil com uma estrutura positivista.

Os alunos das Escolas Reunidas participavam ativamente das atividades comemorativas realizadas pela escola. Em todas as datas nacionais as bandeiras eram hasteadas, os hinos eram ensaiados em sala de aula e depois cantados em coro por todos os alunos. Muitas poesias eram declamadas em homenagem a pátria e ou aos seus vultos. ―Começou os preparativos para o dia 7. A marcha e as poesias saíram bem, o povo gostou‖ (LIVRO DE CRÔNICAS...TANGARÁ DA SERRA, 1968, p.5). Em 1969, Ir. Myriam fez o seguinte registro: ―O sete de setembro passou novamente com marcha e tambores emprestados, poesias e discursos. Inconveniente foi o calor e a poeira naquela época‖ (LIVRO DE CRÔNICAS...TANGARÁ DA SERRA, 1968, p.12).

Para os desfiles de comemoração de sete de setembro os professores organizavam os alunos, ensaiavam a marcha e também organizavam meninas como balizas. O desfile acontecia na Avenida Brasil. Na imagem a seguir podemos verificar esta prática, realizada pela professora Ivone Paternez em conjunto com suas alunas: Eleuza Batista da Costa e Elizabete Muniz. As alunas balizas estão segurando bastões junto à professora, pousando para a fotografia ao lado de uma sala de aula. Este desfile ocorreu em 1968.

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Figura 17 - Alunas balizas e sua professora - 1968 FONTE: Acervo Ivone Paternez Gonçalves

Os alunos não iam para a escola uniformizados, embora existisse a campanha para o processo de uniformização. A diretora e os professores solicitavam sempre aos alunos que estivessem uniformizados. Os alunos, em sua maioria moravam em espaços rurais próximos à cidade. A professora Ivone Paternez relata que por residirem na zona rural, os alunos traziam muitos presentes para ela, dos sítios e chácaras: ―Eu ganhava coisa de

menino do sítio, como a gente ganhava, era frango, quiabo, tudo que eles tinham na roça toda semana eles traziam. Leite, rapadura, tudo que eles faziam lá”. 107

Os alunos presenteavam os professores constantemente, porém na comemoração de 15 de outubro, dia dos professores realizavam uma festa especial. Quase todos os alunos, com pouca exceção, entregavam presentes para os professores. Na cidade havia apenas

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uma loja, um armazém e uma farmácia. O que os alunos encontravam nestes estabelecimentos comerciais, de acordo com as suas condições financeiras, eles compravam.

Nesta região de colonização recente, imperava um respeito mútuo entre alunos e professores. Não é veiculado, nem nos relatos de professores e nem de ex-alunos, a utilização de castigos físicos. A indisciplina era controlada através da conversa e da comunicação aos pais. As brigas entre os alunos não eram comuns, principalmente no espaço da escola e em seus arredores. A diretora, sempre que necessário, conversava diretamente com os pais, chamando-os à escola ou indo pessoalmente à residência do aluno.

A relação entre a direção da escola e os estudantes das Escolas Reunidas de Tangará da Serra, conforme os relatos orais, era pautada no diálogo, não havia a prática de castigos físicos, mas sim, a utilização de palavras firmes e o hábito de rezar todos os dias com os alunos.

Os alunos também eram convidados a participarem das missas na Igreja, participação esta, bastante efetiva. Na prática catequética realizada, relata Irmã Myriam Hansel que, embora não exigisse a presença dos alunos nas missas, os orientava à uma frequência assídua. Percebe-se nos registros escritos uma significativa participação dos estudantes nas atividades litúrgicas.

Dia da Ascensão do Nosso Senhor foi inaugurada a capela da Nossa Casa. Houve missa às 8 horas com a presença dos alunos maiores os do 4º e 5º anos que rezaram em conjunto as partes móveis da missa. Além dos alunos havia umas dez pessoas conhecidas, incluindo nossos bem feitores. No fim da missa coube a honra a Irmã Myriam, de acender a lamparina, sinal de que Cristo veio morar nesta casa. (LIVRO DE CRÔNICAS...TANGARÁ DA SERRA, 1968, p.4).

Além dos discursos religiosos realizados pela irmã, no início da aula e no decorrer do ano letivo, ela também, durante aos sábados, preparava os alunos interessados para os sacramentos da eucaristia e da crisma. A catequese era realizada em uma das salas de aula da escola. ―Fez-se também durante este ano letivo a primeira comunhão em três etapas – maio, junho e novembro de 140 crianças. E em fins de junho houve Crisma de 31 crianças que já haviam feito a 1ª Comunhão‖. (LIVRO DE CRÔNICAS...TANGARÁ DA SERRA, 1968, p.6). Em 1969, um domingo após o encerramento do ano letivo, realizou-se a primeira comunhão de 69 crianças. Além da Ir. Myriam Hansel, uma professora auxiliava nas atividades catequéticas formais da igreja.

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Os alunos das Escolas Reunidas participavam ativamente das atividades da cidade. Estavam sempre em sintonia com os acontecimentos. Fazer-se presente em qualquer cerimônia da localidade era efetivar a construção de uma distinção social. Um lugar com poucas opções, todos participavam de quase tudo que ocorria.

Em 1967 começou a ser realizada, em Tangará da Serra, uma Feira de Amostras. ―Esta festa consistia em apresentar à população e aos visitantes a diversidade de produtos colhidos pelos produtores, especialmente alguns que se destacavam em peso e medidas‖ (OLIVEIRA, 2004, p.152). Os produtores levantavam barracas cobertas com folhas de coqueiro que eram ornamentadas com bandeiras coloridas dos seus Estados de origem e faziam a exposição dos produtos, tais como cachos de banana, inhame, mandioca, abóbora, laranja, feijão, arroz, batata-doce, quiabo, dentre outros.

Os produtos expostos destacavam-se, por apresentarem tamanhos geralmente maiores ou tinham um peso superior aos de outros produtos da mesma espécie, escolhidos pelos lavradores. A festa era um grande marketing dos corretores de terras, pois aproveitavam a oportunidade para fotografar os produtos, como prova da fertilidade da terra do vale do Sepotuba.

Nestas feiras de amostras, que também eram animadas com bailes realizados em um espaço central, coberto com palhas de coqueiro, havia comidas típicas das várias regiões de procedência dos habitantes de Tangará da Serra.

Para os lavradores, a Feira de Amostra era uma oportunidade de expor seus produtos e incentivar a vinda de mais pessoas para o lugar, pois acreditavam que o aumento populacional e a reocupação total das terras lhes trariam mais benefícios.

Os lavradores também buscavam, especialmente após a criação da Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, participar de ritos católicos que lhes pudessem trazer ajuda divina para obter boas colheitas e que suas esperanças pudessem ser concretizadas. Os lavradores, em dia de missa, especialmente dirigida a eles, enfeitavam suas carroças com produtos da terra, para serem bentos pelo padre e, depois da cerimônia religiosa, desfilavam pelas ruas da cidade.

Os alunos das Escolas Reunidas participavam organizadamente destes festejos da Feira de Amostra. ―Ao mesmo tempo fizeram uma exposição Agrícola perto da Igreja com grande desfile dos alunos, onde esteve presente um dos principais Deputados substituto do governador‖ (LIVRO DE CRÔNICAS...TANGARÁ DA SERRA, 1969, p.11). Assim como em outros lugares, as práticas educativas em Tangará da Serra, estavam relacionadas

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com a vida social. Não na perspectiva do conteúdo que a escola transmitia, mas na presença dos alunos na vida social da comunidade.

As Escolas Reunidas de Tangará da Serra eram formadas por um conjunto de alunos migrantes, que tinham uma presença flutuante na escola em relação ao calendário agrícola. Eram alunos pobres, de poucos recursos, porém representados pelos professores como ―corpo dóceis‖ à maneira de Foucault (2006). Eles sempre estavam a serviço da escola e da comunidade. E eram catequizados diretamente através de uma formação educacional pautada pelas orientações da religiosidade católica. A aliança entre Estado e Igreja se consolidava em Mato Grosso. 108

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