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encontro

Tendo discutido, nas subseções anteriores, o ato de escrever entendido como encontro de sujeitos historicizados por meio da língua, nesta subseção tematizamos a historicização desse encontro em gêneros do discurso. Antes de adentrarmos a discussão acerca dos gêneros, no entanto, cabe-nos abordar a concepção de texto entendido como enunciado.

Na perspectiva de enfoque na cultura e na história, que assumimos nesta tese, o texto, tanto oral quanto escrito, é entendido como a materialização de uma realidade imediata que inclui a realidade dos pensamentos, das vivências, das experiências. Dessa forma, um conjunto coerente de signos forma um texto que contém pensamentos, sentidos, significados que se realizam nele (BAKHTIN, 2010 [1952/53]). O signo verbal, nesse sentido, é considerado “um enunciado pleno, não isolado do contexto social, do campo ideológico, do gênero do discurso ao qual pertence” (PONZIO, 2013a, p. 203). Ainda,

Trata-se do enunciado como fala de um diálogo, como parte constitutiva de uma relação interpessoal social e historicamente especificada, como texto vivo e não como texto reificado, ou seja, não como expressão monológica isolada, que deva ser interpretada com base na pura relação entre as unidades linguísticas que as compõem e a língua entendida como sistema fechado, como

código definido. (PONZIO, 2013a, p. 203, grifos no original)

O entendimento do texto como enunciado deriva da concepção de que, ao usarmos a língua, sempre efetivamos tal uso em forma de enunciados, que são concretos, únicos e refletem as condições específicas e finalidades do contexto em que foram criados e no qual circulam (BAKHTIN, 2010 [1952/53]). Para Bakhtin (2009 [1927], p. 79, grifos no original), “Nenhum enunciado verbalizado pode ser atribuído exclusivamente a quem o enunciou: é produto da interação entre falantes e, em termos mais amplos, produto de toda uma situação social em que ele surgiu”.

No que diz respeito à compreensão dos enunciados a partir do horizonte axiológico dos sujeitos envolvidos (PONZIO, 2013a), cabe mencionar, ainda, a compreensão de Bakhtin (2009 [1927], p. 86, grifos no original) – o que buscamos ver também na tensão entre singularidade e universalidade (HELLER, 2014 [1970]) – de que

a enunciação reflete o pequeno acontecimento social imediato, do contato entre os sujeitos, mas também reflete „laços sociais mais amplos, longos e sólidos, em cuja dinâmica se elaboram todos os elementos do conteúdo e as formas dos nossos discursos interior e exterior, todo o acervo de avaliações, pontos de vista, enfoques etc.‟.

Segundo Bakhtin (2010 [1952/53]), dois elementos orientam o texto como enunciado: sua intenção e a realização dessa intenção. No que diz respeito a esses dois aspectos, “As inter-relações dinâmicas desses elementos, a luta entre eles, determina a índole do texto. A divergência entre eles muita coisa pode sugerir” (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 308). Nessa compreensão, um texto entendido como enunciado está incluído na cadeia da comunicação discursiva, pois o enunciado é a unidade dessa cadeia, e é na forma de um enunciado individual que a língua se materializa. Segundo Bakhtin (2010 [1952/53], p. 265), “a língua passa a integrar a vida através de enunciados concretos (que a realizam); é igualmente através de enunciados concretos que a vida entra na língua”, pois “O discurso só pode existir de fato na forma de enunciações concretas [...]. O discurso sempre está fundido em forma de enunciado pertencente a um

determinado sujeito do discurso, e fora dessa forma não pode existir” (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 274).

O enunciado, de acordo com Bakhtin (2010 [1952/53], p. 309- 310), possui dois polos distintos, mas que se relacionam mutuamente. O primeiro polo diz respeito à linguagem, pois “por trás de cada texto está o sistema da linguagem. A esse sistema corresponde no texto tudo que é repetido e reproduzido e tudo o que pode ser repetido e reproduzido, tudo o que pode ser dado fora de tal texto (o dado)”. E o segundo polo diz respeito ao acontecimento singular do texto. Assim, “cada texto (como enunciado) é algo individual, único e singular, e nisso reside todo o seu sentido (sua intenção em prol da qual ele foi criado). É aquilo que nele tem relação com a verdade, com a bondade, com a beleza, com a história”. Esses polos relacionam-se mutuamente na medida em que o segundo polo é realizado com os recursos da língua; e o primeiro polo só entra na cadeia discursiva quando são agenciados esses recursos em favor da constituição de um enunciado. Ainda acerca dessa distinção:

Esse segundo elemento (pólo) é inerente ao próprio texto, mas só se revela numa situação e na cadeia dos textos (na comunicação discursiva de dado campo). Esse polo não está vinculado aos elementos (repetíveis) do sistema da língua (os signos), mas a outros textos (singulares), a relações dialógicas [...] peculiares. (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 310)

O caráter singular e único pressupõe que tudo que é passível de repetição diz respeito ao sistema linguístico e vem a ser o material e o meio com os quais constituímos enunciados. Isso nos remete ao entendimento de Geraldi (2010a), sob essa perspectiva, segundo o qual uma cópia nunca é uma cópia, mas produto da interpretação de quem a leva a termo, dado que “o texto é um evento individual único, que se determina nas relações dialógicas com outros textos, em relação aos quais ele resulta como não repetitivo e não repetível, diferentemente de sua reprodução mecânica que o deixa igual a si mesmo” (L. PONZIO, 2002, p. 1). Nessa compreensão, só podemos nomear de „cópia‟ uma reprodução mecânica ou uma reimpressão de um texto, pois “a reprodução do texto pelo sujeito (a retomada dele, a repetição da leitura, uma nova execução, uma citação) é um acontecimento novo e singular na vida do texto, um novo elo na cadeia histórica da comunicação discursiva” (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 311).

Cada enunciado é considerado, então, mais um elo nessa mesma cadeia da comunicação discursiva em que toda repetição é já um novo texto, um novo enunciado e implica uma posição ativa do falante, o que nos remete a considerações de L. Ponzio (2002, p. 1) acerca da relação entre os elementos presentes em um texto, pois, para o autor,

O sentido do texto não depende simplesmente dos elementos repetíveis do sistema de signos com o qual é composto, mas, na sua própria constituição, e não apenas na sua manifestação, ele é situado nas relações de reenvio, de distinção, que dão lugar a uma cadeia de textos a ele antecedentes e a ele sucessivos, que se inserem em certa esfera, aquela relativa ao tema tratado, ao gênero textual, a um determinado setor disciplinar.

Sendo assim, cada novo enunciado entra em relação com os enunciados que o antecederam e com os que irão sucedê-lo, tanto os próprios quanto os alheios (BAKHTIN, 2010 [1952/53]). Nesse sentido, todo enunciado é dialógico, expressa relações de sentido, e as relações dialógicas só são possíveis entre enunciados e não entre elementos do sistema linguístico, pois “O sentido do texto vai além dos seus limites, vive na relação com outros textos e se enriquece em decorrência das novas correlações intertextuais” (L. PONZIO, 2002, p. 1).

Assim, “O texto só tem vida contatando com outro texto (contexto). Só no ponto desse contato de textos eclode a luz que ilumina retrospectiva e prospectivamente, iniciando dado texto no diálogo” (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 401). Na concepção de Bakhtin (2010 [1952/53], p. 401, grifos no original), o contato entre os textos é

um contato dialógico entre textos (enunciados) e não um contato mecânico de „oposição‟, só possível no âmbito de um texto (mas não do texto e dos contextos) entre os elementos abstratos (os signos no interior do texto) e necessário apenas na primeira etapa da interpretação (da interpretação do significado e não do sentido). Por trás desse contato está o contato entre indivíduos e não entre coisas (no limite).

Cada enunciado implica, então, o contato entre sujeitos, pois “O acontecimento da vida do texto, isto é, a sua verdadeira essência, sempre

se desenvolve na fronteira de duas consciências, de dois sujeitos” (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 311, grifos no original), e os limites de cada enunciado concreto são definidos pela alternância dos sujeitos do discurso. Nesse entendimento, “Todo enunciado [...] tem, por assim dizer, um princípio absoluto e um fim absoluto: antes do seu início, os enunciados de outros; depois do seu término, os enunciados responsivos de outros” (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 275). Esse contato com enunciados alheios é o que determina o seu próprio caráter. Cabe mencionar, ainda, que essas relações dialógicas são consideradas como espaço de tensão entre os enunciados, pois eles não coexistem apenas, mas

se tensionam nas relações dialógicas. Mesmo a responsividade caracterizada pela adesão incondicional ao dizer de outrem se faz no ponto de tensão deste dizer com outros dizeres (outras vozes sociais): aceitar incondicionalmente um enunciado (e sua respectiva voz social) é também implicitamente (ou mesmo explicitamente) recusar outros enunciados (outras vozes sociais) que podem se opor dialogicamente a ela. (FARACO, 2009, p. 69)

Na concepção de Bakhtin (2010 [1952/53]), os enunciados possuem duas características principais: alternância dos sujeitos, que já mencionamos, e conclusibilidade, entendida como um aspecto interno da primeira. Tal aspecto está relacionado à concepção de que o falante disse (ou escreveu) tudo o que seria necessário para um dado momento em dadas condições. Ainda para o autor, “O primeiro e mais importante critério de conclusibilidade do enunciado é a possibilidade de responder a ele, em termos mais precisos e amplos, de ocupar em relação a ele uma posição responsiva” (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 280).

Nessa compreensão, as orações são entendidas como uma unidade da língua, enquanto os enunciados são uma unidade da comunicação discursiva, em que ao sujeito é dada a possibilidade de ocupar uma posição ativa responsiva, pois toda compreensão implica uma atitude ativamente responsiva na medida em que todo enunciado pressupõe uma resposta. A compreensão, nesse sentido, é também dialógica (BAKHTIN, 2010 [1952/53]), pois sendo um tipo particular de signo, conforme discute L. Ponzio (2002, p. 3, grifos no original),

Em geral alguma coisa que não é signo torna-se signo se recebe uma interpretação por parte de um interpretante que é, por sua vez, signo. O texto, ao invés, já tem um sentido por si também se esse sentido constituiu-se, por sua vez, como resposta, então como interpretante, como interpretante de compreensão respondente, de outro signo, e tem, uma vez se constituído, necessidade de um interpretante para revelar-se, viver como texto.

Aqui, cabe reiterar o papel do outro. Todo enunciado tem um direcionamento ao outro com que o sujeito se relaciona à medida que tal sujeito se insere na história (DUARTE, 2013 [1993]), pois o enunciado se historiciza no âmbito do encontro. Todo texto entendido como enunciado é voltado para o outro, requer escuta, pois o enunciado é escuta e nela se realiza (PETRILLI, 2013). Aqui, colocar-se em posição de escuta é “dar tempo ao outro” (PONZIO, 2010a, p 25).

É importante ressaltar, ainda, que o enunciado é pleno de tonalidades dialógicas (BAKHTIN, 2010 [1952/53]), e, acerca da relação entre dialogicidade e compreensão, cabe evocar L. Ponzio (2002, p. 3), para quem existem graus de dialogicidade, sendo que

O diálogo entre os textos depende dessa sua recíproca alteridade de interpretantes, que é a sua disponibilidade a relações dialógicas, depende do fato de que eles se situam sobre mais de um percurso interpretativo, de modo que o seu sentido não acabe em nenhum deles, são, portanto, capazes de resistir, de subtrair-se a determinadas interpretações, de contrastar ou de aceitar uma determinada proposta interpretativa. Por isso as relações dialógicas com os outros textos são relações concretamente dialógicas, e não relações dialógicas apenas do ponto de vista formal.

Nesse sentido, “Todo enunciado emerge sempre e necessariamente num contexto cultural saturado de significados e valores e é sempre um ato responsivo, isto é, uma tomada de posição neste contexto” (FARACO, 2009, p. 25). Desse modo, os enunciados materializam uma posição avaliativa, expressam um posicionamento social valorativo e são considerados sempre ideológicos. O enunciado é, então, o lugar no qual vozes sociais se entrecruzam e em que se formam novas vozes (FARACO, 2009), pois “as relações dialógicas são

caracterizadas por uma relação de alteridade tanto mais evidente quanto maior é entre elas a diversificação de ordem temporal, espacial e axiológica” (L. PONZIO, 2002, p. 3).

Ainda sobre o enunciado e seu envolvimento com o contexto social no qual se constitui, os aspectos da comunicação discursiva que o motivam determinam sua forma. Segundo Volóshinov (2009 [1929], p. 43), “la clasificación de las formas del enunciado debe fundarse en una clasificación de las formas de comunicación discursiva. Estas últimas están plenamente determinadas por las relaciones de producción y por la formación político-social”. Tal concepção nos leva ao conceito de gênero do discurso compreendido como o lócus intersubjetivo em que os enunciados se materializam, no qual se instituem os encontros do eu e do outro, pois é por meio de enunciados que tais encontros acontecem no existir-evento único da vida (BAKHTIN, 2010 [1920/24]).

Como mencionamos nesta subseção, cada enunciado é particular, singular e único, mas em cada esfera de atividade humana elaboram-se tipos relativamente estáveis de enunciados, os gêneros do discurso (BAKHTIN, 2010 [1952/53]). Assim, o objetivo do enunciador consiste em produzir certo enunciado concreto para o qual existe uma forma relativamente estável. Desse modo, “Para él, se trata de aplicar una forma normativamente adecuada (admitamos por lo pronto su existencia) en un determinado contexto concreto. Él no ubica el centro de gravedad en la adecuación de la forma, sino en aquella nueva significación concreta que la forma adquiere en el contexto dado” (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 108).

Os gêneros do discurso são considerados relativamente estáveis, pois dependem de vários fatores relacionados ao contexto da comunicação discursiva. Segundo Bakhtin (2010 [1952/53], p. 268), os gêneros são diversos, heterogêneos e considerados “correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem”. Nessa compreensão, os gêneros nos são dados da mesma forma que a língua. “As formas da língua e as formas típicas dos enunciados, isto é, os gêneros do discurso, chegam à nossa experiência e à nossa consciência em conjunto e estreitamente vinculadas” (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 283). Assim, os gêneros constituem condições pré- existentes que tornam possível o falar. Falamos em uma língua e em um gênero (PETRILLI, 2013).

Falamos apenas através de determinados gêneros do discurso, isto é, todos os nossos enunciados possuem formas relativamente estáveis e típicas

de construção do todo. Dispomos de um rico repertório de gêneros do discurso orais (e escritos). Em termos práticos, nós os empregamos de forma segura e habilidosa, mas em termos teóricos podemos desconhecer inteiramente a sua existência. (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 282, grifos no original)

Nesse sentido, os textos se materializam em determinados gêneros do discurso, pois estes “subjazem a cada texto, condicionando-o no conteúdo e na forma” (L. PONZIO, 2002, p. 6), sendo que há, ainda, a relação entre os gêneros e o autor do texto. Segundo L. Ponzio (2002, p. 6),

O autor, escolhendo um gênero textual é capturado na perspectiva daquele gênero, e o autor, como autor do texto e não autor-homem externo a ele, não é uma entidade externa à relação entre texto e gênero, mas é uma função desta relação. Cada gênero textual, dada a sua história, tem uma determinada memória com a qual o texto que faz parte dela, enquanto se constrói, entra em relação e pela qual é influenciado na sua própria forma.

Em se tratando das relações entre as formas da língua e as formas dos enunciados, entretanto, cabe mencionar que, diferentemente daquelas, os gêneros do discurso são mais flexíveis. Nesse sentido, no que diz respeito ao ato de escrever concebido como encontro, “O conceito de texto demanda investigação em função de suas múltiplas disposições e formas de aparição. A diversidade dos gêneros e de usos amplia as possibilidades de compreender as formas de ação intelectual” (BRITTO, 2012, p. 21) implicadas no agir humano, pois a diversidade dos gêneros também é grande (BAKHTIN, 2010 [1952/53]), e eles estão em íntima relação com a esfera da atividade humana em que surgem e na qual se prestam ao estabelecimento de relações intersubjetivas. Nesse sentido,

A riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discurso, que cresce e

se diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um determinado campo. (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 262)

Segundo Bakhtin (2010 [1952/53]), todas as esferas da atividade humana estão relacionadas aos usos da língua e tais usos implicam gêneros que correspondem às condições específicas de cada esfera, pois, ao longo da história do ser social, as esferas foram surgindo e se diferenciando a partir da esfera da vida cotidiana (com base em DUARTE, 2012). Ainda acerca da relação entre os gêneros do discurso e o contexto no qual emergem, Volóshinov (2009 [1929], p. 43) aponta que “La etiqueta verbal, el tacto comunicativo y otras formas de adaptación del enunciado a la organización jerárquica de la sociedad tienen una gran importancia en el proceso de elaboración de los géneros discursivo principales”. Além da escolha do gênero do discurso, as esferas da atividade humana determinam também os aspectos relacionados a tais gêneros, como conteúdo temático, estilo da linguagem e construção composicional. Para Bakhtin (2010 [1952/53], p. 262), “Todos esses três elementos [...] estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação”.

Em relação ao conteúdo temático, ao observarmos que cada esfera da atividade humana tem sua orientação específica para a realidade, os objetos do mundo, que são inesgotáveis, ao se converterem em tema do enunciado, adquirem um sentido particular que depende de condições determinadas. Dessa forma, todo gênero tem um conteúdo temático determinado previamente mediante a esfera da atividade humana em que os encontros acontecem.

O estilo diz respeito aos recursos léxicos, fraseológicos e gramaticais da língua (para os gêneros verbais). Segundo Bakhtin (2010 [1952/53]), tanto o estilo individual quanto o estilo da linguagem satisfaz aos gêneros do discurso. Nessa perspectiva, o estilo ganha destaque, pois está intimamente relacionado aos enunciados e aos seus tipos. Para Bakhtin (2010 [1952/53]), alguns enunciados deixam transparecer de modo mais efetivo o estilo individual que outros. O autor entende que, usualmente, os gêneros que requerem uma forma mais padronizada, por exemplo, são menos propícios ao aparecimento da individualidade, o que faz com que o estilo individual não faça parte do plano desses enunciados. Nas palavras do autor,

Todo enunciado – oral e escrito, primário e secundário e também em qualquer campo da comunicação discursiva [...] – é individual e por isso pode refletir a individualidade do falante (ou de quem escreve), isto é, pode ter estilo individual. Entretanto, nem todos os gêneros são igualmente propícios a tal reflexo da individualidade do falante na linguagem do enunciado, ou seja, ao estilo individual. (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 265)

Além do estilo individual, o autor concebe os estilos de linguagem como sendo indissolúveis, pois eles são estilos de gêneros de determinadas esferas da atividade humana que integram o gênero como seu elemento. Para Bakhtin (2010 [1952/53], p. 266), “Em cada campo existem e são empregados gêneros que correspondem às condições específicas de dado campo; é a esses gêneros que correspondem determinados estilos”. Os estilos de linguagem são integrados aos gêneros do discurso de tal forma que suas mudanças históricas estão ligadas às mudanças dos gêneros. Em suma, se há estilo, há gênero, pois “A passagem do estilo de um gênero para outro não só modifica o [...] estilo nas condições do gênero que não lhe é próprio como destrói ou renova tal gênero” (BAKHTIN, 2010 [1952/53], p. 268).

A construção composicional do enunciado, por sua vez, diz respeito aos procedimentos composicionais utilizados para a organização, disposição, e acabamento da totalidade do discurso (RODRIGUES, 2005). Esse elemento se refere ao enunciado de maneira totalizada, podendo ser percebido como determinados tipos de construção do conjunto, que envolvem tanto seu acabamento quanto as relações do falante com outros participantes da comunicação discursiva (BAKHTIN, 2010 [1952/53]).

Por fim, a relação dos gêneros com as situações sociais implica haver gêneros primários e secundários. Nessa distinção, os gêneros primários são simples, e os secundários complexos, pois surgem num convívio cultural desenvolvido e organizado, o que, em nossa compreensão, coloca-se em Heller (2014 [1970]) como esfera da genericidade, esferas que estão além da cotidianidade. No que diz respeito a essas esferas e sua relação com o humano-genérico, Duarte (2013 [1993], p. 152) afirma que

Uma das diferenças entre as objetivações genéricas em si e as para si (ciência, arte e

filosofia) reside no fato de que estas últimas, além de representarem objetivamente o desenvolvimento do gênero humano, representam objetivamente também a relação dos seres humanos com a genericidade. Elas não são apenas objetivações do que pensam as pessoas sobre a humanidade, o gênero humano, mas também, e não secundariamente, objetivações das relações dos indivíduos com o gênero humano – que não se reduzem ao pensamento, estando presentes na vida, isto é, na atividade social das pessoas. As objetivações genéricas para si representam o grau de desenvolvimento histórico da relação entre a prática social e a genericidade, isto é, representam o grau de liberdade alcançado pela prática social humana.

Sob essa perspectiva, a diferença entre gêneros primários e secundários é fundante porque está implicada na definição da natureza