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Utilisation du raisonnement narratif pour la recon- recon-naissance du contexterecon-naissance du contexte

Mise en œuvre et validations expérimentales

6.5 Utilisation du raisonnement narratif pour la recon- recon-naissance du contexterecon-naissance du contexte

O Partido Socialista é inicialmente bem visto, por dizerem pretender o socialismo, e por uma indisfarçável admiração por Mário Soares. Há uma entrevista ao líder do PS, representante de um partido aos olhos do Libération muito capaz de responder aos anseios da Revolução socialista portuguesa – por isso lhe dão espaço para se expressar no jornal176. Com o começo do que chamam a “chantagem” de Mário Soares, não deixam de admirar a sua capacidade política : “Soares chegou a Portugal, vindo de Paris com a sua escova de dentes, sem um militante – é agora um enorme aparelho. E tranquilamente com um golpe de chantagem, reuniões e manifestações apresenta-se como o defensor das liberdades e dos anti-autoritarismos, ele pilha colocações”177. Com o avançar do processo revolucionário acreditam cada vez mais que o objectivo dos ditos socialistas é, afinal, a comum e desinteressante social-democracia que domina a Europa Ocidental. O PS representa a tradição liberal europeia. Deixou escapar a sua oportunidade, os próprios partidos socialistas

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Novamente, este termo não é empregue com nenhum juízo de valor associado, somente pelo menor número de apoiantes para caracterizar a esquerda não-comunista, sem a repetição constante dos mesmos termos. 174 Ibidem, 06 e 07/05/1974; 06/03/1975; 28/01/1975. 175 L’Humanité Dimanche, 08 a 14/05/1974. 176 Libération, 11 e 12/05/1974. 177 Ibidem, 23/05/1975.

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europeus desistiram de um socialismo em liberdade em Portugal, preferindo entrar pelo anti-comunismo desenfreado.

O Partido Comunista português é considerado, dado comum a todos os partidos comunistas referidos, revisionista, burocrático, manipulador e autoritário, especialmente no caso da Intersindical; o anti-comunismo que se vai gerando é visto como consequência dos comportamentos monopolistas de Cunhal e seus seguidores. A própria figura, embora respeitada pela sua luta, é considerada como limitada na sua ideologia. O cenário chileno a que chamam tanta atenção como possível perigo não parece fazer sentido para os esquerdistas: para tal eram necessárias umas Forças Armadas maioritariamente reaccionárias; a união que os comunistas querem fazer, a todo o preço, é, portanto, desnecessária, havendo um relativo espaço de segurança contra o fascismo. “A polémica entre o PC, isto é, uma concepção do socialismo com um Estado forte, uma planificação de alto a baixo, Conselhos de Defesa da Revolução correia de transmissão do Partido considerado como encarnando o proletariado, o PC – e os partidários de um socialismo libertário, repousando sobre mini-poderes populares em relação de poder dialéctico com o Estado central, e considerando o pluralismo como um mal menor por comparação com o partido e o sindicato único. O Estado, as classes médias e o campesinato são as três componentes essenciais dessa matéria gemente que é a história comum das derrotas da esquerda, e antes de sucumbir à armadilha clássica – comunismo/ anti-comunismo – seria melhor interrogarmo-nos sobre essas equações”178.

O Partido Popular Democrático e sua figura de proa, Sá Carneiro, bem como o Centro Democrático Social e o seu líder Freitas do Amaral, mal são referidos179. Como centro-direita, representarão o reaccionarismo a nível do poder partidário, tal como para os comunistas ortodoxos. Não deixando de ser apresentados como agentes políticos são-no sem foco ou pormenor, tidos em conta como cada vez mais perigosos, mas de uma perspectiva exterior. A direita portuguesa é centrista, visto que os monopólios rurais e industriais querem agora a modernização capitalista e a adesão à CEE. Há, portanto, pouco material para analisar no que à direita diz respeito; temos, sobretudo, silêncio, não deixando espaço a que as suas ideias

178 Ibidem, 25/08/1975. 179

Referências ao CDS estão principalmente concentradas no artigo de dia 20/10/1975, reproduzidos em Anexo, no qual se fala na velha direita, no desprezo pelos seus apoiantes, tendo como salvador Galvão de Melo, o partido do contra.

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consideradas fascistas, encapotadas de moderação, sejam exploradas – tenta-se evitar propaganda nociva.

Os esquerdistas, enquanto pequenos focos de poder partidário, são acusados de dispersão, fraqueza, reduzida implantação e de não saberem responder à altura do poder popular e militar da esquerda a que corresponderiam. Se por vezes há simpatias quanto a determinados partidos esquerdistas não há um apoio constante a nenhum, como no caso dos comunistas ortodoxos e dos socialistas da ala direita francesa, cada um ao lado do seu partido homólogo. Podemos, portanto, dizer que a nível partidário, o jornalismo da esquerda radical desconsidera os seus contributos para o processo revolucionário, podendo, pelo contrário, conduzir à desgraça do mesmo. Importa, então, sublinhar o que dizem: o esquerdismo está por criar. A extrema-esquerda deve, não só alterar profundamente a sociedade, como reconstruir um “Partido Comunista perdido”. As contradições da esquerda tornam-se-lhe obstáculos no caminho180

. É desejável que a extrema-esquerda se consiga desenvolver em separado do PCP, isto é, de outra maneira.

A nova esquerda não tem poder: o MRPP é estudantil e desorganizado181. Numa desavença entre MRPP e soldados que aquele suspeita serem fascistas, o COPCON é obrigado a prender membros do MRPP, acto visto como de censura; a UDP e o PRP-BR representam alguma esquerda leninista, com alguma mobilização popular 182 , procurando construir os seus sovietes, mas sem extraordinária implantação. No caso português, ao aliar-se aos militares, a extrema-esquerda portuguesa torna-se autoritária e agressiva. Questões que são colocadas: não serão os portugueses ainda muito manipuláveis? A institucionalização das Comissões de Trabalhadores, tornando-os uma espécie de sovietes, não retirará o carácter popular às mesmas? E os partidos não tomarão conta dessa institucionalização? Não será isso que o COPCON tem evitado que aconteça?183.

Na área militar, a consideração é progressiva. Não podendo avaliar as Forças Armadas como um todo, olham para o seu sector representativo. Se o Movimento das Forças Armadas é inicialmente visto com desconfiança, progride para a benevolência, depois para a adoração – motor essencial da Revolução –, só caindo com as divisões do Documento dos Nove e com o fatal 25 de Novembro. Inspirado pelos movimentos 180 Ibidem, 07/08/1975. 181 Ibidem, 03/05/1974. 182 Ibidem, 28/07/1975. 183 Ibidem, 12-14/07/1975.

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de libertação africanos, o MFA, não fora as suas divisões, teria o inteiro apoio do

Libération. Um oficial das FA é aqui o porta-voz da ideia de que sem os movimentos

de libertação, os militares portugueses não se teriam consciencializado politicamente; é a eles que se deve, em parte, a Revolução. A politização estudantil a partir de ‘68 ajuda a fazer nascer o MFA, ao serem enviados os elementos da luta universitária mais subversivos para a guerra. Com a grande entrevista concedida a oficiais do MFA, começa a dar-se primazia ao Movimento como representante político, mais até que aos partidos; além da sua origem e objectivos, a diversidade de opiniões que os caracteriza não impede a unicidade em torno do povo que pode ser crucial na marcha rumo ao socialismo, parece defender o Libération. Serge July entrevista o Almirante “Vermelho” Rosa Coutinho, concedendo-lhe a oportunidade de dar uma opinião diferente. Ele apela à criação de um “socialismo sem gravata” e de um MFA civil – unanimidade algures entre o PC e o PS184. Rosa Coutinho pensa ser tempo do MFA entregar o poder às forças civis, visto o fim da Guerra Colonial ter levado o seu papel crucial. Isto se o dito MFA quiser tentar o socialismo latino-mediterrânico a que se propôs, antes que o capitalismo consiga derrubar qualquer tentativa pró-socialista185. Os esquerdistas franceses reflectem sobre as suas palavras.

O MFA explica querer um socialismo pluripartidário, a que se segue o dito acordo entre partidos e MFA, tendo por contra-ponto o apelo do dito organismo militar ao voto em branco. O Movimento vê a sua autoridade posta em causa ao aproximar-se excessivamente do PC. O MFA deve, do ponto de vista do Libération, ser institucionalizado para diminuir o peso dos jogos partidários. Foi ele que dirigiu o processo revolucionário e permitiu o desenvolvimento do poder popular. Com as eleições para a Assembleia Constituinte, mantém-se a aliança com a pequena burguesia e dá-se poder para o PS e o PPD explorarem o descontentamento com os comunistas. Os militares garantiram, no entanto, a continuação da Revolução, perante os conflitos partidários. Mas graças ao seu envolvimento e particularmente o envolvimento dos gonçalvistas com o PCP – face à “sensibilidade anti-totalitária dos portugueses” –, o MFA fica marcado e o triplo poder bloqueado pela sua paralisação.

Assim sendo, só o sector mais radical do MFA detém a devoção dos esquerdistas franceses: o COPCON e o seu líder Otelo, não logo destacado, mas

184 Ibidem, 07/04/1975.

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depois bastante apreciado186. Os gonçalvistas são considerados, embora autónomos do PC, excessivamente aliados a ele, especialmente no caso de Vasco Gonçalves. O

Libération diz ser necessário o COPCON tomar a situação em mãos, perante o

cenário económico e a questão colonial em Angola. Com o regresso de Otelo da sua viagem a Cuba, é feita a descrição do herói como tal, partilhado pelos próprios membros do Libération. “Porquê essa cristalização de Otelo? Otelo, estratega de qualidade, um dos que prepararam o 25 de Abril, o “vencedor” do 28 de Setembro e incontestavelmente o militar mais popular de Portugal: o único em todo o caso a não ser chamado por outra coisa que não o seu primeiro nome, tanto pelos militares, como pela imprensa e a população. (...) Otelo apareceu desde logo como o instrumento necessário para a unificação indispensável (...). Desde logo o risco de “bonapartismo” aparece claramente em Portugal. Otelo de Carvalho vê cristalizar sobre si as esperanças de uma extrema-esquerda impotente: ele é forte na medida em que preenche um vazio. Essa força pode traduzir-se pelo melhor, como pelo pior. Isso depende mais uma vez inteiramente da capacidade da esquerda revolucionária em unir-se para constituir uma base de apoio indispensável a Otelo Saraiva de Carvalho...”187. Otelo é considerado a “possibilidade de reunificação das forças

progressistas”.

Pelo contrário, Spínola é considerado uma figura da “burguesia esclarecida”, desde o início visto como o chefe da reacção. É criticada desde logo a moderação em excesso188. O Governo da Junta estaria a aproveitar a desorganização da esquerda, tal como fez De Gaulle em 1945 ou em 1958, enquanto Lisboa festeja noite fora189. No entanto, considera-se que dificilmente um golpe de direita tem condições para acontecer. Depois das duas tentativas de golpe por parte dos spinolistas, o General do monóculo começa a representar um perigo pelo sebastianismo português, “os cravos

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Pormenor que exemplifica esta admiração pelo organismo liderado por Otelo é o seguinte exemplo: perante a admiração pelos actos de solidariedade e bondade dos portugueses desta Revolução, apresenta-se o caso do grupo brasileiro “oficina samba”, reprimido no Brasil e que é acolhido de braços abertos em Portugal, festejando agora independência das ilhas de Cabo Verde. “Para eles, o sucesso encontrado nas casernas do COPCON são a sua melhor garantia. E depois, é bem conhecido, o COPCON jamais intervirá para uma expulsão, enquanto que ao contrário, não desaprova nenhuma ocupação de casa”.

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Ibidem, 31/07/1975. 188 Ibidem, 03/05/1974.

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não são todos da mesma cor”. Uma burguesia rural vê-se agora sem representação, tendo como solução apoiar a Junta e Spínola.

Costa Gomes é pouco falado como figura por ser considerado excessivamente neutro ou moderado, depois prejudicada a sua imagem por ajudar os Nove na sua missão reformista. É referida a visita de Costa Gomes a Paris, num tom descritivo, sempre como “árbitro”, “moderador” de “atitude hesitante”, quem “assegura a unidade” do MFA190

.

Os próprios Nove são vistos num misto de reaccionarismo e benevolência pela sua ingenuidade, depois usada pela direita para obter os retrocessos que pretende. Melo Antunes é o que traz a “moderação”, isto é, a reacção de volta para a ribalta, tentando recuar para a continuação do processo revolucionário, já sem hipótese de promover o socialismo que pretendia191.

Os pára-quedistas de Tancos são os mártires do fim da Revolução. Os verdadeiros militares de esquerda que apostaram num golpe e foram traídos por todas as forças suas aliadas; o tal golpe que podia ter mudado o destino do país que queria ser socialista.

O AMI é condenado como um exército reaccionário e repressivo, enquanto os SUV são, acompanhados dos membros do RALIS, apoiados como a esquerda necessária nas Forças Armadas, disposta a fazer o seu papel, do lado oposto aos oficiais. Os militares são considerados o segundo mais importante de três vértices do poder em Portugal. Agentes de libertação, agentes de descolonização, são os salvadores do povo.

O terceiro vector é, então, o dito povo. E ele é representado de forma bastante mais explícita que no caso do L’Humanité. Enquanto este apresenta as disputas partidárias e as decisões governativas, o jornal agora analisado prefere falar das Comissões de Trabalhadores e de Moradores, das suas ocupações e greves, eles sim o verdadeiro povo, por oposição aos sindicatos, controlados por Álvaro Cunhal. Novamente num binómio, o apoio à Assembleia Popular é absoluto, ao contrário da Assembleia Constituinte, pouco legítima e sem sentido. Entrevistadas personagens, acompanhados em reportagens contínuas a auto-gestão das empresas, escolas ou das casas, bem como a Reforma Agrária. As Nacionalizações, porque por decisão governamental, se bem que apoiadas como cruciais para o desenvolvimento da

190 Ibidem, 04-05/06/1975. 191 Ibidem, 09 e 19/09/1975.

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Revolução, não são um processo tão pormenorizado. As Brigadas Revolucionárias são criticadas por não darem o poder ao povo.

Numa pincelada, podemos dizer que os esquerdistas radicais consideram ser essencial o processo revolucionário ser desenvolvido na mão das bases e que essas bases não devem ter intermédios, especialmente quando estes clamam em voz uníssona. Estas bases têm vindo a expressar-se perante a anulação mútua do poder partidário e do poder militar – assim o poder popular vai avançando, diz-nos Pierre Victor192. O poder popular e o poder militar devem, então, unir-se numa soma entre o MFA e a Assembleia Popular, sem uma vida política excessivamente partidarizada, devendo, sobretudo, dar-se importância nas decisões governamentais às alterações económicas, de forma a concretizar a Revolução Socialista. Neste processo está claramente envolvida a descolonização que a própria população da metrópole pede que seja feita, que os próprios soldados que lá combateram querem ver acabada. Por fim, de acordo com a lógica esquerdista, a originalidade do processo português é cruzar características dos processos revolucionários dos ditos Primeiro e Terceiro Mundos193.

É de notar a menorização das acções no meio universitário, enquanto entidade independente. A juventude é tratada como parte do todo que é o conceito de povo; as lutas de 1969 já vão longe. Sartre diz mesmo que aos estudantes foi-lhes roubada a Revolução. Há, somente, uma pequena reportagem sobre o meio universitário lisboeta, comparado ao Maio de 68 em Paris, pelo activismo estudantil, depois não continuado. Curiosa essa visão fracturante entre estudantes e povo, que seria representado pelas bases operárias, quando sabemos do enorme envolvimento das camadas juvenis na política do tempo do PREC.