A Casa Pia de Lisboa foi fundada a 3 de Julho de 1780, no reinado de D. Maria I, pelo Intendente da polícia, Diogo Inácio de Pina Manique, e mandada instalar no Castelo de S. Jorge. Foi o primeiro estabelecimento de educação do país e a mais significativa instituição de assistência a menores. Com a ocupação do Castelo de S. Jorge pelas tropas de Junot, a Casa Pia foi encerrada, tendo sido expulsos os seus alunos. Em 1811 a instituição renasce nas instalações do Convento do Desterro, onde permanece até 1833, ano em que é transferido para os claustros do Mosteiro dos Jerónimos e mais tarde para os terrenos anexos. Em 1942 a Casa Pia integra um conjunto de colégios ficando disseminada por toda a cidade de Lisboa.
No campo de Santa Clara encontrava-se o Conventinho Novo que em 1942 passou a pertencer à Casa Pia de Lisboa, e recebeu o nome de Colégio de Santa Clara devido à sua localização.
O Colégio de Santa Clara desenvolveu um projecto de acolhimento e educação de, e com, crianças e jovens entre os 3 e os 18 anos de idade, prestando apoio às suas famílias e fazendo-o em regime de internato e semi-internato, com um total de 314 alunos.
Acolhia em 2004, em dois lares, 26 educandos com idades que variam entre os 7 e os 18 anos. Tentava responder de forma eficaz e eficiente às necessidades básicas e
UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA escolares daqueles que estavam à sua guarda e, simultaneamente, promovia processos de desenvolvimento de competências sócio-cognitivas e de reintegração social e familiar.
O acolhimento a nível de semi-internato apostava basicamente na criação das condições indispensáveis de desenvolvimento e de inclusão que promoviam, para todos, o acesso ao sucesso.
O Colégio caracterizava-se pela diversidade de níveis de ensino que oferecia, desde o pré-escolar até ao nono ano de escolaridade ou o seu equivalente em Cursos Técnico-profissionais de nível II.
No ano lectivo 2003/2004 existia uma turma de pré-escolar (com 20 alunos), seis turmas de primeiro ciclo do Ensino Básico perfazendo um total de 130 alunos, seis turmas do segundo ciclo do Ensino Básico com um total de 126 alunos, uma turma do terceiro ciclo do Ensino Básico com 25 alunos, três turmas do Curso Técnico- profissional de Administração e Comércio, nível II, com um total de 52 alunos, e duas turmas do Curso Técnico-profissional Básico de Artes Visuais, com um total de 22 alunos. Neste ano lectivo o Colégio tinha 375 alunos.
No ano lectivo 2004/2005, ano em que decorreu o estudo em causa, existia uma turma de pré-escolar (com 19 alunos), seis turmas de primeiro ciclo do Ensino Básico perfazendo um total de 118 alunos, seis turmas do segundo ciclo do Ensino Básico com um total de 110 alunos, uma turma do terceiro ciclo do Ensino Básico com 19 alunos, três turmas do Curso Técnico-profissional de Administração e Comércio, nível II com um total de 54 alunos, e duas turmas do Curso Técnico-profissional Básico de Artes Visuais, com um total de 22 alunos. Neste ano lectivo o Colégio tinha 342 alunos.
No ano lectivo seguinte e devido a indicações da Provedoria da Casa Pia de Lisboa, o número de alunos diminuiu, mantendo-se no entanto os mesmos níveis de ensino.
UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA Como já foi referido, este colégio é parte integrante da Casa Pia de Lisboa, pelo que a sua população escolar é caracterizada por ter problemas quer de cariz económico, quer de estrutura familiar. Este facto torna-se evidente, ainda, por 67% da população escolar se encontrar no escalão 0 (zero), isto é gratuito e com direito a passe (caso necessite), e a livros e material escolar.
O ambiente de trabalho foi considerado tranquilo, apesar de pontualmente existirem casos de indisciplina e de existirem queixas que se encontram manifestos no discurso da directora (Anexo III) do Colégio,
“… não podemos dizer que é um colégio violento ou com indisciplina… porque também são
sempre os mesmos que vão para a rua, ou são sempre os mesmos que são suspensos, e são sempre os mesmos e somos capazes de falar em 10 … em cerca de 340 alunos são 10, 15 que são os problemáticos, e outros são miúdos que fazem o seu percurso normal dentro do colégio, e a prova é agora que quando vemos os quadros de valor temos cerca de 60 miúdos no quadros de valor. Queixamo-nos tanto deles e depois temos 60 meninos, dos quais cerca de 40 durante todo o ano tiveram direito a estar no quadro de valor. Portanto, até afinal de contas não podemos dizer que é um colégio violento ou com indisciplina… ”.
As aprendizagens, quer dos conteúdos, quer das competências incluídas no currículo do Ensino Básico, preconizado pelo Ministério da Educação, foram adoptados pela Casa Pia de Lisboa, em particular nos Cursos Técnico-profissionais. Alguns professores consideravam que o currículo nacional era demasiado exigente, em particular, para os alunos dos Cursos Técnico-profissionais e, em geral, para todos os alunos do colégio. Segundo um dos assessores da direcção do colégio (Anexo IV), uma das razões para que tal acontecesse devia-se às características do meio de onde estes alunos cresceram, ou seja,
“são miúdos que vêem de famílias com défice cultural bastante grande e isso dificulta a aprendizagem deles, claramente, quer dizer tudo aquilo que eles tem de abordar, a nível de aprendizagens, é feito para miúdos tipo, mas tipo classe média, onde por exemplo a questão da linguagem oral está resolvida, a questão do acesso à cultura não é difícil, o que não é o caso destes miúdos… e se calhar nem é tanto a questão do acesso é a questão do acesso através do simbólico, quer dizer que se eu não tenho o capital simbólico que me permita
UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA
aferir aquilo que lá está eu não vou lá, portanto se eu tenho um garoto que tem um fraco capital simbólico ele trás lacunas grandes ao nível do léxico que tem, a abordagem por exemplo à história ou à matemática é bestialmente complicada…”.
Por outro lado, aponta-se o conceito que os alunos constroem da escola, como aliás nos referiu a Directora do Colégio:
“esta escola, não este Colégio de Santa Clara, é esta escola, já lhes diz muito pouco e portanto não há aquela ligação e a importância da aprendizagem… e acho que eles não tem, tal como a maior parte dos miúdos deste país, não tem muito interiorizado que é necessário aprender, ou que é necessário aprender na escola, e que a escola lhes pode que trazer benefícios na maneira como os ajuda a organizar conhecimento que os rodeia…”.
No entanto, parece que as avaliações não reflectem esta preocupação, pois como referiu a Directora do Colégio, “se for ver os resultados no segundo período são muito
maus e agora o terceiro período são muito bons”. Refere, desta forma, que as
avaliações do terceiro trimestre são, com alguma frequência, melhores que nos trimestres anteriores, o que aliás é também visível pela análise dos gráficos das avaliações negativas, nas turmas, nos anos lectivos 2003/2004 (Anexo V) e 2004/2005 (AnexoVI), e aponta razões para tal:
“Eu acho que quando chegamos ao terceiro, quando chegamos ao ajuste final, o terceiro período acaba sempre por ceder em muitas situações, porque o miúdo é isto, porque é a idade, porque tem problemas, porque é não sei quê, porque é não sei que mais… aliás, eu não sou a favor da retenção e portanto acho que o princípio deve ser a progressão, e isso não me choca, agora, se os estamos verdadeiramente a dotar de ferramentas para que eles depois estejam ao nível dos outros, não sei… não tenho a certeza…”
De facto, existe uma contradição entre aquilo que se julga que os alunos aprenderam e as avaliações que obtiveram. E esta contradição constrói dilemas a vários níveis: a nível social “nós temos que compreender as situações familiares, as situações
sociais, temos que compreender tudo isso…”, a nível educativo “…se não os dotamos de ferramentas para eles quebrarem o ciclo vicioso da pobreza nunca mais eles conseguem sair dali e, portanto acho que nós devemos tentar ao máximo”, a nível de
UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA sucesso educativo “não é por eles ficarem retidos… que eles depois vão ter mais
sucesso, antes pelo contrário, a auto-estima deles cada vez mais vai mais por aí a baixo…” e ainda a nível curricular:
“temos que naturalmente nos deixar dar tudo para não dar nada, porque estamos muito preocupados em que cumprimos o programa e que transmitimos os conhecimentos todos, mas depois ficou lá tão pouco que não vale a pena… mais vale que eles dominem bem a língua portuguesa para que saibam estudar por eles, para que saibam cooperar entre eles, saibam algumas das competências que são necessárias hoje em dia para a vida e porque depois o conhecimento está sempre em mudança e desde que eles saibam onde procurar a informação”.
A análise das avaliações, tendo como referência a Matemática teve duas vertentes: (a) uma análise comparativa com as restantes disciplinas, no seio da turma; (b) uma análise comparativa entre os vários ciclos e nos anos lectivos 2003/04 e 2004/05.
Relativamente à primeira análise – ponto a – (Anexos VII) verificou-se que as disciplinas onde os alunos tinham mais níveis negativos, em comparação com os níveis negativos atribuídos à disciplina de Matemática, nas três avaliações formais ao longo do ano lectivo, no segundo ciclo do Ensino Básico, foi na disciplina de Língua Portuguesa e na disciplina de Língua Estrangeira. Este facto observou-se em ambos os anos lectivos estudados. Quando à análise do terceiro ciclo do Ensino Básico e nos cursos técnico- profissionais observou-se que no ano lectivo 2003/2004 as disciplinas de Língua Portuguesa e Inglês obtiveram mais níveis negativos atribuídos, no entanto no ano lectivo seguinte a disciplina de Matemática foi a que registou mais níveis negativos nas avaliações formais ao longo do ano lectivo.
No que diz respeito à segunda análise – ponto b – (Anexo VIII) observou-se que, no último trimestre de cada ano lectivo, em geral, existiu uma diminuição da percentagem de avaliações negativas; verificou-se ainda que, apesar do observado no ponto (a) desta análise, a percentagem de níveis negativos atribuídos à disciplina de Matemática situava-se entre os 15 e os 60 pontos percentuais (excepto em quatro avaliações, no ano lectivo 2003/2004 e, no ano lectivo seguinte, uma turma não registou
UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA níveis negativos no último trimestre e duas turmas registaram abaixo dos 5 pontos percentuais).
O Projecto Educativo de Escola – PEE – (Anexo IX) do Colégio de Santa Clara estruturava-se sobre quatro pilares essenciais: A comunidade (e suas interacções e desenvolvimento); A função social (a educação e o ensino/aprendizagem e seus suportes e implicações); Os recursos (e a eficácia na sua utilização); A organização (e o seu desenvolvimento sustentado). O PEE apresentava-se numa matriz, com seguinte estrutura:
Metas Sistémicas – entendidas como as referências fundamentais para o processo de desenvolvimento do Colégio. Nesse sentido eram “os grandes Horizontes de desenvolvimento da escola, entendida como um sistema aberto” (Cabral, 1999).
Mediações Sistémicas – faziam a ponte entre as Metas Sistémicas e a sua implementação no Colégio. Ao definir “o impacto que essas metas tinham nos diferentes subsistemas da escola, como sejam nas pessoas e nos processos” (Cabral, 1999), sugeriam dinâmicas e valores.
Objectivos Operacionais – a sua relação era, fundamentalmente, com as acções e processos que tinham que ocorrer para que as Metas Sistémicas pudessem ser implementadas (Cabral, 1999).
Alvos Anuais – não podiam ser confundidos com o Plano de Actividades do Colégio. “Os Alvos referiam-se a acções ou processos de desenvolvimento que
deveriam ter lugar em cada ano de vigência do PEE” (Cabral, 1999).
Mudanças Sistémicas – “algumas das transformações por que a escola
teria de passar, para que as Metas Sistémicas se realizem” (Cabral, 1999).
A estrutura conceptual do PEE mantinha inalterada, para um triénio, a quase totalidade das suas “estruturas” formais (as Metas Sistémicas, as Mediações Sistémicas,
UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA os Objectivos Operacionais e as Mudanças Sistémicas) e introduzia anualmente as correcções que a comunidade decidisse, no espaço-tempo apropriado, através de alterações na estrutura formal – Alvos Anuais – operacionalizados na construção do Plano de Actividades do ano lectivo a que correspondiam. Estes ajustamentos eram o resultado do processo de reflexão e de avaliação da implementação do projecto, ocorrendo no final de cada ano lectivo.
Podemos, então, considerar que todo este processo de elaboração do PEE seguiu uma metodologia participativa de projecto (Guerra, 2002), em que o primeiro levantamento de necessidades ou diagnóstico foi elaborado durante o I Fórum Santa
Clara, a aprovação do PEE no II Fórum Santa Clara e a avaliação do primeiro ano de
implementação no III Fórum Santa Clara.
O Plano de Actividades constitui um conjunto de acções/projectos propostos pelos grupos docente e não docente que, ao dirigirem-se aos respectivos Alvos Anuais, integrados nas diferentes Metas Sistémicas, pretendem ir ao encontro das necessidades da comunidade, ao promoverem Mudanças Sistémicas.
Desta forma, o colégio encarava o PEE como um processo “vivo”, com possibilidades de mudança e de crescimento, à medida que as necessidades da comunidade evoluiam; um registo escrito onde era clarificado quem fazia o quê, quando, onde e porquê; uma implementação e desenvolvimento de um plano realizado em conjunto; uma coordenação de diferentes serviços/recursos, de forma convergente e útil a toda a comunidade educativa (docentes, discentes, famílias e alunos).
A opotunidade de realizar a Oficina de Formação “Aprendizagem Cooperativa – Escola Inclusiva” integrava-se na linha orientadora do PEE, como refere um dos assessores da direcção do colégio
“tinha muito a ver com o projecto educativo, a questão do diálogo como ferramenta fundamental de trabalho, a questão da cooperação como ferramenta fundamental de trabalho, então fazia sentido… e como fazia sentido vamos pôr isto em marcha… e portanto
UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA
era um projecto que fazia muito sentido no âmbito do projecto educativo, no fundo transformar uma organização escola, que na sua forma era um paradigma muito, era e é ainda, muito compartimentado, sem a noção do bem comum, e no fundo o que se queria transformar era essa organização numa comunidade educativa, e acho que fazia sentido a aprendizagem cooperativa, ainda mais quando ela está associada à questão da escola inclusiva, e portanto fazia todo o sentido o desenvolvimento de uma ideia dessas e porque claramente ela favorecia o desenvolvimento do projecto educativo”
De facto, ressalta para o estudo em causa a meta sistémica dois, Centrar a Vida do
Colégio no fenómeno da Aprendizagem, e em particular os objectivos operacionais 2.2.1
– Promover abordagem integrada do conhecimento; 2.3.1 – Aprender a criar ambientes
de aprendizagem estimulantes; e 2.3.2 – Promover a aprendizagem ao londa da vida. (Lifelong learning). Infere-se que a aprendizagem assume o papel central nas expectativas da direcção, tanto no discurso do assessor,
“é claramente a questão de aprendizagem, quer dizer também já reparaste que a questão de nos focalizarmos na aprendizagem e não no ensino é uma das minhas questões, e portanto por aquilo que eu experimentei na Oficina de formação ela é claramente uma metodologia que não está centrada nas respostas certas mas está centrada na aprendizagem, portanto é no sentido construtivista do conhecimento, que eu acho que é importante… e portanto é pela questão da aprendizagem, eu acho que pode ajudar nesta re-focalização, chamemos-lhe assim, na meta do projecto educativo de centrar a vida do colégio no fenómeno da aprendizagem, eu acho que a aprendizagem cooperativa, favorece claramente o desenvolvimento do projecto educativo do colégio”
Como no discurso da directora do colégio:
“importância das pessoas decidirem trabalhar, de saberem trabalharem com os alunos…
considerando nós que era importante uma mudança de metodologias e de estratégias utilizadas e pôr os alunos a cooperarem uns com os outros a trabalharem em grupo e a saberem… portanto, trabalharem em equipa, no fundo, era importante dotar os professores de ferramentas para saberem fazer isso. E começamos a pensar que gostaríamos que as turmas trabalhassem assim, ou pelo menos o maior número de professores nas turmas, até se houvesse uma turma em que trabalhassem todos os professores, desta maneira seria bom e então surgiu a ideia de fazer a formação”
UMA OFICINA DE FORMAÇÃO DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA –ASPECTOS DA LECCIONAÇÃO DA MATEMÁTICA