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2.3 Les descripteurs spatio-temporels

2.3.2 Notre descripteur

2.3.2.4 Validation expérimentale

As fotografias, objeto do presente estudo, foram produzidas pelo próprio pesquisador em 199930. Trata-se do olhar de quem procurava registrar uma parte da realidade do processo de despejo da (JMV), segundo o princípio do contraste, das contradições e das imagens dos escombros, do que restou das moradias destruídas. Buscavam-se determinadas sequências como a que apontava um muro em pé, sua queda e os escombros do que sobrou.

O olhar para a realidade registrada nas imagens fotográficas do processo de despejo da favela JMV, portanto, não era isenta de valores e buscava registrar um momento de tensão e perigo vivido na favela. As fotos continham ângulos que proporcionavam uma noção de profundidade mais ampla. As tomadas apresentaram planos mais abertos a fim de dar uma ideia de conjunto.

Em várias fotos apresentou-se o destaque para pessoas em ação nas próprias moradias no momento do despejo. Em alguns casos, foi possível perceber-se a busca do interior da casa cujas paredes foram destruídas.

1.2.1 Cena, encenação e captação espontânea das imagens fotográficas

A fotografia suscita a imaginação e, para conseguir isso, foi preciso ter uma dose de indefinição, de abertura para o inusitado em suas imagens. Para além de uma expressão plana e chapada do real, a fotografia pode apresentar-se como uma imagem aberta à interpretação, destinada a estimular a imaginação, pois ela não diz ao que veio, nem por que veio ao mundo. O conteúdo explicativo da fotografia não se encontra nela mesma, ele a extrapola; seu significado transcende a concretude de suas imagens. O simbólico decorre

30 A dimensão técnica e estética das fotografias realizadas foram das mais elementares possíveis. Tratava-se

de uma película com asa 200, colorida. Uma câmera semiprofissional K 1000, com regulagem manual da abertura, velocidade e foco. Foi utilizada uma lente 70/210mm.

dos detalhes por onde se cria um imaginário constitutivo de um sentido, de um significado novamente aberto, inconcluso e provisório.

Assim, a imagem fotográfica é índice (DUBOIS, 2006), indício (MARTINS, 2009) e índice e ícone (ROUILLÉ, 2009) de algo a se completar, por ser aberto e também fragmentado. Na relação entre parte e todo, o visível e o invisível, existe uma brecha iluminada que permite o surgimento de diferentes significados e sentidos decorrentes da capacidade de a fotografia estimular a própria imaginação.

Nas fotografias do despejo da favela JMV, os fotografados não tiveram a chance de se construírem como fotografados. Em sua maioria, com raras exceções, os fotografados não sabiam que estavam sendo fotografados. Daí a relação entre cena e encenação ser muito particular no caso do despejo da favela JMV. Não há encenação, não se combinou uma pose dessa ou daquela maneira com os fotografados. Não se trocou uma palavra com a menina que olhava absorta para o espaço vazio das paredes que faltavam em sua casa, e nos homens que trabalhavam na laje da casa ao lado, buscando, quem sabe, recuperar parte do que foi destruído, pensando em nova reconstrução no futuro.

O despejo da favela JMV representava uma ruptura em relação ao que se vivia no cotidiano da favela, uma situação tensa e um momento de perigo, em termos

benjaminianos, que não permitiu ao fotografado produzir-se, posicionar-se desta ou

daquela forma diante da câmera, porém a forma de testemunhar o despejo buscou um registro particular conforme apresentado por Rouillé (2009, p. 184):

a própria maneira de testemunhar muda. Não mais consiste em reproduzir o visível, mas em tornar visível. Tornar visíveis os sem-fisionomia e sem-imagem, os excluídos tanto da visibilidade do dominante como da vida social e política:

os estrangeiros em seu próprio país. (grifo nosso).

O despejo da favela JMV foi um momento único e agudo na vida dos moradores. Sem ser diretamente uma guerra ou revolução, o despejo esteve revestido de um cenário de guerra, violência e desrespeito aos direitos que, conforme observa Martins (2009, p. 20), não abre espaço para a encenação das fotografias.

É evidente que há apenas situações em que o homem comum não tem condições de maquiar-se ou de maquiar o cenário do seu protagonismo visual. E isso também diz o que somos. São, particularmente, aquelas situações de ruptura da vida cotidiana, de interrupções das condições sociais da encenação, da perda de controle sobre o cenário e os atores. É o caso da guerra e das revoluções, que, na sua dimensão trágica, oferecem ao pesquisador um ângulo de observação

sociológica comparativa em relação aos ângulos costumeiros de calmaria, rotina e repetição, que constituem a cômoda fortaleza da pesquisa convencional. (MARTINS, 2009, p. 20).

Assim, as cenas evitaram a encenação. Elas não eram um simulacro, elas representavam um fragmento do momento de perigo, em uma favela sob estado de tensão. Parte do momento tenso do perigo foi registrado nas imagens fotográficas. O que se buscou nas tomadas, nos ângulos e nas escolhas das cenas registradas não estão isentas de valores e visão de mundo com relação aos contrastes, às contradições. Havia, também, a busca por algumas sequências que demonstram uma espécie de síntese do processo de ação do Estado perante a favela JMV, e as pessoas que procuravam resistir como podiam à eminência da perda de suas moradias na favela JMV.

Embora não se buscasse uma encenação, as imagens fotográficas produzidas não se encontravam nos registros daqueles que transformam o sujeito fotografado em objeto da fotografia. Os registros fotográficos do processo de despejo da favela JMV faziam parte de um trabalho de campo iniciado dias antes ao despejo, e que continuou após o mesmo. Isto implicou que as fotografias produzidas decorreram de um diálogo intenso realizado junto a moradores da favela JMV. No momento do perigo em que se realizavam os registros fotográficos em si, não ocorreu um diálogo31 objetivo com os fotografados –, porém isto não, necessariamente, retirou o caráter de sujeito em um momento de perigo em sua vida, pois como explicitado por Rouillé (2009, p. 184):

o dialogismo sucede o monologismo da fotografia-documento. E o Outro cessa de ser um objeto (uma ‘presa’, no jargão dos paparazzi) para ser um sujeito, um ator, um parceiro; e o fotógrafo sai da solidão e do distanciamento em relação ao mundo aos quais o dispositivo documental o condena.

Assim, as fotos do despejo da favela JMV foram realizadas no decorrer dos acontecimentos, representando um recorte da realidade segundo o olhar de quem as produziu. A imagem fotográfica em geral e a foto como índice em particular possuem dentre outros princípios aquele, que segundo Dubois (2007, p. 74) representa a atestação

31 Houve uma troca de olhares com a menina que observava a movimentação a partir da janela. O olhar do

pesquisador “fotógrafo” buscava através da câmera o olhar da menina. Ela era relutante, sentia-se intimidada e incomodada ao ser observada. Era um jogo de esconde-esconde. O pesquisador com a câmera a postos, ela escondia o rosto, voltava-se para dentro da casa, acabava sumindo da janela. Ela não queria dar-se a ver, ser vista, ela não intencionava dispor da sua imagem ao estranho. É curioso que nenhum entrevistado escolheu a foto da menina à janela, porém vários disseram reconhecê-la. O tempo passou e ela transformou-se em mãe e ainda mora na favela.

do que foi, mas ao mesmo tempo era uma “composição” do real (ROUILLÉ, 2009) que ofereceu o encontro e a exposição da sensibilidade do “fotógrafo” pesquisador.