CHAPITRE 1 REVUE BIBLIOGRAPHIQUE
2. UTILISATION DES TECHNIQUES NOUVELLES :
2.2 Utilisation de l’AMC :
A premissa da ciência regional da década de 1960 de que “o meio urbano é potencialmente um suporte para a introdução e propagação de valores ‘modernos’, assim como a crescente urbanização é um indicador de desenvolvimento” 4 na região, no país e no mundo, é indicador de uma
verdadeira natureza ontológica, porém o discurso surge deformado pela ideologia da modernização capitalista em que as cidades são fatores de progresso. Segundo Souza (1996, p. 13):
...o ambiente urbano seria especialmente propício às invenções e inovações; as chances de satisfação de necessidades aumentam no urbano, sendo tanto maiores quanto maior for a cidade em questão; a urbanização favoreceria o surgimento de contra-elites e a mudança social. 5
Estas afirmações “merecem ser relativizadas mesmo a partir de um ponto de vista política e filosoficamente conservador.” 6 O que “Richard Morse critica
Friedman por este ter generalizado excessivamente o alcance do postulado.” 7 Pois, no Brasil colonial era o campo e não a cidade o motor da inovação e ‘progresso’ regional.
Contrário àquela visão “os custos sociais da urbanização e, sobre a base de uma crítica da importação de tecnologias e valores, assume uma postura bastante ‘urbanófoba’.” 8
O que implica uma visão ‘ruralófila’ somente possível
fora do modelo capitalista, pois dentro da crescente globalização, da internacionalização do capital e das necessidades assim criadas, o modelo de urbanização é crescente e avassalador.
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Souza, 1996, p. 13, expondo as idéias de Friedmam (1971). 5 Souza, 1996, p. 13. 6 Idem, p.13 7 Ibidem, p. 14 8
Para Souza (1996) a urbanização era vista pela Ciência Regional como fundamentalmente positiva e que as grandes cidades e mesmo a urbanização geraria um espaço de inovação e crescimento de oportunidades para todos seus habitantes. Seria apenas necessária cuidar de possíveis desvios como a primazia forte de apenas uma grande cidade ou mesmo de seu exagerado crescimento demográfico, aqui visto como um processo que levaria à chamada deseconomias de aglomeração. Estas situações encaradas como formas “patológicas” seriam o mal menor, pois, dentro da concepção da Ciência Regional, tal preço seria menor diante de todas as vantagens de se criar cidades e estas, quanto maiores mais bem equipadas para suprir as necessidades sociais e econômicas do lugar, da região, do país9
.
A partir desse raciocínio, alguns autores dessa corrente de pensamento alegam como solução para o processo de desconcentração populacional o investimento em cidades médias, e não em pequenas cidades, pois aquelas poderiam suprir melhor as necessidades de suas populações. A visão corrente nesta linha de análise é a de que o urbano quanto maior, mais propicia melhoria da qualidade de vida. “Em síntese, para a ‘Ciência Regional’ o espaço urbano era, em última análise, e a despeito dos problemas associados a ele, ao seu crescimento ou a uma urbanização muito rápida, um meio altamente propício ao ‘desenvolvimento’ capitalista.” 10
Ainda segundo Souza (1996) “também no âmbito do pensamento Marxista as cidades e a urbanização sempre foram vistas basicamente como coisas em si mesmas positivas.” 11 Apesar de simpáticos (uma visão
urbanófila), são posturas distintas dos “Cientistas Regionais”, dos urbanistas, de planejadores urbanos convencionais, mas no que pese a positividade intrínseca do meio urbano e da urbanização estes pensadores (marxistas e conservadores) estão próximos. A crítica maior dos marxistas reside a propósito da funcionalidade do urbano e da urbanização para o capitalismo.
A “Economia Política Urbana”, critica a análise convencional quando esta tenderia a ver as cidades separadas de seu contexto histórico-social, e uma “ausência de uma efetiva consideração das classes sociais e de suas
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Souza, 1996, p. 15, analisando Alonso, W., 1972. 10
Idem, p. 16. 11
contradições”12
, o que para alguns autores, segundo Souza, como Sawers é denominado de fetichismo espacial. 13 Segundo Souza (1996, p. 17):
(...) Duas partes da superfície inanimada da Terra não podem ter interesses opostos. A história é feita apenas quando grupos de pessoas possuem interesses opostos àqueles de outros grupos de pessoas. O fetichismo espacial desempenha um papel proeminente ao confundir relações sociais importantes com a forma do espaço urbano. 14
A problemática da urbanização excessiva e os problemas da esfera de consumo não haviam se emancipado da questão da exploração na esfera da produção – nem teoricamente, nem na prática política (preocupação maior de Marx). Mesmo assim, a contradição cidade-campo não era estranha para Marx e também para Engels. Estes, em seus escritos, (sobre este assunto fica evidente que são, em verdade, um exemplo de seu tempo), não deixam de sublinhar o papel da cidade e da urbanização capitalista para fundamentar uma base material para uma futura sociedade socialista. Segundo Duarte (1986, p. 65):
A maior divisão do trabalho material e intelectual é a separação entre a cidade e o campo. [...] A cidade constitui o espaço da concentração, da população, dos instrumentos de produção, do capital, dos prazeres e das necessidades, ao passo que o campo evidencia o oposto, o isolamento e a dispersão. A oposição entre a cidade e o campo só pode existir no âmbito da propriedade privada. Ela é a expressão mais flagrante da subordinação do indivíduo à divisão do trabalho, a uma determinada atividade que lhe é imposta. Esta subordinação faz de um indivíduo um animal das cidades e do outro um animal dos campos, tanto um quanto o outro limitados, e faz renascer a cada dia a oposição de interesse entre as duas partes. Aqui também o trabalho é o dado capital, o poder sobre os indivíduos e, enquanto esse poder existir, haverá também uma propriedade privada. A abolição dessa oposição entre a cidade e o campo é uma das primeiras condições da comunidade, e essa condição depende por sua vez de um conjunto de condições materiais prévias que a simples vontade não é suficiente para concretizar. 15
Porém, tanto para Marx como Engels, seria inconcebível uma sociedade transitar do capitalismo, socialismo e finalmente para o comunismo, sem que haja uma base fundamental de urbanização. “E isto, ainda que Marx e Engels
12
Para Hussain et al. (1980) na concepção marxista “a luta de classes é o lugar da história”, portanto não há contradição entre lugares. Assim, a luta entre os lugares esconde a natureza contraditória das relações de classe.
13
Souza, 1996, p. 16/17. 14
Souza, 1996, citando Sawers, p.17. 15
Duarte, 1986, p. 65, citando Marx e Engels em: MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 55, 56.
entendessem muito bem que a urbanização e a lógica do capitalismo estivessem entrelaçadas.” 16
Esta contradição no modo de encarar a cidade e a urbanização como o bem maior e o rural como atraso foram uma das marcas registradas dos pensadores, desde Marx, passando por importantes pensadores que se debruçaram sobre este assunto. Segundo Duarte (1986, p. 72):
Engels prevê, a partir das condições existentes, a superação da oposição entre a cidade e o campo. Essa idéia que Engels teve em sua juventude o acompanhou ao longo de toda a sua trajetória de pensador revolucionário. Para ele, tal supressão “não é uma utopia”, mesmo que as grandes cidades sejam um legado histórico do qual será preciso muito tempo para eliminar. A superação do sistema do capital não se limita à negação da propriedade privada burguesa. Este é apenas um momento de um “longo e penoso processo de desenvolvimento”. A nova forma social defendida por Marx e Engels deve pôr fim a toda a divisão social do trabalho e, portanto, deve também por fim a primeira grande divisão do trabalho: a separação da cidade e do campo. Ou seja: deve suprimir a separação que faz da cidade o lugar onde se realiza o trabalho enriquecido, desenvolvido pelo intelecto, compreendendo as funções de administração e comando, e o campo como lugar onde se realiza apenas o trabalho material desprovido de inteligência.
Contudo, ainda sobre a crítica que os Marxistas elaboraram sobre uma das questões mais importantes acerca da urbanização que se expressa na funcionalidade das cidades, o resgate teórico foi sem dúvida, enriquecedor desta polêmica. As discussões sobre as concepções de que as cidades no capitalismo são “geradoras” ou “parasitárias” escondem as verdadeiras análises deste processo. Este debate não teria fundamento sem antes constatar sobre a quem servem estas concepções de urbano.
A cidade como difusora de inovações e a gestão econômica e política das cidades (das grandes às pequenas), dentro da esfera do capitalismo é sem dúvida uma forma de análise que vem de encontro a concepções de que o urbano representa o novo e o campo o velho, o passado. Esta visão ingênua do processo de urbanização, preconizada pela “Ciência Regional”, vislumbra que o motor de desenvolvimento regional se faz dentro de um crescimento da urbanização e de algumas cidades que alavanca o processo de crescimento econômico regional e que depois seria o ‘bolo’ repartido socialmente.
Esta linha de análise é combatida veemente por marxistas que alegam que não necessariamente o urbano seria o fundamento único de
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desenvolvimento regional. O exemplo do Brasil colonial, onde os engenhos de açúcar foram os dinamizadores do regional, sempre será um exemplo da contradição embutida neste processo. A cidade não pode ser encarada como única fonte de riqueza da região. Esta não pode, também, ser encarada como simples parasita do regional e conseqüentemente do campo. A cidade representa antes de tudo o “lócus da organização do conjunto do empreendimento de exploração capitalista do território. A cidade será, com isso, um ponto de apoio ao mesmo tempo para a modernização econômico- tecnológica e para a transformação cultural do campo.” 17
O problema nesta “constatação” é a sublimação do urbano frente ao campo. Visão que carrega um estereótipo urbanófilo congruente ao processo de caracterização do mundo contemporâneo como sinônimo do urbano\modernidade que esconde ou mesmo tenta camuflar a modernidade também no meio rural do Brasil e reluta em analisar a pequena cidade como realidade possível. Porém, mesmo assim a esfera de articulações espaciais vistas a partir de um marxismo relutante e afetado por preceitos arcaicos e que se baseia na pura e às vezes romântica idéia de um mundo idílico e aprazível do meio econômico sobrepujando o todo da sociedade ainda impera em algumas análises sobre a cidade. Segundo Santos (2003, p. 313):
A globalização veio sem que se viesse junto um mundo só. Busca-se abreviar o tempo do trabalho, mas não é para socializar o lazer, é pra fazê-lo ainda mais mercantil. Acredita-se que a técnica conduz ao desemprego. Que horror! A técnica jamais existiu historicamente sem a política. É um equívoco imaginar que se poderia conceber a presença histórica da técnica sem o paralelo da política. É a política que decide o que fazer da técnica: em todos os tempos foi assim. Inventam-se novas formas construtivas, mas não para humanizar a cidade. Ou seja, não é a cidade que é responsável pelos problemas, como tantas vezes se diz. A urbanização não é um mal.
O economicismo dá o tom da dialética urbana marxista e contraditoriamente, ou mesmo, analogamente o pensamento conservador também, pois a sublimação do econômico ganha foro de urbano/cidade à revelia do campo e porque não da pequena cidade sua cara-metade expressa no pensamento dominante, tanto marxista quanto conservador. E como tal a cidade passa a ser sinônimo de grande cidade (médias e grandes em
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especial), pois estas representam os centros do pensamento cosmopolita e articuladoras dos processos mais gerais do espaço e da produção material e imaterial do sistema capitalista. Para estas correntes de pensamento o fator econômico sempre está à frente e é parte central das análises do espaço territorial e urbano.
Contudo, contrariamente a este espírito encalacrado em dogmatismos temos que necessariamente analisar a pequena cidade a partir de outros pontos de vista que usualmente são dispensados pelas correntes de pensamento dominantes. Assim, alguns conceitos sobre a importância do aspecto cultural e ideológico/psicológico do mundo moderno, visto como resultante ou mesmo somatória de processos, em que o todo é ainda refém do passado, da cultura herdada, do meio somatório do conjunto histórico, devem e merecem destaque nas análises sobre o espaço da pequena cidade.
Assim, os processos culturais e sociais são mais interessantes que os esquematismos econômicos na análise das pequenas cidades, pois a vivência e o cotidiano são os constituintes maiores de uma rede de relações que se produzem nestas localidades e que lhes dá sentido. Segundo Silva (2000, p. 13):
É na vida cotidiana que se desenvolvem condutas subjetivamente dotadas de sentido a partir das significações que se constroem no senso comum e que se institui a complexificação da realidade social. Não são os fatos históricos excepcionais e pontuais que determinam a instituição de valores culturais. Peter Berger e Thomas Luckmann consideram que "a vida cotidiana apresenta-se como uma realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles na medida em que forma um mundo coerente" É na vivência diária que os homens são lançados em múltiplas realidades que aparecem como normais, evidentes e, diante delas, têm atitudes "naturais" e ordenadas. É também na vivência do "aqui" e "agora" que os homens constroem o mundo e se interessam por ele, porque é este mundo que lhes está ao alcance imediato. É no cotidiano que a criação humana se perpetua, pois é "na vida cotidiana que se situa o núcleo racional, o centro real da práxis" Contudo, esta cotidianeidade está tão próxima dos homens que é ocultada, parecendo distante, desprezível e invisível aos sistemas acadêmicos mais elaborados.
A pequena cidade “esconde” dos desavisados uma interessante rede de relações territoriais de aparente monotonia e quietude. Não obstante, são manifestações diferentes das grandes e médias cidades que muitas das vezes passam por situações desestimulantes aos cientistas-produto de um mundo cosmopolita e metropolizado. Assim, ainda segundo Silva (2000, p. 28):
...a aparente simplicidade e a falta de dinamismo da forma das pequenas cidades mascara as relações complexas que imperam em tal espaço, adquirindo sentido apenas quando se entendem os códigos que as sustentam e lhes dão sentido particular.Assim como a cultura é constantemente reconstruída a partir das diferentes experiências dos sujeitos ou grupos, as territorialidades instituídas a partir dos espaços vividos estão permanentemente se modificando, dependendo da perspectiva e do acionamento dos códigos simbólicos que as caracterizam. Neste sentido, para contemplar a cultura e as territorialidades urbanas, a geografia deve atentar-se para a subjetividade que compõe a produção material do espaço. É no desenrolar da vida cotidiana que podemos compreender as divergências, as transgressões, ou a obediência à ordem imposta, interpretando, enfim, as relações sociais que dão conteúdo ao espaço geográfico.
Estas relações complexas - e ao mesmo tempo banais - que se estruturam no cotidiano das pequenas cidades são assimiladas por uma determinação político-administrativa e molda um tipo de Estado que se apresenta nestas localidades e lhe dá forma e sustentação. São relações de cunho econômico-produtivas, sociais e culturais que estabelecem um vínculo de estreiteza entre as populações locais e o Estado (na figura da prefeitura) que se realiza em nível municipal e configura uma dicotomia entre o moderno e o antigo, entre as fórmulas “impostas” de administração pública e a “usual”. Estas relações contrastantes e dicotômicas de se enxergar a realidade das pequenas cidades, aqui exemplificadas por Estrela do Sul, Cascalho Rico e Grupiara, passarão a ser analisadas nos próximos capítulos iniciando no capítulo dois com a problemática da caracterização de pequena cidade sob a ótica da administração pública e as dificuldades relacionadas ao mundo global que adjetiva o diferente.
A cidade no mundo de hoje “’incorpora” os processos gerais de um planeta cada vez mais integrado e globalizado. Porém, esses não são e não querem dizer soluções, e nem que tal processo é em verdade benéfico. São concretos, mas não possuem juízo de valor. Se a sociedade como um todo transparece o mundo da cidade, o mundo urbanizado, não quer dizer com isto que esta verdade é boa ou ruim, quer dizer que a realidade é medida na escala da cidade, do urbano.
Assim, ao referirmos que a cidade atual/moderna é parte do todo, as contradições da modernidade passam a ser vividas neste espaço: a cidade. E a pequena cidade é um modelo/síntese destas contradições. As contradições são reproduzidas neste microcosmo (pequena escala), o que ocorre no nível global. Um exemplo disso é quando olhamos para uma das facetas do mundo globalizado, informacionalmente globalizado, o mundo das informações, internet, dos telefones celulares18
e das redes computacionais. Na pequena cidade, especialmente Estrela do Sul, Grupiara e Cascalho Rico, esta contradição não foge à regra. A possibilidade da integração nesta rede global existe, porém nem sempre a possibilidade se materializa, pois nem todos podem estar “conectados” a estas redes onde o acesso ainda é restrito, nas grandes e nas médias e mais explicitamente na pequena cidade. Segundo Gomes, Silva e da Silva (2007, p.2):
As pequenas cidades diferentemente das grandes cidades e até mesmo das cidades médias constituem espaços que, apresentam baixo nível de desenvolvimento tecnológico. Assim sendo, as pequenas cidades podem ser apontadas como áreas de consumo do tipo massificado, como é o caso da Televisão, do computador, do telefone dentre outros. Contudo, um aspecto que deve ser ressaltado nesse processo, diz respeito ao caráter desigual da distribuição social e territorial das inovações tecnológicas. Nesse processo, tem sido fundamental a participação do Estado que abre possibilidades para que tais espaços tenham acesso ao mundo da tecnologia.
2.1 - ANTES DE SER UMA GLOBALIZAÇÃO INCOMPLETA TRATA-SE DE