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7.6. USAGE CONSIDERATIONS
É difícil negar a compreensão dos fenômenos sociais, seja ela quantitativa ou qualitativa. Trata-se de utilizar uma palavra, uma simples noção, como a alavanca metodológica mais pertinente possível (MAFFESOLI, 2004a). Neste sentido, utilizamos a sociologia compreensiva como referencial apropriado para este estudo, o que torna possível o aprofundamento pela apreensão das mais simples significações das experiências vividas pelas mulheres no quotidiano.
Compreender o quotidiano de mulheres que vivenciam a violência doméstica não significa apenas constatar a existência das agressões, mas se aprofundar em aspectos que irão muito além do físico, coisas que fazem parte do interior de cada uma delas e não são visíveis aos olhos de quem não consegue enxergar além de marcas físicas, mas aos de quem enxerga com sensibilidade, sim. São vivências permeadas por sentimentos e fantasias, que estão presentes e fazem parte da vida diária, bem como das relações com os outros no mundo.
A fim, portanto, de alcançar essa compreensão, usamos a proposta teórica, epistemológica e metodológica do sociólogo francês Michel Maffesoli, que traz elementos relativos ao pluralismo e a diversidades e a aspectos da vida, na experiência do vivido que compõe os laços de sociabilidade no quotidiano das pessoas, sob a égide dos pactos formais impostos pela relação conjugal. A sociologia compreensiva do quotidiano busca a compreensão, na sociedade, de fenômenos existentes com a emersão de um novo pensamento inovador, dando importância aos detalhes, ao simples, aos pequenos nadas do dia-a-dia, ao interior e ao micro. É um aproximar-se do imaginário, dos sentimentos e das emoções nas microrelações sociais, e por isso denominada pelo autor de microssociologia.
Para Maffesoli, é necessário haver um equilíbrio entre razão e sentimento para analisar um fenômeno. O autor defende que o racionalismo estático, símbolo do pensamento moderno, precisa dar lugar à racionalidade aberta pós-moderna, à razão sensível, que recorre ao entusiasmo, ao instinto (Nóbrega et al., 2012).
Em uma entrevista realizada por Christophe Bourseiller, Michel Maffesoli afirma que suas pesquisas visam a compreender a dimensão plural do social, preocupando-se com o humano nas suas diversidades, privilegiando temas como o imaginário, a emoção, o afeto e o sensível. Em uma das questões abordadas durante a entrevista, Maffesoli se refere ao
termo sociabilidade como aquele que integra os elementos comuns da vida e no qual estão inseridos os jogos, sonhos, emoções que fazem parte das experiências do quotidiano do humano (MAFFESOLI, 2011).
É na sociabilidade, portanto, que se encontram os valores, os pequenos acontecimentos, os detalhes das histórias das mulheres que, em suas vidas quotidianas, passam por diferentes vivências, tais como a gestação de um novo ser, sofrendo modificações físicas e emocionais que as tornam uma fonte de onde escoam os mais diversos sentimentos, que continuam a ser silenciados, mas estão inseridos em seu quotidiano.
É também aí que residem os fatos, o vivido nas relações, os acontecimentos, as experiências, os lugares simples do dia-a-dia na vida das pessoas, contemplando os mais diversos aspectos davida diária, juntamente com as emoções e valores presentes no ser, sem julgamentos. As pluralidades, nas diferentes experiências da vida, são uma fonte de riqueza da sociedade. O caráter próprio de uma sociologia compreensiva é, pois, o de considerar os fenômenos tais como eles são e levar em conta todos eles, sem discriminação de nenhum. Tal sociologia rejeita o julgamento de valor e se contenta com a constatação dos fatos (MAFFESOLI, 2011).
A proposta foge do aspecto tecnicista da ciência atual, e Maffesoli privilegia como objeto de análise tudo aquilo que não é produzido pelo cálculo, pela intenção, pela estratégia, enfim, pela racionalidade tradicional, adotando a sociologia do aqui e agora (Nóbrega et al., 2012).
Daí a importância de contemplar a proposta de Michel Maffesoli em um trabalho que aborda a complexidade do fenômeno social da violência em mulheres: poder assistir à mulher, escutando-a, orientando-a e acompanhando-a, sem prejulgamentos.
Com a sentença “a fonte da riqueza é a inteireza do ser”, ele mostra a importância do ser, a valorização do quotidiano e de todas as coisas insignificantes, os pequenos nadas, os objetos da banalidade passando a ter uma significação que importa levar em conta. Pois para Maffesoli, tudo o que é humano merece ser objeto de análise. Nesta linha de pensamento, ele reflete sobrea sociologia da vida quotidiana, do imaginário e do sensível, sabendo que quando nada é importante tudo tem importância (MAFFESOLI, 2011, p.31).
A perspectiva teórica de Michel Maffesoli possibilita, pois, uma reflexão que, neste estudo, poderá contribuir para alcançar o objetivo proposto, a saber, compreender o quotidiano de mulheres que vivenciam a violência doméstica. Pois cada gesto, cada palavra, cada lágrima, cada história, tem importância.
A proposta teórica de Maffesoli (2007) aborda cinco pressupostos da Sociologia Compreensiva, que serão utilizados para nortear a pesquisa e essencialmente a análise dos dados, contemplando o objetivo proposto pelo estudo. Estes cinco pressupostos teóricos e da sensibilidade foram apresentados em sua obra O Conhecimento Comum, a saber, “crítica ao dualismo esquemático”; “a forma”; “uma sensibilidade relativista”; “uma pesquisa estilística” e “um pensamento libertário”.
O primeiro pressuposto, crítica ao dualismo esquemático, se refere à sociologia como forma de pensamento perpassada por duas atitudes complementares, a razão e a imaginação, apresentando a dualidade existente, em que, por um lado, se dá ênfase à construção, à crítica, ao mecanismo e à razão e por outro, à natureza, ao sentimento, ao orgânico e à imaginação.
A sociologia compreensiva descreve o vivido com a autenticidade do que realmente é, sem se preocupar em discernir as visadas dos distintos atores envolvidos, tendo um olhar diferenciado para as particularidades de cada pessoa. Não está longe do romantismo, pois mostra que o pensador, para falar do mundo, deve fazer parte deste mundo, não obstante os fenômenos, descrevendo o que o circunda e tudo o que vive com a visão de dentro, a intuição. Busca-se, assim, um sentido mais amplo, um pensamento global, de ser e estar junto dentro de uma sociabilidade em que se recusa qualquer discriminação ou quaisquer julgamentos.
Quando aborda a sociologia do lado de dentro, Michel Maffesoli enaltece a subjetividade a que se refere: ado pensador fazendo parte daquilo que descreve, dessa forma sendo capaz de manifestar com autenticidade, com intuição, a visão de dentro.
No segundo pressuposto, a forma, mostra-se a importância não apenas de uma visão do romantismo, mas também de uma visão racional, que possibilita alcançar o equilíbrio, compreendendo o lógico e o nãológico no dado social.
A forma possibilita compreender a experiência da vida quotidiana com a apreensão da imagem e com sua pregnância nas correntes do vivido, que fazem parte do corpo social. O autor, em sua análise da burocracia, da violência, do quotidiano, destacou categorias paroxísticas, tais como o poder, o rito, a teatralidade, a duplicidade, o trágico, compreendidos como modulações da forma, tornando possível apreender os conflitos e a instabilidade do ser nela envolvida. Em seu segundo pressuposto, ele aborda que a ideia de forma parece ser adequada para descrever, de dentro, os contornos, os limites e a necessidade das situações constitutivas da vida quotidiana.
macrocosmo social quanto do microcosmo individual, objeto principal de análise de Maffesoli. Ela se aproxima da essência plena daquilo que poderia ser ou vir a ser. Como modulações dessa “forma”, encontram-se o poder, a potência, o rito, a teatralidade, a duplicidade e o trágico que fazem parte do quotidiano vivido.
O terceiro pressuposto, uma sensibilidade relativista, traz uma reflexão sobre a concepção da realidade não como única, mas como uma pluralidade. Aproxima-se mais de projeto intuitivo e de um conhecimento plural, apontando para uma sociologia aberta, em que a verdade é momentânea e factual, onde é preciso estar atento às coisas simples e pequenas da vida quotidiana.
O quarto pressuposto, uma pesquisa estilística, se refere ao estilo do quotidiano, feito de gestos, de palavras, de teatralidade, de que se deve dar conta. É possível, aí, imaginar uma sociologia que possa estabelecer uma realimentação entre forma e empatia. Este pressuposto sugere uma escrita mais aberta, sem perder a competência científica.
O quinto pressuposto, um pensamento libertário, fala de estar inserido, envolvido, de ser elemento no meio real, dessa forma possibilitando a apreensão da situação social. O conhecimento libertário é parte de uma sabedoria, do conhecimento, do encontro com o mundo real, com a liberdade do olhar, permitindo trocas. O pesquisador é também ator e participante, sendo importante a compreensão e o exercício da alteridade, da ação de se colocar no lugar do outro:para isso, é necessária uma atitude de empatia, subjetividade e intersubjetividade.
O encontro desses sentimentos de fantasias, vivenciados pelas mulheres, proporciona o prazer e possibilita expressar, para si e para o outro, o prazer dos sentidos experimentados em comum, denominado de estética. No que se refere a esta última, o autor aborda a apresentação da ética da estética do laço social a partir dos parâmetros não racionais, que são os sonhos, o lúdico, e o prazer dos sentidos (NITSCHKE, 1999).
Na perspectiva da sociologia compreensiva, busca-se a paixão, o não lógico, o imaginário, abandona-se o julgamento, a condenação, a justificação em que se estrutura a atividade humana de atores ou observadores. Implica-se a compreensão da experiência do dia-a-dia, reconhecendo o significado de sua atuação do ser/estar junto e no mundo. (MAFFESOLI, 2007).
Esta análise possibilita a compreensão do quotidiano no processo de viver da mulher, trazendo à tona sentimentos, dificuldades e a experiência que mantém com seu meio físico e social. Este último é considerado um lugar dinâmico, feito de ódio e amores, de conflitos e distensões, onde tudo junto adquire corpo, “é uma casa subjetiva e objetiva,
onde uma sociabilidade é vivida diariamente na palidez e no brilho, fundada como toda situação mundana, no limite” (MAFFESOLI, 1984, p.58).