3.3 Quels impacts de la corpulence sur l’usage du temps au niveau individuel ?
3.3.2 Usage du temps par les individus
Como vimos no capítulo anterior, Lacan empreendeu uma viragem em seu pensamento - para utilizar o termo de Safatle (2006) - com o intuito de corrigir o percurso de seu projeto epistemológico, como bem apontou Sales (2003). No entanto, o registro do simbólico não trouxe todas as soluções para se pensar a experiência psicanalítica. No afã de buscar o verdadeiro sujeito, já que o eu seria, nesse contexto teórico, um sintoma, uma alienação, Lacan procurou no pensamento de Kojève uma tentativa de se afastar do “perigo” estruturalista. Em outras palavras, a questão a ser colocada é a seguinte: se o eu está colocado na categoria de sintoma e também atrelado a uma certa noção imaginária e ilusória, o que poderia substituir esta noção tendo um caráter verdadeiro? Lacan opta, então, pela noção de sujeito.
Grosso modo, o sujeito pela perspectiva kojèviana e a determinação simbólica do estruturalismo não se coadunam. No entanto, Lacan procura manter os dois, já que precisa deles 98
para superar certas dificuldades teóricas - em especial a referência ao sujeito. Mas, se o objetivo da psicanálise é “pensar o próprio sujeito e não a estrutura (como era o caso para Lévi-Strauss), como fazer ciência (objetivação) justamente disso que escapa, em princípio, à objetivação? Como objetivar o subjetivo sem perder de vista as características que o definem?” (SALES, 2003, p. 48). É dessa interrogação que se pode pensar uma subversão do sujeito na perspectiva lacaniana. O sujeito não é uma substância que possui qualidades próprias, não é o lugar onde são depositados os conteúdos da experiência, e nem, tão pouco, um indivíduo que possua uma realidade em si mesmo. Como ele afirmará em Subversion du sujet et dialectique du désir dans l’inconscient freudien, texto de 1960, o sujeito seria uma operação significante, o sujeito é uma produção. Em suas palavras, “um significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante. Esse significante, portanto, será aquele para o qual todos os outros significantes representam o sujeito: ou seja, na falta deste significante, todos os demais não representariam nada” (LACAN, 1998, p. 833).
Assim, sujeito e significante estão atrelados e, dessa forma, não seria demais inferir que se trata do sujeito do inconsciente, já que o significante é o grande articulador do inconsciente lacaniano. Lacan não pôde abrir mão do tema do sujeito, ainda que tal tema possa emergir como uma negação por parte do estruturalismo, já que o sujeito é objeto indispensável da psicanálise lacaniana. Vemos isso, por exemplo, em sua intervenção à conferência de Foucault Qu’est-ce qu'un l’auteur? de 1969.
Gostaria de enfatizar que, estruturalismo ou não, de forma alguma isso parece que, em um campo vagamente determinado por esta etiqueta, da negação do sujeito. Trata-se da dependência do sujeito, o que é totalmente diferente; e particularmente, no nível do retorno a Freud, a dependência do sujeito em relação a alguma coisa elementar, e que nós tentamos isolar sob o termo “significante” (FOUCAULT, 1969, p. 31).
A dependência do sujeito é ponto de partida para se pensá-lo na teoria de Lacan. E também porque este tema parece está no centro das reflexões lacanianas. A partir daí, Frank (1989) nos esclarece que o sujeito se difere do eu à medida que o primeiro é irreflexivo, não possuindo uma
essência que permita ser identificado. Dito de outro modo, o sujeito inconsciente lacaniano não existe em si mesmo, não sendo particular, ele é “ex-cêntrico” - para utilizar o termo de Lacan - não podendo se referir a si mesmo. Nesse sentido, resta ao sujeito do inconsciente ser o que dele a linguagem quiser, ou melhor, disser. Essa ausência, ou esse nada, é o que marca esse modo de existência do sujeito, ainda que paradoxal, mas sempre como sujeito (im) possível.
Ora, mas essa concepção de sujeito que é irreflexivo e que surge para superar uma compreensão de um eu alienado, deveria ele (sujeito) também, pergunta Sales (2003), ser considerado menos alienado e objetivado que o eu?
Essa é apenas uma das possíveis indagações direcionadas as formulações teóricas de Lacan. No entanto, essa questão apenas nos serve para pensar que foi dentro de um contexto complexo e repleto de problemas epistemológicos (que deveriam ser resolvidos) que Lacan decidiu conferir mais “especificidade”, se é que podemos utilizar esta palavra, ao registro do real. Não é nosso objetivo tratar do sujeito do inconsciente lacaniano. Queremos, antes de tudo, apenas situar um certo contexto teórico que provavelmente incentivou Lacan a avançar com uma formulação (ou formulações) sobre o registro do real. Pois, o que veremos daqui para frente é uma tomada de posição - principalmente a partir de 1959 (Le séminaire VII) - em que o real se torna, de uma certa maneira, o centro do debate lacaniano. A carência de algumas respostas que foram resultado do protagonismo do registro do simbólico, faz com que um direcionamento para o real seja incontornável.
Tratar do registro do real em Lacan nunca se apresentou uma tarefa fácil. Em 1953 na comunicação O simbólico, o imaginário e o real - primeira aparição de tal registro em articulação com os outros dois - após a exposição de Lacan, alguns de seus ouvintes não conseguiram compreender o que seria o registro do real. Isso está bem expresso na questão apresentada pelo dr. Liebschutz: “o senhor falou do simbólico, do imaginário, mas havia o real, de que o senhor não falou”, pergunta esta que no texto estabelecido por Miller é creditada a Serge Leclaire. Lacan, 100
porém, responde da seguinte maneira: “o real é ora totalidade ou o instante transcorrido” (p. 26). Daí segue para falar da experiência analítica, o que, à primeira vista, parece escapar da resposta.
Na experiência analítica, para o sujeito, há sempre o choque contra algo, por exemplo, o silêncio do analista (…). Eu devia ter dito, porém, que ocorre algo que acrescentei no fim, somente. Através deste diálogo, ocorre todavia algo muito surpreendente, sobre que não pude insistir, isto é, é um dos fatos da experiência analítica que valeria, por si só, muito mais que uma comunicação. A pergunta deve ser feita sob este ângulo: como é que ocorre? Eu tomo um exemplo muito concreto que no fim da análise, estes sonhos (…) não sei se eu disse ou não, que eles são compostos como uma linguagem (…) efetivamente, na análise, eles servem de linguagem. E um sonho, no meio ou no fim da análise, é uma parte do diálogo com o analista (…). Pois, como é que ocorre que estes sonhos, e muitas outras coisas ainda: a maneira com que o sujeito constitui seus símbolos (…), têm algo que é a marca absolutamente surpreendente da realidade do analista, isto é, da pessoa do analista tal como ela está constituída em seu ser? Como é que ocorre que através desta experiência imaginária e simbólica se chegue a algo que, em sua última fase, é um conhecimento limitado, mas surpreendente, da estrutura do analista? É algo que por si só coloca um problema que eu não pude abordar esta noite (Ibidem).
Nesse trecho do debate, podemos observar que Lacan ao tentar responder a pergunta diretamente, prefere abordá-la a partir da experiência analítica. Ao evocá-la aqui, toma o silêncio do analista como algo da ordem do real, que não pode ser dito. E toma também os sonhos como elemento que nos remete a uma experiência que não é só da ordem do imaginário (as imagens dos sonhos) e nem só da ordem do simbólico (o relato dos sonhos), mas parece também está ancorada a ordem do real, na medida em que não pode ser dita completamente. Ou seja, “o problema que não pode ser abordado” é o real. Porém, ao mesmo tempo que não o aborda, ele o articula ao registro da experiência imaginária e simbólico, ou, pelo menos, tenta fazê-lo.
Um pouco mais à frente nesta comunicação - O simbólico, o imaginário e o real - Françoise Dolto também interroga-o dizendo: “Constantemente chegamos a ‘o que é o real?’ e sempre escapamos” (LACAN, 1953, p. 31). Porém, continuamos sem uma resposta precisa, direta. O interessante é que a própria Dolto diz, nesse contexto, direcionando o comentário a Lacan, o seguinte: “você é um mestre tão extraordinário que podemos lhe seguir se só depois entendermos” (Ibidem). Essa afirmação é um lado da moeda que dificulta a compreensão do
pensamento lacaniano. Enquanto a falta de uma compreensão deveria levar a uma radicalidade da construção de um saber, frases como estas lembram a crítica de Macey a Lacan e aos lacanianos, ou seja, intencionalmente criou-se uma atmosfera mítica em torno de Lacan que impossibilitaria qualquer crítica, sendo tudo justificado a partir de uma apropriação arbitrária da palavra do ‘mestre’.
Dito isto, não é por esse caminho que pretendemos percorrer. Sabemos que críticas deste cunho já foram dirigidas a Lacan e aos lacanianos diversas vezes. No entanto, tomar as aparentes hesitações de Lacan ao se referir ao real nessa época e a forma indireta ou enviesada da qual trata este registro, especialmente, a partir do seminário L’éthique de la psychanalyse, pode ser mais proveitoso para nosso trabalho . A hipótese inicial que temos a este respeito é que Lacan abordou o 24
real pelas margens, por outros conceitos ou noções de seu léxico teórico. É isso que procuraremos demonstrar nas próximas páginas.