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Indirect System Calls

5.5. Changing Ownership, Permission, and Modification Times

5.5.4. Using fchown() and fchmod() for Security

Tomar para si a responsabilidade de atuar em um papel diferente de tudo o que já fez, tendo esse mesmo papel passado por outros artistas, causa um burburinho e comparações, muitas vezes muitos julgamentos, como foi o caso de Taís Araújo, com a Helena de Viver A Vida. As pessoas não estavam acostumadas a ver uma Helena jovem, com uma carreira de modelo consolidada e negra. A partir desses fatos, a personagem passou a ter uma rejeição jamais vista na história das Helenas já vividas em outros folhetins.

A atriz passou por diversos problemas desde o início da telenovela e carregou esse fardo até o fim da trama de Manoel Carlos, sendo muitas vezes acusada de não interpretar bem sua personagem, e isso ter causado a baixa audiência de Viver A Vida, o que não é verdade, pois desde 2004, as telenovelas brasileiras já vinham em uma queda gradativa, e após as plataformas de streaming terem chegado ao Brasil, essa situação se tornou ainda mais cotidiana.

Por ter se cobrado bastante, a atriz também acreditou que teria o retorno do público, pois estava acostumada a ser reconhecida pelos papéis que já protagonizou na televisão. Ao perceber que Helena não estava indo como o planejado, a atriz revelou anos depois sua frustração pela situação que estava vivendo, quando disse ao portal Marie Claire em 2017: “Larguei tudo e voltei. Ou seja, não aprendi francês e ganhei outro trauma, a Helena. Não chegou a ser um trauma, mas é uma frustração. Era a primeira Helena negra das novelas e ela tinha que ser um arraso”.

O fato de Helena ser negra deveria ter sido um ponto positivo, no entanto, a atriz recebeu uma enxurrada de críticas, acompanhadas do racismo estrutural que se faz presente até os dias atuais. Não levantar a bandeira contra o racismo na trama contribuiu para o enfraquecimento de Helena em Viver A Vida, visto que todo o núcleo ao redor de Helena era composto por atores

e atrizes negros, principalmente sua família. Entretanto, a cada capítulo, Helena foi perdendo espaço, pois seu personagem se perdeu, como revelou à Marie Claire, também em 2017: “Dramaturgicamente, era fraca, sem conflitos, tinha a vida ganha. Se eu tivesse forças, teria a transformado numa vilã. Mas estava tão abalada com as críticas, tão frágil, que não tinha forças para pensar”.

Com o passar dos anos, Taís Araújo foi percebendo que sua Helena acabou lhe ajudando e dando forças para continuar seu trabalho. As críticas a ajudaram a superar a fase difícil que viveu em 2009 e 2010. Ao site Notícias da TV, em setembro de 2015, ela afirmou: “Minha Helena foi um fracasso e, depois dela, eu virei outra atriz”, admitiu a atriz [...] “Comecei a entender que protagonista não é necessariamente um bom personagem. Tem tantos personagens que são muito mais ricos e que te proporcionam desafios maiores”.

Taís Araújo destacou que a Helena foi importante nesse processo: “para eu saber que tipo de atriz eu quero ser, que tipo de papel eu posso fazer”. De qualquer forma, o papel foi importante para o crescimento de Taís Araújo como pessoa e como profissional. Em seu perfil pessoal no Instagram, em maio de 2018, a atriz fez uma postagem em forma de agradecimento pelo papel que interpretou em 2009. Para a atriz: “E não é que passados oito anos vi que deu certo?! Deu muito certo, deu mais que certo. Me transformou, me fez repensar minha carreira, o tipo de atriz eu queria ser, o caminho que eu queria seguir. E me deu irmãos de vida”, e finaliza: “Então, no dia de hoje, quero fazer aqui o que não fiz no fim da novela: obrigada, Helena, por ter mudado a minha vida pra melhor. Eu amo vc, acredite!” (sic).

No texto, Taís Araújo faz uma crítica a si por ter colocado uma grande expectativa no seu papel e agradece ao personagem que mudou sua carreira e a fez se enxergar de maneira como nunca feito antes, a colocando de maneira a observar por outros parâmetros como levaria sua carreira daquela fase em diante. Já em setembro de 2019, em outro post (Figura 9), a atriz também realiza uma reflexão do que viveu entre 2009 e 2010, de maneira mais concreta, ela aceita que precisou passar por aquele tipo de situação para poder de refazer dentro da própria carreira.

FIGURA 9 – POSTAGEM DE TAÍS ARAÚJO EM COMEMORAÇÃO AOS 10 ANOS DE HELENA

Fonte: Printscreen da postagem extraída do dia 16 de setembro de 2019.

Em setembro de 2019, Taís Araújo fez uma releitura do que viveu há dez anos atrás. Atualmente, ela enxerga que o papel foi importante para ela e para outras pessoas que a acompanharam, como as meninas que se viram reconhecidas na cor e no cabelo, algo jamais visto dentro da faixa do horário nobre no país. Esse tipo de opinião contribui para o crescimento do artista, que sempre precisa de um feedback, mesmo que às vezes ele não seja positivo, ou como esperado, conforme a postagem abaixo:

Há 10 anos, neste horário, estreava Viver a Vida. A novela que mudou minha história. Tenho algumas mudanças na minha história - Xica da Silva foi uma delas. Mas foi com Viver a Vida que eu tive a chance, mais madura, de rever minha profissão, minhas escolhas, minha vida. Quando a novela estava no ar, fiquei muito confusa sem saber o que as pessoas estavam realmente achando, recebi críticas duras e me apeguei a elas. Ao mesmo tempo, quando ia até São Paulo, naquele aeroporto onde parte do Brasil se encontra, eu era saudada pelas pessoas. Claro que a gente só se apega ao que é ruim, né? Como hoje em dia com os comentários da internet… Passados os anos, eu tenho recebido tantas, mas tantas mensagens de meninas, agora já mulheres, que se sentiam representadas pela personagem, escuto falar tanto do cabelo crespo assumido numa novela da 21h, escuto tantas coisas lindas que tenho certeza que o saldo foi mais que positivo. Além de ter ganhado amigos pra toda uma vida. Então, 10 anos depois, com o coração bem cheio de amor, digo: obrigada, Maneco; obrigada, Jayme; obrigada a todo elenco e equipe, que estiveram comigo nesse processo tão importante da minha vida. E obrigada, Helena, por me abrir os olhos, o coração e me dar coragem pra levantar e seguir de cabeça erguida em busca do que eu acredito. E ainda mais obrigada por me fazer entender que não existe jogo ganho e que o barato dessa profissão é o eterno recomeçar (ARAÚJO, 2019, on-line).

A cada novo papel, um artista precisa se reinventar e se entregar ao personagem que foi dado para atuar. Da expectativa à frustração, Taís Araújo precisou aprender a lidar com sua nova realidade e o que a vida lhe proporcionou naqueles anos em que lá viu sua carreira desmoronar. Viver com duras críticas não é fácil, e como a própria atriz disse, sua Helena abriu seus olhos para que ele saísse da sua zona de conforto e partisse para a zona de confronto.

Viver A Vida foi uma telenovela que tinha como palavra-chave a superação e foi assim que Taís Araújo fez, superou cada obstáculo e fez papéis memoráveis que contribuíram para ser quem ela é hoje. Desse modo, a trama a ajudou a sair da redoma da sua carreira a entregou à teledramaturgia papéis dignos e de aceitação pessoal. O que pudemos observar neste capítulo nos faz pensar em como algo que nos fez mal em determinado momento da nossa vida, nos fortalece para podermos seguir em frente. Percebemos que a cada passo que damos, crescemos um pouco mais, ainda que esses passos sejam curtos, vemos pequenas mudanças do povo preto na teledramaturgia brasileira e a ascensão dessas pessoas que sempre foram tão humilhadas e reduzidas a pequenos papéis. Notamos que para acertar, mesmo que não tenhamos culpa, é necessário errar bastante para ter a certeza que para algo dar certo, o conjunto todo precisa trabalhar de maneira igual, e que para isso acontecer à união sempre será a palavra certa.

Taís Araújo pôde perceber que com o passar dos anos viu que sua Helena contribuiu para seu crescimento pessoal e como artista, viu no personagem que transformou sua vida, alguém que necessitava encarar para poder crescer. Desse modo, percebemos que a atriz progrediu e que essas mudanças a amadureceram como profissional e mais do que isso, notou que as críticas sempre serão uma forma de aprendizagem.

APONTAMENTOS FINAIS

Viver a Vida foi uma trama com bons assuntos apresentados e que faz parte do cotidiano de vários brasileiros. No entanto, Manoel Carlos teve em suas mãos o poder de abordar um tema crescente e presente desde sempre na sociedade brasileira. Taís Araújo, além de ter sido a primeira e única Helena negra do autor, foi a primeira protagonista negra na faixa do horário nobre da Rede Globo e escolhida pelo autor para dar vida à sua personagem principal.

Por não ter vivência de fato do que é conviver com o racismo, afinal, Manoel Carlos é branco e morador do bairro do Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, seria natural que por mais que tenha escolhido uma atriz negra para dar vida à sua Helena, pouco importou esse fato e a abordagem do racismo na sua trama. De forma errônea, Viver a Vida passou longe de debater o racismo dessa sociedade elitista e preconceituosa, e quando abordou foi de forma debochada e superficial. Não adianta termos uma protagonista negra se a narrativa da trama é racista, com personagens que não levantam bandeira alguma e por diversas vezes, são submissos, e por esse motivo, é correto afirmar abaixo:

O racismo brasileiro apareceu na telenovela somente como uma das características negativas do vilão, e não como um traço ainda presente na sociedade e na cultura brasileira. Até o final dos anos 90, poucas telenovelas trataram a discriminação racial contra o negro brasileiro de forma direta. Na teleficção, assim como na nossa sociedade, a vergonha de demonstrar o próprio preconceito, ou o “preconceito de ter preconceito”, conforme alertava o sociólogo Florestan Fernandes, criou o tabu que inibe a manifestação aberta do racismo e fortaleceu o consenso em torno do mito da democracia racial brasileira (ARAÚJO, 2008, p. 981).

Quando olhamos essas situações por trás das câmeras, fica ainda mais evidente a falta de representatividade do povo negro no audiovisual brasileiro. Quantos autores de telenovelas negros conhecemos? Quantos produtores? Não temos nenhuma representatividade no âmbito das tramas brasileiras que tenha autoria de pessoas negras no que se refere às telenovelas, muito pouco foi feito para que essa visão fosse mudada e, ainda assim, não pudemos ver uma novela escrita por alguém negro, e por esse motivo quando há pessoas negras na grande maioria das tramas, e o racismo se torna um ponto a ser abordado, todas as questões são vistas do ponto de vista da branquitude, como no caso de Viver A Vida, onde havia um número considerável de personagens negros, mas que em nenhum deles foi levantada a questão racial.

Além da deficiência física, o outro ponto delicado abordado por Manoel Carlos foi o alcoolismo, representado pela atriz Bárbara Paz, que deu vida a Renata. Ademais, os

personagens negros não construíram uma narrativa em que os telespectadores pudessem se sentir representados. É necessário que se abra espaço aos autores, diretores e roteiristas negros, para que mais pessoas possam ter a chance de demonstrar seu trabalho de maneira que o público se reconheça naquilo que está vendo. Desses profissionais que estão na produção atualmente das telenovelas, nenhum deles é negro, e isso nunca mudou. Vemos então, a necessidade de mudar essa realidade, pois os negros nesse país nunca tiveram oportunidade alguma, e quando tiveram, foram para trabalhos em que não se houve a representação dessas pessoas. Dito isso, de autores a atores, o negro sempre esteve em situação de inferioridade, como citado abaixo:

Na telenovela, a melhor oportunidade reservada para o mestiço, que sempre foi celebrado nas discussões teóricas como a melhor representação do verdadeiro brasileiro, é na representação do ‘povão’, ou seja, transeuntes, malandros e moradores dos bairros populares. Os atores marcadamente mestiços, independentemente da fusão racial a que pertencem, se trazem em seus corpos e em suas faces uma maior quantidade de traços não-brancos, são sempre vítimas de estereótipos negativos (ARAÚJO, 2008, p. 981).

Desse modo, Viver A Vida, que poderia ter colocado um ponto final em décadas de representações de estereótipos, estigmatizando atrizes negras como profissionais de cozinha, babás e domésticas, acabou gerando críticas por parte dos telespectadores e do movimento negro, que não se calou diante da exposição de uma personagem que poderia ter mudado a história da televisão brasileira. Diferente de Da Cor do Pecado (João Emanuel Carneiro, Rede Globo, 2004), em que Preta, também protagonizada por Taís Araújo, foi a primeira atriz negra a protagonizar uma telenovela na faixa das 19h, não admitia qualquer acusação de racismo, e sofreu diversos durante o período em que a trama foi exibida, a Helena era apática à própria realidade, afinal, o assunto, sequer, foi abordado de forma concisa.

Nos últimos anos, apesar de várias tramas terem retratado questões sociais bastante presentes e problemáticas no Brasil, incluindo o racismo, todas vieram de autores brancos. O tema foi explorado em folhetins de todos os horários da Rede Globo, com personagens de todas as faixas etárias, que passaram por situações vexatórias e criminosas. A telenovela Amor de Mãe (Manuela Dias, Rede Globo, 2019), exibida às 21h, por exemplo, elucidou como o racismo estrutural existe e sempre foi praticado no país. Na cena em que o garoto Thiago (Pedro Guilherme) foi confundido com um pedinte e é maltratado, simplesmente pelo fato de ser negro e estar em um espaço geralmente frequentado por pessoas brancas. Se a cena fosse ao ar, dez anos antes, na época em que Viver A Vida estava sendo exibida, provavelmente, a situação seria vista como natural. Já em Bom Sucesso (Rosane Svartman e Paulo Halm, Rede Globo, 2019), que foi exibida na faixa das 19h, a cena de racismo estrutural aconteceu com Lulu (Carla

Cristina Cardoso), que estava em um evento do lançamento de um livro quando uma convidada branca a mandou limpar o banheiro, acreditando que ela fazia parte da limpeza, simplesmente por ser a única negra na festa. Apesar dessas cenas representarem o que o negro comumente sofre no Brasil, elas foram escritas por pessoas brancas, que não têm qualquer vivência do que é sofrer racismo num país em que 54% da sua população é preta.

Dito isto, faz-se necessária a representatividade de um povo que sempre esteve a margem de qualquer oportunidade nesse país. É importante ressaltar que os próximos profissionais negros tenham maior visibilidade e reconhecimento diante e por trás das câmeras. Não adianta apenas valorizarmos os artistas negros, se não ajudarmos no crescimento de outros negros que fazem o audiovisual acontecer, dando voz às pessoas que nunca tiveram a chance de se equiparar a uma sociedade elitista e branca, que sempre viu o negro como objetificação. Além disso, colocar um personagem negro em situação de destaque, com uma profissão reconhecida, e não falar como ele chegou até o êxito dela, explicando as dificuldades e os problemas enfrentados por ele, na tentativa de mostrar o não-preconceito de uma sociedade racista, torna-se tão errado quanto reduzir personagens negros a situações de subalternidade na teledramaturgia brasileira.

Sendo assim, é importante que se haja mais representatividade negra nesse país. Produções audiovisuais escritas, produzidas e atuadas por mais pessoas negras, pois a luta pela igualdade racial nas produções não pode e nem deve parar. Nessa sociedade racista, como já falou Ângela Davis: “não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”, essa fala sempre perpetuará pelas gerações seguintes. O que mais queremos em pleno século 21, é não ter que provar que somos capazes de realizar um trabalho que qualquer pessoa branca poderia fazer e ser reconhecida por muito menos, pois não cabe mais o discurso de que todos são iguais se o racismo, a falta de políticas públicas e as desigualdades imperam nesse país que sempre tratou o povo preto com menosprezo e inferioridade. Enquanto não formos reconhecidos por quem somos, haverá luta e resistência para que o povo preto possa ligar a tv com sua família e veja uma telenovela em que ele se sinta representado e acolhido pelo sistema, como sempre deveria ter sido. Para que isso aconteça, é necessário que o povo brasileiro perceba quantos direitos ao povo preto lhe foi retirado e quando isso puder acontecer, seremos uma nação finalmente igualitária.

REFERÊNCIAS

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