L’´ elaboration des r´ eglementations dans six collectivit´ es
6.5. La ville de Paris
A lagoa salobra da Cerca encontra-se numa área parcialmente desmatada, não sendo totalmente cercada pela cordilheira, diferentemente do que ocorre nas lagoas salinas preservadas, que são totalmente circundadas pelas cordilheiras e não são tipicamente atingidas pelas águas superficiais das inundações, sendo abastecida exclusivamente por águas subsuperficiais e de chuva.
Além disso, as lagoas salobras podem estar inseridas dentro de uma vazante, como é o caso da lagoa do Banhado, estudada por Furquim et al. (2017) e Vidoca (2017). No caso da lagoa da Cerca, esta não está inserida em um canal de vazante, definido e alongado, havendo, no entanto, muitas conexões irregulares da lagoa ligadas à grandes áreas sujeitas à inundação, como a planície de inundação na margem esquerda do rio Taquari, onde se situa a vazante Capivari, ao norte da lagoa da Cerca. A partir de imagem aérea, é possível verificar um contato nítido entre a área de influência da vazante, com maior densidade de vegetação e topograficamente mais rebaixada do que as áreas adjacentes e as áreas de influência das cordilheiras, estas sendo topograficamente mais elevadas do que o seu entorno.
Contudo, nas áreas próximas à lagoa da Cerca há uma descontinuidade da presença das cordilheiras, sendo que possivelmente esta área mais desmatada (delimitada pelo quadro branco na Figura 38), permite uma maior ligação da área de influência da vazante do Capivari com vazantes de menores extensões. Provavelmente, essa área mais desmatada está sujeita a receber as águas das inundações advindas da vazante do Capivari, que passam a conectar-se em canais mais irregulares e não lineares nos arredores da lagoa da Cerca. Por outro lado, os caminhos preferenciais das águas das inundações advindas da vazante Capivari podem tomar direções variadas até as proximidades da lagoa da Cerca, pois a direção do fluxo nestes canais irregulares e não lineares podem ser variados em razão da presença de cordilheiras parcialmente desmatadas desde a zona de contato entre a área de influência da vazante do Capivari e a área mais desmatada, conforme observado na Figura 39.
A presença de canais irregulares e não lineares entre a lagoa da Cerca e as vazantes de menor extensão em suas proximidades estão relacionados com os processos de controle de drenagem e da dinâmica da água na Baixa Nhecolândia, desempenhados pelo megaleque do Taquari (Furquim et al., 2017). A construção e abandono de lobos deposicionais, definidos como formas alongadas que expressam o padrão de sedimentação produzida pela rede de drenagem distributária, são fundamentais no processo sedimentar no megaleque do Taquari, pois permitem evidenciar as formas relictas e presentes na paisagem (Assine et al., 1997; Zani et al., 2009).
A partir da ação intensa dos cursos d’água intermitentes, padrões de drenagem tributários são formados nos lobos abandonados, sobrepondo-se à padrões distributários previamente formados, culminando na erosão e o intemperismo destas paleoformas. As vazantes representam esses cursos d’água tributários, sendo responsáveis por conectar as lagoas durante as enchentes e encarregadas pelo escoamento das águas durante as cheias (Assine, 2003). A expansão das vazantes provoca a erosão parcial ou total erosão das cordilheiras (Fernandes, 2007), destruindo as lagoas salinas e formando as lagoas salobras, como as do Carandazal e Banhado (Furquim et al., 2017).
No caso da lagoa da Cerca, a erosão não-linear das cordilheiras, não formando exatamente uma vazante definida e alongada, é responsável pela conexão da lagoa com as águas doces de inundação, devido à formação de conexões irregulares com as vazantes, ocasionando consequentemente sua transformação em lagoa salobra. A entrada de água de modo não linear promove diferentes intensidades de lixiviação na lagoa da Cerca, sendo mais intensas à montante e mais brandas à jusante da topossequência. Isto fica evidente com a presença de solos em estágio mais avançado de degradação à montante (Solodis) ao passo que
Figura 38. Prováveis direções preferencias das águas de inundações nas proximidades da lagoa da Cerca
Figura 39. Prováveis direções das águas em canais irregulares não lineares próximos à lagoa da Cerca
ocorrem solos menos degradados à jusante (Solonetz-Solodizados), com aumento de pH e PST em direção ao fundo da depressão.
Devido à presença de um horizonte pouco permeável (Btn) nos pedons à jusante da topossequência, a água e sais solúveis ficam retidos sobre este horizonte, desencadeando a estagnação da água e o acúmulo de íons nas áreas mais deprimidas da lagoa, ao passo que a lixiviação das águas de inundação nas áreas à montante é intensificada, já que nos pedons situados nesta parte da topossequência o horizonte Btn é ausente, conduzindo desta forma à uma forte lixiviação nestes solos, especialmente nos horizontes superiores, criando assim Solos Sódicos degradados em todo perfil (Furquim et al., 2017).
O processo de dessalinização das lagoas salinas do Pantanal da Nhecolândia parece ser recente. A formação da wetland e das lagoas salinas parecem ter ocorrido na transição entre o Pleistoceno tardio e o Holoceno, quando passaram a prevalecer condições mais úmidas e quentes na região. A maior dessalinização das lagoas salinas e formação das lagoas salobras possivelmente ocorreu com mais intensidade a partir de 2.600 anos A.P, período que marca o fim de eventos mais secos que ocorreram durante o Holoceno e o início de um regime de inundação regular e de forte pulso de inundação, que configuram atualmente as modernas terras úmidas do Pantanal (Assine, 2003; McGlue et al., 2012; Assine, 2015). Assim, aparentemente, a degradação dos solos Salino-Sódicos, com a consequente substituição da solonização pelos processos de solodização nos solos do entorno das lagoas salobras, iniciou-se no Holoceno tardio (Furquim et al., 2017).