Partie I – Présentation, étude et formalisation des enjeux
2. Études des pratiques et solutions logicielles existantes
3.8. Vers une nouvelle solution collaborative de patching
Se observarmos os dados recolhidos, podemos observar que o peso da orientação sexual na vida destes indivíduos manifesta-se não só no momento da sua velhice, mas desde o momento em que estes tomaram consciência da sua orientação. Nesta perceção da “diferença”, começam a surgir sentimentos de receio pela decisão de exposição, medo pelas consequências que daí possam advir, temor pelo julgamento, pela discriminação, pelas reações do outro (família, amigos, colegas de trabalho,…), pelos possíveis atos intimidatórios. Muito deste zelo deve-se ao conhecimento que os indivíduos em causa detinham de outros casos de exposição, de histórias alheias, do medo da família, ou pelo peso religioso. Atente-se nos testemunhos dos entrevistados:
(…) andei um bom tempo perdido e confuso, porque nesse tempo não se falava dessas coisas, percebe? Era tudo um tabu e não se podia ser diferente que se era logo vítima de discriminação, de maus tratos, e ham… e as pessoas punham-nos rótulos de… pronto, de paneleiros, de maricas, de doente, de tudo o que tivesse uma conotação mais pejorativa… Nem havia cá isto de se ser bi. Ou se era normal, ou se era gay, e já esses eram muito mal vistos e mal tratados, como disse, mas não havia cá disso de se gostar das duas coisas. Por norma se se soubesse era-se logo posto num hospital psiquiátrico porque estávamos doentes mentalmente, porque era uma coisa das nossas cabeças era um defeito. Percebe? Um defeito que tinha de ser corrigido para sermos hétero, porque só assim éramos normais. Não, passava-se um mau bocado. Francisco, 76 anos,
85 (…) sempre fui (…) uma pessoa isolada. Excluída. Gozada. É assim desde nova, desde que soube que gostava de mulheres. Sempre soube. Antes até da minha adolescência. (…) Devia ter os meus 14 ou 15 anos (…) quando (…) me declarei a uma melhor amiga que tive desses tempos. (…) Naquela altura não havia cá nada destas coisas. Era um tabu gigante. (…) Não havia cá gays, quanto mais lésbicas. Imagine-se, e com uma família conservadora… era o escândalo. O vexame. A desonra. Era-se ostracizado de imediato! (…) passava-se de pessoa a um monstro, a uma aberração, a um ser odiado, que deveria de ser alvo de ódio pelos outros, descartado e abominado pela sociedade e que deveria de ser invisível enquanto pessoa. (…) Ninguém queria ter nada a ver connosco. Demarcavam-se de nós como se estivéssemos a morrer com uma doença totalmente mortal e contagiante. (…) fartei-me de chorar… com medo, com raiva. (…) Enquanto a minha mãe chorava desalmadamente (…), o meu pai agarrou-me pelo braço. (…) e só me lembro de ver a mão dele a vir em direção à minha face. Começou a bater- me (…) com toda a força que tinha, como se aquela tareia fosse fazer desaparecer a lésbica que havia em mim. Ana, 82 anos, lésbica, ll 67 – 225
(…) em nada me sentia homem. Sentia que estava no corpo errado, eu sentia-me como se fosse uma mulher. (…) Quando era pequena fazia praticamente só brincadeiras de menina. (…) Isto até aos meus 7 ou 8 anos. E olhe que os meus pais repararam e insistiram o máximo possível no contrário, e eu com medo do meu pai ia tentando disfarçar o melhor que podia. (…) enquanto fui crescendo, fui sempre escondendo esta parte de mim. (…) vivia o meu lado feminino em segredo. (…) mulher à noite e homem de dia. (…) Quando tinha de ser homem, tinha de gostar de mulheres, que não gostava. Portanto, só podia gostar de homens à noite, enquanto era mulher, quando me sentia verdadeiramente na minha pele! (…) Decidi falar com os meus pais, ainda que a minha mãe soubesse, o meu pai e restante família não sabiam. (…) Claro, o meu pai não reagiu bem, cortámos relações, disse que tinha tido um filho e não uma filha (…) tive que explicar que ser transsexual não significa que fosse gay, porque eu era mulher e gostava de homens como sendo mulher e não como sendo homem, porque não me identificava como homem, e que queria ser mulher na íntegra em breve, que iam passar a ter uma filha e não um filho (…) que seria feliz. Mas ele não percebia, de todo. Paula, 73 anos, transsexual, ll 27 – 397
Nestes casos, exemplificando, aquilo que mais se destaca são as noções que estes construíram com base nas suas próprias experiências e nas histórias alheias, sendo estas essencialmente negativas. Do mesmo modo, para além de lidarem com as próprias experiências e com as histórias dos outros, lidaram com a humilhação, discriminação e ostracismo por parte dos outros. Rótulos pejorativos, insultos, alvos de “gozo” e perseguição, rejeição, incompreensão, intolerância, agressões físicas e psicológicas são apenas exemplos de experiências negativas que estes entrevistados enfrentaram, não só nesta fase, como durante diversos momentos nas suas vidas. Como estes casos, temos os restantes que também se assemelham neste sentido:
86 (…) crescemos envolta dos valores morais católicos que defendem que a homossexualidade é um crime, é imoral, é contra a nossa natureza, que é uma abominação, entre outras coisas absurdas. (…) Não é que levasse homens lá para casa ou que alguma vez tenha vivido com um, mas quando elas descobriram que eu era homossexual, já o meu pai tinha morrido e eu … pronto, não me meteram fora de casa porque precisavam de toda a ajuda financeira possível, porque como ele morreu, eu saí da escola na altura, tinha quase quinze anos, e deixei tudo para ir trabalhar para que não faltasse comida na mesa. Manuel, 66 anos, homossexual, ll 25 – 34
(…) aí já eu tinha interesse no lado feminino das coisas, ou seja, preferia as brincadeiras delas, brincava mais com elas, e até quando podia vestia as roupas das minhas primas, vestia, e uma vez vesti as da minha tia. É claro que gerei a maior confusão possível e imaginária. Isto porque os cabrõezinhos dos meus primos viram e foram contar à minha tia, e claro, levei umas belas senhoras donas chapadas. (…) Ainda hoje é tabu uma pessoa ser transsexual, quanto mais naquele tempo e com aquela idade, que nem havia nome para isso. Era-se logo aberração e pronto, doente, a precisar de tratamento mental. Mostrar-se interesse por uma coisa daquelas, tão simples quanto ter interesse em vestir a roupa do sexo oposto, era um crime punível da maior surra possível que o nosso encarregado se pudesse disponibilizar a dar. E soubesse quem soubesse, era sempre bem merecida, que era para ver se aprendia a ser normal. Maria, 62 anos,
transsexual, ll 65 – 76
(…) quando eu era jovem, cresci rodeado de rapazes e de raparigas, e até sabia apreciar as raparigas. E foi isso que também nos era ensinado. Os rapazes gostam de raparigas e as raparigas gostam de rapazes. E eu cumpria com o que me tinha sido passado, mas houve uma altura que comecei a perceber que gostava de rapazes, era eu adolescente, mas sempre pus essa parte de lado. Acabei por namorar com (…) a minha melhor amiga, (…) e ao fim de algum tempo de namorados, com a pressão da minha família, acabei por a pedir em casamento. (…) Como sentia um grande carinho por ela, mas também gostava de homens, achei que gostava de ambos. Tive uma fase que achei que era bissexual. Mas afinal não. (…) gostava da minha mulher mas não sentia que gostasse da mesma maneira que gostava de homens, e cobiçava os corpos masculinos em segredo porque não podia revelar isso a ninguém nem desgraçar o meu casamento. Ia desmoronar uma data de outras coisas. (…) Completamente impensável. Mas foi exatamente isso que aconteceu! O impensável! Joaquim, 75 anos, homossexual, ll 40 – 62
(…) agora já não sou casado, mas já fui, e fui com uma mulher. Sabe que isto os pescadores aqui, e mesmo no geral, e mesmo na minha família, aí então… é tudo muito conservador. Não se podia gostar de homens. Que é o meu caso. (…) pense lá no que seria ir para o mar num barco, às vezes pequenos (…) ir para o mar cheio de homens, um dia inteiro e às vezes mais do que isso. Em que um dos homens era gay. Imagina o caos que se levantava? Uma pessoa levava logo uma tareia, como eu cheguei a levar! Mas isto repare lá, nem era um cenário possível, essas coisas ali naquele trabalho não existiam. Homens ali… era tudo macho (…) Claro que eu sabia que gostava de homens, aí talvez desde os meus treze ou catorze anos. (…) Mas com a família que eu tinha, como é que podia dizer uma coisa dessas? Que gostava de homens? Não, não, não,
87 nem era possível sequer. Claro que tive de manter esse meu lado escondido e casei com uma mulher lá filha de um outro pescador (…) mas não gostava dela, gostava de homens e arranjei um amante. (…) depois fomos apanhados. Gerou uma confusão dos diabos. (…) vá de insultos, de nomes, de ficarem agressivos. Tentámos assumir-nos e defender-nos. (…) Vieram logo todos para cima de nós para nos tentar separar, para nos agarrarem e fazerem mal, e como nos defendemos, começaram a bater-nos. Vá de murros, vá de pontapés, vá de puxões (…) ficámos um bocado em mau estado. Mário, 71 anos, homossexual, ll 33 – 362
(…) os meus pais perceberam, e sempre me apoiaram em todas as decisões que eu tomava. Em tudo o que decidi até aqui, sempre estiveram ao meu lado. Posso dizer que fui e sou uma sortuda. Até as namoradas que fui tendo, e mesmo quando me assumi, pude falar com eles. Pude sempre desabafar com a minha mãe, que depois da primeira vez falou com o meu pai, e foi sempre muito recetivo e carinhoso, aliás, foram sempre os dois, muito compreensivos e apoiantes. (…) Tenho amigas e amigos também não heterossexuais (…) e as histórias deles, meu Deus, o que eles passaram… Desde valentes enxertos de porrada, a cintos, a chicotes, a panelas, a queima de cigarros, a igrejas transformadoras da orientação sexual, a manicómios, a tudo o que fosse possível ser utilizado para se acabar com a monstruosidade de se ter um filho que não fosse hétero. Isabel, 69 anos, lésbica, ll 23 – 34
(…) Quando eu entrei [na Polícia] não se falava dessas coisas. Não era possível sequer entrar-se se se soubesse uma coisa dessas. Se se soubesse que uma pessoa era gay ou fosse o que fosse, que não fosse hétero, uma pessoa era logo corrida, e era crime até. Provavelmente acabava-se espancado ou algo do género também. Por isso é claro que nunca me atrevi a mostrar o mínimo sinal da minha orientação sexual. Era como se eu não existisse. (…) hoje não faria de forma igual, mas também hoje não seria necessário, já há uma maior tolerância, há mais compreensão, mais… ham… talvez aceitação, sim, talvez seja essa a palavra. Mas naquela altura não havia.
António, 60 anos, homossexual, ll 15 – 52
A partir destes excertos, é possível verificar que as experiências dos entrevistados, ao assumirem as suas orientações sexuais (voluntária ou involuntariamente), foram delicadas. Excetuando um caso, em que a entrevistada teve uma boa experiência (entrevistada Isabel), os restantes casos aqui transcritos revelam experiências mais complexas neste sentido. Desde experiências que se traduziram em episódios de medo, de confronto, de descoberta inesperada, de agressões físicas, verbais, e psicológicas, de discriminação, entre outros, os nossos entrevistados revelaram ter enfrentado momentos delicados e amargos no momento da exposição da sua orientação sexual. Estes mesmos momentos, ocorridos nas suas juventudes, traduzem-se, da mesma forma, em memórias agora distantes que, no entanto, continuam a estar presentes nas suas memórias atuais e nas suas maneiras de ser e viver a vida. Nos seus quotidianos continuam a ter medo de passar por momentos semelhantes (ou
88 piores), o que os influencia na perceção de determinados elementos, como por exemplo a imagem que concebem de uma instituição de velhice.