Não pretendemos aqui realizar um levantamento histórico rigoroso e detalhado dos processos históricos da Igreja4 nem tão pouco da sociedade no período em questão. Buscaremos somente a abordagem das ações em que a Igreja Católica se relaciona de alguma forma com a comunicação. Neste contexto, serão abordadas as iniciativas da hierarquia católica que constituíram alguma influência no meio comunicacional.
Porém, não há como dissociar os processos sociais dos eclesiásticos, uma vez que entendemos que, no contexto histórico, há uma imbricação entre a Igreja, Estado e sociedade. “Somente dentro desse contexto global fica visível o processo pelo qual, através do debate em torno da comunicação, a Igreja se torna um ator que não pode ser esquecido na organização da cultura brasileira” (DELLA CAVA, MONTEIRO, 1991, p.15).
Nelson Werneck Sodré (2011, p.13) diz que “por muitas razões, fáceis de referir e de demonstrar, a história da imprensa é a própria história do desenvolvimento da sociedade capitalista”.
Conforme os pesquisadores Ralph Della Cava e Paula Montero (1991, p.16), “[...]do ponto de vista da Igreja, não é possível entender o que se passa no Brasil, sem compreender o alto grau de inter-relação entre os quadros que circulam no interior da Igreja e a complexa trama de alianças que costura os interesses do centro aos da periferia”.
Tentaremos então entender a comunicação no seio da igreja do ponto de vista de sua própria história – o que envolve suas tensões ideológicas, hierárquicas e institucionais – mas,
4 Para uma melhor compreensão da história da Igreja Católica ver: PIERRARD, Pierre. História da Igreja. São Paulo: Paulinas, 1982. 298 p. – HORNAERT, Eduardo; AZZI, Riolando; GRIJP, Klaus Van der; BROD, Benno. História da Igreja no Brasil. Ensaio de interpretação a partir do povo. Primeira época – Período Colonial. Petropolis: Vozes, 2008. e LENZENWEGER, Josef et alii. História da Igreja Católica. Trad.Frederico Stein. São Paulo: Loyola, 2006. 393 p.
também, e principalmente, do ponto de vista da evolução da sociedade mundial e, em particular, a brasileira.
Este capítulo então busca descrever o percurso diacrônico dos processos em que a Igreja Católica esteve envolvida com a Comunicação Social, mostrando seu posicionamento frente ao desenvolvimento histórico e teórico da comunicação.
Os estudos que envolvem o discurso e a prática da Igreja Católica sobre a Comunicação Social são recentes. Segundo Ismar de Oliveira Soares5, datam da década de 1960, tanto na Europa quanto na América Latina e, também, no Brasil, a incidência das primeiras reflexões que se propuseram a sistematizar o conhecimento da área.
Enrico Baragli6 identificou aproximadamente noventa documentos oficiais sobre a questão da comunicação na Igreja bem antes da era de Gutenberg, destinados “a normatizar a conduta dos imperadores, reis, bispos e fiéis no que se referia ao uso dos escritos e livros, dos espetáculos teatrais e das imagens” (SOARES, 1988, p.30).
Mais especificamente, Frei Romeu Dale, em sua obra Igreja e Comunicação social7, ao
estudar os documentos pontifícios originários depois da invenção da tipografia, a respeito dos meios de comunicação social, distinguiu três períodos ou fases comportamentais da Igreja frente à Comunicação.
Com alguma semelhança, ao examinar a história da comunicação da Igreja Católica, em uma perspectiva da história social ou da história das relações entre a Igreja e a comunicação, José Marques de Melo (2005, p.25) vai além e identifica “quatro fases bem definidas”.
Apesar de certa similaridade, as fases anotadas pelos pesquisadores destoam em alguns momentos históricos e na leitura da postura da Igreja frente a essas fases.
Na primeira fase, que para ambos vai do pontificado de Inocêncio VIII (1487) – da constituição Inter Multiplices –, até o fim do século XIX, com o papa Pio IX (1846-1878), enquanto Romeu Dale (1973, p. 16) a caracteriza como “uma atitude de defesa, às vezes até violenta, em face da nova descoberta”, Marques de Melo (2005, p.25) diz que, nesta fase, “o comportamento da Igreja está orientado para o exercício da censura e da repressão.
5 Para um panorama completo das obras que abordaram o discurso e a prática da Igreja sobre a Comunicação social em nível internacional e nacional ver a obra do Santo Ofício à Libertação de Ismar de Oliveira Soares entre as páginas 19 e 22.
6 Sobre o estudo de documentos antigos da Igreja sobre Comunicação ver a obra de Enrico Baragli:
Comunicazione, comunione e chiesa: studio romano dela comunicazione sociale.
7 Igreja e Comunicação Social (Paulinas, 1973) é um verdadeiro tratado sobre o comportamento da Igreja Católica frente à mutação da Comunicação Social ao longo do tempo. Reunido nesta obra está um conjunto de documentos, em sua grande maioria pontifícios, desde o Século XIV até o Século XX, que deixam claro o comportamento e as reações da Igreja Católica perante cada fase da Comunicação no mundo. Para além da simples transcrição dos documentos, Romeu Dale faz uma análise crítica concisa, porém, muito bem elaborada que permite uma visão ampla das ações da Igreja Católica em relação a cada momento importante da Comunicação Social no mundo.
A segunda fase, para ambos, tem início no pontificado do papa Leão XIII (1878-1903), mas enquanto que para Dale encerra-se o período, para Marques de Melo o mesmo estende-se até o papa João XXIII (1958-1963).
Romeu Dale diz que neste período pode-se “vislumbrar um começo de atitude diferente” citando como exemplo um gesto de abertura que foi a “primeira audiência coletiva concedida por um Papa a jornalistas profissionais, a de Leão XIII, em 1879, meses depois de eleito, ainda que pronunciada... em latim!” (DALE, 1973, p.16).
Na visão de Marques de Melo (2005, p.25), esta fase “registra uma mutação profunda e se traduz pela aceitação desconfiada dos novos meios de comunicação”.
Já imbricada na segunda fase de Marques de Melo, a terceira fase conceituada por Romeu Dale é marcada pelo pontificado do papa João XXIII (1958-1963) com destaque para o paradigma comunicacional advindo do Concílio Vaticano II, por ele convocado no dia 25 de Dezembro de 1961, através da bula papal “Humanae salutis” e inaugurado no dia 11 de outubro de 1962.
Vale lembrar que nesta época, “as Comunicações Sociais, já incluindo a televisão, ocupam uma área cada vez maior nas atividades da sociedade contemporânea, tornando-se objeto de estudos aprofundados, e comportando avanços permanentes e acelerados” (DALE, 1973, p.17).
Marques de Melo (2005, p.26) retrata sua terceira fase sob a égide das transformações sociais e tecnológicas onde a Igreja se vê obrigada a adaptar-se às exigências do mundo moderno. Para fazer frente às reivindicações dos tempos, o papa João XXIII “proclama a imperiosidade do aggiornamento8, palavra-chave do magistério que emerge do Vaticano II. Esse processo se traduz por um deslumbramento ingênuo no campo da comunicação”.
“Durante toda sua trajetória, a Igreja exercitou um controle sobre a imprensa, vigiando- a, bem como os novos instrumentos que surgiam, em particular o cinema e o rádio. Mas a sociedade também se transforma e a Igreja sente-se impelida a adaptar-se aos novos tempos” (MARQUES DE MELO, 2005, p.25).
Finalmente, a quarta fase concretiza-se na contemporaneidade, nos dias atuais, onde a Igreja supera a fase de deslumbramento, o que “significa o reencontro do povo pela igreja, ela reflete também a redescoberta da comunicação, em toda a sua plenitude” (MARQUES DE MELO, 2005, p.26)
8 Aggiornamento: termo italiano que significa “atualização”. Palavra-chave dada como orientação e objetivo para o Concílio Vaticano II. Aggiornamento significa a adaptação dos princípios católicos ao mundo contemporâneo.
Adotando uma postura de avaliação crítica, ela começa a repensar a questão da comunicação. Faz uma autocrítica em relação aos posicionamentos anteriores e busca novos padrões, resgatando as práticas do cristianismo primitivo, em certo sentido vivenciadas intensamente pelas comunidades eclesiais de base em todo o continente. A Igreja passa a incentivar, a patrocinar, a respaldar experiências de comunicação do próprio povo. (MARQUES DE MELO, 2005, p.26)
Para além de explicitarem de forma sucinta o relacionamento da Igreja Católica com a Comunicação, as fases elencadas por Romeu Dale e José Marques de Melo apontam para uma reação da Igreja em cada momento do percurso diacrônico da Comunicação Social no mundo. Ao anotarmos estas fases, criamos um parâmetro de análises que balizará o entendimento das ações desenvolvidas no âmbito brasileiro pelas instituições e pelos intelectuais católicos que escreveram a história da imprensa católica no início do Século XX no Brasil. Buscaremos com isso evidenciar que, toda ação depreendida por nossos artífices, de alguma maneira, se coaduna com a proposta provinda da Santa Sé.
A partir dos momentos históricos da Comunicação, os reclamos e as providências da Igreja Católica sobre circunstâncias que envolvem a problemática da Comunicação Social foram, de certa forma, padronizados e/ou uniformizados em todo o mundo.
Os documentos da Igreja Católica sobre a comunicação social funcionaram como uma cartilha que deveria ser obedecida à risca por toda a hierarquia eclesiástica e, salvo raras, exceções, foi justamente o que aconteceu no mundo inteiro.
Novamente, há uma série de estudos relativos a esses “momentos históricos” que abordam a relação Igreja-Comunicação. Entendemos aqui que, para o contexto geral internacional, as obras de Romeu Dale (1973), Ismar de Oliveira Soares (1988), Ralph Della Cava e Paula Montero (1991), Joana T. Puntel (1994) e José Marques de Melo (1974, 2003, 2005), além de eventuais autores que possam surgir, responderão satisfatoriamente aos nossos anseios.