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3.4 Expérimentations

3.4.2 Résultats comparatifs

3.4.2.2 Qualité de classification

Renata não escolhia as fotos mais relevantes para ela comentar. Para ela, todas as fotos eram importantes e eram, em si, muito parecidas, o que indicava uma repetição dos temas. Após ser estimulada a escolher as fotos que ela achava mais relevantes, Renata, de certa forma, escolheu ao acaso a Fotografia 6, como aquela mais representativa do processo de despejo da favela em 1999.

Quadro 6- Fotografia 6, escolhida por Renata, com seu respectivo comentário

O que te chamou atenção nessa foto?

Foi o rio, assim essa beira do rio que até hoje não teve mais jeito e uma coisa muito difícil... sei lá... é uma coisa muito feia, muito chata, dói no coração das pessoas, isso é uma coisa que não devia ter acontecido. Isso é quase passado, e agora viver o presente (risos). (Renata)

Como é o teu presente?

O presente hoje está bem melhor, as pessoas se... uns nem tanto, mas para mim tudo o que a gente passou, acho que cada um assumiu o seu trabalho, assumiu a sua vida. Para mim o presente é esse viver a vida, e andar para frente. (Renata)

Você acha que agora está mais...

Está mais bem, está melhor, cem por cento bem melhor. (Renata) Em que aspecto isso?

Olha é tipo assim: eu acho que até porque ficou tranquilo, não teve esse negócio aí. Hoje pode dormir, pode sim. Cada um dorme em sua casa, constrói o seu barraquinho, pode fazer as suas coisinhas, mesmo que a gente não tenha aquela segurança como diz, mas em vista do que a gente passou, hoje está bem melhor. As pessoa pode construir seu barraquinho, sua casinha fazer do jeito que quiser. (Renata)

Acalmou, eu acredito que sim. Aqueles que quiseram sair daqui tudo... eu pretendo um dia sair daqui, mas não porque está tão ruim, não. Aqueles que foram embora hoje... cada um precisa ter um cantinho melhor. Precisa ter um lugarzinho para seus filhos, seus netos. Mas, em vista do que já passamos aquele sufoco, tá bem melhor as coisas. (Renata)

Hoje a gente pode chegar e deitar tranquilo. Eu acho. Eu não dormia, aí meu Deus do céu, será que eu vou ser botada para fora daqui. Será que vou ser despejada? Aquele negócio, como se fosse aluguel você paga hoje e amanha tá na rua, se não pagar direitinho. (Renata)

De certa forma, Renata buscava evitar o passado, pois o passado era muito sofrido. O passado “dói”, e as lembranças não eram boas. Como o presente estava bom, era melhor ficar focada no presente, falar do presente, deixar um pouco o passado de lado. Quando ela comentou a Fotografia 6, escolhida por ela, após relutar, ficou evidente a fisionomia do passado que causava dor. Diante dessa “dor”, o melhor caminho era não ver, não lembrar e não falar, ou, na melhor das circunstâncias, falar pouco ou brevemente sobre ele. Era mais apropriado falar do presente que considerava melhor, mais tranquilo, podendo dormir mais

sossegada, mesmo com o que se observou, durante o trabalho de campo, do comércio intenso de drogas a alguns metros de sua casa.

Havia uma negação do passado, algo que precisava ser esquecido devido à “dor” que ele causava. As lembranças do passado só serviam para mostrar como o presente estava melhor, como a tensão do passado foi substituída por um certo equilíbrio na família e na sua própria casa. Renata observava o processo de despejo ocorrido, em 1999, da seguinte forma: “Isso é quase passado, e agora é viver o presente (risos)”. Esse “quase passado” era assim considerado porque o perigo ainda estava presente; em 2011, porém, ele possuía uma outra roupagem. Esse “quase passado”, ao referir-se ao processo de despejo da favela, em 1999, pode indicar pelo menos duas coias: a primeira relacionava-se com a questão da insegurança decorrente da ausência da propriedade do terreno e da casa onde morava, pois a instabilidade em relação à moradia na favela era como casa de aluguel: a qualquer momento poderia ser despejada; a segunda decorria do fato de o medo da perda da moradia, em 1999, ter sido substituído pelo convívio cotidiano com a pressão exercida pelos narcotraficantes que se instalaram nas proximidades de sua casa.

Daí, então, a dificuldade de Renata escolher uma foto. Parecia-lhe que o tema do despejo deveria estar onde foi colocado, ou seja, no próprio campo do esquecimento, em algum lugar obscuro da memória, cujo caminho se perdeu com o tempo. Ao deparar-se com o passado, Renata preferiu, ao que tudo indicava, ancorar-se em um presente que se apresentava melhor, e, por isso, precisava ser vivido sem olhar para os momentos de tensão, sofrimento e incertezas.

Ao lembrar do processo de despejo da favela, Olívia deu-se conta de que essa história estava esquecida em sua memória; ela fazia parte do passado e estava guardada em algum lugar de pouco acesso. Ao ser estimulada a falar sobre isso, Olívia percebeu que ele representou um acontecimento decisivo na vida de sua família, porém não fazia parte das suas lembranças. Ao perceber o seu esquecimento, Olívia conversou com sua mãe e começou a lembrar os fatos e o contexto da época.

Mas, eu acho até... eu comentei com a minha mãe, que é um negócio tão louco... foi um período tão, é... tão decisivo e tão complicado na vida de algumas pessoas, e isso até você começar a falar comigo era uma coisa que... é... como se tivesse esquecido, sabe assim é... não esquecido... eu começo a falar com você isso vai retomando... mas é uma coisa que tava ali guardadinho sem... Eu acho que eu não me lembro assim, nos últimos anos quando que eu parei para pensar em toda essa história que aconteceu na época e quanto foi decisivo na nossa vida. Porque aconteceu mas estava lá em baixo do baú fechadinho, e até para minha

mãe, ela falou: sério isso? Eu falei sério, eu vi fotos e tudo o mais dá época. (Olívia)

Isso fica adormecido assim. Que nem eu te falei, achei até engraçado... você começou a me perguntar, e aí quando você... nessa conversa e toda essa coisa, você me ligou e olha... Você começa a conversar e aí um fala uma coisa: oh você lembra que aconteceu isso, lembra daquilo e tal. Mas, era uma coisa que estava lá, estava adormecida não é um assunto recorrente, de falar assim olha: eu hoje eu tenho a minha casa porque aconteceu isso, isso e isso. Dentro da minha história. (Olívia).

O momento decisivo na história de vida de Olívia foi lançado ao esquecimento, muito provavelmente, em decorrência das próprias experiências que ela vivenciou no espaço da favela: a presença persecutória da violência, mesmo que naturalizada como algo normal; a discriminação dos amigos de escola e, por que não, a discriminação reproduzida por sua mãe ao impedir que ela brincasse com determinadas crianças; a dificuldade de organização coletiva e a fragilidade da liderança na defesa de seus interesses particulares com o negócio das drogas; os momentos de tensão onde pouco se dormia e se comia; a ausência de informações mais precisas sobre o destino das famílias a serem despejadas. Em síntese, o período de tensão, de perigo e de grande instabilidade no equilíbrio das práticas e representações sociais na favela JMV contribuíram para que os acontecimentos, o despejo de 1999, fossem levados ao esquecimento, uma vez que representavam um choque no curso da sua vida, o qual não se deveria ser falado ou mesmo lembrado. As tensões entre memória e esquecimento evidenciaram-se com mais força quando Olívia escolheu a Fotografia 7.

Quadro 7- Fotografia 7, escolhida por Olívia, e o seu respectivo comentário

Essa daqui é por conta dessa visão de destruição mesmo. De coisa louca de ver, não sei... É porque... é... como eu te falei, a coisa de estar tão perto e tão longe. Isso por exemplo, onde eu morava não aconteceu, e ao mesmo tempo é... não saber o que aconteceu dessas pessoas que tinham aqui, que moravam aqui. E é o que eu te falei tá muito perto e ao mesmo tempo muito longe. Eu não cheguei a passar exatamente por isso aqui. (Olívia).

Sobre a Fotografia 7, Olívia, ao comentar a imagem da destruição, mesmo com certa hesitação, confere estranheza de estar “tão perto e tão longe”, pois a destruição não atingiu sua casa. Em suas palavras esta imagem é “(...) coisa louca de ver”.

A questão do “tão perto e do tão longe” apresenta a possibilidade de uma reflexão a respeito do papel da temporalidade na fotografia. A estranheza estava relacionada com o fato de a fotografia causar uma tensão em relação às lembranças de Olívia. Assim, para quem olhava, existia a possibilidade de perceber-se e refletir sobre a proximidade e o afastamento. Como é possível estar próximo e ao mesmo tempo distante? Olívia não lembrava direito dos acontecimentos de 1999 e da própria destruição, uma vez que a parte de cima da favela onde ela morava não chegou a ser destruída.

A história do despejo, em 1999, levou Olívia a refletir sobre o antes e o agora, bem como a relação entre ambos, pois a história do despejo não estava mais localizada no campo do esquecimento. O processo de entrevista – desde o convite a Olívia, até à efetivação – e as fotografias apresentadas significaram, em termos benjaminianos, um lampejo na vida de Olívia, com a capacidade de promover uma ressignificação tanto do passado quanto do presente.

O esquecimento também era recorrente ao longo da entrevista com Maria, irmã de Olívia. Ela não lembrava muita coisa do processo de despejo, ela não conseguia se identificar, se reconhecer no lugar onde morou. Ao olhar as fotos, era como se ela não tivesse morado na favela. O esquecimento podia vir a ser uma espécie de negação de uma determinada condição de vida, ou mesmo de uma experiência de vida pouco agradável. A respeito do esquecimento, Maria reflete: “o tempo passa rápido [...] e aí a memória da gente vai perdendo mesmo”. O não lembrar ficou mais expressivo quando Maria olhou para as fotografias do despejo de 1999, escolheu e comentou as Fotografias 8 e 9.

Quadro 8- Fotografia 8, escolhida por Maria, e seu respectivo comentário.

(...) eu não lembro, juro por Deus que eu não lembro dessa parte que algumas casas foram, começaram a ser... [novamente não completa o raciocínio e continuou olhando as fotos em silêncio, mais um longo silêncio] Esse aqui é o Vicente Candido, que era esse que era vizinho da minha avó, ele era Vereador na época, que a família dele ainda mora, são vizinhos da minha avó. Na verdade a minha avó faleceu o ano passado, mas a família deles continuavam vizinhos da minha avó e ela pediu na época se eles não podiam fazer alguma coisa. (Maria)

Tem, ele... a minha avó estava no Macedônia desde que vieram para cá, para São Paulo, e eles também tão lá, são umas das primeiras pessoas e aí ele era uma pessoa que sempre aparecia, pedia o meu voto e tal, e ele dizia que se precisasse de alguma coisa e tivesse no alcance dele. Minha avó chegou a falar com ele, com algum assessor, alguma coisa dele também que ainda mora no Macedônia, então... [novamente cortou o raciocínio e continuou olhando as fotos em silêncio.] O que mais me impressionou é eu não lembrar disso aqui. (Maria)

Quadro 9- Fotografia 9, escolhida por Maria, com seu respectivo comentário

Realmente aqui eu não lembro, eu não lembro. (Maria) Quando você olha pra essa foto, o que você acha?

Então de eu não consegui me ver aqui, de não parecer que eu tava aqui naquela época. [um longo silêncio.] (...) Acho que é aquela coisa de olhar e não ter uma lembrança, não me ver aqui entendeu? Não ter nada... porque assim, é o mesmo lugar, mas não ter nenhuma lembrança de não me ver aqui. (Maria)

O que foi mais marcante na narrativa de Maria ao ver as fotos, e nos demais momentos da entrevista, foi o fato de ela não se ver morando na favela em 1999, como se ela não tivesse sido parte integrante da favela. Há uma ausência de lembrança: ela olha e não lembra, como se o ocorrido não houvesse existido. Nessa sequência das Fotografias 8 e 9 escolhidas por Maria, o esquecimento pode ser uma das explicações dos silêncios em sua narrativa.

5.4 O Silêncio

Foram recorrentes os momentos em que o olhar dos entrevistados, em 2011/12, para as fotografias do despejo, gerou um silêncio. Quais seriam os motivos de as fotos do despejo provocarem um silêncio? Ao vê-las, Juliana relembra dos efeitos do processo de despejo na vida dos moradores da favela JMV, e sua narrativa foi entremeada por prolongados silêncios:

É a esquina... [silêncio enquanto continua olhando as fotos] Muita gente saiu vuado. Quem conseguiu... muita gente foi morar com parentes, outras pessoas voltaram para sua cidade de origem. [mais silêncio, enquanto ela folheava as

fotos] Ainda tenho aquele bendito papel guardado de lembrança. [mais silêncio...] (Juliana).

A primeira reação de Renata, ao ver as fotos, foi o silêncio. Com o passar do tempo, ela começou a identificar algumas pessoas, as casas e as vielas. Ela percebeu que o presente estava bem melhor, mas a promessa de canalizar o córrego ainda não fora cumprida. O córrego passava um pouco abaixo em relação à sua casa. Ela lembrou das pessoas unidas para proteger a sua moradia e, se não desse jeito, teria que ir para o Campo de Futebol.

[silêncio enquanto ela olhava as fotos] Aqui mesmo, olha a vielinha aqui ó. Agora está bem melhor (risos). Aqui ó... nossa. Olha aqui essa turminha aqui, foi da época a gente vai correr atrás, era complicado aqui viu. Aqui o rio, você vê, esse daqui ó passa aí em baixo. Hoje ainda passa. Eles falaram que ia canalizar. Os meninos. Aqui já é o campo lá de baixo. Aqui as pessoas iam morar aí, na cabana. Aqui já é perto do campo de novo. É o pessoal estava se unindo nessa época para, caso acontecesse alguma coisa, o pessoal tinha que fazer alguma coisa para morar no campo, fazer sei lá, que é complicado você ficar sem moradia assim. (Renata).

O silêncio se fez presente enquanto Lúcia e Ademir olhavam as imagens fotográficas do despejo. Ela destacou o “S” vermelho colocado nas casas. Ao ver a foto de uma casa por onde o esgoto passava por baixo, ela reforçou o cheiro forte exalado e refletiu como as pessoas conseguiam conviver cotidianamente com ele.

O que significava esse S? (Lúcia)

Até hoje eu nunca fiquei sabendo. Casa por casa tudo marcado. (Lúcia) Uma coisa meio macabro, assim meio... (Ademir)

Eu não lembrava desse S não Lúcia. (Ademir)

Tudo marcado as casa. Era assim mesmo. [mais silêncio] Era assim mesmo. [silêncio ao observar as fotos] Ainda é assim, viu? Tem parte que ainda é assim. Isso é um cheiro gente, isso é um cheiro ali dentro. (Lúcia)

Isso é um cheiro... muito triste lá dentro. Continua do mesmo jeito ainda meu Deus. Isso aqui é tudo esgoto ó, [apontando para a foto], tudo esgoto, que a turma faz. [mais silêncio] Se eu não me engano essa aqui é a primeira vielinha ali. (Lúcia)

Era o silêncio que dominava na narrativa de Maria. Ela questionou se as fotos eram recentes, o que poderia indicar um esquecimento e um estranhamento com relação ao espaço da favela e do próprio processo de despejo em 1999.

[Maria continua olhando as fotos em silêncio] Eu não consigo lembrar, chegaram a derrubar algumas coisas? Então olha uma coisa que eu não lembro. [mais silêncio] Aqui é lá no campo de futebol. [mais silêncio] Aqui eu lembro porque é na rua. [mais silêncio enquanto folheia as fotos] (Maria).

Ao comentar a Fotografia 3, por ela escolhida, por ser na sua avaliação uma foto importante e expressiva, Maria continuava a deparar-se com o silêncio.

Quadro 10- Fotografia 3, escolhida por Maria, com seu respectivo comentário

[mais silêncio, um longo silêncio enquanto olha as fotografias] Então a parte que eu falei que eu não tinha contato é essa aqui ó, [apontando para a foto em que aparecem as casas mais para o fundo da favela]. [mais silêncio] (Maria)

Você não tinha muito contato com essa parte?

É, que nem eu falei para você que aí depois já de algum tempo que eu já estava morando aqui que eu fui lá para... [não completou o raciocínio, mais silêncio, longo silêncio, só dá para ouvir as fotos sendo viradas] Aqui é... aqui é a onde? (Maria)

Maria perguntou onde era o lugar diferente que aparecia nas fotos. Tratava-se da sede da Prefeitura no Palácio da Indústria no cento da cidade. Para além do processo de despejo da favela, as fotografias do Palácio das Indústrias, em 1999, suscitavam dúvida, estranheza e, via de regra, implicavam a interrupção do silêncio, pois representavam uma linguagem diferente e rompiam a sequência de fotos que remetiam à dor e ao sofrimento do despejo.

Ao ver a Fotografia 10, do grupo de moradores na frente do Palácio da Indústria, Vera, por sua vez, pensou que se tratava de uma igreja. O palácio estava bem no centro da foto, com os moradores aglomerados do lado de fora da grade.

Quadro 11- Fotografia 10, escolhida por Vera.

É possível supor que, em decorrência do fato de Vera ter apresentado, em sua narrativa, uma crença em Deus, e ter passado por várias religiões diferentes, ela percebeu o Palácio como um templo religioso. Sua torre dava indícios de uma igreja, os arcos presentes na entrada também. O ângulo da foto apresentava mais importância para a estrutura arquitetônica da obra, do que aos moradores que se dirigiram à sede da prefeitura para tentar falar com o Prefeito Celso Pitta, em 1999. A suntuosidade do prédio era uma expressão do poder. O destaque dado ao prédio na fotografia oferecia a ele uma dimensão do poder em relação àqueles que estavam no pé da edificação em busca de um contato com os representantes do poder.

A singularidade das fotografias que retrataram o Palácio da Indústria e seu entorno ocorreu pelo fato de representar uma ruptura em relação ao ciclo homogêneo das fotos do despejo da favela JMV, bem como por representar um espaço, cujas imagens não

correspondiam ao universo no qual os entrevistados da favela JMV estavam habituados. Assim, ao deparar-se com essas imagens os entrevistados, em geral, rompiam o silêncio que acompanhava seu olhar para as fotografias do despejo.

As imagens fotográficas do despejo remetiam, portanto, às lembranças de momentos tensos, onde o perigo da perda da moradia rondava, ameaçadoramente, a vida dos moradores. Reencontrar-se com as imagens daquele momento de perigo e tensão podia gerar um silêncio decorrente do choque87 que as imagens poderiam provocar.

Assim, o que se observou de recorrente, para além do medo e do sofrimento, na reação dos entrevistados, diante das imagens expostas, nas fotografias do despejo, foi um grande silêncio. Esse silêncio era revelador: ele indicava uma indignação, certo estado de consternação com o que se via nas imagens fotográficas. Em outras palavras, as fotos que os remetiam ao sofrimento vivido, também nos remetiam ao silêncio88. Esse silêncio tinha muito a dizer, pois era o passado gritando aos olhos e aos ouvidos daqueles que observavam as fotos e lembravam-se do que viveram, do momento tenso do perigo de perder a sua moradia e não ter para onde ir com crianças pequenas, sem parentes para recorrer, e sem o devido acolhimento por parte do Estado.

Diante da rememoração da dor e do sofrimento evocado pelas imagens fotográficas, aqueles que não se recusaram a olhar depararam-se com o silêncio, o qual pode ser um indício do choque em relação ao esquecido que emergira, que ressurgira com a potencialidade de ressignificação do passado e do presente.

Se, como indicado por Sontag (2003, p. 70), “Assim como a pessoa pode habituar- se ao horror na vida real, pode-se habituar-se ao horror das imagens”, as imagens fotográficas do despejo da favela JMV, realizadas em 1999, tiveram, ao que tudo indicou, a capacidade de tirar os entrevistados da sua rotina cotidiana e provocaram um choque que incomodou aqueles que olharam as fotografias e viram-se remetidos a um passado que se havia esquecido. Esse momento tenso, intenso e repleto de significados promoveu, em

87 Ao refletir sobre a potencialidade do choque que a imagem fotográfica pode proporcionar, Sontag (2003, p.

69 e 70) indica que: “Para apresentar uma denúncia e talvez modificar o comportamento, os fotógrafos precisam chocar”. Porém, a imagem fotográfica pode perder a sua capacidade de chocar quando a imagem fotográfica passa a fazer parte do cotidiano, e as pessoas se habituam a elas, como é o caso das imagens chocantes dos efeitos devastadores do fumo à saúde, inscritas nas carteiras de cigarro.

88 Tendo como base o retorno dos sobreviventes do campo de concentração às suas cidades, Pollak (1989, p.

6) observa que: “Em face dessa lembrança traumatizante, o silêncio parece se impor a todos aqueles que querem evitar culpar as vítimas. E algumas vítimas, que compartilham essa mesma lembrança ‘comprometedora’, preferem, elas também, guardar silêncio”.