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Utilisation de surfaces à faible adhésion : Ingénierie de l’adhérence

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Chapitre 1 : Procédés de transfert de films

2. Méthodes de transfert direct

2.4. Utilisation de surfaces à faible adhésion : Ingénierie de l’adhérence

Dentre a fortuna crítica de Clarice Lispector, alguns autores já trabalharam, mesmo que minimamente, com a aproximação entre as narrativas da escritora e outras artes, como a pintura, a música, o desenho e a escultura. Merecem destaque: Regina Pontieri127, Carlos Mendes de Sousa128, Solange Ribeiro de Oliveira129, Lúcia Peixoto Cherem130 e Ivan Hegenberg131.

Regina Pontieri, em Clarice Lispector: uma poética do olhar, desenvolve dois pontos que contribuem para essa reflexão. O primeiro é que, no romance A cidade sitiada, haveria "o predomínio da técnica descritiva, integrada a um tecido imagético de apelo fortemente visual"132; assim, esse romance teria certas aproximações com a pintura – nas palavras de Pontieri: haveria uma lógica do "ver como pintar"133. O outro é a definição de Joana, de Perto

do coração selvagem, como uma "artista em formação"134:

Por seu poder de imaginação criadora, Joana garante a superioridade entre as colegas de escola (...). Nesse sentido, Perto do coração selvagem conta não só a errância de uma mulher ao longo de vários estágios da vida, mas também um aprendizado de escritura. E esse fato justifica considerá-lo como romance de formação, tanto quanto Um retrato do artista quando jovem de onde procede o título de Clarice.135

127 PONTIERI, Regina. Clarice Lispector: uma poética do olhar. Cotia, São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. 128 SOUSA, Carlos Mendes de. Clarice Lispector: Figuras da escrita. Minho, Portugal: Universidade do Minho, 2001.

______________________. Clarice Lispector: Pinturas. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.

129 OLIVEIRA, Solange Ribeiro de. Literatura e artes plásticas: O Künstlerroman na ficção contemporânea. Ouro Preto, Minas Gerais: Editora na UFOP, 1993.

_____________________________. "Literatura e pintura abstrata: Água viva de Clarice Lispector". Aletria, Belo Horizonte, v. 27, n. 2, p. 261-276.

130 CHEREM, Lúcia Peixoto. As duas Clarices – entre a Europa e a América: leitura e tradução de Clarice

Lispector na França e no Quebec. Curitiba, Paraná: Editora UFPR, 2013.

131 HEGENBERG, Ivan. Clarice Lispector e as fronteiras da linguagem: uma leitura interdisciplinar do

romance Água viva. São Paulo: Benjamin Editorial, 2018.

132 PONTIERI, 2001, p. 26. 133 Ibidem, p. 185.

134 Ibidem, p. 169. 135 Ibidem, p. 105.

Carlos Mendes de Sousa, por sua vez, possui dois livros que tratam dessa aproximação: em Clarice Lispector: figuras da escrita, o autor dedica todo um capítulo para analisar o papel do desenho, da pintura e da escultura nas obras clariceanas. Apesar de desenvolver mais profundamente uma análise sobre a pintura em Água viva, o autor também aponta, mesmo que de forma concisa, a questão da escultura em A paixão segundo G.H., afirmando que, nesse romance, a arte apontada não seria um tema principal do romance, mas constituiria apenas "uma primeira abertura à tematização da reflexão sobre a arte"136, no conjunto de obras da autora. Sousa ainda desenvolveu outro livro sobre a relação da autora com outras artes, averiguando as pinturas da própria Clarice, refletindo sobre elas, sobre a vida da autora e sobre algumas de suas obras literárias conjuntamente. Sobre as pinturas de Clarice, há, também, o livro de Ricardo Ianacce, Retratos em Clarice Lispector137, que

trabalha uma interpretação das obras pintadas por Clarice em conjunto com sua escrita. Em Literatura e Artes Plásticas: o Künstlerroman na ficção contemporânea, Solange Ribeiro de Oliveira desenvolve a teoria do Künstlerroman no romance A paixão segundo

G.H.. Ainda que a autora não tenha buscado o trabalho de Herbert Marcuse para definir o Künstlerroman, mostra-se imprescindível averiguar como ela tece essa aproximação. A

mesma autora também escreveu o artigo "Literatura e pintura abstrata: Água viva de Clarice Lispector", no qual reforça o caráter abstrato desse romance, retomando a crítica artística sobre o abstracionismo e comparando essa escrita principalmente com obras de Wassily Kandinsky.

Verificando os estudos de Heléne Cixous e Claire Varin, Lúcia Peixoto Cherem, em

As duas Clarices – entre a Europa e a América: leitura e tradução da obra de Clarice Lispector na França e no Quebec, resume a aproximação feita por essas autoras entre o

romance Água Viva e a pintura. Além disso, Cherem separa um capítulo específico de seu livro para aproximar a música do romance A hora da estrela, também retomando os estudos de Claire Varin.

O estudo mais recente aqui apontado é de Ivan Hegenberg. Resultado de sua dissertação de Mestrado, seu livro Clarice Lispector e as fronteiras da linguagem: uma

leitura interdisciplinar do romance Água viva busca analisar o romance Água viva também

comparando a linguagem literária com a pictórica. Ainda, o autor traz para sua análise as expressões artísticas dos anos 1970, revelando, assim, a "crise da pintura", crescente na

136 SOUSA, 2000, p. 284.

137 IANNACE, Ricardo. Retratos em Clarice Lispector: literatura, pintura e fotografia. Belo Horizonte, Minas Gerais: Editora UFMG, 2009.

época, como sendo, talvez, a própria voz do romance – ou seja, como sendo a voz da protagonista, pintora não nomeada.

Além desses livros, há outros textos que tentam aproximar as obras de Clarice com as artes visuais. Por exemplo, em "A escrita pictórica em A cidade sitiada, de Clarice Lispector", Rejane Granato Santos e Enilce Albergaria Rocha destacam a predominância do elemento descritivo nesta obra de Clarice, tendo como base, principalmente, o livro já referido de Regina Pontieri, e comparando esse elemento em A cidade sitiada com algumas obras das vanguardas européias do início século XX.138

Amaury Jorge Lins Leal, em "Clarice Lispector, Jackson Pollock e a técnica de composição do expressionismo abstrato", aproxima, com base na técnica do expressionismo abstrato e do action-painting, as obras Água viva, de Clarice Lispector, e o quadro Ritmo de

Outono, de Jackson Pollock, focando no desejo de captura do "instante-já" que a protagonista

clariceana apresenta e o tema do instante do ato criador de Pollock.139

Já Flávia Lins e Silva também estuda a obra Água viva, mas com foco tanto no papel da pintura quanto da música e da fotografia no romance. Em seu artigo "‘O figurativo do inominável': aspectos da criação textual em Água viva, de Clarice Lispector", ela apresenta sua ideia de que essa obra de Clarice seria como uma espécie de "livro de ateliê", no qual a protagonista-pintora parece buscar nessas três artes certa complementaridade para a escrita.140 Em resumo, de acordo com sua interpretação:

Da fotografia, a narradora toma de empréstimo a captação do instante, o fluxo gerado pela imediatez e espontaneidade das palavras; da música, o ritmo, a vibração, a imanência obtidos pela escrita que foge da explicitação de um fato ou história, tornando-se autônoma, e a improvisação, que torna mais importante o gesto produtor do que o produto; da pintura da modernidade, mais uma vez a autonomia em relação a referências externas e a captação do instante através do gesto criador que se incorpora à obra.141

Por fim, um artigo recente de Mariângela Alonso, intitulado "Deformações da interioridade: marcas expressionistas em O lustre, de Clarice Lispector"142, explora como a

138 SANTOS, Rejane Granato; ROCHA, Enilce Albergaria. "A escrita pictórica em A cidade sitiada, de Clarice Lispector". Ipotesi, Juiz de Fora, v. 9, n. 1, n. 2, p. 155-166, jan/jun, jul/dez 2005.

139 LEAL, Amaury Jorge Lins. "Clarice Lispector, Jackson Pollock e a técnica de composição do expressionismo abstrato". Cerrados, Brasília, n. 7, p. 53-61, 1998.

140 SILVA, Flávia Lins e. "'O figurativo do inominável': aspectos da criação textual em Água viva, de Clarice Lispector". Em tese, Belo Horizonte, v. 8, p. 101-110, dez. 2004.

141 Ibidem, p. 106.

142 ALONSO, Mariângela. "Deformações da interioridade: marcas expressionistas em O lustre, de Clarice Lispector". Opiniães, São Paulo, n. 15, p. 213-235, 2019.

estética expressionista pode ser notada nesse romance clariceano. Diz ela, ao se analisar trechos de O lustre junto do Expressionismo: "na narrativa em tela observamos semelhanças quanto ao modo de composição expressionista, sobretudo no que diz respeito à ausência de figuração concreta da personagem Virgínia, à fragmentação de seu discurso pelo fluxo de consciência e às deformações de paisagens e pessoas representadas. (...) a motivação principal dos procedimentos expressionistas parece residir em O lustre na manutenção de certa visão grotesca e angustiada da protagonista, visto que corroboram o mal estar diante do mundo."143

Dessa maneira, nota-se brevemente como a crítica já tentou ler as obras de Clarice Lispector comparando-as com outras artes. Nota-se, também, a predominância dessa leitura comparativa sobre o romance Água viva, principalmente no que concerne a sua aproximação com a pintura. Com a ajuda desses trabalhos, pretende-se ampliar, aqui, essa área de estudo sobre os escritos clariceanos a partir do tema da escultura, com foco na análise de A paixão

segundo G.H. – o primeiro dos romances da autora que apresenta, de fato, uma personagem

artista, e o único a mostrar uma escultora.

3. A ESCULTURA NA FICÇÃO CLARICEANA:

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