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Seguindo o itinerário histórico, José Marques de Melo (2005, p.23) infere que “nas sociedades, os modos de comunicação refletem os modos de produção e [...] essa lição da história aplica-se plenamente às instituições”.

No caso da Igreja, analisar suas práticas de comunicação significa “entender como se estruturam politicamente tais organizações religiosas e como se exercem ali os mecanismos de poder” (MARQUES DE MELO, 2005, p.23).

A premissa de José Marques de Melo, que também é um norte para análise de nosso objeto, pode ser facilmente identificada nos processos diacrônicos de que nos ocuparemos a seguir.

Porém, antes de prosseguirmos, Ismar de Oliveira Soares (1988, p.29) nos adverte que, para melhor “analisar o discurso da Igreja Católica Romana sobre a Comunicação Social a partir das grandes controvérsias [...]”, tem-se que observar o comportamento dos papas que, cada qual a seu tempo, reagiu de alguma forma às demandas criadas pelos processos comunicacionais.

Temos então que aludir à história do cristianismo seguindo a orientação de Eduardo Hoornaert (1995, p.22) quando diz: “proponho então que se entenda por cristianismo uma realidade histórica, formada por um processo histórico específico”. A proposta de Hoornaert nos conduz a uma análise que perpassa os acontecimentos importantes da sociedade como um todo.

Para efeito de contextualização, acompanhamos a história do cristianismo desde sua origem na antiguidade quando ainda não era reconhecido como religião e, ainda, eram perseguidos os seus praticantes.

Destacamos a seguir alguns dos pontos chave da história que nos ajudarão, posteriormente, a entender algumas posturas da Igreja frente à comunicação.

A primeira grande vitória do cristianismo veio com o imperador romano Constantino I (280-337) que, no início do século IV, mais precisamente no ano de 313, quando promulgou o Édito de Milão, concedendo a liberdade de culto aos cristãos pondo fim às perseguições.

Em meio à crise do Império Romano do Ocidente houve o fenômeno da ascensão do cristianismo. O crescimento numérico dos cristãos influenciou o imperador Constantino I que, durante o Concílio de Nicéia – o primeiro Concílio universal da igreja, em 325 – instituiu o cristianismo como religião principal do Império Romano.

A consolidação do cristianismo junto ao Império Romano foi decretada pelo imperador bizantino Teodósio I (347-395) que em 380 promulgou o Édito de Tessalônica declarando o cristianismo religião de Estado, abolindo as práticas de cultos pagãos.

A queda do Império Romano marca o fim da idade antiga ou antiguidade no ano de 476 com a invasão bárbara germânica. É o início do período medieval onde o cristianismo desempenhou importante papel servindo como articulador entre romanos e germânicos.

É importante frisar que a Igreja Católica foi a única instituição que não caiu junto com o Império Romano do Ocidente. Já sob as lentes dos processos comunicacionais, em seus primórdios, na fase inicial onde todos eram iguais9, a comunicação fluía tendo como instrumento a própria comunidade.

No entanto, o cristianismo se expandiu mudando essa concepção para “a explicitada por Inácio de Antioquia, segundo a qual, tudo, na Igreja, gira em torno da tríade bispo-presbítero- diácono” (SOARES, 1998, p.30) estabelecendo assim um modo de comunicação dominante pautado a partir de fluxos verticais obedecendo a hierarquia. A postura denota a questão da autoridade, ponto crucial para a compreensão das relações da Igreja não só com a comunicação, mas em todo seu decurso histórico. “A autoridade da Igreja neste contexto é sinônimo de hierarquia, entendida aqui como a centralização da tomada de decisões[...]” (PUNTEL, 1994, p.31).

Assim se perpetuou a linha hierárquica da Igreja católica que, sob o ponto de vista da comunicação que é o que nos interessa, perdurou por séculos sem que os leigos tivessem voz ativa.

Não bastando o controle da hierarquia interna, a Igreja Católica tentou por diversas vezes sobrepor sua hegemonia ao poder civil10, recorrendo à célebre declaração bíblica (Mt 22:21): “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Não sem razão, Ismar de Oliveira Soares (1988, p.30) diz que “sob o signo da autoridade, que dita as normas e fixa padrões de comportamento, é que a comunicação deve ser estudada quando se tem em frente os documentos da Igreja [...]”. Sob a égide deste signo a Igreja Católica forjou sua postura frente aos governos civis, buscando sempre manter a hegemonia do poder11 sagrado frente ao temporal, ou ainda, o religioso frente ao civil12.

9 Para compreensão de um modelo primitivo de comunidade cristã ver Leonardo Boff, em “Igreja: carisma e poder”. Vozes de Petrópolis, 1982.

10 A esse respeito ver Ismar de Oliveira Soares (1988, p.35) que conta que foi com Gregório VII que o poder absoluto do papa se afirmou.

11 Sobre a concepção jurídica do poder religioso na Igreja Católica e a instituição do poder absoluto do papa ver Ismar de Oliveira Soares em “Do Santo Ofício à Libertação”, página 35.

12 O papa Félix III, em carta ao imperador Zenon, declara o Magistério Romano livre da autoridade civil para questões de economia interna e de disciplina, cf. carta Quonian pietas, in, E Baragli, op. cit., p. 69. Dez anos depois, o papa Gelásio, em carta ao imperador Anastácio, afirma, pela primeira vez, a doutrina dos dois poderes sobre a terra, o do Romano Pontífice e o do Imperador de Roma. No final do século XIX, Leão XIII retomará esta doutrina, defendendo a teoria das duas sociedades perfeitas, a Igreja e o Estado. (SOARES, 1988, p.32-33).

Seguindo o curso da história, vimos a sistematização do conhecimento levada a cabo pela Igreja Católica em movimentos como Patrística13 e Escolástica14 que, além de concorrerem para um modo de comunicação da Igreja, foram determinantes para a consolidação da hegemonia católica ao longo do tempo.

O pioneirismo da Igreja Católica na produção, manutenção e distribuição de obras, conferindo-lhe o monopólio do saber, garante à instituição um arcabouço de conhecimento que será utilizado a seu favor nos processos de comunicação. A saber,

Quanto aos incunábulos, a Igreja não apenas produziu textos e livros, difundindo, em latim, a Escritura Sagrada e o pensamento dos grandes doutores dos primeiros séculos (Patrística), mas também copiou e preservou para a posteridade nas scriptorias dos conventos e universidades, numerosos clássicos da literatura greco-romana. (SOARES, 1988, p.30-31)

Ao mesmo tempo em que produzia e sistematizava o conhecimento, a Igreja Católica não descuidou das publicações de outras obras, considerada por ela como livros heréticos, que ou sofreram censura prévia ou foram condenados ao fogo desde a idade antiga15.

Essa prática perdurou até os tempos modernos com o Index Librorum Prohibitorum, ou índice dos livros proibidos pela Igreja Católica, que somente foi abolido em 1966 pelo papa Paulo VI. Mas isto é assunto para mais adiante.

Retomamos com Ismar de Oliveira Soares (1988, p.31-33) que destaca outros pontos importantes da relação da Igreja com a comunicação que tiveram intervenções do papado como os documentos que regulamentaram a difusão de ideias por meio de espetáculos cênicos, a produção e exibição de imagens nos templos, os documentos que defenderam a independência da Igreja na produção cultural frente ao poder civil e a liberdade de consciência para se aderir ou não ao cristianismo.

13 Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 1.0, Patrística é filosofia cristã formulada pelos padres da Igreja nos primeiros cinco séculos de nossa era, buscando combater a descrença e o paganismo por meio de uma apologética da nova religião, calcando-se frequentemente em argumentos e conceitos procedentes da filosofia grega.

14 Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 1.0, Escolástica é o pensamento cristão da Idade Média, baseado na tentativa de conciliação entre um ideal de racionalidade, corporificado esp. na tradição grega do platonismo e aristotelismo, e a experiência de contato direto com a verdade revelada, tal como a concebe a fé cristã; escolasticismo.

15 Conforme Soares (1988, p.31) “foram condenados ao fogo, de preferência em lugares públicos, os escritos de Ario (julgado pelo Concílio de Nicéia, em 325, e pelo Segundo Concílio de Constantinopla, em 553), Nestório (julgado pelo papa Celestino, no ano de 431), Fócio (condenado pelo Concílio de Constantinopla em 869), Pedro Abelardo e Arnaldo de Brescia (condenados por Inocêncio II, em 1140) João Wyclif e João Huss (condenados pelo Concílio de Constança, em 1415)”.

As ações dos papas nas sociedades da Europa tinham como objetivo controlar os processos de comunicação e garantir a hegemonia da Igreja. Contudo, no século XIII viu-se ameaçada por forças políticas, econômicas e culturais que conseguiam escapar ao controle imposto pela Igreja por meio de manuscritos que circulavam pela Europa com informações diversas.

A empreitada contra os rigores da Igreja tornou-se uma verdadeira luta e o “principal instrumento desta luta, levada em frente por pensadores livres, judeus e comerciantes, foram, sem dúvida, os manuscritos que já no século XIII corriam de mão em mão, entre os que sabiam ler, sem o controle dos eclesiásticos” (SOARES, 1988, p.33).

Os manuscritos que corriam por toda Europa ficaram conhecidos por “libelli” “brochuras” ou “nouvelles” e eram escritos em línguas vulgares, isto é, em francês, alemão, inglês, português e italiano.

Por algum tempo, os manuscritos que circularam na Europa foram, senão a única, uma das principais fontes de informações que nortearam a opinião pública, sendo por isso utilizados por políticos e banqueiros em proveito próprio.

Tomando ciência da importância das informações contidas nos manuscritos e sua atuação na opinião pública, a própria Igreja começou a utilizar das informações neles contidas para suas tomadas de decisões.

Mas os manuscritos não foram os únicos problemas da Igreja Católica neste período. Os séculos XIV e XV se configuraram como tempos difíceis para a Igreja Católica com diversos acontecimentos que abalaram a estrutura da instituição, a qual precisou responder com adaptações e mudanças à altura.

Entre os acontecimentos mais importantes estão o Cativeiro de Avignon16 (1309-1377), o Grande Cisma do Ocidente17 ou Cisma Papal (1378-1417) e a ação de reformadores como John Wycliffe e John Huss18 que enfraqueceram a autoridade dos papas e reforçaram a necessidade da reforma da Igreja.

16 Cativeiro de Avignon foi o período de crise na história da Igreja Católica entre 1309 e 1377, quando a residência do papa foi transferida de Roma na Itália para Avinhão (Avignon em francês) cidade do sul de França. Para outras informações, ver a obra “Compêndio de História da Igreja”, de Frei Dagoberto Romag, O.F.M. Volume II – Idade Média, p. 239-253.

17 O Grande Cisma do Ocidente foi uma crise religiosa que ocorreu na Igreja Católica de 1378 a 1417. Para outras informações, ver a obra “Compêndio de História da Igreja”, de Frei Dagoberto Romag, O.F.M. Volume II – Idade Média, p. 253-260

18 Sobre John Wycliffe e John Huss ver a obra “Compêndio de História da Igreja”, de Frei Dagoberto Romag, O.F.M. Volume II – Idade Média, p. 286 e 289, respectivamente.

Mas, para o contexto desta tese, o marco mais importante foi sem dúvida a invenção da imprensa por Gutenberg que, no bojo do Renascimento19, perpetraria grande mudança na história da sociedade como um todo, afetando todos os setores, em particular a Igreja.

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